Paranaguá- Ilha do Mel- Guaratuba (PR)- São Francisco do Sul (SC)

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    Segunda- feira, 27- 11- 2006.

    Ao meio- dia o avião decolou. 40 minutos depois pousamos em Curitiba. Churrasco para o almoço e uma conversa na Universidade Federal foram os programas seguintes.

    Entrevistamos a professora Márcia Marques, do curso de ecologia da UFPR, autora do livro “História Natural e Conservação da Ilha do Mel”.

    O tempo não nos ajuda. O céu está todo nublado, cinzento, com cara de poucos amigos. Josélia Pegorim me garante que quarta começa a abrir e “na quinta devemos ter tempo bom”.

    Nem contei sobre o resultado da reunião que comentei no diário de bordo de Iguape. Deu certo. Conseguimos o apoio da Colgate, nosso novo patrocinador. A partir desta etapa temos mais um adesivo para colar no casco do veleiro. Tarefa boa, esta.

    Perguntei para Márcia o que, de especial, havia na ilha do Mel para que ela se dedicasse a estudá-la e até publicasse um livro a respeito.

    A jovem, bela e esguia professora, explicou que o que mais a atrai é a sua restinga. Segundo sua visão há poucas restingas, hoje, no Brasil. “Como são áreas planas, próximas ao mar, são as primeiras que dançam com a especulação”.

    Na ilha do Mel 70% da área é de planícies com formação de restinga, neste caso, protegidas desde 1982, quando ela se tornou Estação Ecológica Estadual. Márcia se empolga ao contar que a maior parte das restingas da costa brasileira tem formações vegetais rasteiras, com arbustos e moitas, no máximo, mas, as daqui, ao contrário, têm formação florestal mais desenvolvida com árvores que chegam aos 20 metros de altura.

    Ilha do Mel hoje vive do turismo, quase não há mais as comunidades tradicionais. “Um ou outro antigo pescador”, de acordo com ela, o resto se vira com o turismo.

    A ilha foi “redescoberta” pelos hippies, nos anos 70. Depois, na década de 80, vieram os mochileiros e campistas que se hospedavam ainda na casa dos nativos. Em seguida chegou a especulação. Mais uma vez as posses foram vendidas por preço de banana. Novos hotéis e pousadas foram feitos e, hoje, quase todos estão nas mãos de gente de fora. São nove mil leitos à disposição, um número que, mesmo sem eu nunca ter desembarcado me parece exagerado. Acho difícil para um ambiente frágil, e único, como o das ilhas, suportar um impacto diário deste tamanho.

    Encerrada nossa conversa descemos a serra, de táxi, para Paranaguá, onde estava o Mar Sem Fim.

    Mais uma hora e meia, sempre debaixo de chuva, e estávamos a bordo de novo.

    Aqui o tempo está bem pior. Venta de sul e cai muita água do céu.

    Sorte que amanhã não vamos navegar. Temos mais conversas marcadas.

    Terça- feira, 28- 11- 2006.

    Hoje cedo seguimos para o Centro de Estudos do Mar, da Universidade Federal do Paraná, que fica ao lado de Paranaguá, em Pontal do Sul.

    Uma sala foi reservada para a equipe do Mar Sem Fim e todos os professores, e doutorandos, ficaram à nossa disposição. Chegamos cedo e saímos tarde. Ao todo entrevistamos quatro especialistas.

    Como sempre, aprendemos barbaramente.

    Fabian Sá, doutorando em Geoquímica Ambiental, nos falou da contaminação da baía de Paranaguá por metais pesados, arsênico e níquel. As duas substâncias, ele constatou, apresentaram níveis acima dos da Resolução do Conama, que trata a questão. No momento ele procura descobrir de onde viriam. São muitas as hipóteses porque aqui fica um dos portos mais movimentados do Brasil e a dragagem é de dois em dois anos, e ainda há a refinaria da Petrobrás, indústrias, estaleiros, cidades, agricultura (e agrotóxicos) por perto, etc.

    O trabalho é recente e inédito. Por isto, segundo Fabian, é ainda mais complicado estabelecer padrões ou fazer comparações, e definir qual índice aceitável de contaminação, “porque é a primeira vez que se faz esta medição”.

    Perguntei como o porto estaria preparado para lidar com acidentes, que são possíveis, e normalmente graves, nesta atividade. Ele sorriu e respondeu o esperado: eles não têm planos, equipamentos, nada. E contou que quando explodiu o navio Vicunha, carregado de metanol, cerca de um ano e meio atrás, o combustível se extinguiu pelo fogo mesmo, quase dois dias depois do início das chamas. Durante todo o episódio muito pouco foi feito pelas autoridades portuárias, a não ser observar, impotentes, o desenrolar da ação.

    Infelizmente tem sido alta a freqüência de acidentes em Paranaguá. De tempos em tempos os jornais trazem as notícias. Agora mesmo, faz duas ou três semanas, novo vazamento de óleo vegetal, mais uma vez, aconteceu. As providências, quando existem, são insuficientes e ineficazes. E tudo isto justamente numa das baías do complexo estuarino mais importante do Atlântico Sul.

    Quando chegamos em Paranaguá, na última etapa, um dos primeiros passeios foi pelo porto. Havia, como sempre, vários navios atracados, e diversos outros esperando fundeados na baía. Ao navegarmos defronte ao cais, vimos um deles com suas quatro potentes bombas ligadas, expelindo água de lastro enquanto recebia carga. Sem mais, nem menos. Em pleno porto.

    Perguntei aos professores sobre a bioinvasão na baía de Paranaguá. Todos, sem exceção, confirmaram diversos casos. Infelizmente o especialista neste assunto não estava hoje no campus, e nenhum dos outros quis avançar em um tema que não é sua especialidade, mesmo assim deu pra ficar sabendo sobre um mexilhão exótico que já está tomando o lugar dos nativos, nos costões da Ilha do Mel, da proliferação de algas na baía, e até de certos peixes estranhos que passaram a ser pescados recentemente, e ainda não foram identificados.

    Os maiores problemas nas águas do litoral brasileiro, hoje, são a poluição e a bioinvasão. Ambas agem como um câncer: sorrateiramente vão tomando conta do organismo marinho, justamente em sua porção mais rica em nutrientes e ecossistemas. De lá tiramos 90% da proteína que consumimos dos mares. E é em suas águas, as que ficam próximas da costa, que começa a cadeia de vida marinha.

    Mas a lista de problemas não para por aí. Ainda é preciso colocar, debaixo desta rubrica, a falta de saneamento básico das cidades do entorno.

    Paranaguá tem 127 mil habitantes que moram em 34 mil e 500 residências. 69 % delas têm seus esgotos tratados. Antonina, com 19 mil habitantes, divididos em 5 mil e 600 domicílios, conta com apenas 32% deles atendidos pela rede geral de esgotos. E Guaraqueçaba ganha de todas. Seus oito mil habitantes moram em cerca de dois mil e cem domicílios mas, apenas, 5,4% , ou 115, contam com tratamento de esgotos (Fonte: IBGE 2000). Na temporada estas cidades, e outras vizinhas, recebem três a quatro vezes mais pessoas, os turistas, e a sujeira aumenta brutalmente. E vai tudo pro mar.

    Ainda conversamos com o biólogo Claro, que também estuda a Ilha do Mel. Ele concorda que é demais a quantidade de turistas que freqüentam a ilha. E diz que o número foi “limitado” em sete mil por dia, mas no pico do verão chega a dez mil!

    Perguntei sobre o Conselho de Gestão do Parque, mas ele não se entusiasmou. Os nativos não têm representação. Desistiram de participar. Dos vários planos apresentados apenas um contempla trabalhos com a comunidade. Não há capacitação para eles, que acabam trabalhando em subempregos.

    Segundo Claro um dos maiores problemas é o do lixo. No caso das mais de 60 pousadas ele é exportado para o continente. Já o dos cerca de 1500 ilhéus, divididos em 4 vilas, “fica por lá mesmo”.

    Em seguida falamos com outro especialista, Rangel, que nos explicou sobre Guaratuba, que vamos conhecer logo mais.

    Por fim, nossa entrevista foi com o professor Frederico Brandini, que tem um interessante projeto de colocar habitats artificiais (recifes artificiais) em toda a costa paranaense, que, ao mesmo tempo, impedem a pesca de arrasto por parte dos grandes barcos profissionais.

    Esta é outra pressão brutal que sofre a parte mais produtiva do nosso litoral. Desde o Amapá temos visto e denunciado o arrasto. Às vezes a menos de uma milha da costa!

    Brandini fez um discurso arrasador, o mais contundente que ouvi entre todos os professores com os quais falamos, sobre os malefícios desta, e outras modalidades, e intensidade, da pesca profissional. Quando perguntei sobre a saúde dos mares ele se exaltou. Ficou vermelho. Suas veias do pescoço incharam. Parecia que iam explodir. E Brandini foi peremptório: péssima. E repetiu: pééssima!

    Foi uma manhã riquíssima. Estamos prontos para navegar, é só o tempo melhorar um pouco. Esta noite choveu sem parar. E pesado. Hoje parecia que ia melhorar, depois, fechou de novo. Vamos ver amanhã.

    Quarta- feira, 29-11- 2006.

    Levantei tarde, coisa rara na rotina das etapas. Só saí da cama às 10h30. Tínhamos pouca coisa pra fazer. Apenas gravar uma série de passagens para o programa anterior, que já está pronto em São Paulo. O resto do dia seria livre.

    Com calma tomei meu café e, em seguida, embarcamos no bote de apoio.

    A primeira gravação seria sobre o naufrágio do legendário Joshua Slocum, em 1887, na baía de Antonina.

    Em 20 minutos estávamos na entrada onde gravamos.

    Contei a história de como Slocum contornou a adversidade, depois de perder seu navio, para escrever uma das páginas mais bonitas da náutica mundial. Simplesmente sem reclamar da sorte, ou praguejar, ele entrou resignado e confiante, na mata atlântica, onde escolheu as melhores árvores. Em seguida trabalhou a madeira e, aos poucos, construiu um novo veleiro, de 35 pés, cheio de inovações técnicas avançadas para a época. Toda a obra foi feita com apenas um machado, dois serrotes, um enxó, e uma lima, ferramentas que salvara do acidente. O casco foi baseado nas canoas brasileiras, que ele tanto admirava, e nos barcos pesqueiros de Santa Ann, nos Estados Unidos. E foi armado à maneira das sampanas orientais, com velas fáceis de manejar, leves e simples que sua mulher costurou. Para evitar que emborcasse Slocum colocou nas bordas, de ambos os lados do costado, varas de bambu gigante, que fazem como sacos de ar, dificultando o tombamento do veleiro e, em caso de acontecer o capote, ajudam a endireitá-lo novamente.

    Jogou seu barquinho na água em 13 de maio de 1888 e, para homenagear a data especial, batizou-o de “Liberdade”, na própria língua de Camões. 55 dias depois de iniciar a viagem de Paranaguá, com cinco mil milhas na esteira, tendo a bordo a mulher e dois filhos, de 14 e 5 anos, Slocum chegou com o Liberdade em sua terra natal, Washington. O Mar Sem Fim tinha que homenagear o grande marinheiro, mito e inspirador.

    Em seguida navegamos para a entrada da barra de Paranaguá, lá eu iria gravar mais duas passagens.

    O tempo mais uma vez ameaçou abrir, mas depois fechou. E nova chuva, desta vez, fina, começou a cair.

    Voltamos para o abrigo do Mar Sem Fim.

    Paulina decupou as passagens. Em seguida fomos ao correio despachar para São Paulo. Por último o supra-sumo da chatice, o super mercado. E, finalmente, embarcamos.

    Já era tarde quando tudo ficou pronto, não daria para chegarmos com luz do dia. Sairemos de madrugada.

    Antes de dormir um imprevisto: a máquina de filmar resolveu pifar. Pela segunda vez, desde o início do programa, acontece a mesma coisa. No dia da saída, antes de deixarmos terra, na última hora, a danada refuga. Tanto aqui, como em Ilhéus, foi assim. O consolo é pensar: ainda bem que foi aqui, dá tempo de trocar. Mas vamos perder um dia…

    Quinta- feira, 30- 11- 2006.

    Logo cedo Regina, nosso apoio em terra, já ligava para dar as coordenadas. A outra máquina seria trazida pela Andréa, da produtora, no mesmo vôo que fizemos. Precisávamos estar em Curitiba na hora da chegada para o encontro, e troca de equipamento.

    Eram quatro da tarde quando finalmente embarcamos. Mais uma vez a chuva fina, e o vento de sul, nos fizeram companhia.

    Termino o dia, às onze e meia da noite, pondo em ordem meu relato. É bom poder escrever em cima dos fatos, das lembranças e impressões. Fica bem mais fácil.

    O veleiro joga de lado. E bastante. Estamos fundeados no saco do Limoeiro, na ilha do Mel, atrás da ponta onde fica o Farol. O sul, sueste, sopra a 20, 22 nós. E não temos uma grande proteção. Estamos na parte da ilha mais saliente em direção ao mar, na boca da baía de Paranaguá, e as ondas entram quase sem barreiras.

    Na cabine os barulhos são incríveis. O interior de um veleiro se parece com uma grande caixa de ressonância. Estalos, rangidos de vários tipos, panelas que batem umas nas outras, cabos raspando no mastro, água contra o costado, o vento zunindo nos brandais… De vez em quando um solavanco maior me obriga a parar de escrever ou, então, corrigir a letra que digitei sem querer.

    Lá fora está frio e molhado. Agora mesmo tive que sair para fechar a gaiúta da entrada. A popa do barco, empurrada pela maré vazante, deu de frente pra chuva.

    Dentro da cabine é quente, barulhento e, o piso e as paredes são completamente irregulares. Não param quietos.

    Mas, cá entre nós, é gostoso este ambiente.

    Sexta- feira, 1- 12- 2006.

    Hoje, timidamente, o sol começou a sair. Ainda há muitas nuvens, algumas bem carregadas, outras não. Enquanto andávamos pelos arredores da vila Encantada, espremida entre dois morros, dando provas cabais de falta de planejamento aliado a crescimento desordenado e caótico, ao longe víamos chuvas localizadas.

    Andamos pra dedéu. Desde umas 8h30 e, até agora, duas da tarde.

    Subindo e descendo morros. No primeiro desembarque, na Encantada, atravessamos toda a vila até chegar na gruta homônima, no final da praia de Fora. Depois continuamos na direção norte, até a praia seguinte, do Miguel.

    Retornamos para Prainha, onde desembarcamos e, com a ajuda do botão, fomos conhecer outra das quatro vilas, de nome Brasília.

    Mais uma vez caminhamos pela estreita península, depois pela praia das Conchas, até chegarmos ao Farol, construído por ordem de D. Pedro II , em 1872. Por todo o trajeto chama a atenção os vários ecossistemas da ilha: pequenas dunas, praias, uma linda e exuberante restinga, rios, lagos. Ilha do Mel é de fato uma beleza. Não por outro motivo, é o segundo ponto de turismo mais importante do Paraná. Nem por isto o poder público a trata com o carinho que merece. O primeiro atracadouro para barcos foi construído apenas em 1996. Parece piada, mas não é.

    Finalmente, retornamos para o barco. Antes do almoço ainda vou ver como ficaram as fotos desta manhã. Depois, se ainda der tempo, outro desembarque será feito.

    Não deu tempo. Ou melhor, deu, mas faltou vontade. Estávamos esfomeados pela energia gasta em terra. Almoçamos um belo churrasco: bife de chouriço, arroz e batatas. Tomamos vinho. Depois cada um deitou num canto.

    Levantei pouco antes da meia noite, com sede, atrás de uma coca. Paulina terminava sua leitura no cockpit, enquanto o Cardozo preparava sua cama. Agora que eles foram dormir, acordei. Lá fora o vento diminuiu bastante e a noite está aberta. Amanhã vamos ter tempo bom.

    Sábado, 2- 12- 2006.

    Cedinho iniciamos navegação para Guaratuba, 22 milhas ao sul. O mar estava bastante agitado. Ventou muito estes dias. Nossa saída pelo canal da barra foi digna de nota. A região toda é bem rasa e desprotegida. Qualquer vento levanta ondas consideráveis, por isto temos que seguir pelo canal de acesso ao porto, demarcado por bóias, sob pena de encalharmos. No meio do trajeto olhamos para trás e vimos um enorme navio que também saía naquele momento. Vamos ter que dar passagem, ele é muito mais rápido que nós. Foi uma saída tensa. Antes da penúltima bóia a enorme massa de ferro estava em nossa popa. Desviei para boreste e deixei o monstro passar. O Mar Sem Fim balançava como um João- bobo, socado por uma criança enfurecida.

    Mas, durante a travessia, de notável, foi só isto que aconteceu.

    Poucas horas depois estávamos em frente à barra de Guaratuba. Ondas estouravam por todos os lados. A gente olhava, procurava, mas não conseguíamos encontrar o canal de acesso. Mais uma barra perigosa, não demarcada. É incrível. Somos um país marítimo que realmente deu as costas para o mar. Desde o Amapá e até aqui, apenas constatamos o inevitável: não há qualquer facilidade ou infra- estrutura para a atividade náutica que se fosse minimamente bem feita traria alguns milhões de dólares, via turismo, para várias cidades costeiras.

    Há uma enorme quantidade de gente que navega pelo mundo em barcos pequenos. Nosso país tem uma costa lindíssima, sem furacões, maremotos, tsunamis e que tais. A moeda é ainda barata se comparada ao dólar, ou euro, mas, além de não haver estrutura mínima, mesmo um mísero trapiche para desembarque muitas vezes, não existem quase marinas, e, um barco estrangeiro, ao chegar em nossas águas, não recebe licença para ficar mais que três meses. Com isto a comunidade internacional, que navega errante pelo mundo, evita a todo custo nossos oito mil km de exuberante litoral. E nem mesmo os pescadores que aqui trabalham têm segurança para exercer sua profissão. Pagamos impostos por que, e para que?

    Bem, diante da situação, recorri ao rádio de bordo, e me pus a chamar alguma embarcação que, dentro da baía, pudesse nos guiar na entrada. Não demorou para termos retorno. Alguém, que ouviu meu chamado, nos passou algumas coordenadas. Mesmo assim não identificávamos a entrada. Já estava quase desistindo, e voltando, quando uma lancha veio ao nosso encontro. Era a Sunrise, do Iate Clube de Caiobá. A bordo estavam o marinheiro, o proprietário e seu filho. Eles tiveram a generosidade de virem nos buscar. Entramos por entre ondas enormes, mas sempre com profundidade superior aos três metros.

    A baía de Guaratuba é pequena, se comparada a Paranaguá. São “apenas” 52 km de estuário e, de acordo com Rangel Angelotti, da Universidade Federal do Paraná, o maior conflito, e pressão, aqui, diz respeito ao crescimento populacional das cidades do entorno. Como sempre o saneamento básico é pífio, o crescimento desordenado das cidades, uma constante, e “o Estado, que nunca tem tempo de planejar, segue atrás, correndo contra o prejuízo”, assim definiu o professor Rangel.

    Ele nos contou ainda, que trabalhando por aqui conseguiram identificar uma demora de nove dias para a água da baía ser renovada. Em função de seu tamanho e sua boca, este é o tempo mínimo para uma salutar limpeza natural. Enquanto isto não acontece, a baía se enche de poluição urbana. Guaratuba tem 27 mil habitantes morando em 7 mil domicílios permanentes. Destes, apenas 19%, ou 1400, tem rede geral de esgotos. Nas férias e feriados, mais uma vez, a população triplica.

    Rangel explicou que nos últimos 50 anos houve uma mudança quase completa do perfil da população. Antes ela era 80% rural. Hoje a cifra mudou de lado: 80% da população é urbana. Ainda assim, segundo o professor, “a parte interna da baía está bem preservada, a grande pressão, por clubes náuticos, casas de veraneio, marinas, etc, acontece na desembocadura”.

    Aqui também já andaram tentando a criação de camarões. Na época usaram o Vanamei, originário do Pacífico, a exemplo do que ocorre no Nordeste. Muitos eram vendidos como isca aos pescadores esportivos. Felizmente, de acordo com Ragel, o Ibama, num átimo de lucidez, proibiu que continuassem.

    Atualmente, em maricultura, o que se tenta é o manejo, e criação, de ostras. Há muitos sítios onde a modalidade é praticada.

    Perguntei ao Rangel como ele vê a questão da preservação vis-a-vis o ambiente marinho. “Parece que está havendo uma mudança por parte do cidadão, mas ainda há muito comodismo”. E arremata: “Todo mundo quer preservar o meio ambiente, mas ninguém abre mão de ter uma casa na praia ou mudar seus hábitos de consumo”.

    Ele não poupa críticas ao modelo de parques adotado no Brasil: “Copiamos o americano, ultrapassado, que insiste no mito da natureza intocada”. E prosseguiu contundente:

    “A política preservacionista só faz tirar os nativos de áreas demarcadas para Parques, justamente aquelas pessoas que têm grande sensibilidade para os ciclos da natureza, ou que conhecem como ninguém a propriedade farmacológica de plantas e ervas”. E concluiu: “O que prejudica muito mais é a falta de capacitação dos gestores públicos, muitas vezes nomeados por ingerência política”.

    Concordo plenamente. Amanhã iniciamos a exploração de Guaratuba. Agora já não dá mais tempo.

    Domingo, 3- 12- 2006.

    Queríamos conhecer o fundo da baía, sua área mais preservada, mais rica em vida e vegetação. Fundeamos o Mar Sem Fim em frente, ou melhor, nos fundos da cidade de Guaratuba, e descemos em terra atrás de um prático. Iríamos navegar de bote, era preciso alguém que conhecesse a região a bordo.

    Em pouco tempo nos indicaram um garoto de 19 anos, esperto, ex- morador daquela região. Adriano passaria o dia conosco. Queríamos chegar na lagoa do Parado, acima do rio de nome idêntico, um dos mais de trinta que formam esta baía. A dica nos foi passada pelo professor Rangel, que contou das belezas deste “mini- pantanal” paranaense.

    Aproamos o bote para o interior e aceleramos. A baía é deslumbrante, magnífica, cercada por serras, cujo morro dominante é o do Tabaquara, quase na boca da barra. Perguntei ao Adriano sobre peixes. Como resposta ele ofereceu mais de dez robalos que estavam em sua casa para vender. “Peixe sempre teve e continua a ter, o que acontece é que cada vez estão pescando mais”. Aí está uma prova da sabedoria do rapaz. Ele percebe a sobrepesca.

    Quando estávamos quase no fim iniciamos a subida do rio Parado. Uma beleza. Talvez o mais bonito que conhecemos em toda esta viagem. Subimos uns bons 50 minutos, navegando a vinte milhas, mais ou menos, cercados por mangue, primeiro, depois por uma mata ciliar mais encorpada, com árvores enormes, em cujos troncos se agarravam centenas de enormes bromélias.

    De tempos em tempos havia falhas na vegetação, derrubada para a agricultura, quando víamos em seu lugar pastos e algum gado solto. Adriano nos conta que há muitas fazendas de búfalos no entorno.

    Conforme avançamos a água vai ficando cada vez mais doce e fria. A vegetação cresce em altura e variedade. O leito vai se estreitando sem parar e, a sinuosidade do curso, que serpenteia para um lado e outro, atinge proporções circenses. Às vezes parece um carrossel. Os ângulos são cada vez mais fechados. Por vezes surgem cotovelos, ou curvas em mais de 300 graus, e tudo cercado por um verde de tons diferentes, vivos, alucinantes.

    Não resisto e paro o motor algumas vezes, sempre por um tempo determinado para, com o silêncio, podermos ouvir os muitos e diferentes cantos de pássaros. Adriano descobre o motivo, e se põe a piar. Em minutos imitou uma boa meia dúzia de pássaros da mata. Sem instrumentos. Usando apenas as mãos e o lábio. Lindamente. Ele tem notório saber nesta arte, a da vida simples, e profundo conhecimento “dos cilcos da natureza”. Fantástica biodiversidade cultural e animal. As respostas vinham na seqüência, com os sons ecoando por dentro da fabulosa paisagem ao redor. Este será um dos mais bonitos episódios da série. Vamos fechar o ano com ele. Se for pra atingirmos o recorde de cinco pontos de pico, no Ibope, que 4.6 já alcançamos, vai ser com este programa. Beleza não lhe faltará.

    Depois de subir um bom bocado, ao sairmos de uma curva encontramos vários barcos de pesca, enormes, de 20 toneladas ou mais, fundeados.

    Adriano mais uma vez explica, a nós, “ letrados”, que durante o defeso muitos mestres trazem seus barcos para, com a água doce, matar o gusano que se infiltra nos poros da madeira, e que precisa de água salgada para crescer e proliferar. Por isto, nestes meses parados, os barcos são trazidos para cá. Quando voltam a pescar no mar, no fim do período, estão livres da praga.

    Continuamos a subir até que começamos a ver formações típicas das lagoas de água doce, parecendo mesmo um pantanal. Mas ainda havia um trecho longo a vencer, e a vegetação aquática quase fechava o canal. Ainda tínhamos profundidade, às vezes superior a dois metros, mas estava estreito demais. As folhagens se prendiam ao hélice do motor e nós não avançávamos. Tínhamos que subir a rabeta para, com a mão, liberar a hélice presa.

    Resolvi voltar. Corríamos o risco de passar a noite por ali, sendo comidos por mutucas e mosquitos.

    Na volta, quando já estávamos na velocidade de cruzeiro, de repente Adriano sinaliza para diminuir a marcha. Repicou pedindo que eu encostasse. Obedeci, curioso. Ele havia visto uma jabuticabeira carregada e não resistiu. Desembarcou e sumiu na mata cerrada. Pouco depois estava de volta com um saco cheio de frutas com aspecto de jabuticabas, mas quase do tamanho de um figo. Deliciosas. Doces como mel. Nos empanturramos.

    Enquanto dávamos conta de devorar o banquete natural, eu pensava na ocupação apressada, desordenada e, muitas vezes, destrutiva que sucessivas gerações impuseram à costa. Doeu perceber a quantidade de lugares tão lindos, e ricos que, como este, nós já detonamos.

    Quantas jabuticabeiras nativas, centenárias, não vieram abaixo pra fazer do encontro de hoje algo tão especial?

    Então me lembrei do livro que comprei, do grande geógrafo Aziz Ab’Saber, chamado, “Brasil: Paisagens de Exceção”. Trouxe para esta viagem. Ontem li a orelha, escrita por Reinaldo Corrêa da Costa. E já comecei a gostar. É brilhante e contundente. Um parágrafo, em especial, chamou minha atenção. Antes o autor mencionava o turismo, tão voluptuoso hoje pelo litoral nordestino (ou pelo pantanal), e que sempre precisa de paisagens originais. O texto diz, sabiamente: “Ao explicar estas duas paisagens de exceção (o pantanal e o litoral) o autor, baseado em raro conhecimento a respeito do Brasil, sutilmente chama a atenção para uma reflexão ética a respeito dessas paisagens de exceção, não somente destinada ao zelo com os espaços herdados da natureza, pois a paisagem é uma HERANÇA (grifo meu), seja de processos geomorfológicos e bióticos em cruzamento com a história da humanidade, assim como é um PATRIMÔNIO COLETIVO (idem)”. E mais adiante conclui: “Para melhor intervir é preciso conhecer a natureza das paisagens, não é ético planejar interferências nas paisagens somente pensando na mais- valia dos terrenos, olvidando antigos moradores com seus gêneros de vida desenvolvidos com base no etnoconhecimento”.

    O sol se foi faz tempo. O dia acabou. Já passa das 22 horas. Acabamos de receber a visita de Adriano em sua baleeira. Ele veio, espontaneamente, só para nos dar dois peixes de presente. Não quis entrar. Em seguida sumiu na noite para cuidar de sua rede.

    Segunda- feira, 4- 12- 2006.

    Nosso passeio de ontem terminou tarde. Só depois de uma visita à criação de ostras de seu Vicente, ao lado do restaurante que dirige com a mulher, Santa, na ilha do Braço Seco. Desembarcamos para uma entrevista. Mas depois acabamos experimentando a especialidade da casa: ostras gratinadas. Antes, ainda comemos uma casquinha de siri, pra lá de boa. Merece entrar na disputa pela melhor do litoral. Seria a de Guarequeçaba, a de Antonina, ou a daqui? Tarefa dura.

    Apesar do cansaço pelo dia intenso, não consegui dormir esta noite. Fomos literalmente atacados por uma esquadrilha de minúsculos insetos. Algun ultrapassavam a trama do véu mosquiteiro. Os bandidos! A lua está mudando para a cheia. Já viu. Fazia um baita calor e chovia. Depois de quase esfolar minhas costas, de tanto coçar, me cobri com o lençol, deixando de fora apenas mãos e pés. Mas a desgraceira durou a noite toda. Os miseráveis picaram a palma da mão. E também a sola do meu pé. Pode uma calhordice destas? Lembrei de nossas primeiras noites no rio Oiapoque, em frente ao município. Inferno parecido, só aquele.

    Para variar esta manhã o tempo estava fechado e com chuva. Dormitei lá fora, no cockpit, até quase o meio-dia. Cheio de feridas nas costas e coçeiras na testa. Fui atacado em todas as partes do corpo.

    Na hora do almoço descemos para gravar a cidade. Depois eu e Cardozo ainda saímos de bote, para um novo passeio. No fim do dia estávamos de volta. Amanhã navegamos para São Francisco do Sul. Vamos começar a conhecer o litoral do penúltimo estado costeiro, entre os dezessete que temos: Santa Catarina.

    Terça- feira, 5- 12- 2006.

    Antes do sol nascer, para não perdermos a maré cheia, suspendemos e nos dirigimos para a tenebrosa barra.

    Pouco antes de iniciar a travessia entrei no botão, que tem uma sonda e, com rádio VHF na mão, fui na frente do veleiro, avisando ao Alonso a profundidade que encontrava.

    Passamos. Em seguida subi a bordo e continuamos arrastando o bote.

    Foi uma navegação tranquila durante as 25 milhas que sepraram Guaratuba de São Francisco do Sul.

    Ao demandarmos a barra, na chegada, tivemos uma leve dificuldade para avisatarmos a bóia que demarca o canal de entrada, mas nada de mais.

    Pouco tempo depois fundeamos em frente ao Museu Nacional do Mar, alojado onde antes ficava o antigo porto da cidade.

    Ele é único em sua especialidade, em toda a América Latina, que é preservar a cultura naval e as embarcações típicas. Em seu acervo há cerca de 50 tipos de barcos tradicionais brasileiros. Um espetáculo que conheceremos melhor na próxima etapa.

    De tarde desembarcamos e seguimos para Joinville, onde tomamos o avião para São Paulo.

    Assim que o tempo melhorar meu fiel escudeiro, Alonso, leva o veleiro para Florianópolis onde ele fica no período das festas.

    Retomamos as viagens no ano que vem.

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