Ferrovia Oeste Leste, FIOL, Bahia nos trilhos ?

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Ferrovia Oeste Leste, FIOL,  Bahia nos trilhos – o que tem futuro?

Artigo de Rui Barbosa da Rocha*, especial para este site. Caetano Veloso cunhou uma frase faz trinta anos:  ‘alguma coisa está fora da ordem… fora da nova ordem mundial…’  O Brasil vivia momentos  tensos como  os de hoje e a frase segue provocativa.  Onde estamos agora e para onde estamos indo?
Como a Bahia é imensa e requer de nós régua e compasso, parafraseando Gil, na sua clássica música ‘Aquele Abraço’, cabe olhar para os trilhos que estamos construindo nos dias atuais. Eles nos levarão para o futuro? Ferrovia Oeste Leste, FIOL , Bahia nos trilhos – o que tem  futuro? 

Ilustração da Ferrovia Oeste Leste, FIOL, Bahia
O Engenheiro Rui Barbosa da Rocha agrônomo questiona.

Ferrovia Oeste Leste, FIOL

Dúvidas se escondem nas muitas expectativas, expostas no ar como uma cortina de fumaça. Podem ser  sintetizadas em uma pergunta simples: É mesmo nos trilhos ferroviários da mineração que está o nosso futuro ?

O noticiário oficial declara que a Ferrovia Oeste Leste, FIOL, desde Figueirópolis-TO  até Caetité e depois para Ilhéus, no Sul da Bahia, trará o tão sonhado desenvolvimento para os baianos e para o Brasil. A ferrovia terá no Porto Sul a porta de saída de nossos mais importantes produtos do futuro – especialmente o minério de ferro.

Investimentos bilionários

Investimentos bilionários, eventualmente chineses e do Cazaquistão, aterrarão em solo baiano. Vão abrir as fronteiras dos recursos minerários  – estimam-se para a FIOL R$ 9 bilhões, no trecho entre Caetité e Ilhéus.

E R$ 2,5 bilhões para o Terminal Portuário Privativo da Bahia Mineração- BAMIN, com cargas estimadas até ontem em 60 milhões de toneladas por ano. Especialmente minério de ferro  e outros eventuais produtos.

Ilustração do Terminal Portuário Privativo da Bahia Mineração
Terminal Portuário Privativo da Bahia Mineração. Ilustração, Wikiwand

De Caetité a BAMIN projeta 18 milhões de toneladas. O restante viria de outras jazidas minerárias em estudo, tanto no norte de Minas como do alto sertão baiano, somado à soja dos cerrados.

Desde 2007 o governo da Bahia aposta suas fichas nestes projetos, atraindo crescente simpatia da imprensa e dos articulistas, dos políticos de esquerda, centro  e de direita, mas omite informações cruciais.

Empresa merece uma Parceria Público Privada?

Como este projeto é portador de ufanismo crescente, cabe aos baianos fazerem  perguntas elementares.  É a Bahia Mineração, ou melhor, a cazaquistanesa Eurasian Resources Group, uma corporação séria, que mereça uma Parceria Público Privada tão ambiciosa em solo baiano?

imagem de ferrovia
Imagem, jornal Hora Extra

Não custa citar o londrino The Guardian, que  revelou que esta empresa, na época denominada ENRC,  deixou a bolsa de valores de Londres em 2013 após auditoria externa evidenciar  fraudes na Republica do Congo (The Guardian, 2013).

Outras histórias ruidosas estão presentes no WIKIPÉDIA da empresa, com farta bibliografia.

No norte de Minas

A ERG abriu no norte de Minas uma outra frente minerária- a MIBA, ou Minas Bahia, ou Sul América de Metais. A pretensão é operar jazida de Ferro em Grão Mogol e transportar por minerioduto até Ilhéus, adicionais milhões de toneladas.

Assim chega-se aos quase 60 milhões anunciados para justificar o próximo leilão da FIOL, sob restrições do TCU.

O geólogo baiano João Cavalcanti, proprietário da Companhia Vale do  Paramirim, espera responder por outra carga, mas foi o mesmo empresário que fundou a Bahia Mineração e a Minas Bahia Mineração, vendendo-as para a ENRC ou ERG.

Província Mineral do Vale do Paramirim

Segundo O Correio, em 18 de dezembro de 2019, essa empresa baiana, submeteria ‘a leilão internacional as jazidas encontradas naquela que já está sendo chamada de Província Mineral do Vale do Paramirim. Ela é considerada uma nova fronteira da mineração do Brasil.

O projeto reúne oito blocos que abrange oito distritos minerais localizadas em uma faixa de 45 mil quilômetros quadrados do semiárido baiano, na região centro-sudoeste do estado. Algumas minas já eram conhecidas desde 1938.

Muitas já tinham sido exploradas no passado e depois abandonadas. Mas nos últimos anos começaram a ser analisadas, de forma integrada, por equipes especializadas em geologia que utilizaram novas tecnologias.

Os levantamentos iniciais de prospecção mostraram que as reservas são ricas em diversos minérios, como ferro, ouro, lítio, cobre, manganês, grafita, fosfato e terras raras’.

Segundo O Correio, os leilões foram confirmados pelo empresário João Carlos Cavalcanti, presidente da Companhia Vale do Paramirim’. Desde então não se falou mais sobre isso. Noticias sobre essa empresa estão em blogs e sites como o Noticias de Mineração Brasil, também com muito ufanismo e grandes expectativas.

Ferrovia Oeste Leste, FIOL

Em uma dessas notas, em novembro deste ano, anunciou-se que a Ferrovia Oeste Leste, FIOL, terá cargas de 77 milhões de toneladas, com base em três projetos minerários de ferro, sendo dois na Bahia e um de Minas Gerais – todos concebidos por João Cavalcanti.

Os números são acrescidos com base em projetos consolidados ou são motivados por razões obscuras, para assediar decisões que deveriam ser técnicas e pelos princípios da probidade e interesse público?

Viabilidade econômica e ambiental é discutida

A viabilidade econômica e ambiental destes projetos é ainda discutida, pois são jazidas com teor de ferro baixo, em sua maioria, que dependem de água e enormes barragens de rejeitos – muito superiores às famosas barragens da Vale e da Samarco, em Mariana e Brumadinho, MG.

Cidades como Guanambi podem sofrer seriamente com esse modelo de barragem, pois os rejeitos, em grande volume e alto custo para beneficiamento, requerem água escassa que provê comunidades rurais e vilas do alto sertão.

Os rios

Os riscos de desabamento dessas barragens coloca em cheque a mineração de ferro de baixo teor. Os valores do minério de ferro são outro fator de risco e especulações.

Quando altos, justificam estas minas, mas quando voltam aos preços históricos, perto de U$ 50 a tonelada, deixariam esta atividade sem sentido.

A soja

A soja, sempre citada como uma das cargas relevantes para a FIOL e Porto Sul, tem outro destino na Bahia – o Porto de Cotegipe, na Baía de Aratu. A ferrovia Centro Atlântica, que corta Brumado, pode atender a esta carga, se a FCA estiver integrada à FIOL neste município.

Portanto, o que resta ao Porto Sul de relevante, desde quando foi anunciado em 2007, são as cargas de minério de ferro de Caetité, e agora, o anúncio de Paramirim, mesmo que em fase ainda de pesquisa mineral.

Eventualmente urânio, com alto teor de radioatividade, pode ser transportado pela FIOL. A mina de Grão Mogol foi questionada pelo IBAMA e em 20 de janeiro de 2020 foi negada pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

Neste caso, um minerioduto traria o ferro para o Porto da Bamin, junto com a água escassa daquela região.

A Barragem de Rejeitos desta mina, estimada em 845 milhões de metros cúbicos, é colossal se comparada com a barragem de Brumadinho, com 12 milhões de metros cúbicos, aquela que rompeu em 2019.

Considerações e recomendações do TCU

Considerações e recomendações do TCU – o leilão já anunciado pelo ministro Tarcisio Freitas neste jornal em longa entrevista, prevendo-o para novembro desse ano, requereu análise criteriosa do TCU, pois os termos de uma eventual licitação podem expor conflitos de interesses e favorecimento de empresas.

Ilustração da Ferrovia Oeste Leste, FIOL, e terminal marítimo
Ilustração, divulgação.

Afinal, o principal beneficiário da futura concessão da Ferrovia Oeste Leste, FIOL, seria a mesma empresa que quer construir o terminal privativo – único até agora no Porto Sul, maculando um processo de concorrência pública.

Em artigo da Agência Estado de 25 de novembro, com base em nota técnica no portal do TCU, o órgão descreve os riscos com semântica obscura, mas o bom entendedor sabe que ali está uma precaução – evitar o descumprimento de leis que regem licitações no Brasil.

Três jazidas de alto risco

No fim, temos três jazidas de alto risco – Caetité-Guanambi, Grão Mogol e Paramirim, todas as três concebidas por João Cavalcanti, as duas primeiras vendidas por ele desde quando, em 2007, foram anunciados os projetos de FIOL e Porto Sul.

O futuro da Bahia

Quando vemos o futuro da Bahia, tentando assumir posto de terceiro produtor de minério de ferro do Brasil, atrás do Pará e de Minas Gerais, com minas de risco, em um contexto de incentivos fiscais para a exportação de matérias primas, com base na Lei Kandir, vê-se que royalties de mineração suprem apenas parte dos prejuízos para a sociedade, o meio ambiente e a economia de regiões inteiras – o caso do Sul da Bahia.

Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada, em Ilhéus

Em Ilhéus, a Área de Proteção Ambiental – APA da Lagoa Encantada, inserida na Costa do Cacau, é a maior prejudicada, com suas economias de turismo, pesca, cacau e chocolate.

imagem da Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada
Área de Proteção Ambiental da Lagoa Encantada. Imagem, https://www.praiabela.com.br/.

O distrito Industrial de Ilhéus abriga empresas como Cargill, Barry Calebault e Delfi, moageiras que produzem manteiga de cacau e pasta de chocolate. A água usada por essas empresas vem do Rio Iguape, ao lado do pretendido pátio de minério de ferro da Bahia Mineração e também da Sul América de Metais, a 8 kilômetros de distância.

Pescadores de Ilhéus

Milhares de pescadores dependem de pesqueiros que serão suspensos pela atividade portuária do Terminal Privativo. A Rodovia Ilhéus Itacaré, construída em 1998 com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e governo da Bahia.

Parque Estadual da Serra do Conduru, 7 mil empregos diretos, 35 mil indiretos

Ela foi concebida para ser uma estrada turística ligando áreas protegidas que incluem o Parque Estadual da Serra do Conduru, um hotspot de biodiversidade mundial.

Imagem do Parque Estadual da Serra do Conduru
Parque Estadual da Serra do Conduru. Imagem, https://www.passeios.org/.

500 mil turistas visitam esta costa anualmente, segundo a Bahiatursa, injetando centenas de milhões de reais com 7 mil empregos diretos e 35 mil empregos indiretos.

Porto Sul, 400 empregos diretos

O Porto Sul, no entanto, prevê até 400 empregos diretos quando em operação. A Bahia precisa multiplicar a sua infraestrutura, obviamente, para construir um futuro próspero e sustentável. Saneamento básico, rodovias, ferrovias, aeroportos e portos são peças deste quebra cabeças, presentes em qualquer região desenvolvida.

Ferrovia Oeste Leste, FIOL e os recursos ambientais e econômicos

Mas, edificar projetos que destroem recursos ambientais e econômicos tão relevantes para a sociedade baiana, beneficiando corporações como a ERG e a Companhia Vale do Paramirim com seus investimentos minerários precários, é algo a se pensar.

A Bahia canta desde Dorival Caymmi o seu litoral, seus pescadores, suas águas doces e salgadas, seus coqueiros e seus pratos únicos, como o acarajé. Os sertões contém a Chapada Diamantina e os Cerrados, o Rio São Francisco e comunidades rurais que produzem alho, cebola, manga, banana e abóbora.

O recôncavo é um território cultural pulsante com a Baia de todos os Santos e suas incríveis ilhas, até Boipeba, ao sul. Do oeste ao leste, a Bahia tem muitos trilhos, muito mais ricos e sustentáveis para alimentar o seu futuro. Afinal, investir no futuro da Bahia parece que sempre será o melhor negócio para os baianos.

Imagem de abertura: jornal Hora Extra

Rui Barbosa da Rocha*: Engenheiro agrônomo com mestrado em Desenvolvimento e Agricultura, natural de Valença-BA, vive em Ilhéus, sendo professor de Geografia Regional na UESC e um dos membros do movimento civil Sul da Bahia Viva – grupo que discute o futuro sustentável dessa região.

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