Donzela-real, mais um peixe invasor no litoral de São Paulo
Parece enredo de filme de terror. Mas não é. Outra espécie oriunda do Indo-Pacífico invade o mar brasileiro. Ela segue a rota do peixe-leão, considerado por especialistas como a pior espécie invasora do planeta, que aqui chegou através do Caribe. O peixe-leão ‘estreou’ no Brasil em 2014, no Rio de Janeiro. Hoje, pesquisadores tratam a espécie como praga. Ela ocupa cerca de quatro mil quilômetros da costa e altera o equilíbrio do ambiente marinho. Agora surge outro invasor: a donzela-real, Neopomacentrus cyanomos. Pesquisadores já registraram a espécie na Ilha da Queimada Grande, na Laje de Santos e no Arquipélago de Alcatrazes. Esses três locais integram unidades de conservação.

A globalização de introdução de espécies invasoras
A globalização impulsionada por níveis sem precedentes de comércio internacional, viagens em massa, e deslocamento de pessoas em geral, impulsionou a invasão de espécies para um nível sem precedentes no mundo. O que antes levava meses para acontecer, uma travessia de um continente para outro, por exemplo, hoje acontece dezenas de vezes num único dia.

O aumento da conectividade global abre novas rotas para o transporte de espécies exóticas. Navios de carga espalham organismos por meio da água de lastro, provável meio de entrada da donzela-real, que já trouxe ao Brasil o mexilhão-dourado, o mexilhão-verde, e o coral-sol pelo menos. Aeronaves também contribuem para essa dispersão. Mercadorias importadas carregam espécies dentro de paletes de madeira, plantas e até no solo.
O comércio eletrônico acelerou ainda mais o processo, permitindo o comércio internacional rápido, por vezes ilegal, de animais de estimação e plantas ornamentais. Isso permite a invasão de cerca de 200 novas espécies exóticas anualmente no mundo.
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Estudo sugere proteção integral no mar do SudesteGrilagem avança no entorno da APA Baleia-SahyGrupo pede apoio para salvar arquivo caiçara de IlhabelaO problema não é apenas ambiental, antes fosse, mas especialmente, econômico. Assim, o custo global das espécies invasoras quadruplicou a cada década desde 1970. Um relatório apoiado pela ONU de 2023 estimou que as espécies invasoras custam à economia global pelo menos US$ 423 bilhões anualmente.
Donzela-real, conheça a espécie
Nativa do Mar Vermelho e Indo-Pacífico, ela foi detectada pela primeira vez no Atlântico em 2013 (México). No Caribe (especialmente no Golfo do México e Trinidad), a espécie já formou populações densas e reprodutivas, demonstrando alta maleabilidade ao sobreviver tanto em recifes de coral quanto em estuários turvos.
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Trata-se de um peixe pequeno, atingindo entre 7 e 10 centímetros quando adulto. A donzela-real é classificada como onívora, ela se alimenta de pequenos crustáceos flutuantes, larvas e algas. Por se alimentar de plâncton na coluna d’água, ela compete diretamente com as fases juvenis de quase todos os peixes nativos e com adultos de espécies.
Alguns estudos sugerem que até mesmo o lixo plástico flutuante pode servir de “berçário” para a donzela-real. Os ovos grudam no plástico e viajam com as correntes, o que ajuda a explicar por que eles aparecem em lugares tão distantes tão rápido. Contudo, pesquisadores brasileiros consideram que a entrada do animal provavelmente aconteceu via água de lastro de navios.
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Um dos maiores ativos do Brasil é a sua biodiversidade. Somos o país com a maior biodiversidade do mundo. Em 2024 foi publicado um relatório das espécies exóticas feito pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES).
Produzido por especialistas de 49 países, o documento afirma que estes intrusos têm sido um fator importante em 60 por cento de todas as extinções. E também classificou as espécies exóticas invasoras como uma ‘ameaça ao desenvolvimento sustentável e ao bem-estar humano’.
O estudo mostra que o Brasil tem 476 espécies exóticas invasoras mas agora, com a donzela-real, podemos considerar mais um. Dessas, 268 são animais e 208 são plantas e algas. A maioria vem da África, Europa e sudeste asiático. O comércio de animais de estimação e plantas ornamentais é a principal forma de entrada. Essas espécies se espalham por todos os ecossistemas. Elas se concentram mais em locais degradados ou com muitas pessoas.
Estratégia de combate à nova espécie invasiva
Ainda não se sabe qual estratégia será adotada pelo ICMBio para combater a nova espécie invasiva. Mas sabe-se que acabar com a ameaça é extremamente difícil. No caso do peixe-leão a instituição promove treinamentos para que profissionais e voluntários saibam capturar e manusear o animal de forma segura, utilizando equipamentos adequados para evitar acidentes com os espinhos venenosos.
O estudo sobre a donzela-real First records of Neopomacentrus cyanomos in Southwestern Atlantic reefs revela que os registos de espécies não nativas nos recifes do Atlântico Sudoeste aumentaram de forma alarmante nas últimas duas décadas.
Pior, nossos recifes de coral já sofrem um severo branqueamento enquanto nossos estuários estão cada vez mais poluídos e maltratados.
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