ICMBio: omisso em Abrolhos, ameaça a fauna de UCs de proteção integral

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ICMBio: omisso em Abrolhos, ameaça a fauna de UC de proteção integral

Desde que Marina Silva decidiu criar o ICMBio, em 2007, para homenagear seu ídolo Chico Mendes, a instituição enfrenta contestação. Até então, o Ibama cuidava das unidades de conservação. No segundo mandato de Lula, Marina insistiu na homenagem ao líder seringueiro, independentemente das consequências para o meio ambiente. Com isso, o governo criou o ICMBio e transferiu para ele a responsabilidade pelas unidades de conservação do País.

Três cabras em Abrolhos
Acervo MSF.

Desde sua criação questiona-se o ICMBio

Na época, um dos primeiros a contestar o ato foi a Associação Nacional dos Servidores do Ibama. Entre outras, a Associação ‘acusou o ICMBio de ter a mesma função do Ibama, implicando em inchaço da máquina pública e gastos desnecessários para a sociedade’. 

Importante destacar que o governo não fez novos investimentos. Apenas desmembrou o Ibama e dividiu o já escasso orçamento entre as duas autarquias. O que antes mal dava para um braço do MMA virou uma merreca para ambos.

Agora, em março, duas ações chamaram atenção para o ICMBio e sua estranha forma de agir.

Foram precisos 18 anos para tirarem as cabras de Abrolhos

Quando criaram o ICMBio, o Parque Nacional de Abrolhos já existia havia 24 anos. Mesmo assim, a autarquia levou mais 18 anos para acabar com o banquete das cabras que devoravam o que restava da Ilha de Santa Bárbara — há cerca de três séculos, ninguém sabe ao certo, algum navegador as deixou por lá.

Cabras na ilha de Santa Bárbara, em Abrolhos
Foram tantos séculos pastando que em alguns locais de Santa Bárbara já não há qualquer vegetação. Acervo MSF.

O que se sabe é que os nautas lusitanos levaram várias espécies de animais para todas as nossas ilhas oceânicas, com a intenção de garantir alimento aos marujos que desembarcassem. Mas a ciência da conservação já mostrou, há tempos, que espécies introduzidas — principalmente em ambientes frágeis como ilhas — viram pragas que precisam ser combatidas com firmeza.

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Para se ter uma ideia de sua importância para a biodiversidade mundial, saiba que  existem 465.000 ilhas no mundo. Juntas, elas cobrem 5,3% da área do planeta. Contudo, as ilhas representam a maior concentração de biodiversidade e, ao mesmo tempo, extinções de espécies. Além disso, espécies insulares costumam ser evolutivamente distintas e altamente vulneráveis ​​a novos distúrbios, particularmente espécies invasoras.

Não há planos de médio ou longo prazos no MMA

Por outro lado, enquanto persistiu o descaso do MMA um relatório  sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos das Nações Unidas mostrou que as milhares de espécies invasoras introduzidas em novos ecossistemas em todo o mundo causam mais de 423 bilhões de dólares em perdas estimadas à economia global todos os anos, prejudicando a natureza, danificando os sistemas alimentares e ameaçando a saúde humana.

Os técnicos do ICMBio sabiam, sim. Conheci todos os gestores das UCs federais do bioma marinho — em geral, são profissionais bem preparados para os cargos que ocupam. O problema é outro: o ICMBio, assim como o Ibama e o próprio Ministério do Meio Ambiente, não trabalha com planos de médio ou longo prazo. Essas instituições seguem o humor de quem está no comando, ignorando o enorme prejuízo ambiental que essa postura provoca.

cabras em Santa Bárbara, Abrolhos
O atobá não é o elemento ‘deslocado’ da imagem…

Como já mostramos incontáveis vezes, a agenda ambiental marinha entrou em modo avião desde que Marina Silva reassumiu o ministério. O litoral? Ela mal conhece. Problemas costeiros? Não despertam nem bocejo. A ministra prefere voar alto: Amazônia, Pantanal e as cúpulas do clima — de preferência as internacionais, com direito a tapete vermelho e discurso global. Agir, que é bom, só longe do mar.

Seja como for, dois anos atrás finalmente a retirada das cabras foi inserida no Plano de Manejo do Parque Nacional dos Abrolhos. Assim, segundo o governo, ‘a operação seguiu o Plano de Manejo elaborado pelo ICMBio em 2023. “Ao longo de três expedições realizadas entre janeiro e março de 2025, foram retirados, ao todo, 27 caprinos da ilha”, explica a Doutora Jessyca Teixeira, bióloga e bolsista de espécies exóticas invasoras do ICMBio em Abrolhos’.

Perguntas que ficam no ar

Algumas perguntas, entretanto, não foram respondidas. Uma delas seria  qual o motivo que fez o ICMBio esperar 18 nos para finalmente tirar os ruminantes?

Ampliação do Parna de Abrolhos e inclusão do Banco Royal Charlotte

Mas, já que resolveram mexer com Abrolhos, por que não aproveitar e fazer o serviço completo? Custava incluir a ampliação do parque para englobar também o Banco Royal Charlotte? Provavelmente deixaram de fora por puro desconhecimento na época da criação.

Porque, como mostra o mapa abaixo, o banco faz parte da mesma plataforma continental, tem os mesmos atributos ecológicos e um assoalho marinho idêntico, é uma continuação de Abrolhos. Se protegeram uma parte, é mais que óbvio que a outra também merece o mesmo tratamento — ou vamos continuar fingindo que o oceano se divide por decreto?

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mapa de abrolhos e o banco royal charlotte

Além disso, essa ampliação é uma velha reivindicação e conta com amplo consenso na academia. O próprio governo federal já concordou com a ideia. Em 2012, durante o segundo mandato de Lula — com Izabella Teixeira no lugar de Marina — o governo chegou a divulgar uma proposta para ampliar as Áreas Marinhas Protegidas na região de Abrolhos. Mas agora, em vez de ação, temos o silêncio conveniente de Marina sobre o assunto.

Para nós, isso só reforça o óbvio: a ministra não conhece os problemas do ambiente marinho, muito menos sua complexidade. Portanto, não sabe priorizá-los. Não faz sentido tirar cerca de vinte cabras da Ilha de Santa Bárbara — que já comeram tudo que podiam — e comemorar, enquanto o Banco Royal Charlotte continua largado, a ver navios… literalmente.

Ameaçando a fauna de uma UC de proteção integral

No mesmo momento, veio à tona um Manifesto Em Defesa Do Sistema Nacional de Unidades De Conservação (SNUC), assinado por dezenas de instituições e notórios ambientalistas.

Antes de prosseguir, vale lembrar que o SNUC criou 12 tipos de unidades de conservação. Cinco delas são de proteção integral, as mais efetivas, e sete, de uso sustentável. É sobre as primeiras, mais rígidas, de que trata o manifesto.

A gota d’água que deflagrou o movimento diz respeito ao ICMBio e, consequentemente, ao ministério do Meio Ambiente. Começou depois que o ICMBio ‘flexibilizou’ uma unidade de proteção integral sob seus cuidados, a Reserva Biológica Bom Jesus, no Paraná.

Segundo o manifesto, o ICMBio e a FUNAI incluíram na Reserva… numa área delimitada de cerca de 6,7 mil hectares e para acomodar famílias de comunidades indígenas, sem um limite, o que inclui práticas de caça de espécies ameaçadas de extinção (grifos originais) dentre outras atividades incompatíveis com a categorização desta UC, representam não apenas uma abertura perigosa de precedentes como também uma demonstração de pouca aderência do Governo Federal com o compromisso de proteger e de garantir o incremento da gestão de nossas UCs, cada qual dentro de suas atribuições’.

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Além disso, o documento acusa o ICMBio de fazer ‘jogo de palavras’.

‘Em resposta aos questionamentos feitos, o ICMBio usa um “jogo de palavras” para dizer que há um limite e para minimizar a questão da caça. É afirmado que “Novas admissões dentro da comunidade deverão seguir critérios internos dos Guarani Mbya e serem avaliadas pela Comissão de Acompanhamento instituída pelo TC”. Isso significa, sim, que todo aquele admitido pela Comunidade poderá ingressar na Reserva, sem limite. A FUNAI já deixou claro que as Unidades de Conservação Federais de Proteção Integral devem servir aos  indígenas’.

‘ICMBio inverteu a lógica de proteção’

O Manifesto vai além...’Quanto à caça, o ICMBio afirma: “O TC estabelece regras para a caça” e que “não há indícios de impacto ambiental significativo na fauna da Rebio desde a ocupação indígena”. Ora, estamos a tratar de espécies ameaçadas de extinção, essa discussão de “impacto” nem deveria ser aventada por um órgão que deveria proteger as UCs. O fato de ser vulnerável e ameaçada de extinção é pressuposto, por si só, para concluir que um único indivíduo caçado já impacta o pouco quantitativo de espécies. Então, o ICMBio inverteu sua lógica, desprotegendo a fauna das UCs para favorecer uma “condição imprópria para a manutenção da cultura e subsistência indígena”, sem, ao final, criarem novas Tis e nem mesmo ampliarem as áreas conservadas’.

‘Soma-se a esse exemplo, o caso do PN Iguaçu quando, recentemente, esta mesma premissa foi alentada. Também merecem atenção acordos tratando de UCs de Uso Sustentável, especialmente frente a possibilidades de autorização de caça de animais silvestres em seus territórios, como aventado em casos como o das Florestas Nacionais de Canela e de São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul’.

Para os ambientalistas, ICMBio e Funai cumprem missões diferentes. Unidades de Conservação e Terras Indígenas também seguem finalidades distintas. Mesmo com algumas interfaces entre elas, ninguém pode usar isso como pretexto para desviar a função original dessas instituições — nem agora, nem sob a gestão atual. (A íntegra do documento está disponível neste link).

E os teiús de Fernando de Noronha?

Depois de aguardar 18 anos para agir em Santa Bárbara, ainda não houve nenhuma ação para erradicar o teiú, lagarto introduzido na principal ilha do Parque Nacional de Fernando de Noronha, ainda nos anos 50.

Embora o ICMBio saiba muito bem que o bicho é predador da tartaruga-verde, do lagarto-de-Noronha (endêmico), do caranguejo-amarelo (endêmico) e da anfisbena-de-Noronha (uma espécie de cobra-cega), além de devorar ovos de aves marinhas, a autarquia resolveu declarar o animal como “espécie nativa e protegida”.

Quem sabe agora tenhamos alguma esperança, será?

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