Baía de Guanabara e cidade do Rio de Janeiro

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    Quinta- feira, 27- 07- 2006.

    Faz uma eternidade que estamos em terra. Se você reparou na data do diário de bordo anterior terá visto que nossa última viagem, pelo litoral norte do Estado do Rio, terminou em 17 de Maio. Estamos começando esta vigésima segunda etapa mais de dois meses depois. Não tem sido assim a regra. Desde o início do programa nossa rotina é ficar meio mês no barco, uns 10, 12 dias, em São Paulo, e logo partimos para outra etapa. Puxado mesmo. Desta vez foi diferente. É que a TV Cultura resolveu reprisar todos os programas sobre a Bahia no mês de junho. Aproveitamos para descansar e dar uma “geral” no Mar Sem Fim. E finalmente estamos de volta. Ainda bem. Consegui superar a burocracia que envolve a produção de uma série para a TV. E acreditem, não é pouca coisa. Televisão, por fora, é uma maravilha. Por dentro é complexo e grandioso. Não seria fácil em nenhum lugar. Ela mexe com o ego das pessoas, sua vaidade; e tem uma força extraordinária: não só influencia, mas, sobretudo, projeta pessoas. Numa Fundação, como é o caso da TV Cultura de São Paulo, as coisas às vezes são ainda mais peculiares.

    O importante é que estamos de novo aqui, à bordo do Mar Sem Fim, no Iate Clube do Rio de Janeiro. Nesta etapa pretendemos gravar dois programas, um sobre a Baía de Guanabara, outro sobre a cidade do Rio de Janeiro.

    Assim que chegamos, esta tarde, fomos para a sede do IPHAN, para uma deliciosa aula de história do Brasil, com ênfase para a arquitetura e urbanismo do Rio, com Claudia Girão, uma doce arquiteta e artista plástica. Ela nos falou das inúmeras transformações desta cidade desde que Américo Vespúcio batizou o lugar, em 1501, passando por sua fundação, por Estácio de Sá, na praia de Fora, a transformação em capital em 1763 , as mudanças promovidas pela família Real, em 1808, o período Imperial, a proclamação da República e, em seguida, a capital Federal, sempre realçando as transformações, físicas e arquitetônicas, geradas por cada um destes períodos. Como primeiro dia não poderia ter sido melhor. Claudia é uma apaixonada por história e patrimônio público, e demonstrou grande talento e paciência para explicar em detalhes cada nuance.

    No volta para o Mar Sem Fim ainda tivemos a “emoção” de nos ver envolvidos num tiroteio entre polícia e bandidos, no centro financeiro do Rio, com direito a vermos feridos com o peito sangrando passando ao lado de nosso carro em direção ao camburão.

    Chegamos a bordo tarde. Tomamos banho no Iate Clube e formos dormir. Amanhã começamos a gravar a cidade.

    Sexta- feira, 28- 07- 2006.

    Hoje saímos em direção ao Jardim Botânico. Queríamos gravar imagens do parque fundado por D.João VI, e ainda conversar com pesquisadores deste instituto que, entre outras ações, trabalham no registro do DNA das plantas da Mata Atlântica. Begonha Bediaga, historiadora e pesquisadora, foi quem nos recebeu. Em nossa conversa ela minimizou o interesse do rei pela botânica, propriamente, e realçou que sua principal preocupação foi a fundação da fábrica de pólvora, no mesmo local, com o objetivo de se defender dos franceses que o haviam expulsado de Portugal e, na época, prometiam persegui-lo até mesmo aqui embaixo, ao sul do equador. Segundo ela, no entorno da fábrica de pólvora, “D. João aproveitou para plantar algumas árvores”, tudo isto bem longe de onde ele morava- São Cristóvão- porque “com a precária tecnologia da época era comum haver explosões constantes numa fábrica deste tipo”. A tese de Begonha é interessante. Ela acha que D. João foi bastante esperto, “afinal era a única cabeça coroada da Europa que não estava preso pelos franceses. Veio ao Brasil em fuga, soube se defender, e ainda retornou mais tarde quando conseguiu reaver o trono português”.

    De acordo com sua interpretação as famosas palmeiras Imperiais plantadas pelo monarca foram uma “espécie de retaliação”, uma vez que “são árvores nativas da (antiga) Ilha de França, atual ilhas Reunião, possessão francesa no Oceano Índico de onde foram roubadas por portugueses”. Como se vê, a bio- pirataria não é uma atividade nova, ao contrário.

    Naqueles anos era importante procurar plantas que contribuíssem para a viabilidade econômica das novas colônias, e o roubo de sementes e mudas uma prática corriqueira. O café, por exemplo, veio para cá em forma de mudas roubadas, dentro das malas do paraense Francisco Palheta (a mando dos portugueses), que as surrupiou da Guiana Francesa. O mesmo aconteceu com a cana caiena, que o próprio nome indica a origem: veio de Caiena, também na Guiana Francesa. E se conseguimos tirar riquezas vegetais de outros países, também recebemos o troco. Todos conhecem o episódio a respeito do roubo de mudas de seringueira, nativas da Amazônia, praticado pelos ingleses. Elas foram plantadas na Ásia. O capítulo seguinte, a História nos ensina, mostra que pouco tempo depois a riqueza da borracha nacional, que ergueu e deu fama a Manaus e Belém, entrava em colapso não conseguindo mais concorrer no mercado externo, e encerrando mais um ciclo econômico baseado no extrativismo.

    Terminada a entrevista fomos gravar imagens do magnífico Jardim Botânico, passeando entre as mais de quatro mil espécies plantadas numa área de 157 hectares. Visão espetacular. Árvores centenárias, Sumaúmas gigantes, lagos, ruínas da antiga fábrica de pólvora, pássaros de várias espécies, esquilos, as famosas palmeiras, enfim, uma incrível “ilha” de vida animal e vegetal em pleno coração da metrópole.

    Antes de irmos embora ainda conversamos com o pesquisador Sérgio Ricardo Cardoso que trabalha no programa Protaxon, da área de taxonomia, justamente a que pretende criar um banco de genes de espécies nativas, ou seja, definir e guardar (em poderosos congeladores) a maior quantidade de DNA das plantas da Mata Atlântica, único trabalho do gênero no Brasil.

    Depois do almoço, feito ali perto no famoso restaurante Hipódromo, tocamos para a outra ponta da cidade, o lado norte, em busca da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, onde está hoje o Museu Nacional que no passado foi o antigo palácio do Rei. Não é preciso dizer que nos perdemos várias vezes e atrasamos mais de uma hora, mas afinal conseguimos fazer as imagens. Mais um dia com a missão cumprida. Retornamos para o Iate Clube já no início da noite.

    Ao chegarmos reconhecemos vários amigos da vela, cujos últimos encontros tivemos no mar ao longo desta nossa viagem. Eram participantes do Cruzeiro Costa Leste, espécie de flotilha de veleiros, do Rio, São Paulo, e outros Estados do Sul, que se preparavam para iniciar a navegação até Recife. Eles devem participar da próxima REFENO, a regata Recife- Fernando de Noronha, que acontece todo ano em Setembro. Eram quase 40 veleiros.

    Conversando com eles ficamos sabendo da forte frente fria que está subindo, trazendo vento forte, chuva, e frio polar, com previsão de chegar aqui na madrugada de domingo. Em função dela resolvi alterar nossos planos. Em vez de fazer novas gravações de pontos históricos da cidade, amanhã vamos para o mar. Precisamos tentar registrar a orla do Rio, e parte da Baía de Guanabara, ainda com tempo bom. Sairemos de madrugada.

    Sábado, 29- 07- 2006.

    Ainda era escuro quando Alonso ligou o motor do Mar Sem Fim e navegou para fora da baía, em direção à ponta sul da praia de Ipanema, perto das ilhas Tijucas. Deste ponto começamos as gravações da orla com o objetivo de mostrar aos telespectadores até onde pode ir a mão do homem no processo de destruição da paisagem milenar, exuberante, da famosa costa carioca. Quando resolvi sair da cama depois de uma hora de navegação, ainda com os olhos inchados de sono, pude ver uma cena maravilhosa : o sol nascendo atrás das Serras, o céu todo avermelhado, e os contornos ainda indefinidos da cidade no horizonte. De longe, no mar, não se percebe, à primeira vista, a grandiosidade dos prédios, sua altura exagerada ou o exíguo espaço livre entre um bloco e outro. E menos ainda as favelas escalando suas encostas. Dá para ver apenas o desenho da geografia, esplêndido, deste trecho do litoral brasileiro. Não é à toa que os viajantes que chegavam de navio se extasiavam com a beleza do lugar: é de fato espetacular a visão de todos estes picos, cada um deles num formato singular, com encostas cobertas por Mata Atlântica, e paredões de pedra que caem abruptamente no mar deixando a mostra costões rochosos impressionantes.

    Mas à medida que o veleiro vai se aproximando aqueles tênues e sutis contornos se definem. Aos poucos o que era idílico vira macabro, e aparece a sua frente imensas favelas galgando as íngremes laterais dos morros, subindo cada vez mais alto, um casebre depois do outro, tal qual uma fileira de formigas trabalhadoras. E eles também devastam o que encontram no caminho: a mesma mata que desde centenas de anos atrás “segurava” e embelezava aquelas encostas. Tragédia anunciada. Neste caso, crime ambiental, grito de desespero, ausência do Estado. Drama brasileiro. Há no país, hoje, seis milhões e 535 mil favelados, 16,8 % deles moram aqui, no Rio de Janeiro (fonte: Ibope/IPP). O problema não é exclusivo. De acordo com dados da ONU são dois bilhões de favelados no mundo. É grave, e tão acintoso que se tolere esta situação, que a meta número 11, dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, é melhorar a vida de pelo menos 100 milhões de pessoas em favelas até o ano 2020. Com este fim, monitorar os avanços, ou não, a ONU criou um índice, o slum index, ou índice de favelização. Para o economista e urbanista francês, Yves Cabannes, da Universidade de Harvard e consultor internacional em políticas públicas, urbanismo e habitação popular, são cinco os indicadores importantes: “acesso inadequado a água e saneamento básico, falta de infra- estrutura, moradia de baixa qualidade, superadensamento e ausência de regularidade fundiária”. E ele completa: “este denominador comum é importante para que a ONU possa medir os avanços feitos no Desenvolvimento do Milênio” (FSP- 12- 02- 2006).

    Pois este drama é o primeiro que vemos ao nos aproximarmos da costa. E enquanto ainda estamos atônitos pela dimensão e dificuldade de acesso, começam a aparecer os prédios. São altos e largos, construídos quase grudados uns aos outros e muito próximos do mar. Eles são filhos da especulação imobiliária e do crescimento desordenado, e chamam para si a atenção que antes era dada às praias. Na verdade, para quem chega de barco, quase não se pode vê- las. É preciso se aproximar perigosamente até um pouco antes da arrebentação, para então sim, enxergar a areia branca das praias cariocas. Que absurdo, que saudades da Constituição da Paraíba que proíbe espigões próximos do litoral do Estado.

    Depois de contornarmos a orla do Rio entramos baía adentro. Fizemos uma parada na praia de Fora onde foi erguido o primeiro núcleo da cidade, por Estácio de Sá, em 1565, para que eu fizesse uma “passagem”, como se diz, para o programa, em seguida navegamos em direção ao Forte de Santa Cruz, do lado leste da baía, o lado em que fica Niterói.

    De lá entramos na enseada do Jurujuba, demandando o Rio Iate Clube de Niterói, vulgo Sailing. Queríamos visitar, e prestar uma homenagem, à uma notória família dedicada a náutica: os Schmitd- Grael, cujos membros mais famosos são hoje os irmãos Torben e Lars. Pois é, no “país do futebol”, o esporte que mais medalhas olímpicas e campeonatos mundiais levantou, é justamente o da vela, e dois de nossos maiores campeões, ao lado de Robert Scheidt, são justamente eles. Estivemos com Moema e Ingrid Schmidt, tia e prima, além da própria mãe de Torben, Axel, e Lars. Com este grupo tomamos um gin tônica, batemos um ótimo papo, e ainda recebi uma miniatura de jangada feita por mestre José Alberto, vulgo Teachar ( pronuncia-se “Titcha”), de Serra Grande, sul da Bahia, presente enviado pelo biólogo Anders Schmitd que esteve conosco em Canavieiras, BA, (vide diário de bordo número 18)

    Mas tínhamos muito ainda para registrar. Não deu tempo para esquentar a cadeira. Prosseguimos a navegação agora em direção à Ilha Fiscal. No caminho tivemos a sorte de cruzar com o antigo rebocador Laurindo Pitta, da Marinha do Brasil, que, todo restaurado, lindo e imponente, faz uma rota turística pela baía. Fotos, muitas delas foram tiradas (vide site), até que chegamos na famosa Ilha onde rolou o último baile do Império. Ali fizemos novos registros e gravações, e seguimos navegando rente ao cais do porto, cruzando com imensas fragatas da Marinha atracadas, e com o Navio- Aeródromo, São Paulo, colosso da nossa Marinha de Guerra.

    Passamos em seguida pelo vão da ponte Rio- Niterói e navegamos para a Ilha do Fundão, podendo ver no fundo da baía outra cena sinistra: uma espécie de cemitério de navios. São imensos cascos, alguns ainda com o convés de pé, antigos, abandonados, adernando enferrujados à espera da morte. Como é caro desmonta- los eles ficam ali, a aguardando não sei qual desastre para se desintegrarem de vez, provocando mais um problema ecológico na maltratada Baía de Guanabara.

    Na ilha do Fundão novas cenas de terror. A poluição nesta parte (lado Oeste) é tamanha que flagramos pescadores passando a rede na praia e recolhendo dela três camarões, um siri, um pé de tênis, vários copos e muitos sacos de plástico. Degradante. Cena registrada, infelizmente, entrevista com o pescador feita. Hora de voltar ao Iate Clube. Durante o trajeto duas surpresas: uma bela macarronada preparada pelo Alonso, e o aviso do serviço móvel marítimo, da Embratel, através da estação “Rio- Rádio” , informando que na altura de Paranaguá a frente fria zunia com ventos de força 7 e 8 ( cerca de 50 nós). Ou seja, um início de furacão. Que bom estar dentro do porto, na baía bem abrigada, quando avisos como estes, alarmantes, ecoam pelas ondas do rádio. Ainda bem que estamos aqui. Nem bem terminei de agradecer a sorte quando o vento em rajadas começou a entrar. Chuva fina e um certo frio completavam o ambiente.

    Almocei tranqüilo na cabine, caí na cama, e dormi antes mesmo de chegarmos ao Iate Clube.

    Domingo, 30- 07- 2006.

    Hoje aproveitamos o tempo ruim para rodar pela cidade com um guia, gravando imagens das igrejas, palácios, e sítios históricos. A ladeira da Misericórdia, o Passeio Público, o Paço Imperial. São Bento, Outeiro da Glória, e Candelária. A Lapa, com seus arcos, mistérios, e lendas da boemia. Santa Tereza e seu charme lusitano. Deu pra ver como era bonita esta cidade antes da explosão de crescimento no século 20. E ficamos o dia todo nesta tarefa. Era tarde alta quando almoçamos em Copacabana, no Mários, conhecida churrascaria desta ponta da praia.Voltamos para bordo com o início da noite.

    Segunda- feira, 31- 07- 2006.

    Programa legal o de hoje. Começando pelo café da manhã feito pelo Alonso: panquecas com mel ou geléia. Depois fomos para Copacabana, no Posto Seis, onde fica uma das últimas colônias de pesca artesanal da região metropolitana do Rio. Lá descobrimos a derradeira canoa de pau, com mais de 70 anos, ainda em atividade (vide fotos no site). Foi uma baita emoção.

    Tivemos a sorte de encontrar o presidente da colônia, Ricardo Mantovani, que, como os outros pescadores, não tinha saído por causa da ressaca. Ele nos deu uma entrevista sensacional. Lúcido e esclarecido, Ricardo apontou os maiores problemas na ótica dos pescadores artesanais: excesso de poluição. E ele fica possesso ao denunciar que navios limpam seus porões e contêineres dentro da baía, piorando ainda mais a situação, fazendo com que ninguém queira comprar o pescado que fica “impregnado com o cheiro do óleo diesel”. Além disto há a competição desigual com enormes barcos de pesca que vez ou outra entram na baía e passam suas redes. E nós mesmos flagramos um deles que soltou um de seus botes para cercar o peixe dentro da área de poitas do Iate Clube do Rio (vide fotos). Ricardo ainda se queixou da falta de união dos pescadores, do fato de grande parte deles não conseguir sequer regularizar sua situação. A maioria é formada por semi-analfabetos, e “com a burocracia do Estado eles não conseguem tirar seus documentos. Deste modo mesmo tendo pescado por mais de 30 anos alguns não usufruem seus direitos trabalhistas, e também não conseguem se aposentar”. E completa: “o trabalho de despoluição não está surtindo efeito, é uma pena o governo não se empenhar mais”. Sua conclusão: “ O crescimento desordenado, despejos de esgoto diretamente no estuário e na Lagoa Rodrigo de Freitas, e a quantidade enorme de lixo de superfície na entrada da baía me deixam assustado. Parece o final dos tempos. Do jeito que as coisas estão indo eu não gostaria de ter nenhum filho como pescador. Ele não vai conseguir sobreviver”.

    É preciso falar mais?

    Antes de encerrar conversamos sobre a canoa. Sim, ela é a última das que foram feitas em troncos de árvores ainda em atividade por aqui. Pesca na baía, perguntei ? “Não, ela sai lá pra fora mesmo”. Indago sobre a idade. Ricardo não titubeia: “Mais de 70 anos”, e nos mostra uma foto dela num recorte de jornal, com legenda, mostrando que serviu de barricada aos tenentes durante a Revolta do Forte, em 1922. Incrível! Era de fato a mesma e bela canoa, que, com seu passado cheio de glórias e pescarias, ainda estava ali, na nossa frente, pronta para retomar suas saídas para o mar. Mais uma prova da excelência dos brasileiros na arte da marinharia. Uma pena que pouca gente saiba, e que quase ninguém valorize esta tradição centenária.

    Encerramos os trabalhos da manhã com chave de ouro. Resolvemos almoçar num bar de praia ali mesmo, enquanto esperávamos Mariella Camardelli Uzêda, engenheira agrônoma com doutorado em Recursos Naturais, que trabalha na ONG BioAtlântica, e que iria nos acompanhar esta tarde numa visita ao Instituto Baía da Guanabara, sediado no Horto Florestal de Niterói.

    Depois do almoço tocamos para lá. A sede desta ONG fica bem no meio do Horto Florestal. Em torno dela há uma linda porção de Mata Atlântica, com vários tipos de samambaias, árvores enormes, trepadeiras e folhagens. O lugar é uma beleza.

    A Instituição Baía de Guanabara é coordenada por Dora Hess de Negreiros, uma simpática senhora que já fez parte da FEEMA, quando nos anos 90, com a inspiração do movimento de São Paulo em torno da despoluição do Tietê, e ainda com a lembrança fresca da Eco-92, foi lançado no Rio um movimento semelhante (precisamente em 1993), visando a despoluição da Baía de Guanabara.

    Dora saiu da FEEMA durante o segundo Governo Brizola e, desde então, atua na ONG procurando produzir e divulgar informações a respeito do problema, além de participar em fóruns oficiais, como o Conselho Gestor da Baía da Guanabara, vinculado ao Governo do Estado (Desde o início do Governo de Rosinha Mateus, em 2003, não foi feita nenhuma reunião).

    Ela nos informou que depois de lançado o movimento, foi iniciado um estudo para o qual vieram técnicos do Japão que haviam participado da limpeza da baía de Tókio. Feito o diagnóstico, conseguiram ainda um financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), e do Banco Japonês para Cooperação Internacional, de mais de 800 milhões de dólares para a primeira etapa do projeto, com a contrapartida do Estado (a estimativa inicial para todo o serviço previa investimentos de 4 bilhões de dólares).

    O projeto, conhecido como “Programa de Despoluição da Baía de Guanabara”, tinha o objetivo de tratar cerca de 60% do esgoto lançado na baía, índice que mal chega hoje aos 25%. Passados tantos anos sequer a primeira etapa foi concluída.

    Os resultados, é óbvio, não são nada animadores. “Nove milhões de pessoas vivem no entorno da baía, e há duas refinarias dentro dela: a Duque de Caxias, da Petrobrás, inaugurada em 1961, e outra privada, do Grupo Peixoto de Castro. Três portos, diversos estaleiros. E mais: milhares de oficinas clandestinas, esgoto doméstico jogado in natura (são 15 mil litros por segundo, diariamente, de acordo com Eliane Canedo de Freitas Pinheiro, autora do livro “Baía de Guanabara), uma frota de automóveis poluentes circulando em toda sua volta, assoreamento dos rios, ocupação desordenada das bacias hidrográficas, e 16 municípios em volta. É muita coisa”.

    “ As obras começam e param. Não há continuidade por parte dos sucessivos governos. Dos 16 municípios, vários não têm nem mesmo água encanada. Sem água encanada não há tratamento de esgotos domésticos”, conclui.

    E Dora ainda aponta desatinos cometidos pelos governos estaduais, como a usina de tratamento Estação da Alegria, “ para atender a Zona Norte do Rio. Ela fica ao lado da Linha Vermelha e está há dez anos sendo construída sem nunca terminar!”, diz exaltada. Dora explica que no passado o problema da Baía de Guanabara era a poluição industrial, já que muitas das empresas instaladas eram das décadas de 40 e 50, portanto sem a tecnologia moderna. Mas hoje o caso pior é mesmo o do lixo e esgotos não tratados.

    Os números são cavalares: vão parar na baía resíduos de 12 mil toneladas de lixo dos aterros sanitários próximos. Estima-se que estes 16 municípios produzam algo como 450 toneladas de esgoto que também têm destino certo: a mesma baía. E ainda há derramamento de óleo, através da poluição difusa produzida pela frota de automóveis do Rio, e acidentes ocasionais na refinaria Duque de Caxias, ou com navios e barcos (O último derramamento, por parte da Petrobrás aconteceu no ano de 2000, quando cerca de um milhão e duzentos mil litros de óleo vazaram…). Fechando a lista temos ainda algumas toneladas de metais pesados, fruto dos efluentes industriais. Um massacre ambiental sem piedade.

    Perguntei sobre a pressão da opinião pública, do engajamento das diversas ONGs, e do papel da imprensa. A resposta foi desanimadora: “ O movimento ambientalista briga entre si pelos modelos e caminhos a serem seguidos. Todo mundo quer ser pai da criança e do modo como ela será educada. A imprensa ajuda pouco, o que faz as pessoas se desinteressarem”.

    Assim é mesmo difícil. No caso do Tietê, ao contrário, havia a Rádio Eldorado, em permanente campanha e vigília, o Estadão atrás, segurando a retaguarda: nós cobrávamos providências, denunciávamos o descaso, exigíamos mudanças, sempre dando voz aos ambientalistas, e a notáveis da sociedade que endossavam nossa crítica.

    A história vale a pena ser contada, afinal, foi através dela que tudo começou. Tínhamos acabado de contratar um novo diretor de jornalismo, Marco Antonio Gomes, que chegou para sacudir a poeira do conformismo e acabar de vez com o espírito burocrático, de “repartição pública”, que ainda havia na época. A primeira providencia que pedi foi que procurássemos sair do oficial, criando novas matérias e fugindo do ramerrão do dia- a- dia. Marco se isolou na redação com sua equipe por dias seguidos. Depois trouxe uma série de idéias. Uma delas era fazer um programa que mostrasse a poluição do Tietê, um assunto ignorado pela imprensa paulista.

    Naquele tempo falava-se na destruição da Mata Atlântica, no caos Amazônico, no fim do Cerrado, na poluição do ar, etc. E nem uma linha era escrita sobre o esgoto a céu aberto em que se transformara nosso rio. O programa foi montado de forma interessante e pouco comum. Enquanto uma equipe nossa subia o Tietê de barco, para mostrar sua condição indigna, outra, da BBC de Londres, com quem tínhamos um acordo operacional, desceria o Tâmisa descrevendo as ações que foram feitas pela despoluição do rio inglês, mostrando que quando a opinião pública londrina se reuniu e exigiu soluções, o poder público agiu e muitos anos depois o rio foi despoluído. Era este o mote do programa: a força da opinião pública e sua capacidade de fazer os governos agirem.

    Foi uma explosão no ar. Nem bem o programa acabara e centenas de pessoas ligavam dando sua opinião, querendo contribuir, propondo mobilização. Durante dias seguidos não consegui trabalhar. Passava o tempo atendendo ouvintes, escolas, associações de classe. Até um delegado da polícia foi na Eldorado “para dar dinheiro para a campanha”. Mas não havia campanha alguma. Só o programa. A repercussão foi de tal forma extraordinária que procurei ajuda de uma ONG, a SOS Mata- Atlântica, na época dirigida por João Paulo Capobianco, e contei a ele o que estava acontecendo.

    Capô, como era conhecido, ficou excitado, mas ponderou que sua entidade cuidava apenas da mata, não poderia assumir uma causa tão grande e polêmica. Faltava dinheiro, pessoal especializado, etc. Ainda assim levaria o assunto ao Conselho. Dias depois me ligou e foi categórico: se eu conseguisse financiamento eles comprariam a briga. Fizemos um planejamento de custos e fui ao mercado. Depois de algum tempo consegui um financiamento de 350 mil dólares do Unibanco. Na época (1991) foi a maior doação dada a causas ambientais pela iniciativa privada. Este dinheiro manteria o Núcleo União Pró- Tietê funcionando por três anos, a partir daí ele teria que se virar sozinho, o que acabou de fato acabou acontecendo. A SOS Mata- Atlântica aceitara o desafio da Eldorado e seus ouvintes. Mário Mantovani foi chamado para dirigir o Núcleo e mobilizar a opinião pública, o que fez com rara eficiência. Em pouco tempo um abaixo- assinado, o maior já feito no país para questões deste tipo, conseguia reunir um milhão e duzentas mil assinaturas, quase dez por cento da população paulista emprestou seu apoio, demonstrando solidariedade e indignação. Em seguida o governo agiu, pressionado pela opinião pública. Mário Covas investiu um bilhão de dólares na primeira etapa. Alckmim, outros tantos, na segunda.

    Foi a maior obra de saneamento básico já feita no Brasil. Falta agora a terceira etapa. Mas já houve uma grande melhora. Mais de 90% das 1.250 empresas poluidoras, mapeadas pela Sabesp, colocaram filtros. Já não há nova poluição industrial. Milhares de córregos foram canalizados e usinas de tratamento construídas. A calha do Tietê foi dragada e aprofundada. Falta educar a população, que, como a daqui, na Guanabara, continua a jogar no rio ou na baía, desde bitucas de cigarro, até móveis velhos, passando por pneus, plástico em quantidade, e todo tipo de lixo. Ainda assim o caso paulista é vencedor. Basta a população continuar vigilante que o próximo governador de São Paulo se verá obrigado a iniciar, e encerrar, a terceira e derradeira etapa de despoluição. Particularmente fico extremamente feliz por ter participado, já que, na ocasião, tive o privilégio de ser o diretor da Eldorado. Ele não só está atingindo seus objetivos, passados mais de 15 anos de seu início( 1990), como influenciou o da Baía de Guanabara, como nos confirmou Dora Hess, e também foi o inspirador do que pretendia limpar o rio Guaíba. Quando estivermos no sul vou checar como anda, mas pelo que sei, não vai lá muito bem…

    Terminamos o dia com a boa sensação do dever cumprido. Amanhã cedo vamos visitar a bacia hidrográfica dos rios Guapi- Macacu, uma das únicas fontes de água doce da Baía de Guanabara ainda não poluída. Queremos chamar a atenção para o lado ruim, mas fazemos questão de mostrar também o que ainda existe de bom.

    Terça, 01- 08- 2006.

    Esta manhã recebemos à bordo uma equipe do programa Super-tudo, da TVE- RJ, que queria gravar uma entrevista que mostrasse os bastidores do programa Mar Sem Fim. Faz dois meses que nosso programa começou a ser exibido através da TVE, que também é cabeça de rede para várias TVs educativas Brasil afora. E eles foram generosos. Escolheram três horários para veicular o programa: sextas- feiras às 19hs30. A reprise acontece aos domingos, às 22hs 30, e ainda existe uma terceira exibição, num horário alternativo, aos sábados, às 14hs 30.

    Ficamos a manhã toda contando sobre nossas viagens. Falamos dos apertos que passamos, das paisagens deslumbrantes, do mau trato e pouca fiscalização. E vários outros problemas que vimos. .

    Quando acabaram as gravações passava do meio-dia. Almoçamos no próprio Iate Clube do Rio, enquanto esperávamos nossa amiga, Mariella Camardelli Uzêda, da ONG BioAtlântica, que iria nos acompanhar.

    Em seguida tomamos a estrada em direção a Friburgo, na Serra carioca. São quase cem quilômetros até Cachoeiras de Macacu. No caminho cruzamos por uma área de mares de morros (em geologia esta expressão é usada para descrever uma área relativamente plana, com morros em formato de meia laranja), ainda com um pouco de mata secundária em seus cumes. Mariella nos explicou que no passado as pessoas moravam no topo para fugir das inundações das várzeas. Com o tempo foram descendo, e a mata que agora vemos se regenerou. Posteriormente, nos anos 40, a maioria dos rios que desemboca na Baía de Guanabara teve seus cursos retificados, porque, acreditava-se, que modificando seu trajeto conseguiriam drenar as áreas alagadas, diminuindo doenças comuns como malária, paludismo e outras. O resultado foi catastrófico: aumentou demais o assoreamento, e com ele novos alagamentos passaram a ser freqüentes. Hoje, a conseqüência, é que os assentados tornem a subir para o cume desmatando novamente o pouco que sobrou.

    Mariella é uma engenheira agrônoma, com doutorado em Recursos Naturais, que está encarregada, entre outras, de criar o plano de manejo para a APA (àrea de proteção ambiental) da Bacia do rio Macacu. Foi dela a idéia de nos levar até lá, onde está o Parque Estadual dos Três Picos, a maior UC (Unidade de Conservação) do Estado, com 46.350 hectares, que abrange a área de cinco municípios: Teresópolis, Guapimirim, Cachoeiras de Macacu, Nova Friburgo e Silva Jardim.

    Chegamos por volta das três da tarde e, quanto mais subíamos a Serra, pior o tempo ficava. Neblina, chuva fina e frio. Tudo causado pela entrada da frente fria a que já me referi. Pena. Com este tempo as gravações sempre ficam prejudicadas.

    Fomos recebidos por Flávio Luiz de Castro Jesus, administrador do parque. Ele nos explicou quais os maiores problemas que enfrenta: a caça e extração de palmito, incêndios, muitos deles causados por despachos e ou oferendas de Candomblé e Umbanda (com suas velas de sempre), a falta de regularização fundiária, e o turismo sem controle.

    Em seguida nos levou até a Bacia do rio Macacu, um lugar lindo, com a água cristalina descendo a Serra sobre um leito de pedras, formando corredeiras, pequenos poços, quedas e cachoeiras, sempre circundado por uma lindíssima Mata Atlântica. Gravamos com ele uma entrevista, e prosseguimos pela trilha até chegarmos num local absolutamente especial, deslumbrante, onde um imponente jequitibá- rosa, com cerca de mil anos, com 40 metros de altura, tirou o nosso fôlego (vide fotos). Impressionante. Ficamos extasiados ante aquela maravilha fincada no chão, em plena encosta da Serra, 400 metros acima do nível do mar. Já estava escurecendo e a chuva não dava trégua. Mesmo assim ficamos um bom tempo admirando sua beleza. Fiquei imaginando com seria a Mata Atlântica antes da chegada dos portugueses, e conseqüente início da destruição. Poucas vezes senti uma emoção como a daqueles momentos, ao lado da árvore milenar.

    Voltamos para o Rio com aquela imagem gigantesca fixada na memória. Até agora este foi um dos mais belos momentos que a equipe do Mar Sem Fim teve, desde que começamos esta viagem no rio Oiapoque, há mais de um ano atrás.

    Quarta- feira, 2- 08- 2006.

    No mar outra vez. Desta vez navegamos para o fundo da Baía de Guanabara, quase 15 milhas adentro, por detrás da Ilha do Governador. Queríamos chegar até a foz dos rios Iguaçu e Sarapuí, dois dos mais poluídos, com toneladas de lixo boiando em sua fétida água. O tempo continuava fechado, frio e chuvoso. Seguimos navegando até onde permitia o calado do veleiro, de um metro e oitenta. Fundeamos há três milhas da foz. Daqui pra frente só de botinho com motor de popa. O sudoeste estava forte para o diminuto tamanho da embarcação. Com 15 a 18 nós, ele levantava ondas que dificultavam nosso avanço. O tempo ruim também prejudicava a visibilidade impedindo a visão da costa o suficiente para identificar pontos notáveis. Eu e o cinegrafista Cardozo nos vestimos com roupa de tempo, calça e casaco de chuva, mas mesmo assim com meia hora de navegação já estávamos ensopados e com frio. Nosso equipamento seguia dentro de sacos hermeticamente vedados, para evitar os respingos provocados pelas ondas e a água que vinha do céu. Ao longe podíamos ver manchas enormes de cor estranha, se misturando com a vegetação antes formada por mangues e floresta nativa. Eram as favelas, esta chaga nacional, em especial aqui no Rio de Janeiro. Sobre elas disse o economista Ricardo Paes de Barros, do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) : “O Rio tem favelas demais para seu peso na economia. Há Estados mais pobres, com menor grau de favelização” (O Estado de S. Paulo, caderno Cidades, em 12- 02- 2006). É, não dá pra ficar assim. É preciso não perder a capacidade de indignação. Quando isto acontece nenhuma outra transformação é possível.

    Chegando mais próximos da costa vimos um pescador. Perguntamos sobre a foz dos rios e ele nos apontou a direção errada. Navegamos por mais, uns bons 40 minutos, até que encontramos outro barco de pesca, que, este sim, nos indicou o lado certo. Demos meia-volta.

    Valeu o erro pelo encontro que tivemos com uma canoa movida a pano, provavelmente uma das últimas, e única que vimos nesta etapa. Era de madeira, como sempre, e tinha uma vela de espicha. Com aquele mar grosso ela navegava perfeitamente, carregada com equipamentos de pesca, rede, e que tais, e ainda rebocando outra! Que maravilha poder ver uma canoa à vela, em pleno século 21, navegando na Baía de Guanabara. Agradeci ao pescador equivocado. Não fosse ele e eu não teria testemunhado esta volta ao passado.

    Demorou, outros 30 a 40 minutos, até chegarmos na entrada de um canal. Seria a foz do rio Iguaçu? Entrei para checar. Era o canal REDUC, aberto pela refinaria da Petrobrás, e imundo. O mangue ralo de suas margens estava repleto de sacos de plástico, este material que demora quase um século para se desfazer. Entramos e gravamos os estragos produzidos pelo progresso, com tanques da refinaria onde antes havia mangue. Guardas da empresa acenavam procurando nos intimidar. Faziam sinais nervosos, gritavam sons que não conseguíamos entender, mas compreendemos logo o que queriam dizer: Se afastem daí!

    Ignoramos os apelos e continuamos, até que o motor de popa entrou em pane. Agora não temos outra opção. Remar contra o vento e a correnteza não dá. Tivemos que pedir ajuda no porto da empresa. Diversos guardas vieram correndo e, de forma truculenta e autoritária, anotaram nossos nomes e perguntaram porque estávamos lá. Ao nos identificarmos como sendo da imprensa, da TVE e Cultura, diminuíram seu ímpeto e mudaram de tom. Escapamos desta vez, ainda bem.

    Por sorte um barco que presta serviços à Petrobrás estava saindo do canal em direção à baía, e nos rebocou até o Mar Sem Fim. A foz do rio ficava ainda uns 200 metros acima do lugar onde tínhamos entrado. Pena, não será desta vez que gravaremos mais esta vergonha. A pouca luz do dia já estava indo embora, e nós também decidimos retornar ao Iate Clube. Acabava nossa aventura na Baía de Guanabara.

    Quinta- feira, 3- 08- 2006.

    Hoje gravamos mais cenas para o programa sobre a cidade do Rio de Janeiro. Ainda havia alguns bairros que não tínhamos visitado, como a Gávea, a Barra, para onde cresce a cidade, com seus condomínios, shoppings com nomes em inglês, favelas como sempre, e até pinus plantados em lugar do belo Chapéu- de- Sol. Até aqui, no Rio, estas malditas e feias árvores invadem e tomam o lugar das nativas e, no caso da Barra, plantados pelo poder público em plena avenida. É o fim da picada!

    No fim da tarde nos despedimos do Alonso e do Mar Sem Fim, e pegamos o avião para São Paulo. Estava terminada esta etapa. Na próxima vamos sair em direção à Restinga da Marambaia e, depois, Angra dos Reis. Até lá.

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