Piratas da Somália: por que a pirataria voltou

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Piratas da Somália: por que a pirataria voltou

Os Piratas da Somália voltaram a mostrar que continuam ativos. Em agosto de 2026, oito homens armados invadiram um navio cargueiro a apenas quatro milhas náuticas da costa da Somália e assumiram o controle da embarcação. A informação é do gCaptain, com base em comunicado do United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO).

Piratas da Somália
Imagem, Domínio Público.

O novo ataque chama atenção porque ocorreu durante a monção de sudoeste. Nessa época, o mar mais agitado costuma dificultar a ação dos Piratas da Somália longe da costa. Ainda assim, segundo o Joint Maritime Information Center, as águas costeiras mais protegidas continuam oferecendo oportunidades aos grupos de piratas.

Além disso, o caso não é isolado. O gCaptain informa que outros quatro navios mercantes já permaneciam retidos na região. Entre eles estão o petroleiro Honour 25 e o cargueiro Sward, sequestrados em abril.

Como surgiram os Piratas da Somália

A origem dos Piratas da Somália está ligada ao colapso do país. Em 1991, a queda do governo de Siad Barre mergulhou a Somália em uma guerra civil. Ao mesmo tempo, o Estado praticamente desapareceu e deixou de controlar uma das maiores costas da África.

Nesse vazio, barcos estrangeiros passaram a explorar as águas somalis, muitas vezes de forma ilegal. Entre eles havia embarcações de diferentes nacionalidades, inclusive chinesas. A Global Fishing Watch também identificou forte presença de barcos iranianos, além de embarcações da Índia, Paquistão e Sri Lanka. Sem um Estado capaz de fiscalizar o mar, pescadores somalis viram seus recursos serem explorados por frotas estrangeiras. O documentário Seaspiracy, que pode ser visto na Netflix, mostra esta  realidade com mais detalhes.

Pirataria na costa somali
Ilustração, Wikipedia.

No início, alguns desses grupos se apresentavam como uma espécie de “guarda costeira” e cobravam dinheiro de barcos estrangeiros. Porém, a atividade logo mudou de escala. Os sequestradores perceberam que capturar navios comerciais e exigir resgates rendia muito mais. Assim, uma reação inicialmente ligada à disputa pelos recursos pesqueiros transformou-se em um negócio criminoso altamente lucrativo.

Segundo um estudo do Banco Mundial, UNODC e Interpol, os Piratas da Somália receberam entre US$ 339 milhões e US$ 413 milhões em resgates entre 2005 e 2012. A essa altura, portanto, já não se tratava de pescadores tentando proteger suas águas, mas de redes criminosas organizadas em torno do sequestro de navios e tripulações.

O auge da pirataria na Somália

Os Piratas da Somália chegaram ao auge no início da década de 2010. A partir de pequenas embarcações e navios-mãe, os grupos avançavam centenas de quilômetros pelo oceano Índico em busca de cargueiros e petroleiros.

Segundo o Banco Mundial, entre 2005 e 2012 os piratas sequestraram 179 navios na costa da Somália e no Chifre da África. Nesse período, cobraram mais de US$ 400 milhões em resgates.

O custo humano também foi enorme. Outro levantamento do Banco Mundial calcula que 3.741 tripulantes, de 125 nacionalidades, foram capturados. Alguns permaneceram reféns por mais de três anos.

Por que os ataques diminuíram

A reação internacional mudou o cenário. Países enviaram navios militares para patrulhar as principais rotas, enquanto as empresas reforçaram a segurança dos cargueiros. Além disso, muitas passaram a contratar guardas armados e adotaram procedimentos para dificultar a abordagem dos Piratas da Somália.

Segundo o Banco Mundial, essas medidas ajudaram a provocar a forte queda dos ataques a partir de 2011 e 2012. No entanto, a instituição já alertava que o resultado dependeria da manutenção da segurança no mar e de soluções para os problemas existentes em terra.

Segundo o IMB Piracy Reporting Centre os incidentes globais envolvendo pirataria e assalto à mão armada aumentaram 4% em 2023 em comparação com 2022. Embora isso não pareça ser uma mudança geral substancial, um olhar mais atento sobre os números revela algumas tendências alarmantes.

A pirataria não acabou

Em 2026, os Piratas da Somália voltaram a sequestrar navios e a preocupar a navegação internacional. O ataque de 17 de agosto, relatado pelo gCaptain com base no UKMTO, reforça esse retorno.

Além disso, a pirataria continua ativa em outras áreas do mundo, sobretudo em partes do Sudeste Asiático e da costa africana. Ou seja, ela mudou de intensidade e de localização, mas não desapareceu.

Pirataria também preocupa em outras regiões

Os Piratas da Somália não são os únicos. Segundo o International Maritime Bureau (IMB), o mundo registrou 137 casos de pirataria e roubo armado contra navios em 2025. O principal foco foi o Sudeste Asiático, especialmente o Estreito de Singapura, com 80 ocorrências.

Na África Ocidental, o Golfo da Guiné também continua perigoso. Em 2025, a região registrou 21 incidentes e concentrou boa parte dos sequestros de tripulantes. Portanto, embora a Somália tenha se tornado símbolo da pirataria moderna, o problema está longe de se limitar ao Chifre da África.

Por que a pirataria continua existindo

A pirataria prospera onde o Estado controla pouco o litoral e faltam alternativas econômicas. A UNODC aponta pobreza, falta de trabalho e fiscalização precária entre as causas que alimentam o crime marítimo.

No caso dos Piratas da Somália, essas condições nunca desapareceram por completo. Por isso, a IMO já alertava que a repressão no mar havia reduzido os ataques, mas não eliminado suas causas. Enquanto essas condições persistirem, a pirataria poderá voltar sempre que surgir uma oportunidade.

O novo sequestro na costa da Somália mostra que os piratas  continuam capazes de explorar falhas de segurança. A história, portanto, não terminou. Apenas entrou em uma nova fase.

Para saber mais, assista ao vídeo

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