Caiçaras do Lagamar emitem nota aos Governos de SP e PR
A história veio à tona recentemente, depois de uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo que falava sobre um plano dos governos de São Paulo e Paraná para promover o turismo náutico no Lagamar, o mais importante berçário do Atlântico Sul. Para tanto, querem dragar o Canal do Varadouro. Se a ideia já era conhecida no Estado vizinho, em São Paulo ninguém sabia. O governo Tarcísio jamais se pronunciou sobre o assunto. A descoberta gerou pânico entre ambientalistas e academia. Pior, mais uma vez assustou os caiçaras da região que já são maltratados pelo poder público há décadas.

Dragar o Canal do Varadouro: má-fé, insensatez, ou só ignorância?
É tão bizarro sugerir a dragagem do Canal do Varadouro que nos ocorreu perguntar se isso seria má-fé, insensatez, ou penas ignorância. A matéria do Estadão citava medidas já tomadas pelo governo do Paraná, com a concordância do governo paulista. Neste caso, só poderia ser muita ignorância. Ninguém em sã consciência defenderia uma bobagem destas num dos locais que é patrimônio mundial da humanidade em plena avalanche do aquecimento global. Contudo, Tarcísio é oriundo do governo que mais menosprezou e vilipendiou o meio ambiente, além de ser carioca, em outras palavras, não conhece São Paulo.

O Estado de São Paulo já foi o farol ambiental do Brasil. Já tivemos como presidente da Fundação Florestal, o mais importante braço ambiental do governo depois da secretaria, Paulo Nogueira Neto, um dos titãs do ambientalismo. E como secretários de Meio Ambiente, José Pedro de Oliveira Costa, e Fábio Feldmann, dois ícones do ambientalismo nacional. Não é de hoje os governos paulistas passaram a negar seu passado e menosprezar o meio ambiente. Alckmin já não foi grande coisa, mas João Dória quase pôs tudo a perder.
Hoje, quem senta na cadeira de secretário do Meio Ambiente é uma pessoa que pode ter todas as qualidades, só que nunca se interessou, ou trabalhou, em prol do meio ambiente, a secretária Natália Resende. Se alguém do governo paulista tivesse um mínimo de sensibilidade ambiental o Canal do Valo Grande que detona o mangue de Iguape já teria sido fechado.
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Segundo a nota, assinada pela Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso, e o Movimento dos Pescadores Artesanais do Litoral do Paraná, ‘pela ausência de diálogo e informações sobre a proposta de dragagem e turismo náutico no Canal do Varadouro. Assim, exigimos que o IBAMA e os governos do estado de São Paulo e do Paraná respeitem os protocolos comunitários e o Direito de Consulta e Consentimento Livre, Prévio e Informado previsto na Convenção no 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)’.
Em nossa opinião eles têm total razão. A negligência prova apenas que ambos os governos são demagogos, fazem muito pouco para os desvalidos, e não percebem a riqueza gerada pelos povos originais, em São Paulo, notadamente, os caiçaras.
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Sobre a estapafúrdia ideia da BR do Mar o governador Ratinho Jr. admite que a ideia nasceu com ajuda de um empresário milionário do setor náutico. O plano já entrou na mira do Ministério Público Federal. O MPF abriu um inquérito para investigar o caso.
Como os caiçaras ficaram sabendo?
As comunidades tradicionais tomaram conhecimento do projeto de dragagem através da imprensa, a “BR do mar”. Na verdade, deveriam ter sido as primeiras a serem informadas, como determina o direito de consulta previsto na Convenção 169 da OIT’.
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O que querem os caiçaras?
Eles querem determinar o seu futuro, como qualquer um de nós. ‘Desde logo, é importante dizer que as comunidades caiçaras aqui representadas não se colocam neste momento contra o projeto, mesmo porque o desconhecemos, e muito menos contra propostas de fomento do turismo. Mas sobre a forma como o governo do estado do Paraná, por meio do Paraná Projetos e da UNILIVRE, vem realizando a concretização do empreendimento’…
‘Tarcísio também foi infeliz. ‘Também cobram que o governo paulista se posicione oficialmente sobre a questão e adote imediatamente o procedimento de consulta às comunidades tradicionais envolvidas’…
‘Não é correto apresentar um projeto pronto, sem incluir desde o início as comunidades envolvidas na discussão’…
As comunidades caiçaras não rejeitam melhorias como trapiches, estruturas de recepção turística, sinalização náutica, energia elétrica, postos de saúde e regularização fundiária de seus territórios. Elas afirmam que essas ações constituem dever do poder público municipal, estadual e federal. Por isso, não aceitam que autoridades usem esses serviços como moeda de troca para obter apoio a projetos e empreendimentos de interesse de terceiros.
Finalmente, com uma finesse digna de Paulinho da Viola, os caiçaras pedem que ‘os responsáveis pelo projeto que apresentem, de modo completo, íntegro, honesto, transparente e de boa-fé todo o conteúdo e todas as fases e consequências da proposta de dragagem e turismo náutico no Canal do Varadouro’…
Em tempo, reforçamos que o inconsequente plano foi indeferido pelo ICMBio. A ver quais serão as novas platitudes ambientais destes governos estaduais. Não temos dúvida que outras virão.
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