Sururina-da-serra, nova espécie descoberta será mais um Dodô?
Uma nova espécie de inhambu, batizada sururina-da-serra, ave recém descoberta no topo da Serra do Divisor, no Acre, Amazônia ocidental, despertou um sentimento de perda pelos ornitólogos brasileiros que provocou repercussão mundial na grande mídia. E não se trata de uma contradição a surpreendente e raríssima descoberta provocar este sentimento. Tudo começou em 2021 com a gravação quase fortuita de uma vocalização até então desconhecida. Quatro anos depois, aconteceu o primeiro encontro entre um ser humano e a ave que, surpreendentemente, não demonstrou medo de predadores. “Ela não reconhece o ser humano como ameaça. A gente chega a quatro, cinco metros e a ave continua andando, como se nada estivesse acontecendo”, disse o o pesquisador Luís Morais, o primeiro a fotografar a espécie, e autor de estudo publicado na revista Zootaxa.

Dodô um ícone da extinção que assombrou o mundo
O dodô virou ícone da extinção porque os seres humanos o exterminaram em menos de 70 anos, após chegar à Ilha Maurício em 1598. Entretanto, o último avistamento confiável da espécie ocorreu em 1662 ou possivelmente em 1680. Ou seja, ele foi registrado pela primeira vez e, em seguida, levado à extinção antes que a ciência moderna de descrever espécies fosse estabelecida.

O caso tornou-se famoso porque marinheiros holandeses começaram a caçar os dodôs que, devido ao isolamento, não tinham medo deles. Em outras palavras, não conheciam o que seriam os predadores.
Assim, a caça intensa, a destruição do habitat e a introdução de espécies invasoras criaram uma pressão insustentável. O dodô não resistiu. Hoje, ele simboliza o impacto humano sobre a biodiversidade e lembra o preço que a natureza paga quando o avanço humano ignora limites.
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Crime ambiental na praia de Jacarecica, MaceióDegelo do permafrost contamina os rios do ÁrticoEstudantes contribuem para erradicar o coral-solO mesmo aconteceu com a sururina-da-serra. Pelo fato da ave viver no topo da serra, ela jamais cruzou com predadores como onças, queixadas, gatos-do-mato, raposas, entre tantos. Por isso, não reconhece o ser humano como ameaça, como disse Luís Morais, autor do estudo. “É totalmente diferente dos outros inhambus, que são discretos e fogem ao menor ruído”.

Segundo o estudo, uma estimativa preliminar da população, com base em detecções de campo e extrapolação espacial, sugere aproximadamente 2.106 indivíduos restritos ao maciço da Serra do Divisor.
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Sururina-da-serra e a comparação com o dodô
A comparação com o dodô foi “cientificamente precisa”, disse Luis Morais, doutorando em zoologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro e principal autor do artigo que anuncia a descoberta, segundo o New York Times. “O comportamento da sururina-da-serra espelha relatos históricos do dodô extinto, e seu risco de extinção é igualmente real.”
O mais incomum, diz o Times, é seu comportamento indiferente. A equipe de Morais passou três anos tentando avistar a ave, depois de detectá-la pela primeira vez em outubro de 2021. Mas, uma vez revelada, ela parecia notavelmente dócil, vagando calmamente pelo sub-bosque da floresta e sem mostrar aversão à presença humana. Os pesquisadores ficaram surpresos quando aves individuais se aproximaram deles em várias ocasiões.
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A matéria revela ainda que as vocalizações são igualmente bizarras: chamados longos e assombrosos que se difundem pela floresta de forma tão completa que confundem a noção de distância e direção do ouvinte. Os tinamídeos (família da nova ave) tendem a empregar assobios, pios e trinados simples, repetitivos e às vezes melancólicos. Mas a vocalização complexa da sururina-da-serra aumenta em frequência, crescendo como um pianista tocando uma escala, um passo cuidadoso de cada vez.
“Este pássaro tem uma aparência totalmente maluca e é um cantor de ópera”, disse Diego Calderón-Franco, biólogo colombiano e especialista em aves neotropicais, acrescentando um adjetivo colorido para dar ênfase. O Dr. Calderón-Franco não participou da pesquisa, mas revisou suas descobertas, incluindo as gravações de áudio, antes da publicação. “Ela tem uma voz como nenhuma outra, uma voz que ganha energia à medida que canta e ecoa pelas paredes dos vales onde vive.”
Seu nome científico, Tinamus resonans, refere-se ao eco impressionante e à acústica desorientadora de seu canto. Acredita-se que a ave seja a primeira nova espécie de tinamídeo da floresta descoberta em 75 anos.
“Alguém encontrar um tinamídeo totalmente novo no campo é simplesmente absurdo”, disse Calderón-Franco. “O fato de essa ave ter se escondido em um cantinho remoto do Brasil por tanto tempo é impressionante.”
Os riscos para a nova espécie
Segundo a matéria do New York Times, o fogo é um perigo particular para a sururina-da-serra. As florestas da Serra do Divisor ficam em solos antigos de arenito, onde um único incêndio poderia destruir milhares de anos de crescimento do habitat — e toda a população de tinamídeos. Outras ameaças humanas potenciais incluem a construção de uma rodovia proposta entre o Brasil e o Peru, bem como um projeto ferroviário transcontinental que, segundo ambientalistas, aceleraria a destruição da Amazônia.
Atualmente, a área abrange o quarto maior parque nacional do Brasil, mas o governo brasileiro tem considerado enfraquecer seu status de proteção para permitir uma maior exploração econômica da região, e a legislação poderia abrir a Serra do Divisor para a mineração.
“Tudo isso me faz pensar que a espécie não terá um futuro fácil”, disse Morais. “Estamos trabalhando duro para garantir que ela seja reconhecida antes que essas políticas avancem ainda mais.”
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Assista ao vídeo e ouça o lindo canto da sururina-da-serra
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