Óleo no Nordeste ainda preocupa dois anos depois
Dois anos depois do maior desastre ecológico no litoral brasileiro, a origem do óleo que poluiu nove estados do Nordeste e dois do Sudeste continua um mistério. As novidades são poucas e desalentadoras.
Em 7 de maio, a Marinha do Brasil informou que outros dois navios entraram na lista de suspeitos, além do Bouboulina. Um deles é o Nichioh, que mudou de nome para City of Tokyo em maio de 2020. O outro é o Amore Mio, que adotou o nome Godam em março daquele ano.
Óleo no Nordeste ainda preocupa dois anos depois.
Óleo no Nordeste ainda preocupa dois anos depois
Em agosto de 2020 a Marinha do Brasil entregou o relatório final da investigação à Polícia Federal e ao Ministério Público federal. Segundo o jornal O Globo, ‘o documento perdeu o sigilo dia 7 de maio, mas não houve divulgação do inteiro teor’.
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São empresas de outras partes do mundo que registram seus navios em países com regras trabalhistas, e de inspeção, frouxas ou até mesmo inexistentes, de modo que latas velhas que em outros países seriam proibidas de navegar possam continuar atuando.
‘Paraísos da desregulamentação’
Libéria, Panamá e Ilhas Marshall estão entre esses “paraísos” da desregulamentação. Segundo O Globo, basta apresentar um endereço e um e-mail para registrar um navio na Libéria.
O terceiro suspeito é o Amore Mio, da empresa holandesa Heesen Yachts. Cá entre nós, três suspeitos representam muito pouco diante da dimensão do desastre. O óleo atingiu 906 localidades de 127 municípios, em 11 estados. A poluição alcançou 3,6 mil quilômetros de costa.
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Alexander Turra, professor titular do Departamento de Oceanografia Biológica da USP, classificou o acidente como inusitado. Segundo ele, o óleo mais denso se deslocava a cerca de um metro e meio abaixo da superfície. Os equipamentos disponíveis não conseguiam detectá-lo.
Em entrevista ao Mar Sem Fim, Turra afirmou que existem ferramentas relativamente simples para esse monitoramento. Para ele, imagens de satélite poderiam ajudar a evitar casos semelhantes. A tecnologia existe. Falta trazê-la para o Brasil.
Litoral do Brasil está ao deus-dará
Desde que fizemos a primeira viagem pela costa brasileira temos repetido o bordão: o litoral está ao deus-dará. As leis de ocupação do solo, e de proteção ambiental são muito pouco respeitadas. Quem dá as cartas e manda no litoral é a especulação imobiliária.
Mesmo antes da atual administração era assim. Praias são ‘privatizadas’ pelos proprietários que agridem a legislação impunemente. Praias são áreas públicas, pertencem à União, ninguém tem o direito de se dizer ‘dono de uma praia’ e fechá-la ao público.
Dunas, falésias, e mangues são ocupados
Dunas, falésias, e mangues são ocupados a despeito de serem áreas de preservação permanente. Não por outro motivo a erosão toma conta do litoral. E apesar de muitas vezes desfigurar um município inteiro, como Atafona, no litoral norte do Rio de Janeiro, nada, ou quase nada, acontece.
A pesca sempre foi uma esculhambação. Sequer temos estatísticas de pesca. Somos um dos três únicos países com saída para o mar que não informam quanto se pesca, de quais espécies, etc. E ninguém dá a menor pelota para o fato. O Mar Sem Fim denuncia praticamente sozinho.
As poucas unidades de conservação federais do bioma marinho, com três ou quatro exceções, existem apenas no papel. Não têm equipes, ou fiscalização, a grande maioria não tem nem mesmo uma voadeira com motor de popa. Como cuidar de uma UC do bioma marinho sem barcos?
Seria surpreendente se nossas autoridades soubessem informar os motivos do maior desastre ecológico do litoral brasileiro. Temos que aceitar resignados ‘três suspeitos’ dois anos depois do acidente.
Marinha defende investimentos
Segundo o jornal Correio do Povo, a Marinha do Brasil pede apoio e investimento para a fiscalização:
“Esse evento, inédito e sem precedentes na nossa história, traz ensinamentos, como a necessidade de se investir no aprimoramento do monitoramento dos navios que transitam nas águas jurisdicionais brasileiras e nas suas proximidades, destacando o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz)”.
O custo do descaso com o litoral
Segundo o jornal O Globo ‘a União gastou R$ 187,6 milhões para conter o megavazamento, numa força-tarefa que reuniu 16.848 servidores públicos, sobretudo da Marinha, do Exército e da Defesa Civil’.
Ainda de acordo com O Globo, ‘as equipes coletaram 5.000 toneladas de resíduos, com óleo, materiais e detritos contaminados’.
Pequenas manchas de óleo continuam a chegar às praias do Nordeste até hoje
Mas apesar do aniversário de dois anos do acidente, e da falta de respostas à opinião pública até hoje, saiba, caro leitor, que as manchas continuam a chegar em determinados pontos do litoral do Nordeste.
A Agência Universitária de Notícias, da USP, em matéria de fevereiro de 2021 traz a triste notícia. Segundo Rafael Lourenço, professor e pesquisador de oceanografia da USP, ‘pequenas manchas de óleo continuam a chegar às praia do Nordeste até hoje.
Rafael Lourenço declarou: “Os impactos ambientais envolvem todos os recursos relacionados ao mar: prejuízo na qualidade das praias e da água, seja para lazer, seja para toda a biota marinha ou que dependa do mar para abrigo ou forrageio. Com isso, houve também comprometimento dos recursos pesqueiros.”
‘Lourenço relata ainda que parte do óleo lançado ao mar pode estar preso ao sedimento ou às estruturas rígidas, como corais e recifes’.
Ninguém sabe quanto óleo vazou. Por isso, é difícil calcular quanto ainda permanece nessas áreas. A agitação do mar libera o óleo na coluna de água. As correntes marinhas voltam a transportá-lo.
Pior: ninguém sabe quanto óleo permanece em ambientes sensíveis, como recifes de coral e manguezais. Ambos abrigam importantes berçários da vida marinha.
O professor Rafael Lourenço criticou o descaso com o litoral e a falta de investimentos em pesquisas e medidas de mitigação. Para ele, a ausência de respostas traz uma consequência grave. Sem compreender como o derramamento ocorreu, não conseguimos definir medidas para evitar outro igual ou pior.
Imagem de abertura: Leo Malafaia / AFP
Fontes: http://www.usp.br/aun/index.php/2021/02/12/impactos-do-derramamento-de-oleo-no-nordeste-afetam-praias-e-pesca/; https://oglobo.globo.com/sociedade/meio-ambiente/oleo-no-nordeste-marinha-aponta-mais-dois-navios-alem-do-bouboulina-como-suspeitos-por-derramamento-25008986; https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/geral/tr%C3%AAs-navios-s%C3%A3o-suspeitos-por-manchas-de-%C3%B3leo-no-nordeste-em-2019-afirma-marinha-1.616266.