Tuvalu planeja seu próprio sumiço

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Tuvalu planeja seu próprio sumiço

Em 2021, o ministro da Justiça, Comunicações e Relações Exteriores de Tuvalu, Simon Kofe, protagonizou uma cena dramática e inesquecível ao discursar na Cop26, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas, mergulhado até os joelhos na água do mar. “Estamos afundando”, disse ao mundo. Três ilhas e seis atóis formam o país com cerca de 26 km². Estima-se que seja um dos primeiros países a ser completamente tragado pelo aumento do nível do mar. Tuvalu tem medo do futuro e planeja seu próprio desaparecimento numa comovente ação que gerou repercussão mundial.

Tuvalu na COP26.
Imagem que não comoveu o mundo. Foto do Governo de Tuvalu.

A primeira nação digitalizada no metaverso?

Parece ficção científica, mas não é. Trata-se da realidade em que vivemos, a mesma que o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirma que “abriu as portas do inferno” ao cobrar mais ações das nações para reduzir a emissão de gases de efeito estufa..

Contudo, apesar de planejar seu futuro como talvez a primeira nação digital, o país é severamente castigado por ciclones devastadores, temperaturas recordes e secas frequentes. Ao mesmo tempo, o fantasma da fome ronda o país insular. Culturas tradicionais como o coco e outras estão minguando devido ao solo já salinizado, informa o Guardian.

Os alimentos frescos são quase inexistentes, tornando a população mais dependente de produtos importados, que são caros e com pouco valor nutricional, de acordo com o jornal. Cerca de um quinto da população, que é de 12 mil habitantes, já se mudou, muitos para a Nova Zelândia.

Atol Funafuti, Tuvalu
Atol Funafuti, Tuvalu. Imagem, Sean Gallagher para The Guardian.

O site oficial de Tuvalu confirma: “A importação é elevada, pois há muito poucas indústrias transformadoras na ilha devido às componentes geográficas.”

“Um atol de coral com solo de baixa produtividade agrícola, como resultado da alta intrusão de água salgada. Alguns recursos marinhos e subprodutos de coco seguem para a exportação, mas grande parte do rendimento das pessoas provém da pesca e trabalhadores  baseados na Nova Zelândia através de remessas enviadas às suas famílias.”

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Kiribati, República das Fiji, e outras nações insulares enfrentam o mesmo dilema

O drama de Tuvalu não é exclusivo. Diversas nações do Pacífico enfrentam o mesmo problema. Por exemplo, o presidente de Kiribati, Anote Tong, já avançou conversações com autoridades de Fiji que aceitaram um plano de migração em massa caso não haja outra solução.

A República das Fiji, outro país insular da Oceania composto por 332 ilhas no  Pacífico, e que faz fronteira marítima com Tuvalu, entre outros, sofre problema idêntico.

Em fevereiro de 2016, o ciclone Winston atingiu a vila de Vunisavisavi, na segunda maior ilha de Fiji, lavando grande parte da costa e destruindo prédios. Desde então, o oceano continua avançando sobre a terra. À exemplo de Tuvalu, as terras salinizadas já não se prestam à agricultura.

Projeto Futuro Agora

Numa desesperada tentativa de manter suas tradições Tuvalu criou o Projeto Futuro Agora com três grandes iniciativas destinadas a preservar a sua nacionalidade, governança e cultura no caso de um cenário pior.

O Guardian explica quais são: Em primeiro lugar, encorajar a comunidade internacional a trabalhar em conjunto na implementação de soluções para as alterações climáticas. Ao mesmo tempo, incorporar os valores culturais tuvaluanos de sistemas de vida comunitária, responsabilidade partilhada e ser um bom vizinho. 

Tuvalu.
Tuvalu em imagem do www.theglobeandmail.com, que assim a legendou: A menos de 5 metros acima do nível do mar no seu ponto mais alto, a pequena nação insular de Tuvalu, no Pacífico Sul, é uma das várias que enfrenta uma ameaça existencial devido à subida do nível do mar impulsionada pelas alterações climáticas. Muitos jovens estão abandonando as ilhas.

Em segundo, garantir a condição de Estado e as fronteiras marítimas de Tuvalu ao abrigo do direito internacional, no caso de suas terras deixarem de existir. Terceiro, o desenvolvimento de uma nação digital.

Uma vertente do processo de digitalização envolve a transferência do acesso aos serviços governamentais e consulares e a todos os sistemas administrativos que os acompanham para a nuvem. Isto permitiria que as eleições fossem realizadas e que os órgãos governamentais continuassem a desempenhar as suas funções.

Mapa de Tuvalu.
Ilustração, The Guardian.

Para Simon Kofe, “Se tivermos um governo deslocado ou uma população dispersa por todo o mundo, teríamos uma estrutura em vigor para garantir que continuamos a coordenar-nos, a prestar os nossos serviços, a gerir os nossos recursos naturais em nossas águas e todos os nossos ativos soberanos.”

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Mudança na constituição

A Economist, que também repercutiu a situação, informou que o governo de Kausea Natano, o primeiro-ministro, alterou a constituição para afirmar  que o país existirá “perpetuamente”, mesmo que a sua extensão territorial não exista.

Entretanto, a Economist lembra que a nova redação, que entrou em vigor em 1º de outubro, não mudará muito por si só. Segundo o direito internacional, um país deve ter um território físico e uma população permanente.

Replantio de manguezal em Tuvalu
Entre as ações de Tuvalu, o urgente (porém tardio) replantio de manguezal. Imagem, site do governo de Tuvalu.

Mas ninguém considerou o que aconteceria se as alterações climáticas privassem um Estado dessas qualidades, diz Bal Kama, um advogado que aconselhou o governo nas suas alterações constitucionais. Tuvalu espera que, se outros países vulneráveis seguirem o seu exemplo, o direito internacional possa mudar.

E confirma a ideia de um país digital: O governo fala em transformar Tuvalu numa “nação digital” que poderia fornecer serviços e preservar tradições culturais online, mesmo que o seu povo se dispersasse para outros países. O governo especula sobre a criação de uma versão 3D de suas ilhas pela qual os usuários da web possam passear.

Austrália assina refúgio climático histórico e pacto de segurança com Tuvalu

Atualizado em 13/11/2023.

A revista Time enformou que a Australia atingiu o acordo “mais significativo” do Pacífico em sua história com a pequena nação insular de Tuvalu. O acordo criará um caminho para os cidadãos de Tuvalu viajarem para a Austrália à medida que a ameaça da mudança climática piora.

Desse modo, Canberra fornecerá um caminho especial para 280 cidadãos de Tuvalu por ano para chegar à Austrália. Sob o visto, eles terão permissão para estudar, trabalhar ou viver na Austrália.

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O tratado é a maior vitória até agora para os esforços diplomáticos renovados da Austrália no Pacífico nos últimos 18 meses, bem como a primeira vez que Canberra fechou tal acordo na região.

O Brasil e o aumento do nível do mar

Não podemos perder a oportunidade de chamar a sua atenção para o fato de que o Brasil não tem nenhum plano baseado na ciência para mitigar a erosão costeira que já atinge perigosos 60% de nosso litoral.

Marina Silva e equipe só conseguem pensar na Amazônia. Enquanto isso, o estudo Sandy coastlines under threat of erosion publicado na Nature Climate Change, em 2020, mostra que a elevação do nível do mar pode eliminar 50% das praias arenosas do mundo até 2100.

Sobre este estudo afirmou o físico Paulo Artaxo ao site Direto da Ciência: “É um estudo muito relevante e bem feito. Sabemos que o aumento do nível do mar vai fazer com que um grande número de praias desapareça. É um trabalho que modelou todo este processo com cuidado.”

Artaxo é especialista em ciências climáticas e professor da Universidade de São Paulo (USP). Além de ser um dos cientistas brasileiros membros do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

Para o professor da USP, a perda de faixa de areia “representa um impacto muito grande para toda a costa brasileira”. “Na prática, elas (as praias) não vão existir mais. Por isso, o Brasil precisa urgentemente de um plano de adaptação climática bem elaborado, baseado em ciência. Sem isso, os prejuízos para nossas cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, Recife, Vitória, entre outras, serão sérios. A hora de pensar em soluções é agora. A pior ação é imaginar que o problema não existe.”

Acorda, Marina!

Imagem de abertura: www.culturalsurvival.org

 Assista ao vídeo que está no site oficial de Tuvalu

Você conhece a cidade subaquática de Port Royal, Jamaica?

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