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Algas calcárias: Brasil minera ecossistema vivo no fundo do mar

Algas calcárias: Brasil minera ecossistema vivo no fundo do mar

Algas calcárias formam extensos bancos no fundo do mar. Esses ambientes, conhecidos como rodolitos, abrigam enorme diversidade de espécies. Mesmo assim, o Brasil ainda retira esse material do oceano para fabricar fertilizantes, corretivos de solo e suplementos minerais.

Mergulho em banco de algas calcárias.
Imagem do site da Oceana Minerals, ao largo do Maranhão.

A exploração ocorre na plataforma continental do Maranhão. Ali, empresas dragam o fundo marinho e levam o material para processamento em terra. O país repete, com tecnologia moderna, uma prática antiga. Durante séculos, trabalhadores arrancaram estruturas coralíneas dos recifes do Nordeste, com trator e correntes, e as queimaram em caieiras para produzir cal. O produto abastecia a construção civil e ajudava a corrigir o solo dos canaviais.

Os rodolitos também predominam no fundo do Banco Royal Charlotte, vizinho a Abrolhos, no sul da Bahia. Por sua importância ecológica, ambientalistas defendem a incorporação da área ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

Oceana Minerals extrai ao largo do Maranhão

A Oceana Minerals extrai algas calcárias na plataforma continental diante de Tutóia, no Maranhão. No município, a empresa seca, mói, granula e embala a matéria-prima, depois vendida para agricultura, nutrição animal e tratamento de água no Brasil e no exterior.

Imagem, Oceana Minerals.

Segundo a companhia, a operação recolhe apenas fragmentos mortos e calcificados, levados pelas correntes até uma jazida em águas profundas. A empresa também afirma que a retirada respeita a reposição natural e que uma consultoria independente monitora água, correntes, fauna, flora e áreas com algas vivas, conforme as exigências da licença do Ibama.

Em 2025, a Oceana Minerals começou a levar parte dessa operação ao Piauí. Em Luís Correia, a empresa iniciou testes para produzir fertilizante marinho e anunciou uma futura fábrica. A nova unidade deve atender sobretudo o Matopiba e ampliar as exportações.

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Em 2025 o governador Rafael Fonteles visitou a operação da Oceana no Porto Piauí. Imagem, Gabriel Torres/Governo do Piauí.

A extração, contudo, continua concentrada na jazida do Maranhão. É ali também que funciona o principal complexo industrial da companhia. A Oceana afirma vender seus produtos para mercados da Europa, Ásia, África e Américas.

A empresa é brasileira. Nasceu em 2006 e se apresenta como multinacional porque exporta e mantém parcerias em mais de 80 países — não porque pertença a um grupo estrangeiro. A alegação de que detém uma tecnologia “exclusiva e sustentável” de extração, contudo, vem da própria empresa e precisa aparecer como tal.

Vídeo promocional suaviza a escala da extração

Em um vídeo publicado pelo Movimento Econômico, a Oceana defende que recolhe apenas fragmentos desprendidos naturalmente. Enquanto apresenta a atividade como “manejo sustentável”, o vídeo mostra um mergulhador pegando uma única pedra no fundo do mar. A cena transmite a impressão de uma coleta cuidadosa e quase artesanal.

Do filme do Movimento Econômico.

Pouco antes, contudo, aparece um grande navio industrial, com amplos porões e equipamentos operando no oceano. A imagem revela uma escala muito diferente. Em 2021, a extração brasileira chegou a quase 92 mil toneladas.

Mesmo soltos, os rodolitos continuam integrando o ecossistema. Eles servem de suporte e abrigo para inúmeros organismos. Portanto, recolher fragmentos “naturalmente desprendidos” não significa retirar um material ecologicamente inerte. A alegação de sustentabilidade depende dos volumes extraídos, da velocidade de reposição e dos efeitos da operação sobre o fundo marinho — dados que o vídeo não apresenta.

Assista:

Rodolitos formam um ecossistema vivo

A versão da empresa encontra um problema central: os bancos de algas calcárias não funcionam como simples depósitos minerais. Os rodolitos formam recifes naturais. Eles oferecem abrigo, alimento e áreas de reprodução para peixes, crustáceos, moluscos, esponjas e muitos outros organismos.

Um estudo da Unifesp, divulgado pela Folha de S. Paulo, identificou cerca de 450 espécies em amostras coletadas em Abrolhos, na Bahia, e na ilha da Queimada Grande, em São Paulo. Os pesquisadores também registraram 21 ocorrências novas para a costa brasileira. Segundo Guilherme Pereira-Filho, coordenador do trabalho, a amostragem revelou uma diversidade equivalente a cerca de 1% de toda a biodiversidade marinha conhecida.

Guilherme Pereira-Filho em atividade de campo de amostragem dos rodolitos. Imagem, Zaira Matheus/Arquivo LABECMar.

O estudo chama esses ambientes de “Amazônia cor-de-rosa”. A comparação não soa exagerada. Cada rodolito cria pequenas cavidades e superfícies onde outras espécies vivem, alimentam-se ou se reproduzem. Ao dragar e triturar esse material, a atividade não retira apenas carbonato de cálcio. Ela também desmonta parte da estrutura física que sustenta a comunidade marinha.

Rodolitos crescem muito devagar

Além disso, os rodolitos crescem muito devagar. Estudos citados pela Pesquisa Fapesp indicam que alguns podem levar milhares de anos para se formar. O problema lembra o dos nódulos polimetálicos, cuja mineração Donald Trump tenta acelerar. A geóloga e paleontóloga, Elizabeth Kolbert, ganhadora do Prêmio Pulitzer pelo livro The Sixth Extinction: An Unnatural History (O Mar Sem Fim repercutiu este livro em post de 2017, Extinção em Massa, começou a sexta), afirma que uma única pepita do tamanho de uma batata pode levar cerca de três milhões de anos para se formar’

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Por isso, pesquisadores questionam a classificação desse material como recurso renovável. Na prática, uma área dragada pode levar séculos para recuperar sua estrutura, caso consiga se recuperar.

As explicações da Oceana Minerals, portanto, precisam aparecer como posição da empresa. Para avaliá-las de forma independente, seria necessário conhecer a licença, o estudo ambiental, os relatórios de monitoramento e os dados anuais de produção. O site não informa quanto material a companhia retira, qual taxa de reposição usa em seus cálculos nem os resultados completos dos levantamentos ambientais.

Até que ponto é um recurso renovável?

A dragagem também espalha sedimentos, aumenta a turbidez e pode soterrar rodolitos e organismos próximos. Como esses bancos formam habitat para inúmeras espécies, o impacto não se limita ao material retirado.

Isso torna discutível chamá-los de recurso renovável. Sem dados públicos sobre volume extraído, taxa de reposição e monitoramento ambiental, não há como comprovar a sustentabilidade da operação.

Extração de algas calcárias mais que dobrou em quatro anos

Para encerrar, é difícil obter dados da extração. Os dados mais recentes que encontramos chegam a 2021. Naquele ano, a produção bruta de algas calcárias alcançou quase 92 mil toneladas, segundo documento da Embrapa baseado em informações do setor mineral. Cerca de 81 mil toneladas passaram por beneficiamento. Entre 2017 e 2021, a extração mais que dobrou. Ainda falta saber quanto a Oceana Minerals retira atualmente. Também não encontramos dados públicos posteriores a 2021 que permitam acompanhar a evolução da atividade e compará-la com a alegada capacidade de reposição da jazida.

Mudaram as máquinas, a escala e o discurso. Mas, a despeito de sua importância, a mineração segue sendo insustentável seja em terra ou no mar. É triste que, gora que conhecemos melhor o valor desses ecossistemas —, mesmo assim, continuamos explorando-os sem transparência suficiente.

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