Costões rochosos: berçários marinhos sob ameaça
Costões rochosos não são apenas ambientes de transição entre a terra e o mar. Como as praias, são ecossistemas marinhos vivos, ricos e importantes, embora muita gente ainda os veja apenas como pedras à beira-mar. Eles aparecem onde paredões, lajes ou grandes blocos de rocha recebem o impacto das ondas e seguem o ritmo das marés.

A flora marinha coloniza essas rochas por meio das algas, plantas marinhas simples que se fixam nas superfícies duras. Ao lado delas, aparecem cracas, mexilhões e outros invertebrados, animais sem coluna vertebral que vivem presos às pedras ou se movem pouco. As algas produzem alimento e abrigo. Cracas e mexilhões filtram a água e ajudam a formar uma comunidade viva sobre o costão. Essa base atrai ouriços, anêmonas, estrelas-do-mar, caranguejos, polvos, peixes e aves costeiras.


Os costões rochosos também funcionam como abrigo, área de alimentação e berçário para muitas espécies marinhas. Peixes jovens encontram proteção entre frestas e organismos fixos. Invertebrados filtram a água, reciclam nutrientes e sustentam cadeias alimentares. As algas produzem alimento e oxigênio. Por isso, esses ambientes ajudam a manter a biodiversidade marinha e a produtividade da zona costeira brasileira.
Onde estão os costões no Brasil
Os costões rochosos aparecem em boa parte do litoral brasileiro, do Rio Grande do Sul ao Maranhão. Mas sua distribuição não é uniforme. Ela depende da geologia de cada trecho da costa.
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No Nordeste, eles aparecem com menor frequência. Em muitos casos, não surgem como paredões cristalinos, mas como formações de arenito ou outras rochas sedimentares. O limite sul mais conhecido dessa ocorrência fica em Torres, no Rio Grande do Sul. Ao norte, os registros chegam até a Baía de São Marcos, no Maranhão.
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As maiores ameaças aos costões rochosos
Por ficarem colados à costa, os costões rochosos sofrem diretamente com a ocupação desordenada do litoral. Segundo o Projeto Costão Rochoso, esses ecossistemas ficam na transição entre a terra e o mar, sujeitos a ondas, marés, vento, chuva e sol. Essa condição cria uma biodiversidade muito adaptada, mas também muito exposta ao que vem de terra.

Esgoto sem tratamento, drenagem urbana contaminada, lixo, óleo, resíduos de embarcações e produtos químicos chegam rápido às rochas e às poças de maré. A falta de saneamento básico, crônica em boa parte do litoral brasileiro, afeta algas, cracas, mexilhões, anêmonas, ouriços, peixes jovens e toda a cadeia de vida que depende do costão.
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O turismo sem manejo também causa estragos. O Projeto Costão Rochoso alerta que, em Arraial do Cabo, pesca e turismo intenso atuam juntos e causam danos severos à biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos. Pisoteio na zona entremarés, mergulho mal orientado, pesca excessiva e coleta de organismos atingem justamente a faixa onde a vida se fixa às rochas.
Clima e invasores aumentam o desequilíbrio
As mudanças climáticas ampliam a pressão sobre os costões rochosos. Na maré baixa, muitos organismos ficam expostos ao sol, ao ressecamento e ao calor extremo. Ondas de calor marinhas, tempestades mais intensas e elevação do nível do mar podem alterar a distribuição das espécies e reduzir a biodiversidade.

Há ainda o avanço das espécies invasoras. O coral-sol é o exemplo mais direto: já ameaça costões rochosos no litoral brasileiro, compete com espécies nativas, altera comunidades bentônicas e pode reduzir a presença de algas. O mexilhão-verde também preocupa. Como se fixa em substratos duros, pode ocupar rochas, píeres, marinas e cascos de embarcações, disputando espaço com organismos nativos. Já o mexilhão-dourado e a amêijoa asiática mostram a gravidade das bioinvasões aquáticas, mas afetam sobretudo rios, reservatórios e sistemas de água doce.
Como mostramos em outro post, o pesquisador Luis Ernesto Arruda Bezerra alerta que o Brasil ainda não tem um combate efetivo à bioinvasão, apesar do avanço dessas espécies.
Monitoramento e ciência para proteger os costões
A importância dos costões rochosos não aparece apenas na paisagem. Ela também aparece na ciência. O ICMBio criou, a partir de 2013, diretrizes para monitorar a biodiversidade desses ecossistemas em unidades de conservação. As primeiras áreas-piloto foram a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, e as estações ecológicas Tupiniquins e Tupinambás, em São Paulo.

A literatura internacional reforça a urgência. Artigo publicado na Frontiers in Marine Science lembra que os costões rochosos sofrem pressão da introdução de espécies, da alteração física da costa, da contaminação, da recreação e das mudanças climáticas. O mesmo estudo registrou, na Patagônia argentina, uma queda brutal na cobertura de mexilhões: de 90% para quase zero em menos de um ano. O alerta é claro. Sem monitoramento regular, colapsos assim passam despercebidos até que seja tarde demais.
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Em outras palavras, olhar para cracas, mexilhões, algas, ouriços, anêmonas e outros organismos presos às rochas ajuda a medir a saúde do próprio litoral. Quando essa comunidade muda, empobrece ou desaparece, o costão avisa que algo vai mal. Poluição, turismo excessivo, pesca, bioinvasão e mudanças climáticas deixam marcas nas rochas antes que boa parte da população perceba
Ciência para orientar o manejo dos costões
Em Arraial do Cabo, o Projeto Costão Rochoso mostra como a ciência pode orientar o manejo desse ecossistema. Segundo a Agência Brasil, pesquisadores fazem censos subaquáticos a cada seis meses em Arraial do Cabo, Cabo Frio e Búzios. Em Angra dos Reis, a contagem será anual. O trabalho registra peixes, corais, polvos, lulas, tartarugas e espécies ameaçadas. Também monitora a vida nas áreas entremarés, onde algas e mexilhões enfrentam sol, calor e ressecamento na maré baixa.

O projeto também fornece dados para órgãos gestores, como o ICMBio. A ideia é orientar regras para pesca, turismo náutico, mergulho, ruído de motores e distância segura de embarcações e visitantes. É exatamente o que falta em boa parte do litoral brasileiro: manejo baseado em ciência, não em palpite, pressão econômica ou improviso.
A iniciativa começou em 2017, a partir de pesquisadores da UFF, na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo. A parceria com a Petrobras começou em 2023 e foi renovada em 2026 por mais quatro anos, com investimento de R$ 6 milhões. O projeto também atua com educação ambiental em escolas e com pescadores, porque proteger costões rochosos exige ciência, fiscalização e participação da comunidade local.









