Novo Ministro do Meio Ambiente: troca de seis por meia dúzia

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Novo Ministro do Meio Ambiente: troca de seis por meia dúzia

Desde junho de 2021, data da queda do primeiro ‘ministro’ do Meio Ambiente, aguardávamos alguma posição do novo escolhido, Joaquim Alvaro Pereira Leite. Esperamos para saber como agiria na questão mais premente do momento, aguardada com ansiedade dentro e fora do País. Escaldado, Joaquim Pereira Leite ficou na muda até quase a véspera da COP 26, a mais aguardada reunião de clima desde o Acordo de Paris. Mas, no início de outubro, a menos de um mês da abertura da cúpula, Pereira Leite falou ao Estado de S. Paulo. Então descobrimos que houve troca de seis por meia dúzia na escolha do novo ministro do Meio Ambiente. Post de opinião.

Joaquim Alvaro Pereira Leite ministro do Meio Ambiente
Joaquim, o meia dúzia, ocupa o lugar de Ricardo Salles, o ‘seis’. Imagem, Marcos Oliveira/Agência Senado.

Ministro do Meio Ambiente: a troca de seis por meia dúzia

A última reunião do clima, a COP 25 de Madri (dezembro de 2019), foi um fiasco global em razão quase exclusiva da posição insustentável do Brasil, cuja delegação foi chefiada pelo primeiro ‘ministro’ do Meio Ambiente.

Enquanto o mundo discutia as emissões de gases de efeito estufa que haviam aumentado em 0,6% em 2019, colocando em perigo a meta estabelecida em Paris (não ultrapassar mais que 1,5ºC na temperatura global até o fim deste século), a posição brasileira era a de barrar toda e qualquer discussão enquanto Ricardo Salles do alto de sua arrogância e ignorância cobrava financiamento dos países ricos para compensar ‘a redução das emissões de gases de efeito estufa alcançada pelo país nos últimos anos’.

A cúpula de Madri aconteceu quase um ano depois de Bolsonaro ter assumido a presidência, quando o Brasil deixou o mundo perplexo ante o aumento do desmatamento ilegal de 29,54% em relação à taxa apurada  em 2018, além do desmonte do arcabouço legal, sucateamento proposital de órgãos encarregados da fiscalização, diminuição de multas, e consequente explosão do desmatamento.

Mesmo com todos estes ‘trunfos’, e da repercussão negativa da mudança de regras unilateral do Fundo Amazônia,  que tem em caixa até hoje R$ 2,9 bilhões de reais para combater as ilegalidades na maior floresta tropical do planeta, Ricardo Salles queria mais. Saiu hostilizado e de mãos vazias, obviamente.

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Agora, na COP 26, Joaquim Alvaro Pereira Leite segue o  exemplo de seu antecessor e, sem apresentar nada além do descrédito mundial e da posição de pária angariada pelo País, Leite diz que vai à COP 26 ‘cobrar US$ 100 bilhões para a proteção do clima’.

‘Ministro repete Salles e diz que vai à COP 26 cobrar US$ 100 bi para proteção do clima’

Este foi o título escolhido pelo jornal O Estado de S. Paulo para matéria de André Borges publicada em 5 de outubro. No corpo do texto, a explicação:

“Em almoço com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que teve ainda a presença da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e do ministro das Comunicações, Fábio Faria, o titular do MMA renovou a promessa que já feita em 2019 por Ricardo Salles, de que aguarda os US$ 100 bilhões anuais prometidos por países desenvolvidos aos em desenvolvimento, como condição para fazer a sua parte dentro do acordo.”

“Foram prometidos US$ 100 bilhões, que ainda não foram cumpridos. Precisam ser mais ambiciosos do que esses US$ 100 bilhões. O desafio de uma economia verde é maior que US$ 100 bilhões”, disse Leite, após o almoço.

Joaquim Alvaro insistiu:  “Temos um mercado de carbono, que nós entendemos ser uma oportunidade para o Brasil. O acordo do clima é uma oportunidade para o Brasil mostrar que, além de produzir alimentos para o mundo, tem uma atividade de baixa emissão. Temos uma economia que absorve carbono, ao mesmo tempo em que produz.”

O Acordo de Paris

O Acordo de Paris prevê que os países desenvolvidos, os ditos ricos que têm maior influência sobre o aquecimento global, devem contribuir com US$ 100 bilhões por ano para ajudar os países em desenvolvimento a mitigarem as consequências e avançarem na descarbonização.

Mas os países em desenvolvimento também têm suas metas que, no caso brasileiro, estão longe do ideal. Para não falar nos inúmeros atritos internacionais provocados gratuitamente pela atual administração que acabaram com a credibilidade brasileira.

A irrelevância do Brasil atual no concerto das nações

Não foi preciso mais que dois anos e meio para o Brasil se tornar uma espécie de circo picaresco na comunidade global.

Ainda está fresco na memória de todos o grotesco discurso de Bolsonaro na ONU, quando teve a cara-de-pau de defender a cloroquina como tratamento para a ‘gripezinha’, como ele chamou a pior pandemia do século.

No mesmo discurso, Bolsonaro mais uma vez mentiu sem vergonha ao comentar a situação da Amazônia, cuja devastação ilegal cresceu este ano, ao contrário do que disse.

Em agosto mais um coice gratuito na comunidade internacional quando Bolsonaro se recusou a receber o presidente da COP 26, Alok Sharma, que visitava o Brasil  e vinha de uma série de encontros com autoridades e líderes mundiais.

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Mais recentemente, seu desmoralizado ministro da Economia, que jura que a economia nacional voltou em V apesar de 14 milhões de desempregados, inflação em alta, risco de apagão, e 19 milhões de brasileiros em situação de fome, mandou um ofício ao ministério do Meio Ambiente com o objetivo de encerrar a ‘obra’ de Salles, e passar o que resta da boiada.

Nele (ofício SEI nº 123719/2021/ME), Paulo Guedes sugere a revogação das regras que dificultam o desmatamento da vegetação nativa; aumento do desmatamento da Mata Atlântica sem anuência do Ibama; ‘flexibilização’ do EIA -Rima, Estudo Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental; dispensa para o licenciamento para explorar rejeitos de mineração, entre outros.

Os aloprados de Brasília não se deram conta ainda de que somos uma aldeia global. Tudo que acontece aqui é sabido no exterior em tempo real, e vice-versa.

Política brasileira ambiental é condenada

A sétima edição do Relatório da Transparência Climática (Climate Transparency) que reúne think thanks e ONGs de 16 países mostra que a nova meta climática do governo, apresentada em dezembro de 2020, surpreendeu o mundo pela menor  ambição de redução de emissões para 2030 quando comparada à já apresentada em 2015.

Primeira meta, 2016

Reduzir as emissões em 37% até 2025,  e em 43% até 2030, ambas em comparação às emissões de 2005.

Segunda meta, 2020

O governo assumiu como meta os mesmos índices previstos na primeira. Mas, entre uma e outra,  a contabilização das emissões brasileiras de 2005 foram atualizadas, mostrando aumento das emissões daquele ano. De 2,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, para 2,8 bilhões.

Isso permite que, na prática, o País emita ainda mais gás de efeito estufa com a nova meta do que anteriormente. A mudança pegou mal, mostrou o Brasil na contramão do mundo, isolado mais uma vez.

O relatório da Climate Transparency aponta que “a administração Jair Bolsonaro removeu muitas proteções ambientais”. E acrescenta que o Plano Nacional do Clima, de 2008, estabeleceu metas ambiciosas para reduzir o desmatamento. “No entanto, o desmatamento foi aumentando gradualmente e disparou durante a pandemia da covid-19.”

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São com estas credenciais que o meia dúzia, quer dizer, Joaquim Alvaro Pereira Leite, pretende ‘cobrar US$ 100 bilhões para a proteção do clima’.

Pereira Leite é mais um digno ‘ministro’ do Meio Ambiente do governo que não acredita na ciência e, por isso mesmo, sequer considera o aquecimento global um sério problema para a humanidade, mas um ‘complô comunista’, como alardeava o chanceler Ernesto Araújo para espanto do mundo como registrou The Guardian à época.

Com este histórico na bagagem o Brasil terá papel irrelevante nesta reunião. Não à toa, como mostra a sucessão de fatos acima, a credibilidade deste governo é igual a zero.

Nada exprime melhor a posição do Brasil no cenário internacional do que a patética foto da trupe circense comendo pizza, isolada como se pestilenta fosse, numa esquina qualquer de Nova Iorque.

Triste retrato do Brasil atual.

Imagem de Bolsonaro comendo pizza na esquina
Imagem, Reprodução Twitter.

Imagem de abertura: Marcos Oliveira/Agência Senado

Fontes: https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,ministro-repete-salles-e-diz-que-vai-a-cop-26-cobrar-us-100-bi-para-protecao-do-clima,70003860501; https://wribrasil.org.br/pt/blog/clima/nova-ndc-do-brasil-entenda-por-que-meta-climatica-foi-considerada-pouco-ambiciosa.

Lixo nos rios de Ubatuba; estância balneária até quando?

Comentários

4 COMENTÁRIOS

  1. Tudo não passa de conversa para encher linguiça , quem governa este país é um conjunto de eminencias pardas escondidas por décadas dentro dos 3 poderes , faça sol faça chuva elas estão arraigadas no poder , mudam as leis como querem ,alterando os textos dando margem a interpretações que lhes favoreçam antes de publicá-las no D.O.U. , cobram impostos com alíquotas por dentro, vide ICMS de energia, de telecom e outros cobrados por dentro , como dos combustíveis etc , é o analfabetismos matemático do povo, do político e da imprensa. Estas eminências com ótimos planos de saúde vitalício para toda família, ótimas aposentadorias, criam impostos diversos de forma a compor a base de cálculo cumulativa sucessivamente, para formar as bases de cálculo de outros impostos ,(tributo sobre tributo n… vezes) é o corporativismo da máquina Silenciosa, ela está nas prefeituras , nos estados e na união _____ lá , a conversa de reduzir as desigualdades não cola. Não há neste país um único Contador que consiga decifrar o emaranhado de tabelas regras e formulas criadas para se calcular impostos (pandemonio tributário) , é assim senhores, que estas eminencias vivem no paraíso , roubando pobres e ricos , cidadãos e empresas .

  2. A matéria está ótima mas ao final comete erro ao nomear o grupo de desqualificados como se fossem uma trupe circense, essas últimas são muito mais dignas e respeitosas com seu próprio ofício do que a corja de cínicos que representa o atual desgoverno.

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