Pesca no Sudeste e no Sul: estudo aponta sobrepesca

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Pesca no Sudeste e no Sul: estudo aponta sobrepesca em 86% dos estoques avaliados

A pesca no Sudeste e no Sul enfrenta um problema grave. Um estudo publicado em julho de 2026 na revista científica Fisheries Research avaliou 36 estoques de peixes que vivem perto do fundo do mar. Os pesquisadores conseguiram determinar a situação de 22 deles. Em 86%, encontraram sobrepesca. A análise abrange águas desde o sul do Espírito Santo até o extremo sul do Rio Grande do Sul. Os dados usados para estimar a biomassa chegam a 2019.

Pesca de arrasto
O arrasto é a pior modalidade de pesca e no Brasil ela segue sem fiscalização. Acervo MSF.

O mar brasileiro não oferece a mesma abundância de peixes ao longo de toda a costa. No Sudeste, a ressurgência leva águas frias e ricas em nutrientes até a superfície, sobretudo na região de Cabo Frio. No extremo Sul, a mistura de águas ligada à corrente das Malvinas e os nutrientes trazidos pelo rio da Prata e pela Lagoa dos Patos também favorecem a vida marinha. Mesmo nessa extensa faixa, que reúne áreas naturalmente produtivas, o estudo encontrou sobrepesca em 86% dos estoques cuja situação conseguiu avaliar.

Décadas de pesca sem controle cobram seu preço

A pesca industrial de peixes de fundo ganhou escala na região na segunda metade do século XX. Inicialmente, segundo o estudo, barcos de pesca de arrasto sediados em São Paulo e Rio Grande impulsionaram esse avanço. Depois, as capturas cresceram ao longo das décadas. Enquanto isso, a biomassa dos estoques diminuiu. Mais tarde, as frotas avançaram para águas profundas. Com isso, também reduziram os recursos da plataforma externa e do talude continental.

Os autores associam esse quadro à exploração prolongada sem gestão adequada. Além disso, apontam falhas institucionais e de monitoramento que dificultam medidas eficazes. Assim, a pesca compromete sua própria capacidade de produzir. Como resultado, os desembarques ficaram abaixo da metade do potencial sustentável que o estudo estimou.

Faltam dados até para medir o problema

A falta de estatísticas sobre pesca também limita o diagnóstico. Os pesquisadores consideraram inicialmente 96 estoques. Porém, 60 não tinham os dados mínimos necessários para a avaliação. Assim, apenas 36 entraram na análise. Destes, somente 22 permitiram estimar a situação da biomassa. Nos outros 14, os pesquisadores conseguiram estimar apenas a produtividade.

Apesar dessas lacunas, instituições de pesquisa mantêm programas regionais de monitoramento. O estudo reuniu informações desses programas para avaliar os estoques. Ainda assim, a falta de dados deixou a maioria fora da análise. Portanto, o diagnóstico revela apenas parte do problema. Sem informações consistentes, como definir limites de captura e acompanhar a recuperação dos peixes?

Conhecer os estoques não basta: é preciso controlar a pesca

Além de melhorar os dados, o Brasil precisa transformar conhecimento em medidas de gestão. Os autores defendem monitoramento mais robusto, manejo que acompanhe as mudanças nos estoques e cooperação regional.

Nesse contexto, cabe lembrar outro problema que o Mar Sem Fim acompanha: a falta de fiscalização no litoral. Definir regras é apenas uma etapa. Porém, sem fiscalizar seu cumprimento, o poder público compromete os resultados. Por isso, informação, gestão e fiscalização precisam caminhar juntas.

Recuperar os estoques pode render mais peixe

O estudo mostra que a exploração excessiva também cobra um preço econômico. Afinal, estoques menores significam menos peixe para capturar. Por isso, recuperar essas populações interessa tanto à conservação quanto a quem vive da pesca.

Segundo os autores, estoques recuperados poderiam sustentar capturas superiores ao dobro dos desembarques registrados. Porém, para alcançar esse potencial, é preciso primeiro reduzir a pressão da pesca e permitir que os peixes se recuperem.

Além disso, os dados comparáveis usados na avaliação chegam a 2019. Portanto, o estudo não oferece um retrato exato de 2026. Os autores, porém, afirmam que não encontraram mudanças importantes na gestão capazes de indicar uma melhora geral até 2025. Assim, o diagnóstico reforça a necessidade de agir e acompanhar os resultados.

Por isso, adiar o controle da exploração só aumenta a conta. E quem depende da pesca paga com menos pescado e menos renda.

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