Ilha do Montão de Trigo, naufrágio e acidente ecológico

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Ilha do Montão de Trigo, litoral Norte de São Paulo, naufrágio e acidente ecológico

A ilha do Montão de Trigo fica entre a enseada da Bertioga e o Canal de São Sebastião. Da Barra do Una, ou Juqueí, pode-se ir de voadeira em cerca de 15 a 20 minutos, dependendo da potência do motor. Não há praias, o acesso se dá por um píer improvisado dos caiçaras que lá moram. Com águas claras e mornas, é um dos points de mergulho do litoral paulista.

mapa com a localização da ilha do Montão de Trigo
Em vermelho o Montão de Trigo. (Mapa: wikipedia)

Ilha do Montão de Trigo é habitada há três séculos

Ninguém sabe dizer quem foram os primeiros a chegar. O fato é que há 300 anos ela é habitada por famílias de caiçaras. Segundo o wikipedia “eram cerca de 52 famílias em janeiro de 2012, número que se mantinha em março de 2013 e em janeiro de 2014.” Atualmente, diz o G1, pouco mais de “61 pessoas moram no Montão de Trigo”. Para  morar no Montão é preciso ter nascido no lugar ou ser casado com algum nativo. A propriedade permanece da União.

Imagem da ilha do Montão de Trigo
O pier das famílias caiçaras.

Estrutura do Montão de Trigo

De acordo com o wikipedia “a população local vive com pouca infraestrutura: não há eletricidade, e os moradores vivem a base de baterias. Também não há saneamento básico. Muitas casas não dispõem de banheiros. Os habitantes urinam e defecam em banheiros secos externos ou na vegetação. Em 2012, nenhum médico havia visitado o local havia dois anos.”

imagem de interior de uma casa no Montão de Trigo
O casal Ceumara e Sergio em sua casa no topo da ilha. (Foto: Veja SP)

“Há apenas uma escola, que ensina até a quarta série (equivalente à quinta série, a partir de 2010), equipada com um quarto para que a professora  passar a semana na ilha e retornar  ao continente nos fins de semana. Adriana Pessoa é professora. Nascida em Bebedouro,  formou-se em pedagogia e passou num concurso público em São Sebastião. Escolheu trabalhar na ilha.

A maior parte dos casamentos ocorrerem dentro da mesma família, por isso a maioria dos habitantes leva o sobrenome Oliveira.

O nome Ilha do Montão de Trigo

Seu formato lembra um monte de trigo amontoado, daí o nome da ilha.

imagem da ilha do Montão de Trigo
Montão de Trigo

O acidente

Aconteceu sábado, 4 de novembro, quando uma Ferretti 530 foi abandonada, derramando óleo.  A lancha fazia a rota do Canal da Bertioga para São Sebastião quando aconteceu o acidente.

imagem de lancha em cima das pedras do Montão de Trigo
A Ferretti em cima das pedras. (FOTO: ICMBio)

O valor aproximado de um barco como este gira em torno de R$ 2, a R$ 2,5 milhões de reais. Trata-se de um barco de luxo.

imagem da cabine principal de uma Ferretti 530
A cabine principal de uma Ferretti 530

Desde o dia fatídico, até uma semana depois dias, ele continuava na mesma posição. O tamoiosnews.com.br entrevistou um morador que contou  “que desde que foi avistada abandonada, derramou muito combustível no mar”. “O primeiro a vir foi a seguradora, na manhã de domingo, que analisou como vão retirar a embarcação. A Marinha, e o ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) vieram bem mais tarde. O ICMBio diz que a área é de responsabilidade do IBAMA, já que cuida apenas da região de Alcatrazes. Já a Marinha foi atenciosa, mas fez apenas coletas da água para ver a contaminação”.

As consequências do acidente

Ainda segundo o tamoiosnews “a  coordenadora de proteção do ICMBio Alcatrazes, Edineia Correia, confirmou que uma equipe foi ao local  na tarde desse domingo (5). Segundo ela, ao chegarem constataram que o óleo estava se dispersando na direção noroeste. Ou seja, indo para a costa de São Sebastião, e sem riscos de comprometer Alcatrazes. A equipe do ICMBio cogitou entrar na lancha, que está presa nas pedras na face norte da ilha, para verificar quanto óleo ainda havia no tanque. Mas logo a operação foi descartada por não haver estrutura e segurança na ocasião.”

Pescadores do Montão desolados

O nativo Adilson de Almeida Oliveira foi entrevistado pelo tamoiosnews quando declarou:

Os peixes contaminaram tudo (sic)…o óleo impregnou na costeira. Aqui é região onde os peixes começam a criar; onde fazem a desova. E agora? Isso é um crime, prejudica e atinge o Meio Ambiente de São Sebastião. Será que não percebem?

O Mar Sem Fim ouviu o marinheiro da embarcação

Quatro dias depois do acidente  o Mar Sem Fim ouviu o responsável pela embarcação, o marinheiro Henrique que, naquele momento, estava a bordo, no Montão de Trigo, trabalhando para tentar retirar o barco. Eis o depoimento do responsável pela embarcação Malta:

A rota:  Bertioga-> Ilha do Toque- Toque -> Canal de São Sebastião-> Saco da Ribeira

Estavam, Henrique e seu filho, respectivamente o responsável pelo barco, e o marinheiro, fazendo a rota Bertioga- Ilha do Toque- Toque – Canal de São Sebastião- Saco da Ribeira, onde a lancha  Malta fica guardada no Ubatuba Iate Clube. Era a noite de domingo. Estavam próximos da ilha do Montão de Trigo quando desabou uma trovoada. Decidiram se “abrigar” no lado Norte do Montão.

Era apenas uma trovoada…

Entraram em contato, via rádio, com um barco de pesca e perguntaram sobre o tempo. O pesqueiro confirmou ser apenas uma trovoada. Ainda assim, em vez de seguirem caminho uma vez que a trovoada entrou no sentido sudoeste, ou seja, pela popa de quem navega para São Sebastião, não representando grande risco, decidiram permanecer ancorados. Henrique conta que ficaram com as luzes acesas, e motores ligados, em razão de haver outros barcos fundeados nas proximidades.

Trinta ou quarenta minutos depois, diz Henrique, “levantamos o ferro e seguimos por fora da isóbata (linha usada em cartas náuticas para representar o mapeamento dos pontos da mesma profundidade nos mares) dos 10 metros, onde estávamos fundeados”. E prossegue: “olhávamos pela tela do equipamento de navegação (ploter), nossos olhos estavam ofuscados pela luz do equipamento (novamente o ploter), e seguíamos por fora da linha dos 10 metros quando ouvimos um barulho. Pensei ter atropelado algum barquinho. Dei ré. O motor travou imediatamente.”

O barco havia subido nas pedras. Fica claro que não estavam por fora da isóbata dos 10 metros. Se de fato estivessem, não subiriam no costão do Montão…

Tentando tirar o barco das pedras

Desceram para ver o porão. Estava tudo ok, diz Henrique. Tentaram puxar o barco das pedras com o bote de apoio mas, reconheceu: “o que pode fazer um botinho com motor de 15 cc contra uma lancha de 25 toneladas em cima das pedras?”

imagem da popa de uma Ferretti 530
A visão da popa de uma Ferretti 530

Em seguida pegaram os documentos do barco. Henrique avisou sua esposa que por sua vez entrou em contato com o proprietário (que não estava a bordo). Henrique entrou em contato com a Marinha, via rádio de bordo, e avisou sobre o acidente. Segundo ele, “a Marinha do Brasil não se ofereceu para ajudar.” Finalmente, de carona com um barco de pesca, seguiram de volta para Bertioga deixando a Malta sobre as pedras do costão.

Segundo o marinheiro “havia 750 litros de diesel no tanque na hora do acidente”. Ainda não se sabe quando a lancha será retirada do local.

Foto de abertura: ICMBio/divulgação

Fontes: g1.globo.com; wikipedia; vejasp.abril.com.br; tamoiosnews.com.br.

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12 COMENTÁRIOS

  1. Trabalhei durante 22 anos numa embarcação para uma família tradicional paulista o ditado é vc tem que passaram por avaliações para assumir um cargo desta responsabilidade ,pois muitos adquirem uma carta de capitão mas nunca navegaram o suficiente para ter os conhecimentos gerais ,prática,malícias,saguefrio em certas situações de emergência . À muitos novatos na área náutica . não estou falando só de navegadores falo de todos .vendedores fabricantes prestadores de serviços em geral.Me desculpe pelo desabafo.

  2. É difícil julgar e responsabilizar o marinheiro sem ter uma perícia dos procedimentos adotados pelo mesmo. São várias questões envolvidas como visibilidade, ventos fortes, ausência na carta náutica de pedras ou profundidade, ausência de sinal do GPS, falta de habilidade do marinheiro para diminuir a luminosidade do GPS ou deixar programado na função automática dia/noite etc. O fato de uma outra embarcação informar ser só uma trovoada sem oferecer risco não incrimina o marinheiro. A decisão dele pode ter sido mais cautelosa, ou seja, esperou talvez em local abrigado o tempo suficiente para prosseguir. Atitude que muitos não adotam a prudência. Não condeno nem absolvo sem maiores explicações.

  3. Fiquei a deriva dois dias e duas nessa regiao, pois meu barco fundiu o motor e em seguida chegou uma grande trovoada, foi Deus quem nos livrou com vida desse lugar

  4. Fiquei sabendo do acidente e não imaginava como teria acontecido e o relato do marinheiro nem passou pela minha cabeça, navego na região há pouco mais de 10 anos e o número de acidentes tem aumentado em uma grande escala, não julgo esse fato mas tenho certeza que dezenas de acidentes teriam sido evitados se houvesse responsabilidade e planejamento. Diversos incêndios e até mesmo batidas entre lanchas por negligência. Aconselho para todos manter respeito e cautela em suas navegações! Meu palpite, erro em confiar 100% no GPS. Abraços e bons mares. Juarez Junior

    • Herbert, ainda é cedo para falarmos. Por experiência própria, melhor aguardarmos o inquérito da Marinha do Brasil que já está aberto. Abraços

  5. Como soe acontecer no Brasil quando se envolve alguém de posses, há mais de um Órgão responsavel e um joga a responsabilidade para o outro e fica tudo por isto mesmo. Vide o caso de Mariana e do Rio Doce. Já se fosse um barco de pesca…..

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