Ressacas no litoral brasileiro: o custo invisível que ninguém calcula

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Ressacas no litoral brasileiro: o custo invisível que ninguém calcula

Uma ressaca dura poucas horas. Às vezes dois dias. Mas o prejuízo não recua com a maré. A água invade avenidas, destrói calçadões, corrói redes de drenagem, ameaça imóveis e paralisa o comércio. Depois que o mar volta ao seu lugar, fica a conta. Quem paga? Quanto custa, de fato, cada ressaca no litoral brasileiro? E por que quase nunca vemos esse número consolidado?

 ressacas no litoral brasileiro
Imagem: Fernando Frazão, Agência Brasil.

Quanto custa uma ressaca?

Com o aquecimento do planeta cada vez mais fora de controle, a potência e a frequência das ressacas também aumentam. Em julho de 2025, uma delas chamou atenção nacional. As ondas atravessaram avenidas, atingiram prédios e destruíram parte da infraestrutura urbana em municípios do Sul e do Sudeste. As imagens rodaram o país. Mas, depois que o mar recuou, ficou a pergunta que quase nunca é feita: quanto custou?

2026 mal começou e o litoral voltou a ser castigado. Uma nova e brutal ressaca atingiu Tramandaí e Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, além de provocar danos em vários municípios de Santa Catarina. A cena se repete: calçadões destruídos, muros derrubados, ruas alagadas, comércio fechado.

Ressaca em Maricá, RJ
Obra para conter ondas em Maricá destruída pela ressaca. Imagem, Marcos Fabrício / Prefeitura de Maricá – 03/08/2021).

Mas a conta não nasce apenas das ondas. Ela começa muito antes, na forma como ocupamos o litoral.

Durante décadas, avançamos sobre manguezais, destruímos restingas, aplainamos dunas e impermeabilizamos a orla em nome da valorização imobiliária. A cultura do “pé na areia” virou sinônimo de status. Na prática, significa construir onde o mar sempre teve espaço para avançar.

Mangues amortecem. Restingas estabilizam. Dunas absorvem energia. Mas fazem mais do que isso: esses ecossistemas sustentam as próprias praias. As dunas funcionam como reservatórios de areia. A restinga fixa o sedimento. O manguezal reduz a força das correntes e ajuda a manter o equilíbrio costeiro.

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Quando eliminamos essas defesas naturais, não apenas aumentamos o impacto das ondas. Interrompemos o sistema que recompõe a areia perdida nas ressacas. Depois, gastamos milhões tentando repor artificialmente, por meio das malfadadas engordas de praias, o que a natureza fazia de graça.

Assim, transformamos eventos intensos em desastres caros — e permanentes.

Mas qual é, afinal, o tamanho dessa conta?

Cada vez que uma ressaca destrói um trecho da orla, o poder público anuncia obras emergenciais. Reconstrução de calçadões. Reforço de enrocamentos. Nova drenagem. Reposição de areia. O problema é que esses valores aparecem de forma isolada. Não há um levantamento nacional que some os prejuízos das ressacas no litoral brasileiro.

Mesmo assim, números espalhados por relatórios municipais e pela imprensa mostram que estamos falando de milhões — e, somados ao longo dos anos, provavelmente de bilhões.

Ressaca em Matinhos, PR.
Ressaca em Matinhos, PR. Imagem, Facebook/Matinhosagora.

Um dos exemplos mais documentados é o de Mongaguá (SP), onde uma forte ressaca em junho de 2016 provocou prejuízos de R$ 5,2 milhões só na reconstrução de calçadões, muros de arrimo e galerias pluviais danificadas. Esse valor, divulgado na época pela prefeitura e pela imprensa local, não incluía perdas privadas de moradores nem interrupção de comércio.

Em Santos, após a forte ressaca de julho de 2025, a prefeitura anunciou a previsão de R$ 2,6 milhões em gastos emergenciais para reparar a orla entre o Posto 6 e a Rua Oswaldo Cochrane, incluindo reconstrução de calçadas, contenção e limpeza da faixa atingida pelas ondas.

Ressacas no Sul: prejuízos que se repetem a cada verão

No Sul do Brasil, as ressacas também já geraram gastos públicos relevantes, ainda que raramente consolidados. No litoral norte do Rio Grande do Sul, episódios recentes obrigaram prefeituras a realizar reconstrução de calçadões, remoção de estruturas destruídas e reforço emergencial de contenções.

Em eventos anteriores, municípios como Imbé e Tramandaí registraram prejuízos imediatos na casa das dezenas a centenas de milhares de reais, apenas em reparos iniciais e limpeza urbana. Em Santa Catarina, as sucessivas ressacas que atingem cidades como Balneário Camboriú e Barra Velha têm exigido reforços estruturais e manutenção de obras costeiras, custos que se somam a cada novo evento e raramente aparecem reunidos em um único balanço oficial.

Erosão no Nordeste: o problema é nacional

A erosão e os danos provocados por ressacas não se limitam ao Sul e ao Sudeste. No Nordeste, o avanço do mar já compromete infraestrutura urbana e ameaça comunidades em vários estados. Na Paraíba, estudos recentes apontam recuo da linha de costa e situações críticas em áreas como Baía da Traição. Em Sergipe, construções sobre dunas e restingas agravaram a vulnerabilidade costeira. No Ceará, quase metade do litoral apresenta trechos sob processo erosivo. O cenário se repete: ocupação mal planejada, perda das defesas naturais e aumento do custo público quando o mar reage.

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ressaca no litoral do Nordeste
Ninguém sabe o custo das ressacas no litoral brasileiro. Imagem, Natinho Rodrigues.

Segundo o relatório “Boas práticas socioambientais costeiras e marinhas”, da Agência Costeira, os prejuízos públicos e privados associados a erosão costeira e eventos extremos como ressacas somaram cerca de R$ 140 milhões no Brasil entre maio de 2010 e maio de 2022 (valor baseado na Classificação e Codificação Brasileira de Desastres).

A conta que ninguém quer fechar

O que esses números mostram é apenas a superfície do problema. Cada município divulga seus prejuízos isoladamente. Cada obra emergencial entra como despesa pontual. Mas ninguém soma a conta nacional das ressacas. Esta falta de informação em escala nacional dificulta a criação de políticas públicas para o litoral.

Enquanto isso, continuamos ocupando áreas frágeis, eliminando defesas naturais e investindo recursos públicos para manter estruturas que o próprio mar insiste em testar ano após ano.

A pergunta deixa de ser quanto custou a última ressaca. A pergunta passa a ser quanto o Brasil ainda está disposto a gastar para sustentar um modelo de ocupação que ignora os limites da costa.

Porque o mar sempre volta. A conta também.

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