São Pedro e São Paulo fascinam cientistas marinhos

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São Pedro e São Paulo fascinam cientistas marinhos

No meio do Atlântico Equatorial, a mais de mil quilômetros do litoral brasileiro, São Pedro e São Paulo não lembram ilhas tropicais. O conjunto é pequeno, pouco maior que dois campos de futebol. Não há praias, palmeiras ou vulcões. Apenas rochas nuas e irregulares emergindo do oceano, escurecidas pelo tempo e cobertas por depósitos deixados por aves marinhas. Foi esse cenário inesperado que fascinou cientistas marinhos durante uma recente expedição internacional, conforme revela a Scientific America.

imagem submarina das ilha São Pedro e São Paulo
A beleza recém descoberta (Foto: Scientific America)

Como a vida na Terra começou pela primeira vez?

Como a vida surgiu na Terra é uma das grandes questões da ciência. Para tentar responder a essa pergunta, pesquisadores mergulharam fundo nas águas ao redor de São Pedro e São Paulo. Ali, abaixo da zona iluminada pelo Sol, eles buscaram pistas sobre ambientes capazes de sustentar vida sem depender da luz. O mesmo tipo de processo pode ocorrer em outros mundos do Sistema Solar. Por isso, o local atraiu uma grande equipe internacional, formada por geólogos, microbiologistas, biólogos e engenheiros, que usou robôs, submersíveis e sensores para mapear o fundo do mar, coletar rochas e analisar a água em profundidade. A boa notícia é que uma nova estação científica está em construção para melhor atender os pesquisadores e deve ser entregue ainda em 2026.

“Ninguém jamais explorou essas águas profundas”

As águas profundas ao redor de São Pedro e São Paulo permanecem entre as menos estudadas do Atlântico. O isolamento extremo e a origem geológica rara criam condições muito diferentes das encontradas em outras regiões oceânicas. Segundo Frieder Klein, geólogo marinho e líder da equipe científica do Woods Hole Oceanographic Institution, esse conjunto de fatores pode sustentar formas de vida singulares. É justamente essa combinação de profundidade, rochas do manto expostas e pouco contato humano que torna o local tão valioso para a ciência.

ilustração de mapa com posição de São Pedro e São paulo, arquipélago do Brasil
A localização de São Pedro e São Paulo (Ilustração: Scientific America)

A formação geológica encanta cientistas

A formação geológica de São Pedro e São Paulo ajuda a explicar por que o local intriga tanto os cientistas. Milhões de anos atrás, as placas tectônicas associadas à Cadeia Mesoatlântica começaram a se afastar lentamente. Esse processo abriu o Atlântico e separou continentes como a Europa e a América do Norte. Em São Pedro e São Paulo, esse afastamento teve um efeito raro: rochas do manto terrestre, que normalmente ficam a vários quilômetros de profundidade, afloraram até a superfície.

A vida submarina faz pensar na evolução da Terra

As rochas de São Pedro e São Paulo também ajudam a pensar na possibilidade de vida fora da Terra. Cientistas sabem que luas geladas de planetas como Júpiter e Saturno escondem água líquida sob suas superfícies. Essas luas têm composição rochosa semelhante à encontrada nas ilhas do Atlântico Equatorial. Onde água entra em contato com certos tipos de rocha, reações químicas podem liberar energia suficiente para sustentar formas simples de vida. Por isso, os processos observados em São Pedro e São Paulo servem como modelo natural para entender o que pode ocorrer em outros corpos do Sistema Solar.

História da surpreendente descoberta

A compreensão de que a vida pode surgir a partir de reações químicas em rochas ganhou força em 1977. Naquele ano, o geólogo Jack Corliss, da Universidade do Oregon, liderou uma expedição ao largo do Equador, nas Ilhas Galápagos. A equipe investigava a possível atividade de um respiradouro hidrotermal no fundo do mar. Com um veículo operado remotamente, equipado com câmera, os pesquisadores registraram um pico de temperatura a cerca de 2.500 metros de profundidade. Quando as imagens foram reveladas, surgiu a prova de um ecossistema ativo prosperando sem luz solar.

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Criando vida onde a temperatura derrete chumbo

As imagens reveladas mostraram um cenário inesperado. No fundo do oceano, em completa escuridão, caranguejos, mexilhões, vermes e outros organismos viviam ao redor de fontes hidrotermais. A água que emergia dessas fissuras atingia temperaturas capazes de derreter chumbo. A pressão extrema, cerca de 250 vezes maior que a da superfície, impedia que a água entrasse em ebulição. Ali, a vida prosperava em um sistema biológico totalmente diferente, desconhecido até então pela ciência.

Quimiossíntese

Nos anos seguintes, cientistas encontraram comunidades semelhantes em várias regiões do fundo do mar. Essas descobertas mostraram que a vida pode existir sem depender da luz do Sol. Em vez da fotossíntese, esses ecossistemas usam energia química liberada por reações entre rochas e água do mar. Esse processo, chamado quimiossíntese, sustenta microrganismos e cadeias alimentares inteiras nas profundezas do oceano. Muitos desses sistemas podem existir há bilhões de anos, possivelmente há mais tempo do que a vida em terra firme.

Pesquisadores em São Pedro e São Paulo

Entre os pesquisadores que atuaram em São Pedro e São Paulo está Diva Amon, bióloga do Museu de História Natural de Londres. Ela participou da expedição interessada em saber se ambientes quimiossintéticos da região poderiam sustentar formas de vida maiores, como caranguejos ou camarões. Para Amon, o conhecimento sobre esse mundo ainda é limitado. A ciência mal entende como esses animais vivem, onde se distribuem e por que conseguem prosperar em ambientes tão extremos.

imagem da pesquisadora Diva Amon em submarino no arquipélago de São Pedro e São Paulo
Diva Amon (Foto: Scientific America)

Menos de 1% dos oceanos profundos foram explorados

Menos de 1% do oceano profundo foi explorado até hoje. Estudos recentes indicam que, em mais de 70 anos de pesquisa, exploramos apenas uma área com aproximadamente o tamanho de Rhode Island.

Mesmo assim, estudos indicam que as maiores comunidades de animais do planeta vivem nessas regiões. Em São Pedro e São Paulo, esse desconhecimento preocupa os cientistas. A poluição, a pesca da rede de arrasto, a mineração em alto-mar e as mudanças climáticas avançam sobre ambientes que mal começaram a ser estudados. Estimativas apontam a existência de centenas de milhares de espécies ainda desconhecidas no oceano profundo. Para Diva Amon, o risco é claro: a humanidade pode destruir esses habitats antes mesmo de entender como funcionam.

Escaneando o fundo do mar de São Pedro e São Paulo

Nos dias seguintes, a equipe científica iniciou o mapeamento detalhado do fundo do mar ao redor de São Pedro e São Paulo. O navio de pesquisa passou a contornar as ilhas em trajetórias cada vez mais amplas. Durante esse processo, um sistema de sonar multifeixe escaneou o relevo submarino com resolução de cerca de três metros, alcançando profundidades de até 1.200 metros. Esse levantamento revelou uma paisagem submarina nunca antes registrada com esse nível de detalhe na região.

imagem de caranguejo das profundezas do arquipélago São Pedro e São Paulo
O caranguejo foi coletado nas profundezas de São Pedro e São Paulo (Foto: Solvin Zankl)

Carbonato de cálcio, a ‘pele’ de muitos organismos marinhos

O carbonato de cálcio forma as conchas de muitos organismos marinhos e cobre grande parte do fundo do oceano. Quando esses organismos morrem, seus restos se acumulam em sedimentos amplamente usados, inclusive na indústria. Em São Pedro e São Paulo, porém, os cientistas buscam outro tipo de carbonato. Ele se forma quando fluidos hidrotermais quentes entram em contato com a água fria do mar, sem participação direta da vida. Esses depósitos podem revelar processos químicos ativos no fundo do oceano e ajudar a entender ambientes onde a vida pode surgir.

imagem de ouriço-do-mar do arquipélago de São Pedro e São Paulo
Um ouriço do mar das profundezas (Foto: Scientific America)

Conheça as riquezas submarinas de São Pedro e São Paulo

Este é mais um dos vídeos produzidos pela expedição internacional. Atenção ao recado da cientista: “temos obrigação de preservar essa riqueza para as futuras gerações.”

BBC, primor de programação em prol do meio ambiente marinho. Ninguém faz melhor!

Comentários

6 COMENTÁRIOS

  1. Maravilhas das maravilhas! Tudo é gigantesco dentro do MAR. Que beleza de vida! Que geografia esplêndida! Os humanos são tão pequenos diante da grandeza que é a nossa terra, mas inteligentes o suficiente para as grandes descobertas e estudos. Vamos à frente que encantarão e enriquecerão o entendimento nosso. Somos parte dessa grandeza universal de milhões de vidas.

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