Rota do Ártico ganha serviço regular entre China e Europa

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Rota do Ártico ganha serviço regular entre China e Europa

A rota do Ártico acaba de ganhar importância como alternativa comercial entre China e Europa. Em 15 de agosto de 2026, a empresa chinesa Sea Legend iniciou um serviço regular de carga pela Rota Marítima do Norte, ao longo da costa russa. O trajeto pode reduzir quase pela metade o tempo de viagem em relação à rota pelo Cabo da Boa Esperança.

Mapa mundi com rotas de navegação tradicionais e a rota do Ártico.
As rotas de navegação tradicionais, e a rota do Ártico. Ilustração, © Bertschi Grupo.

Por trás dessa mudança estão dois fatores. De um lado, o derretimento acelerado do gelo marinho no Ártico. De outro, as tensões no Mar Vermelho e no Oriente Médio encarecem e tornam mais arriscadas as rotas tradicionais.

Contudo, com os navios, chegam riscos ambientais e uma disputa geopolítica cada vez mais intensa. Rússia e China ampliam sua presença no Ártico, enquanto Donald Trump insiste que os Estados Unidos devem controlar a Groenlândia. Entre os motivos estão a posição estratégica da ilha, suas riquezas minerais mas, igualmente, a proximidade da nova rota aberta pelo recuo do gelo.

O que é a rota do Ártico

Durante séculos, encontrar uma passagem marítima pelo Ártico foi um dos grandes sonhos da navegação mundial. Exploradores procuraram a Passagem do Noroeste, desde o século 15 atrás de uma rota que ligasse Atlântico e Pacífico pelo extremo norte do planeta.

Navio pioneiro na rota do Ártico, Istanbul Bridge.
Navio pioneiro na rota do Ártico, Istanbul Bridge, da Sea Legend. Imagem, www.thebarentsobserver.com.

Agora, essa antiga ambição ganha outra dimensão. A chamada rota do Ártico acompanha grande parte da costa norte da Rússia. Seu principal trecho comercial é a Rota Marítima do Norte, que liga o Pacífico ao Atlântico por águas árticas.

Para navios que saem da Ásia rumo à Europa, a vantagem é enorme. A rota evita o Canal de Suez e também o longo desvio pelo Cabo da Boa Esperança. Em 2025, a Sea Legend completou uma viagem entre China e Reino Unido em cerca de 20 dias com o navio porta-contêineres Istanbul Bridge. Pela rota africana, o trajeto pode levar quase o dobro.

Menos gelo, mais navios no Ártico

A rota do Ártico ganha importância comercial porque o gelo marinho recuou de forma dramática. Segundo a NOAA, a extensão do gelo no fim do verão de 2025 ficou 28% menor do que em 2005. Além disso, o gelo mais antigo e espesso praticamente desapareceu: desde os anos 1980, sua área caiu mais de 95%.

Mesmo assim, a Rota Marítima do Norte não é uma via simples. Durante grande parte do ano, o gelo ainda bloqueia a passagem. Navios cargueiros ainda dependem de uma curta janela de verão e, em muitos casos, do apoio de quebra-gelos russos.

Mas o cenário está mudando. Uma análise da CNN, baseada em dados do Centre for High North Logistics, mostra que o trânsito internacional pela rota é dominado pela China desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. O comércio aproxima os dois países: ajuda Moscou a escoar petróleo e gás, mesmo que tenha que usar sua frota escura, e reforça a segurança energética chinesa.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação no Ocidente. A presença chinesa no Ártico já não envolve apenas comércio e ciência. Para alguns governos e especialistas, ela também pode abrir caminho para uma presença estratégica e militar maior numa região que se transforma rapidamente em novo palco da disputa entre grandes potências.

Coreia do Sul também aposta na nova rota

A disputa pela rota do Ártico também  envolve outros países. Em 22 de agosto de 2026, a Coreia do Sul iniciou sua primeira viagem comercial experimental pela Rota Marítima do Norte.

Navio coreano PanStar Acro na rota do Ártico
Navio coreano PanStar Acro na rota do Ártico. Imagem, www.unn.ua.

O navio PanStar Acro deixou Busan levando peças automotivas, produtos químicos e contêineres para a Europa. A viagem deve durar entre 40 e 45 dias, com escalas no Reino Unido, Holanda e Polônia.

O objetivo é testar a viabilidade econômica da rota e transformar Busan em um importante centro do comércio marítimo do Ártico até 2030.

Rússia transforma o Ártico em corredor estratégico

A Rússia trata a rota do Ártico como peça estratégica. Moscou controla a Rota Marítima do Norte e mantém a maior frota de quebra-gelos nucleares do mundo.

Também investe em navios Arc7, capazes de enfrentar gelo espesso e transportar GNL pelo Ártico. Além disso, como já mostramos, o país chegou a projetar um submarino nuclear para transportar gás pelo Ártico.

Depois da invasão da Ucrânia, essa rota ganhou ainda mais importância para o escoamento de petróleo e gás russos rumo à Ásia, sobretudo à China.

China avança no Ártico, e Trump mira a Groenlândia

A China amplia sua presença comercial e científica no Ártico, enquanto aprofunda a parceria com a Rússia, que reforça sua capacidade militar  com navios, submarinos e sistemas nucleares. Entre eles está o Poseidon, conhecido como “submarino do Juízo Final.

Do outro lado, o insaciável Donald Trump volta a defender a posse da Groenlândia, provocando estupor internacional. Além disso, sua proposta de criar novos navios de guerra nucleares abriu outra frente de polêmica, desta vez entre militares e especialistas dos Estados Unidos.

Ou seja, a rota do Ártico não abre apenas um novo corredor comercial. Ela também passa a integrar uma disputa militar cada vez mais evidente entre as grandes potências.

O preço ambiental da rota marítima

Na rota do Ártico, navios preparados para o gelo fazem o trecho mais difícil. Depois, transferem petróleo ou gás para embarcações convencionais, que seguem viagem até o destino final.

A Rússia adota esse sistema porque os navios preparados para o gelo são caros e escassos. Eles fazem apenas o trecho ártico, enquanto embarcações convencionais completam a viagem.

Essa troca pode ocorrer de navio para navio, nas chamadas operações ship-to-ship, ou com auxílio de unidades flutuantes de armazenamento.

Transferir petróleo ou gás entre embarcações já exige muito cuidado em condições normais. No Ártico, gelo, frio extremo, pouca visibilidade e enormes distâncias dos centros de emergência tornam qualquer vazamento muito mais difícil de controlar.

Tudo o que o Ártico não precisa agora é de um derramamento de óleo. A região já sofre de forma intensa com o aquecimento global, o recuo do gelo e a rápida transformação dos ecossistemas.

Como já mostramos, o degelo do permafrost contamina os rios do Ártico. Ao mesmo tempo, a tundra  já emite mais carbono do que absorve, sinal de uma mudança profunda no equilíbrio climático da região.

Nesse cenário, acrescentar o risco de grandes vazamentos de óleo seria aumentar ainda mais a pressão sobre um ambiente que já está no limite.

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