Explicações científicas por trás do ciclone bomba, com o professor Mario Quadro
Junho de 2020 terminou de forma trágica no Sul do Brasil: 13 mortos, muita destruição e prejuízos monumentais. Mais uma vez, um evento extremo confirmou alertas feitos desde a década de 1980, mas ignorados por parte de governos e sociedade. O fenômeno atingiu sobretudo Santa Catarina, além dos outros estados da região. E episódios assim tendem a se repetir com frequência e intensidade cada vez maiores.
Seis anos depois do ciclone-bomba de 2020, o fenômeno voltou a atingir o Sul do Brasil. Nesta sexta-feira, 7 de agosto, um ciclone extratropical em rápida intensificação provocou chuva forte, temporais, granizo e ventos intensos na região. O Rio Grande do Sul já contabiliza estragos, enquanto Santa Catarina e Paraná permanecem sob alerta. Segundo o Inmet, o sistema se intensifica sobre o Atlântico Sul e mantém condições de tempo severo, principalmente entre Paraná e Santa Catarina.

Para entender melhor como o fenômeno se formou em 2020 o Mar Sem Fim procurou um especialista da região, o professor Mário Quadro. Apesar da gravidade do tema, a conversa correu de forma leve e esclarecedora, passando por várias questões.
Como a meteorologia brasileira se compara à dos países mais avançados? Quanto já evoluímos?
As novidades tecnológicas a serviço da previsão de tempo
Hoje, o Brasil conta com cobertura muito maior. As estações oficiais avançaram bastante e ampliaram o monitoramento do tempo. As previsões numéricas também trouxeram mais precisão. O País começou a usar esse recurso entre 1993 e 1994, embora os Estados Unidos já estivessem muito mais preparados.
Mário Quadro também destacou tecnologias que ajudam a reduzir os efeitos do despreparo dos gestores e do aquecimento global. Entre elas estão os alertas por SMS enviados à população. “Foi um bom avanço, mas não basta”, afirmou.
Mas, afinal, o que é um ciclone-bomba? O professor explicou que existem ciclones tropicais, extratropicais e subtropicais. O termo “bomba” surgiu para descrever um tipo de ciclone extratropical que se intensifica de forma muito rápida.
Explicações científicas por trás do ciclone bomba
O ciclone-bomba ganha força em poucas horas e provoca ventos intensos. Embora ocorra com mais frequência no Sul, também pode atingir outras regiões do Brasil.
O mito de que o País não enfrenta eventos catastróficos dificulta a prevenção. Como persiste, governos investem menos do que deveriam. Santa Catarina oferece um exemplo claro: o Estado estimou prejuízos superiores a R$ 600 milhões. Mário Quadro resumiu o problema numa pergunta: “Se parte desses R$ 600 milhões tivesse financiado medidas preventivas, quanto teríamos economizado?”
Os estragos de furacões e ciclones-bomba
Outro ponto interessante da conversa tratou da preparação de cidades e estados norte-americanos. Na Califórnia, por exemplo, os gestores conhecem as falhas geológicas sobre as quais parte do território se ergueu. Por isso, investem em ciência, tecnologia e normas de construção capazes de reduzir os impactos.
Em 2019, um terremoto de magnitude 7,1 atingiu o estado sem provocar o desabamento generalizado de edifícios. As leis exigem projetos preparados para enfrentar fortes abalos, e os alvarás só saem quando os engenheiros comprovam as medidas de segurança adotadas.
Mas a preparação contra terremotos não livra essas cidades da destruição causada pelos ciclones. Mário Quadro explica que esses fenômenos atingem áreas muito específicas: podem arrasar um bairro e poupar o quarteirão vizinho. Para reduzir os danos, mesmo os Estados Unidos precisam investir mais em previsão e alertas.
Enquanto isso, no Brasil pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios, em 2024, mostrou que apenas 22% dos gestores consideram suas cidades preparadas para lidar com as mudanças do clima. Em outras palavras, só 2 em 10 cidades estão preparadas para o aquecimento.
Conheça o professor Mário Quadro
Graduado em Meteorologia pela Universidade Federal de Pelotas (1990), mestrado em Meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1994) e doutorado em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é Coordenador do Curso de Mestrado Profissional em Clima e Ambiente e professor do Curso de Meteorologia do Instituto Federal de Santa Catarina.

Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Meteorologia Sinótica, atuando principalmente nos seguintes temas: Análise do Sistema Zona de Convergência do Atlântico Sul e Assimilação de Dados para Modelos de Mesoescala. Tem larga experiência na área de desenvolvimento de aplicativos meteorológicos adquiridos em diversos centros de Meteorologia do Brasil, tais como CPTEC/INPE, onde trabalhou com operacionalização de Modelos Climáticos, SIMEPAR e EPAGRI/CIRAM.
Imagem de abertura: Prefeitura de Chapecó/Divulgação
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