Bahia: Litoral Norte e Salvador

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    Domingo, 8- 01- 2006.

    Chegamos a noite passada em Salvador. Comigo vieram Agis e Cardozo. Não deu tempo para muita coisa a não ser arrumar nossa bagagem a bordo do Mar Sem Fim, atracado na Bahia Marina. Meu veleiro está tinindo depois da pintura no casco e costado, e pequenas reformas que foram feitas. É muito bom saber que podemos sempre contar com o barco, mesmo depois da longa maratona do Oiapoque até aqui, com mais de três mil milhas já em nossa esteira. Matamos a saudade do veleiro e das aventuras, depois conversamos bastante com nosso amigo Alonso Góes, que já nos esperava a bordo, e em seguida fomos dormir.

    De manhã saímos para filmar o Mercado Modelo. Além de registrar a algazarra produzida por centenas de barracas vendendo todo tipo de artesanato, com milhares de turistas xeretando cada centímetro quadrado, ainda conversamos com várias pessoas à procura dos últimos saveiros que ainda circulam na Baía de Todos os Santos. Fomos informados que um deles ainda vem toda semana, às quintas- feiras de noite, para desembarcar sua mercadoria na sexta pela manhã. Ótimo. No dia certo estaremos aqui de plantão, para registrar mais este fantástico barco tradicional que fez parte da história da Bahia, e acabou imortalizado nos romances de Jorge Amado.

    É impressionante como foi rápido o sumiço do Saveiro. Estive em Salvador para correr regatas em 1986. Naquela ocasião fui testemunha de uma famosa prova para saveiros, a regata João das Botas, que acontece todo mês de Janeiro. Havia na raia mais de cem barcos de todos os tipos e tamanhos. Dos saveiros de pena, de um e dois mastros, com suas velas que lembram a pena de uma ave, aos de vela de içar, mais pesados. Foi uma beleza. Mais tarde tornei a voltar para a Bahia, desta vez com um bom equipamento fotográfico, com o fim único de registrar estes barcos históricos. Foi em 1997, mas para minha decepção só havia 18 deles ainda em atividade.

    Os Saveiros eram os donos do Recôncavo. Por cerca de 400 anos dominaram a paisagem, subindo e descendo os rios que deságuam na Baía, levando e trazendo gente e mercadorias até o Mercado Modelo, e embelezando ainda mais o cenário em cujas margens foi construída a cidade de Salvador. Com a chegada do asfalto, nos anos 70 e 80, perderam a competição para os caminhões, ao mesmo tempo em que os filhos daqueles que por gerações os haviam construído e tripulado também já não se sentiam animados a seguir a mesma e penosa profissão. As encomendas foram rareando, estaleiros ociosos fecharam, barcos a motor tomaram seu lugar. Aos poucos os saveiros, elegantes e rústicos, parte importante de nosso patrimônio histórico, foram desaparecendo. Hoje ao que consta, restam apenas três originais em águas de Salvador. E cerca de doze outros, já sem a casaria, retirada para transformar os saveiros em simples chatas, aptas para carregar cimento e pedras apenas. Dizem que para os lados de Camamu há outros, mas são poucos em todo o caso, e caminham para o desaparecimento. Por isto não podemos perder a chance de registrá-los ainda em sua função mais nobre. Fiquei feliz por termos conversado com as pessoas certas no cais, que nos deram a informação sobre a localização dos derradeiros saveiros da Bahia.

    Do Mercado Modelo fomos para o centro histórico, o Pelourinho, para registrar os prédios, casarões e igrejas, para o programa que pretendemos fazer sobre Salvador. Esta é mais uma das cidades históricas do Brasil, como São Luis no Maranhão, e Olinda em Pernambuco, tombadas pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

    Retornamos para o Mar Sem Fim no início da noite. Tomamos um belo banho de chuveiro na Marina, sem economizar água como é necessário quando estamos a bordo, jantamos e fomos dormir.

    Ao deitar na cama, curti muito o fato de que pelo menos uma meia dúzia de pessoas, das mais simples e humildes, veieram nos cumprimentar pelo programa. Ao nos verem cruzavam a rua para perguntar se éramos mesmo da equipe do Mar Sem Fim, e ao saber que sim, davam os parabéns pelo enfoque que adotamos, sem “glamour”, mostrando as coisas como as vemos, com seu lado bom e ruim, e desejavam boa estada na Bahia. O quê poderia ser melhor que isto para um primeiro dia?

    Segunda- feira, 9- 01- 2006.

    Hoje, às oito da manhã, estávamos na porta do gabinete do presidente da Bahia Pesca (uma empresa do Governo da Bahia), Max Magalhães Stern, com quem eu queria muito conversar. Sempre é bom tentar entender os dois lados de uma questão. Neste caso meu interesse era saber o que levou o governo da Bahia a investir tanto na carcinicultura, esta espécie de flagelo que castiga a costa nordestina com um ímpeto arrasador. Mas também falamos de outros assuntos. Na Bahia o número de pescadores gira em torno de 70 a 100 mil, espalhados por 73 colônias, e 99% são pescadores artesanais. Entre algumas das práticas está o arrastão, e a inacreditável pesca com explosivos ainda freqüente nas baías de Todos os Santos e Camamu, acredite se quiser. Como funciona este tipo de pesca ? Como numa guerra, estes doidivanas explodem com dinamite trechos de rios ou destas baías, matando toda espécie de vida. Em seguidas recolhem o que vier à tona…

    Nos cerca de mil e duzentos quilômetros da costa baiana há aproximadamente cem pequenos portos para desembarque do pescado, os mais importantes são Caravelas, Prado e Alcobaça, todos no sul do Estado. E não é por acaso. No mesmo local fica Abrolhos, com seu formidável e imenso banco de corais. Como já dissemos em diários anteriores, este ecossistema é tão rico em vida marinha, abrigando mais de 25% das espécies, que é comparado às florestas tropicais por sua biodiversidade.

    Seja pela quantidade grande de pescadores, seja pela localização privilegiada, a Bahia hoje ocupa o quarto posto entre os estados pesqueiros do Brasil, e pasmem, a produção vem crescendo. De acordo com Max Stern, entre os anos de 2000 e 2004, o volume embarcado cresceu 15%. Atenção: não são os estoques pesqueiros que cresceram, mas o esforço de pesca, e conseqüente produtividade. Ainda com relação aos recursos marinhos naturais, a Bahia é também o quarto colocado na produção da lagosta. Não sei até quando o estado vai poder sustentar este posto na estatística. Imagino que por pouco tempo, porque, conforme foi mostrado no diário de bordo das viagens ao Piauí e Ceará, os nossos estoques deste crustáceo estão caminhando a passos largos para o fim da pesca sustentável, em função de práticas nocivas, como o uso do ar comprimido, as redes, a sobrepesca, o arrastão, a poluição costeira, a captura de exemplares abaixo do tamanho mínimo, etc. Os bancos de lagostas da Bahia também estão localizados no litoral sul, lógico, justamente em função dos corais abundantes.

    Questionei Max Stern sobre a pesca de arrasto, usual por aqui, e praticada numa distância de três milhas da costa, especialmente para o camarão. Também fiz questão de contar a ele sobre minhas conversas em colônias ao longo do litoral brasileiro, quando a maioria reconhece o estrago provocado pela modalidade, e pior, sabem que ao continuar, em breve não terão mais o que pescar. Toda vez que falamos sobre o arrasto, o coro dos pescadores é unânime: “para mudar precisamos da ajuda e apoio do governo, afinal este é nosso único ganha pão há gerações”. Mas para que a ajuda seja de fato eficiente, é preciso investimento e pesquisa, como têm nos dito vários professores universitários especializados no tema. E isto não acontece. Somos um dos países em desenvolvimento com os menores índices de investimento em pesquisa, infelizmente.

    Sobre a questão do arrasto, Max reconheceu o enorme impacto produzido no meio ambiente marinho, mas se apressou em dizer que “ a Bahia vem trabalhando junto ao Governo Federal para que o pescador possa trocar esta modalidade. Já fizemos propostas neste sentido”, concluiu. Não senti muita firmeza, mas registro as palavras dele mesmo assim. Sobre a pesca com bombas ele fez cara feia, mas disse ser quase impossível evitar. “Infelizmente é uma tradição difícil de acabar”.

    Em seguida Max discorreu com gosto sobre as ações que eles vêm fazendo na área da aqüicultura, e me contou da criação de tilápias, desenvolvida tanto no continente como em regiões estuarinas.

    Tilápias em água salobra? Não sabia. E me preocupo, afinal esta não seria uma espécie exótica, e como tal perigosa para ser introduzida no ecossistema marinho? Sempre que li a respeito, ou que entrevistei especialistas, eles alertaram para o perigo de se introduzir animais exóticos em ecossistemas, sejam eles quais forem, sem um profundo estudo prévio. As conseqüências podem ser desastrosas, como os Tejus em Fernando de Noronha, cuja missão era exterminar ratos, mas desde que foram levados para a ilha só se alimentam de ovos de tartarugas (vide diário de bordo FN), ou outros problemas parecidos, como a introdução de capivaras e veados na Ilha Anchieta, no litoral norte paulista, e tantos outros. Indiferente a esta questão, Max contou das fazendas que estão montando em Cairu, Taperoá e Valença. Segundo ele os peixes são criados em gaiolas ou em tanques. Gelei. Serão estes tanques construídos em áreas de mangue, como nas fazendas de camarão? Para responder a todas estas perguntas, pedi ajuda oficial para visitarmos estas áreas nas próximas viagens, com o quê o presidente da Bahia Pesca concordou. Quanto a mim pretendo ir outra vez à Universidade Federal da Bahia, para conversar com biólogos. Assim que eu souber mais, volto ao tema. Por enquanto apenas tomamos conhecimento da novidade, e ficamos sabendo que a produção tem sido boa: 1500 kg por ano, por gaiola ou tanque. Na mesma região há algumas fazendas de ostras mantidas pela empresa, que nós também vamos visitar.

    Depois destes assuntos, entramos finalmente na questão das fazendas de camarão. Como não poderia deixar de ser, Max Stern defendeu a estratégia do governo, e procurou minimizar, ou até mesmo negar os estragos. E repetiu o discurso a respeito dos 3.7 empregos gerados por hectare, que consta no estudo feito por certos professores do Nordeste financiados pela associação dos criadores de camarão, a ABCC. ( O polêmico estudo foi citado no diário de bordo das viagens ao Ceará e Rio Grande do Norte.) Mas a cada argumento favorável, eu retrucava com os muitos que tenho aprendido, contestando e desmontando as afirmativas dos produtores. Max ficava sem resposta. Algumas vezes apenas olhava para mim, com um sorriso amarelo sem graça nos lábios, sem dizer palavra, mas balançando a cabeça afirmativamente… Homem do governo, ele não pode deixar de repetir o discurso dos carcinicultores. Max perdeu o rebolado quando falei do financiamento do Estado, com dinheiro público, através do FNE, o Fundo Constitucional do Nordeste. Este fundo sugere em suas diretrizes “preferência aos mini e pequenos empreendedores”, e projetos que “protejam o meio ambiente”. Quando citei estes tópicos, ele arregalou os olhos e me encarou perplexo, sem poder imaginar que eu tinha ido atrás destes detalhes. Depois, mais uma vez, sorriu sem graça. Ao final ele apenas confirmou a estratégia baiana, dizendo que aqui o governo selecionou quatro áreas prioritárias para o cultivo: Jandaíra, Baía de Todos os Santos, Canavieiras, e Caravelas, com área máxima estipulada em cem mil hectares. Para encerrar disse que “não há atividade econômica que não cause impacto ambiental”, e que “ninguém reclama do algodão ou da soja que desmatam o Cerrado ”. Sobre o fato de o camarão cultivado ser de uma espécie exótica, originária do Pacífico, Max disparou outro texto previamente decorado, lembrando um destes garotos que ficam no Pelourinho recitando dados sobre as igrejas históricas, e saiu com esta pérola : “ é a mesma coisa em relação ao gado nelore que também não é daqui, só que ninguém fala ”…. Por fim esclareceu que na Bahia existem 51 produtores de camarão, sendo 33 pequenos, 12 médios e 6 grandes.

    Bem, depois da entrevista com Max Stern, corremos para o gabinete de Eugênio de Ávila Lins, superintendente do IPHAN da Bahia. Por mais de uma hora conversamos sobre os mais variados detalhes da arquitetura histórica de Salvador.

    No mesmo dia ainda entrevistamos Sara Alves, coordenadora de gestão das unidades de Conservação da Bahia. Mais um papo muito interessante e esclarecedor. Fiquei muito bem impressionado com ela pela seriedade e competência técnica e política demonstradas. Ao longo dos próximos diários de bordo vou explicando os motivos.

    Para encerrar o dia, mais uma entrevista, desta vez com Marlene Campos Peso Aguiar, diretora do instituto de biologia da Universidade Federal da Bahia. Com cada um deles tivemos uma conversa franca e abrangente, abordando quase todos os aspectos que pressionam os ecossistemas da costa baiana, e comentando sobre as políticas públicas relacionadas à ocupação da costa. Nem é preciso dizer que todos estão apreensivos com a questão das fazendas de camarão, e impressionados com o avanço dos resorts, e do turismo de massa.

    Voltamos para o barco já tarde, cansados e impressionados com as informações levantadas.

    Terça- feira, 10- 02- 2006.

    Hoje pegamos nosso carro e saímos em direção a Mangue Seco, na fronteira com Sergipe. No caminho pudemos ver grandes áreas cobertas com Eucaliptos e Pinus, para o pólo de Camaçari, onde antes havia Mata Atlântica…Visitamos também uma fazenda de cocos, orgânica, de propriedade de amigos telespectadores, José Rabelo e Aline Soares, a fazenda Nossa Senhora da Conceição, que fica a 20 km da fronteira com Sergipe. Nossa intenção nesta viagem é percorrer todo o litoral norte da Bahia, para captar imagens para o primeiro programa que faremos sobre este estado.

    Aproveitamos para conhecer mais sobre a fazenda de camarões da Lusomar, que já havíamos visitado um tanto às pressas, na etapa anterior.

    Desta vez fomos de barco até o local onde a Lusomar devolve ao estuário a água utilizada nos tanques criatórios. Depois da despesca, quando o camarão começa a ser processado para ser exportado, as fazendas despejam de volta a água poluída utilizada nos tanques. Junto com ela, toneladas de microorganismos tóxicos, como o metabissulfito, ou restos de antibióticos utilizados para evitar pragas. O cheiro é forte e a cor escura. E a água ainda apresenta uma espessa camada de espuma, que não se desfaz mesmo depois de ser despejada no rio. Uma cena triste e impressionante (vide fotos). Em seguida fomos para a praia Costa Azul, para ver a unidade de criação de larvas. Mais uma vez fiquei de queixo caído com o tamanho (vide fotos), e pude constatar que a Lusomar também não respeitou a faixa mínima de 300 metros, medidos a partir da linha da preamar, para as primeiras construções em direção ao interior, conforme determina a Resolução 303, do Conama, que procura disciplinar a ocupação das praias. Como mostram as fotos do site, parte das obras civis está claramente dentro do limite protegido. Para não falar que a área tem dunas e restingas, ambas consideradas APPs…

    Investigando descobrimos a velha prática brasileira da bargana. Tudo indica que o governador Paulo Souto financiou as obras com o FNE (Fundo Constitucional do Nordeste), que é um Fundo Federal, em troca da empresa contribuir para a campanha de um prefeito de sua corrente política no município de Jandaíra, onde se localiza a fazenda. O antigo era aliado de ACM, inimigo e rival político do atual governador…Pois a Lusomar cumpriu sua parte, e elegeu um prefeito que dizem ter ficha na polícia de Sergipe, acusado de vários crimes. Vou atrás e volto ao tema mais tarde. “ Aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei ” . Será este ainda o Brasil em que vivemos ?

    Nesta noite dormimos na fazenda de nossos amigos Aline e José Rabelo.

    Quarta- feira, 11-02- 2006.

    Depois do farto café da manhã que incluiu cuscus e outras iguarias, além de muitas frutas orgânicas da própria fazenda, nos despedimos e iniciamos a viagem de volta em direção a Salvador. Queríamos fazer este trecho em dois dias, mas teremos que voltar mais cedo, já que na quinta acontece a lavagem das escadarias da igreja Nossa Senhora do Bonfim, uma das mais cultuadas tradições baianas que não poderíamos deixar de registrar. Assim, em vez de checar toda esta parte do litoral norte, vamos fazer o registro em duas etapas. Desta vez nos limitamos a visitar um sambaqui na altura do Município do Conde, além de visitar a cidade de Porto de Sauípe, e o complexo turístico de mesmo nome que fica ao lado. Na próxima vez que viermos, vamos ainda filmar na Praia do Forte, cuja transformação lembra o que aconteceu em Jericoacoara, no Ceará.

    O litoral norte baiano tem uma ocupação recente, que só começou de fato, depois da construção da estrada chamada “Linha Verde”, no final dos anos 80, começo dos 90. Como o governo sabia que abrindo a via estaria dando o tiro de largada para o processo de ocupação, criou em compensação a APA Litoral Norte.

    A vasta maioria das terras desta parte do litoral pertence a meia dúzia de fortes empresários, entre eles a família Barreto de Araújo, a Odebrecht, dona da área onde hoje está o complexo turístico de Sauípe, Klaus Peters, que é proprietário de mais de 20 km de praias, a partir do rio Pojuca para o norte, pegando em cheio a Praia do Forte, e a empresa Góes Cohabita, entre outras, que também tem grandes porções de terra na região. Com a chegada da estrada, que assim como tudo que acontece no litoral do Nordeste leva um nome que sugere grande preocupação com o meio ambiente, no caso “Linha Verde”, as portas para a ocupação foram escancaradas. De lá para cá cresceu o turismo de massa, com dezenas de ônibus lotados vindos de Salvador quase todo dia, e a entrada maciça dos famigerados resorts, começando pelo de Sauípe, seguido por vários outros que se instalaram na Praia do Forte, e ao longo da estrada, como o espanhol Iberostar. Hoje há também diversos condomínios residenciais por estas bandas, e a especulação imobiliária dá o tom em toda a região.

    O que dizer destes hotéis? A mim o que chama mais a atenção, é que eles quase nunca atingem sua ocupação máxima. Sauípe, o mais famoso, tem cerca de quatro mil leitos e não consegue ocupar mais de 70% de sua capacidade. Então será mesmo necessário tantos outros? O estado da Bahia já conta com 28 hotéis que se dizem resorts, conforme relação da revista Guia de Resorts Brasileiros, da On Line editora.

    Mas o fato é que as construções não param. Até 2007 mais sete empreendimentos serão inaugurados ou ampliados. Não consigo entender. Não resta dúvida que o litoral brasileiro, especialmente o nordestino, é um dos mais belos e ainda virgens do mundo, e que cedo ou tarde o turismo chegaria . E tal fato seria suficiente para justificar tanto investimento. Ainda assim, às vezes fico pensando qual seria a origem deste dinheiro todo que os europeus especialmente, mas não só eles, estão investindo por aqui. Fico em dúvida se minha suspeita tem fundamento, ou se é apenas um tipo de arrojo empresarial que escapa ao meu entendimento. Também me espanta a lição não aprendida. Quando comecei esta viagem pensava que talvez a lição da ocupação danosa, não planejada e muitas vezes predatória, que aconteceu no sudeste, poderia ser evitada no norte e nordeste. Mas vejo que não. É espantoso. Nestas horas me agarro ao que meu pai me dizia quando eu era pequeno. Ele sempre alertou que se aprendêssemos com os erros de outros, a humanidade hoje seria perfeita…Talvez seja apenas isto. Em todo o caso, penso em entrevistar o presidente da Bahiatursa, e saber a opinião dele sobre a questão. É preciso levantar quais contrapartidas o Estado exige destes novos empreendimentos, e especialmente sobre a infraestrutura que o Estado está implementando nestas regiões. A Bahiatursa, aliás, tem muito o quê explicar. Em dois de Novembro do ano passado a revista Carta Capital publicou uma interessante matéria, assinada por Leandro Fortes, de Salvador, com o sugestivo título “Um duto baiano – uma conta fantasma de RS 101 milhões, gastos fantasmas e suspeita de criar caixa 2 rondam o terreiro de ACM”. A reportagem abre com esta frase lapidar: “ Pense em algo excêntrico, inusitado, um absurdo qualquer : ele já aconteceu na Bahia ” , atribuída a Otávio Mangabeira, que governou o Estado em meados do século 20. No texto, Leandro Fortes conta de esquema semelhante ao de Marcos Valério, descoberto por um conselheiro do Tribunal de Contas da União, Pedro Lino. De acordo com ele, o conselheiro descobriu “relações estranhas entre a agência de publicidade Propeg e ONGs formadas por servidores públicos, tendo a Bahiatursa no centro”. De acordo com a revista, “a movimentação de dinheiro é de 101 milhões de reais, quase o dobro dos 55 movimentados por Valério”.

    Esclareço ao leitor que não só eu tenho dúvidas em relação à febre dos resorts. Até funcionários do governo, ONGs, e professores universitários ficam confusos. Mesmo que os europeus passem a viajar somente para o Brasil, ainda assim seria difícil conseguir lotar todos os hotéis que se instalam hoje no Nordeste.

    Bem, os malefícios não são apenas os da destruição da beleza cênica milenar, com as imensas construções em cimento às vezes na praia, outras vezes um pouco recuadas, tomando o lugar da exuberante paisagem natural. Nem a quantidade excessiva de pessoas que este tipo de hotel traz para lugares que nem sempre têm a infraestrutura para suportá-los. Às vezes apenas a expectativa com relação às possibilidades de emprego já causam danos, como aconteceu na cidade de Porto de Sauípe que sofreu um surto de migração desenfreado antes da inauguração do complexo turístico, causado pela vã esperança de melhoria de vida. O resultado foi que a vila, que tinha tradicionalmente cinco mil habitantes, hoje conta com oito mil. E nem todos conseguiram emprego, claro.

    Mas não são apenas estes os problemas trazidos pelo turismo de massa na frágil zona costeira.

    Há também imensos lixões a céu aberto, para estocagem do lixo produzido pelos milhares de hóspedes. Eles nem sabem, uma vez que ao redor do complexo Sauípe, por exemplo, existem centenas de cestos coloridos, muito bonitos, e politicamente corretos, para uma separação do lixo reciclável. Só que depois que os turistas colocam papel, plástico e vidro nos cestos correspondentes, passa um caminhão que mistura todos na mesma caçamba, e joga a sujeira no lixão que fica do outro lado da estrada de asfalto, longe da vista dos incautos visitantes…

    Bem, no começo da noite estávamos de volta a Salvador, onde dormimos em nosso barco, na Marina. Amanhã temos a lavagem de Bonfim.

    Quinta- feira, 12- 02- 2006.

    Foi duro, mas conseguimos registrar. Mais de um milhão de pessoas nas ruas. Calor de rachar. Trânsito infernal. Música altíssima em bares e restaurantes ao longo do caminho. Alguns assaltos a turistas desavisados. Pessoas fazendo xixi no meio da rua… Mas filmamos a festa. O dia quase todo foi dedicado a isto. De tarde, antes de encerrar, ainda entrevistamos Renato Cunha, coordenador da ONG Gambá, uma das pioneiras, talvez a mais importante e atuante da Bahia ( vide seção links sugeridos ) . Foi ótimo. Renato vai nos ajudar com muitos contatos com pessoas e instituições que atuam no litoral sul do Estado.

    Sexta- feira, 13-02- 2006.

    Mais um dia gasto na gravação de prédios históricos de Salvador, e na espera de mais uma tripulante, a pintora Patrícia Magano, que vem se juntar a nós nesta etapa. Assim como nos séculos 18 e 19, quando as missões estrangeiras que vinham ao Brasil traziam sempre entre seus membros um pintor encarregado de registrar a paisagem e os usos e costumes do exótico país, nós também resolvemos experimentar, trazendo a bordo uma pintora que, com os olhos do século 21, pretende registrar em aquarelas as paisagens que visitamos. Quem sabe mais para a frente aconteça uma exposição destes trabalhos.

    O melhor do dia aconteceu pela manhã, quando fomos ao Mercado Modelo tentar filmar o saveiro que nos disseram que descarrega sempre neste dia.

    Ao chegarmos, nada de barco. Fomos perguntar para um cidadão que estava junto ao cais. Por sorte descobrimos que ele era justamente o mestre do saveiro. Não, hoje eles não vieram, mas o barco estava fundeado ali ao lado, no cais do mercado São Joaquim, de onde sairia para o Recôncavo logo mais. Levamos o mestre da embarcação, Jorge, em nosso próprio carro para não dar chance ao azar, e chegamos juntos ao cais. Depois de atravessarmos uma espécie de feira onde se vende de tudo em barracas mínimas, apinhadas umas ao lado das outras, sem nenhuma higiene, debaixo de um forte calor, e tendo que desviar de carregadores que levavam bodes amarrados pelas patas em carrinhos de mão, onde ainda havia galinhas desesperadas batendo asas assustadas, chegamos finalmente ao mar, e quase tive uma síncope. Não havia apenas um, mas dois, dos três saveiros que ainda circulam por aqui. Atracado na minha frente estava um dos mais lindos que já vi. Pintado em várias tonalidades, com predominância para o azul e turquesa, e detalhes em branco, vermelho e amarelo vivo, estava o “ É Da Vida ” . Perdi o fôlego ao vê-lo tão bonito, com sua pintura nova em folha (vide fotos). Sinceramente, não esperava encontrar um barco pintado com tamanho bom gosto. Lá fora, fundeado ao largo, estava o também belíssimo “ Sombra da Lua ” , com seu mastro vermelho e casco verde, o saveiro do mestre para quem havíamos dado carona. Mais que depressa saquei minha máquina fotográfica e comecei a seção que se estendeu por algumas horas. A bordo do “ É Da Vida ” havia um passageiro que ao me ver falou calmamente, sem levantar o tom de voz, como se já me conhecesse : “ Oi João, estava te esperando. Já sabia que vocês estavam na Bahia…e que você viria atrás do Saveiro ” . Levei um baita susto. Fiquei olhando pro cara, tentando imaginar quem seria. Talvez algum conhecido que eu tivesse esquecido o nome… Mas logo ele se apresentou : “ Assisto sempre seu programa. Gosto do jeito como você apresenta, e especialmente do seu interesse pelos barcos tradicionais ” . Foi então que lembrei que estou na TV, e às vezes quando menos se espera, alguém na rua te reconhece. Desta vez foi no cais, ao lado de um dos tipos mais emblemáticos dos barcos tradicionais brasileiros.

    Ficamos ali um bom tempo, conversando e avaliando cada detalhe da construção. Depois ainda saímos com mestre Jorge, de canoa, para irmos até o Sombra da Lua, onde ele embarcaria com sua tripulação. Eu queria filmar o saveiro levantando o pano e velejando. A primeira visão que tivemos ao sair do cais foi vê-lo de frente, com seu mastro vermelho, um tanto torto, testemunha de uma das mais fortes tradições culturais populares, infelizmente pouco valorizada e reconhecida pela maioria dos brasileiros. Foi lindo assistir. Com a maior calma do mundo, sem precisar falar com os companheiros, cada um logo tomou sua posição, e iniciou as manobras. Lentamente ergueram a enorme vela, enquanto o que estava no leme aproava para Itaparica. Em seguida o pano se encheu, e o elegante e rústico saveiro, perfeito em suas formas e proporções, começou a ganhar velocidade. Poucos minutos depois já sumia em direção ao horizonte. Missão cumprida.

    Sábado, 14- 02- 2006.

    Pela manhã nos despedimos de Alonso e Patrícia, que ficariam a bordo para que ela pudesse pintar algumas cenas da Baía de Todos os Santos, e seguimos em direção ao Convento do Carmo, hoje transformado em hotel. Queríamos registrar este que talvez é o mais bonito conjunto arquitetônico de Salvador. Em seguida tocamos para o Litoral Norte, para terminarmos o programa que havíamos começado. Fomos direto para a Praia do Forte, onde chegamos no fim da tarde. Havia luz ainda, então fomos logo gravar a Casa da Torre, primeira grande construção portuguesa do Brasil. O conjunto é tido como o único castelo feudal das Américas, e sua construção começou em 1551, para terminar em 1624. Devemos a obra a Garcia e Francisco Dias D’Ávila, que vieram com Thomé de Sousa em 1549, primeiro governador geral do Brasil, e que foram as pessoas que introduziram o gado no país. Seus descendentes acabaram como donos do maior latifúndio do mundo, a partir do século 18, com 800 mil quilômetros quadrados de terras que iam da Bahia até o Maranhão. São impressionantes as ruínas, especialmente a capela contígua ao prédio, que acaba de ser restaurada. O piso e o teto são trabalhados em alto relevo, e no fundo do altar há uma escultura reproduzindo uma imensa concha, também em alto relevo, espetacular. Quando estive aqui em 1984, a capela ainda não tinha sido restaurada, portanto não pude ver toda a beleza deste conjunto. Parabéns à Fundação Garcia D’Ávila que cuida de mais este acervo de nosso patrimônio histórico, cujas pedras foram seladas com um tipo de argamassa que utilizava óleo e gordura de baleia, entre outros materiais (vide fotos).

    Em seguida escolhemos uma entre as centenas de pousadas da região para passarmos a noite, de modo a não perdermos tempo amanhã. Temos muito o que fazer. Vamos conversar com a equipe do Projeto Baleia Jubarte, que hoje tem uma sede também aqui, depois temos reunião com o pessoal do Tamar, criado em 1988, cuja sede nacional fica na Praia do Forte. E ainda precisamos mostrar como a urbanização sem controle, a especulação imobiliária, o gritante adensamento, e o turismo de massa com a construção de vários Resorts num mesmo ponto da costa, transformaram esta bela parte do litoral baiano em mais um cortiço de classe média- alta. Não sei qual transformação recente me chocou mais durante esta viagem. Se a de Jericoacoara, no Ceará, e a da praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, que também passaram por esta situação, ou se aqui na Praia do Forte. Em todo o caso é muita coisa para um mesmo dia. Melhor dormir cedo.

    Domingo, 15- 02- 2006.

    Às sete da manhã meu celular tocou. Atendi meio zonzo de sono. Do outro lado reconheci a voz de Paulina, aflita e ansiosa. Nem bem disse alô e ela despejou de um só jorro : “ João, que medo. Que coisa maluca! Não acredito, anote aí : o prefeito de Jandaíra chama-se Herbert Maia, do PDT. Ele tem dois CPFs, e uma ficha policial extensa. São 5 processos na Justiça de Alagoas, 41 no TJ de Sergipe, e 11 processos do Tribunal de Contas da União. O cara está envolvido em emissão de notas frias, roubo e desmanche de veículos, e crimes de pistolagem entre outros. Em 1988 foi preso em Sergipe. Veja lá com quem vocês vão se envolver, tomem cuidado ! ”

    Não fiquei tão impressionado assim, já esperava por alguma coisa parecida, afinal, temos visto vários prefeitos ao longo das pequenas cidades da costa brasileira, que não fazem outra coisa senão se aproveitarem da boa fé de seus eleitores. Foi assim em Jeri, no Ceará, ou em Aracati, no mesmo estado, onde o prefeito é o dono da maior fazenda de camarão, a Compescal, que cerca comunidades inteiras, intimida os que reclamam, ameaçando-os de morte, polui as águas dos próprios moradores etc. Em Cururupu, no Maranhão, contei do prefeito que “ comprou ” uma ilha tão logo o governo do Estado anunciou o plano diretor de turismo para a região. Em Jeri o prefeito é um espanhol, especulador imobiliário, que sequer mora na vila, e cujo nome quase nenhum morador sabe dizer, nem mesmo o presidente da comunidade dos moradores locais. E nem precisa procurar tão longe. Em Ilhabela, litoral norte paulista, o prefeito, três meses depois que assumiu o cargo, entrou como sócio numa imobiliária que vende lotes proibidos que fazem parte do Parque Estadual de Ilhabela, loteia as margens dos rios, e ainda manda sua equipe comprar todas as edições do Estadão nas bancas da cidade, a cada vez que o jornal publica reportagens que demonstram cabalmente suas falcatruas. O caso foi tão escabroso, e as provas que o jornal levantou tão contundentes, que o MP entrou na briga e destituiu Manoel Marcos de Jesus Ferreira do cargo. Hoje ele governa o município a poder de uma liminar…

    Acalmei a Paulina, depois de passada a ficha de mais este carrasco travestido em político, e informei a ela que já não estávamos mais na divisa da Bahia com Sergipe, região onde fica o município de Jandaíra, que abriga a fazenda da Lusomar. Eu apenas queria confirmar as suspeitas e denúncias que recebemos quando estávamos por lá verificando os estragos terríveis praticados pela Lusomar, cacifada pelo governador Paulo Souto da Bahia. Pois aí está. O produto da barganha chama-se Herbert Maia…Além das denúncias já citadas, o cara foi preso em 1988, em Sergipe, acusado de ser líder de uma quadrilha que vendia notas fiscais frias para diversas prefeituras do estado. Segundo nossa pesquisa, ele está envolvido em crimes de morte, como o que vitimou o promotor de Cedro de São João, Waldir de freitas Dantas, assassinado em 19 de março de 1988. Por fim, Herbert foi denunciado pelo comparsa, de nome Cristinaldo Santana, vulgo “ Veneno ” , de receptação e desmanche de carros roubados. Todos estes casos vieram à tona com sua “ vitória ” nas últimas eleições (1797 votos contra 1721 do segundo colocado) , depois da ajuda que recebeu da Lusomar, e foram publicados na imprensa nordestina. Quando o partido político de seu oponente pediu que Herbert fosse impedido de assumir em função de seus crimes, o juiz relator do processo, Antonio Cunha Cavalcanti, informou que “ consta dos autos dos vários processos, uma certidão do TJ, da Bahia, informando que os processos ainda não foram transitados em julgado. Com isto não pude dar provimento aos recursos ” . É isto aí. Podemos agradecer aos carcinicultores baianos por mais esta contribuição exemplar.

    Começamos bem este dia. Paulina ainda contou que fez uma pesquisa sobre um programete que a rede Globo inaugurou faz poucas semanas, dentro do Fantástico, um certo “ Litoral Brasileiro ” , quando repórteres da emissora repentinamente interessados neste tema, começaram a “ fazer um mapeamento do litoral ” , mostrando cenas do Norte e do Sul em cada episódio. Paulina indignada, e quase aos berros me falava : “ João, lembra de Guajerutiua ? (pequena vila no litoral do Maranhão, onde se chega apenas de barco) , você se lembra da cena que gravamos no programa número 16 ? e passou a descrever minuciosamente a dita cuja. Sim, Paulina, lembro bem. “ Pois o Fantástico mostrou uma igual, com a mesma canoa, no mesmo ângulo ” . Antes que eu respondesse qualquer coisa, ela prosseguiu : “ Lembra quando estivemos no Maranhão, em Alcântara e gravamos tal e tal cenário ? Pois eles fizeram o mesmo ! ” , e concluiu : “ pô meu, que sujeira. Eles estão copiando nosso programa passo a passo, isto não é justo ” . Tive que acalmá-la dizendo que ao contrário, isto é muito bom. Melhor que eu esperava. Sinal que estamos fazendo algo legal, inédito, e no mínimo bem feito. Não fosse isto e a poderosa rede não iria atrás de nossas pautas. No tempo da Eldorado era a mesma coisa. Toda vez que tínhamos uma matéria exclusiva, uma denúncia forte, ou um dos muitos assuntos que a Rádio Eldorado introduziu no jornalismo diário, a “ grande irmã ” fazia uma réplica e colocava no ar como sendo dela, portanto nada de novo no front. Vamos em frente. Temos mais a fazer.

    Logo que saímos do hotel fomos para a sede do Projeto Baleia Jubarte, conversar com o biólogo Clarêncio Baracho, que faz trabalhos de pesquisa com foto identificação. Segundo ele, nos últimos anos as jubarte também começaram a se concentrar no litoral norte da Bahia, além de Abrolhos, especialmente entre as praias de Itapoã e a Praia do Forte. Por esta razão instalaram mais uma base aqui. De lá para cá, mais de três mil indivíduos foram vistos e fotografados. As baleias jubarte são identificadas assim, através de fotos das caudas, já que como a impressão digital dos humanos, a pigmentação de cada indivíduo é diferente, e comparando fotos feitas ao redor do mundo, eles podem aprender sobre as rotas de migração e seus hábitos. Clarêncio nos disse que recentemente uma das baleias registradas aqui na Praia do Forte foi fotografada na Geórgia do Sul, por este motivo ele está indo para o arquipélago sub- antártico semana que vem, com o conhecido Kotic, do velejador Oleg Beli. Boa viagem !

    Durante a conversa Clarêncio lembrou que a pesca da baleia no Brasil começou justamente na Baía de Todos os Santos, em 1603, quando estes enormes animais, desacostumados com a presença humana, eram tão mansos e abundantes que entravam dentro da baía. Temos gravuras antigas que mostram cenas de caçadas ao lado do farol da barra, em Salvador ( vide fotos). E já li relatos, em especial o de Jean de Léry, um sapateiro que veio com Villegagnon quando este fundou a França Antártica em plena baía da Guanabara, na segunda metade do século 16. Em seu relato Léry escreve literalmente o seguinte : “ …folgando neste vasto e profundo rio (baía de Guanabara), (as baleias) aproximavam-se tanto de nossa ilha ( de Coligny ) que as podíamos atingir com tiros de arcabus”. E prossegue : “ Entretanto, como têm couro muito duro e o toicinho espesso, não creio que as balas penetrassem a ponto de ofendê-las ”.

    A argamassa das casas antigas de Salvador, além da iluminação não só desta, mas de várias cidades da costa brasileira, era feita com subprodutos retirados das baleias mortas e retalhadas. Hoje, como se sabe, elas continuam correndo riscos, uma vez que países como o Japão, a Noruega, Islândia e outros, não respeitam a moratória mundial, e continuam a praticar a pesca da baleia.

    Clarêncio explicou a ação que eles implantaram em 2001, de turismo de observação, quando os visitantes alugam um barco, com a presença de um biólogo da equipe do projeto, e navegam para fora para ver as baleias. A cada ano que passa aumenta a procura por esta atividade. Em 2001 foram sete cruzeiros e setenta turistas. Em 2005 o número de cruzeiros subiu para 53, e cerca de mil turistas tomaram parte neles. Esta é uma tendência mundial, a do turismo de observação, a ponto de que um economista americano chegou a calcular que hoje uma baleia viva gera ao redor do planeta quase hum milhão de dólares por ano em arrecadação, por parte de praticantes desta atividade. Eis aí uma proposta excelente para o turismo, esta sim auto-sustentável. Oxalá em breve nosso litoral esteja repleto de atividades congêneres, afinal há dezenas de possibilidades com pássaros nativos e migratórios, mamíferos, peixes, e os mais diferentes ecossistemas para serem visitados e conhecidos, gerando renda, melhorando o nível de vida das comunidades que moram em seu entorno, fazendo com que sua preservação dê lucros – única forma de perenizá-los, criando empregos, etc.

    Felizmente no caso das baleias o Brasil tem uma postura pró- ativa, e defende na CIB (Comissão Internacional das Baleias) que se crie no Atlântico Sul um santuário onde seria proibida a caça para todo e qualquer fim. Anualmente, nas reuniões da entidade, o Brasil joga na mesa a idéia. Entretanto a proposta ainda não conseguiu três quartos dos votos favoráveis, que transformariam a sugestão em um acordo internacional. O Japão se nega a assinar, e pressiona pequenos países que dependem de sua economia para que sigam seu voto.

    De lá fomos para o Projeto Tamar, onde nos recebeu Gustave Lopez, Coordenador Regional. Ele explicou como funciona o Tamar, que a meu ver talvez seja uma das raras ilhas de excelência dentro do Ibama. Impressões do jornalista à parte, o conjunto de ações merece ser citado, porque já demonstrou ser eficiente e bem planejado, visando a sustentabilidade, ao mesmo tempo em que promove a melhoria da qualidade de vida das comunidades, e contribui para manutenção da biodiversidade.

    No próximo diário de bordo, que será sobre nossa exploração da Baía de Todos os Santos, vou explicar em detalhes o modus operandi do Tamar, por que as boas ações podem gerar cópias ao serem divulgadas na mídia, e sua contribuição tende a ser ainda maior. E além do mais é uma obrigação do jornalista mostrar o “lado bom”, quando e se houver um. E neste caso há. Por ora adianto o assunto, mas deixo para esmiuçá-lo no próximo diário, passando a relatar apenas a invasão que aconteceu na Praia do Forte, a meu ver um total exagero, fruto da especulação e da omissão do poder público.

    Conheci esta praia em 1984, quando havia uma única pousada, e uma charmosa vila de pescadores artesanais, com casas simples e dignas, de alvenaria e tijolos, nascida em meio à sombra de várias árvores nativas centenárias, coisa rara neste litoral fustigado pelo sol 300 dias por ano. O entorno tem lindas praias, rios, lagoas, recifes de corais ricos em vida marinha trazendo o alimento para perto, coqueirais, pequenas enseadas que se transformaram em portos para a frota pesqueira que no passado chegou a abrigar entre 30 e 40 saveiros, de acordo com moradores com quem conversamos. O antigo conjunto na visão de qualquer habitante das grandes cidades merecia o qualificativo “paraíso tropical”, tão falsamente usado hoje em dia. Talvez o observador não notasse que persistia o problema da pobreza, da falta de empregos formais e conseqüente renda baixa da comunidade, e uma vida dependendo quase só do extrativismo ou da agricultura de subsistência. Então, depois da chegada da BR 101, a estrada costeira que atravessa o país, começou a ocupação. Mais uma vez nossas autoridades não aprenderam com a história, ou não quiseram aprender, apesar dos inúmeros exemplos, e não se preocuparam com um plano de manejo e ocupação antes da obra. As conseqüências são vividas agora com brutal intensidade, só não vê quem não quer.

    Para começar, a antiga vila perdeu espaço para bares e restaurantes, dezenas de lojas, conjuntos residenciais, condomínios, dezenas de pousadas, pequenos prédios, e os imensos resorts. O recuo entre as construções é ridículo. Tão pequeno que uma pessoa entre casas vizinhas não consegue abrir os braços. Fiz o teste para gravar uma passagem do programa de TV e constatei : não há espaço para esticar os dois braços. E, de uma ou duas pequenas ruas da antiga vila, a “urbanização” atual criou dezenas de outras, algumas com nomes de caciques políticos do estado, outras batizadas com grosseiros critérios marqueteiros, de fazer corar escoteiros, e que nada têm a ver com a história e as tradições dos que antes moravam aqui. Ou seja, quem já conhecia o local, mesmo os antigos habitantes, perderam completamente a referência. Nas primeiras horas fiquei atônito, tentando achar onde ficava vila original. Aos poucos comecei a reconhecer uma ou outra casa, sempre cercada por este novo mundo de cimento.

    Conversei com o pessoal do Tamar a respeito, já que muitos deles moram aqui há cerca de dez anos. Gustave, o coordenador, me falou que o adensamento cresceu mais nos últimos seis anos. Antes, quando ele andava pela vila, conhecia e cumprimentava cerca de 80% das pessoas. “ Hoje não reconheço nem 10% delas ” . Claro que ele se preocupa com a incrível quantidade de gente, afinal todos os ecossistemas daqui são extremamente frágeis. Os recifes de corais, por exemplo, são pisoteados pelos visitantes diariamente, sem que ninguém passe a eles informações que mostrem que o que estão fazendo tende a determinar sua morte. E ainda há lagoas, como a de Timentube, e os locais da desova de tartarugas nas praias. Gustave conta que o mais difícil é convencer os rapazes mais jovens e ricos, que circulam pelas praias com bugues e quadricíclos. Quando ele procura passar as orientações sobre o perigo para os ovos de tartaruga, saem com o famoso, você sabe com quem está falando ? “ Em geral estes jovens são de famílias de políticos ou filhos de empresários poderosos, desacostumados de receber ordens ”, diz Gustave. E prossegue: “ com os locais existe uma perfeita integração, e na maioria das vezes eles ajudam. Com os turistas de classes mais baixas também há esta compreensão, já com os mais abastados…”

    Fui conversar com dois moradores tradicionais, que entre desconfiados com a reportagem, e demonstrando uma alegria que às vezes eu julgava exagerada, contaram sua visão. Ambos acham que hoje as coisas estão bem melhores. “Antes a gente demorava dois dias para ir até Salvador. Era preciso atravessar de barco o rio Pojuca, mas hoje fazemos a viagem em um dia . ” Também há emprego para todos, segundo dizem. Algumas novidades causaram polêmica, como o novo calçamento das ruas, que antigamente eram de areia. “ A maioria não gostou da novidade. Fazer o quê ? é a vida” , disse seu Nicanor. E as casas deles, aonde estão, perguntei ? Foram alugadas ou vendidas, respondeu. Os pescadores que as alugaram foram morar do outro lado da estrada, em Açuzinho, e às vezes, na hora da devolução dos imóveis, os inquilinos se recusam a sair. “ Alguns destes casos estão na justiça ” , nos disse seu Nicanor, ex- pescador de 63 anos, nascido na Praia do Forte. Ele também reclamou do novo nome das ruas, e disse que entre os nativos a prática gera confusão. Seu Nicanor depois de muito elogiar a nova situação, caiu em contradição, e citou outro problema. Ele disse que muitos dos novos restaurantes e estabelecimentos comerciais não toleram que os nativos os freqüentem, ou mesmo fiquem parados em suas portas. E que, quando os turistas dão cano, ele aproveita para lembrar aos proprietários, “que os nativos jamais fariam isto”.

    A entrevista com seu Nicanor aconteceu na Praça da Alegria, mais um dos novos nomes dos logradouros, debaixo de um calor insuportável, por que as casas e prédios são tão grudados, que nem o vento forte vindo do mar consegue penetrar. Um total absurdo. Eu nunca consegui saber de que lado estava o mar enquanto passeava, simplesmente por que não se vê mais, de tanta construção. Comentando com a equipe sobre a situação, Agis me contou da visão que tinha da janela de seu quarto, no segundo andar da pousada em que ficamos. “ Só dá pra ver telhados, João, grudados uns nos outros ” . Imediatamente depois, voltei para lá, para fazer fotos e filmagens, uma vez que eu e Cardozo tínhamos dormido no andar de baixo, e não tínhamos idéia da “panorâmica”. Vejam no site e tirem suas próprias conclusões. Tudo que posso dizer, é que me senti dentro de um shopping center enquanto andava pela nova vila que substituiu aquela que conheci. E lembrei mais uma vez, do exemplo da Paraíba, cuja lei de ocupação da orla está na Constituição do Estado, e proíbe tal prática (vide diário de bordo correspondente) . Será possível que só a Paraíba tenha aprendido a lição?

    Depois das entrevistas com os locais, fomos até Açuzinho, para ver as condições de moradia e urbanização. O que vi foi uma favela. Esgotos a céu aberto, lixo pelo chão, casas com aqueles “puxadinhos” tão conhecidos dos brasileiros, ruas sem calçamento, um terror (vide fotos). Agora não tenho muita dúvida de que mais este ataque ao litoral brasileiro serviu para engrossar a conta bancária dos especuladores imobiliários, operadoras de turismo, comerciantes etc, mas para os locais não sei não. Fico em dúvida até que ponto a troca foi vantajosa.

    Antes de seguir em direção a Salvador, fomos conhecer o gigantesco resort que está sendo erguido na região, o Iberostar, com capacidade para 4 mil e 600 leitos! Para você anotar : ele fica na mesma praia, e a menos de 20 km do complexo de Sauípe. Não é estranho, ou eu é que sou um obtuso ?

    Há algo de esquisito nesta história dos resorts.

    Agindo como estamos, tenho dúvidas se conseguiremos garantir que as gerações futuras tenham o direto de desfrutar das mesmas riquezas naturais, ou seja, da biodiversidade que ainda cerca o nosso horizonte.

    Retornamos para Salvador, tendo registrado no caminho como anda a ocupação de praias notórias, como Arembepe ( muito suja, cheia de latas de cerveja e refrigerantes jogadas na areia) , e a lagoa de Itapoã, com suas dunas e vegetação remanescente da Mata Atlântica. Ambos os lugares hoje podem ser considerados “ áreas urbanas ” , cercados que estão pelo crescimento das cidades.

    Segunda- feira e terça- feira, dias 16 e 17- 01- 2006.

    Dias dedicados às filmagens que faltavam de Salvador. Fizemos também algumas entrevistas com moradores e prestadores de serviços que circulam pelo Pelourinho. Mas durante o período não deixamos de registrar a maior quantidade de favelas que já vimos durante a viagem. O Projeto Mar sem Fim está tendo o mérito, para mim, de me obrigar a esquadrinhar todos os lugares pelos quais passamos. Antes, quando viajava como turista, ficava restrito aos espaços mais nobres, e não convivia de perto com a dureza da realidade, apesar de conhecer sua existência. Agora não. Andamos por tudo. Do lado bom e do ruim. E não há como não se impressionar com a quantidade assombrosa de favelas em Salvador. Para todos os lados a visão é uma só : gigantescos guetos humanos. A exclusão social é gritante, apesar da maquiagem feita para impressionar os turistas. Na parte freqüentada por eles a cidade é um brinco: asfalto novo, ruas limpas, placas indicativas bilíngues, e prédios de alto padrão, cada vez mais altos, subindo. Nas cercanias a mais rude pobreza, atestando a falência de nosso modelo de desenvolvimento, ou do desvirtuamento dele, não importa.

    Quarta- feira, 18- 01- 2006.

    Cedinho, às oito da manhã, embarcamos para São Paulo. Até o final do mês estaremos de volta para gravar mais dois programas, e continuar o aprendizado em relação à Bahia. Vamos conhecer em detalhes a BTS, como é chamada aqui a Baía de Todos os Santos. Pretendemos subir o rio Paraguaçu, refazendo a rota dos Saveiros.

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