Cidade de Iguape sofre há 300 anos com o Valo Grande

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Cidade de Iguape sofre há 300 anos com o Valo Grande

A cidade de Iguape paga há 300 anos o preço do Valo Grande. O canal, aberto com fins econômicos, desorganizou o estuário, arrasou o antigo porto, afetou os manguezais e bloqueou parte do desenvolvimento local. O resultado salta aos olhos até hoje: um impasse histórico, ambiental e econômico que se arrasta sem solução.

engenho central, Iguape
Em 1882 foi inaugurado, no Porto do Ribeira, o Engenho Central Casavecchia, de propriedade do oficial da Marinha Mercante Francisco Casavecchia e seu sócio Carlos Tolomei. Imagem, Domínio Público.

No século 18, o ouro de Iguape chegou ao fim. A cidade entrou em decadência, e muitos pioneiros a deixaram. Os que ficaram passaram a cultivar arroz nas várzeas do Ribeira de Iguape.

O Porto do Mar Pequeno virou o principal ponto de escoamento da produção. A cidade voltou a crescer. Surgiram novas construções, jornais, companhias de teatro e uma nova igreja Matriz.

jornal antigo de Iguape
Antes do porto ser detonado navios de porte médio faziam a rota regular Rio de Janeiro – Iguape. Imagem encontrada na página História de Iguape, no FaceBook.

O Porto do Mar Pequeno tornou-se o principal ponto de escoamento da produção. Iguape voltou a crescer. Surgiram novas construções, jornais, companhias de teatro e uma nova igreja Matriz.

O auge da riqueza em Iguape

No século 19, Iguape viveu seu período mais próspero. A cidade ganhou casarões históricos, dois portos movimentados, teatros e quatro jornais diários. Também abrigou um vice-consulado português. Nesse tempo, tornou-se uma das principais cidades do sul do Brasil.

Porto de Iguape em 1875.
Porto de Iguape em 1875. Imagem, publicada na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, ano X, volume CII, abril-maio de 1945. seção ‘O Ribeira de Iguape’, por Antônio Paulino de Almeida – páginas 27-104.

Porto do Mar Pequeno

Na época, o arroz seguia em burros ou carroças por três quilômetros até o Porto Grande, de onde era exportado. A riqueza local e o transporte difícil levaram à ideia de abrir um canal ligando o rio ao mar, encurtando o trajeto.

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Orla do Mar Pequeno
Orla do Mar Pequeno. Imagem, História de Iguape, Facebook.

Depois de anos de discussão, escolheram o trecho mais curto e arenoso. A obra transformou Iguape em uma ilha, cercada pelo rio Ribeira e pelo Mar Pequeno. Mas a decisão, que parecia lógica, logo se mostrou um erro.

Mapa de Iguape
Mapa do artigo de Sud Mennucci, da década de 1930, com proposta para a ampliação do Canal do Valo Grande.

Um dos maiores desastres ecológicos do século 19

O canal, aberto por escravizados e inaugurado em 1852, tinha apenas quatro metros de largura. Mas a força das águas logo ampliou a vala. O Valo Grande virou um canal largo, destruindo tudo ao redor.

Vapor Estrêla
Segundo a pag. História de Iguape, este é ‘o primeiro vapor ‘Estrêla’, possivelmente da Companhia Intermediária e posteriormente renomeado como ‘Progresso’. Não confundir com o vapor ‘Estrêlla’ da empresa Chrysostomo & Irmão, a qual fundou a Companhia Xiririquense. Ambos faziam o trajeto Iguape-Xiririca (atual município de Eldorado) em épocas diferentes.

A enxurrada de água e lama assoreou o Mar Pequeno e impediu a entrada de grandes navios. Além disso, a descarga de água doce afetou a vida marinha. O resultado foi um dos maiores desastres ecológicos do século 19.

janelas de Iguape
Acervo MSF.

Poucos anos depois, o porto tornou-se inútil para navios de grande calado. A exportação de arroz parou, a produção caiu. Hoje, com IDH abaixo da média nacional, Iguape sobrevive da pesca e do turismo.

Parte do mangue agoniza

Hoje, parte do mangue de Iguape agoniza. O excesso de água doce que desce pelo Valo Grande sufoca o ecossistema do Mar Pequeno. A cidade histórica, além disso, foi cortada ao meio e segue sendo erodida pela força do canal.

“É terrível”. Medimos, ano após ano, a morte do mangue de Iguape. E com ele, a perda de todos os serviços ambientais que os manguezais oferecem de graça.” O alerta é da professora Marília Cunha Lignon, da Unesp de Registro. Desde 2010, ela estuda o manguezal da região, no litoral sul de São Paulo.

capim nos rios do lagamar
O capim toma conta dos rios de Iguape. Acervo MSF.

Você conhece os serviços ambientais do manguezal?

O manguezal é o segundo maior berçário marinho do planeta, atrás apenas dos recifes de coral. Também abriga aves como os guarás e outras espécies costeiras.

Além disso, um hectare de mangue  sequestra até quatro vezes mais CO₂ que o mesmo espaço de floresta tropical. É um aliado poderoso contra as mudanças climáticas.

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Agora veja, a cidade de Iguape tem um lindo casario antigo muito bem preservado.

sobrado em Iguape
Acervo MSF.

Segundo o IPHAN,  as casas e sobrados de pedra e cal refletem diferentes fases da história de Iguape. Parte vem do ciclo do ouro, iniciado no século XVI.

Casa do Fandango em Iguape
Imagem, Prefeitura de Iguape.

Cavernas no sul de São Paulo: um espetáculo da natureza

A região de Iguape guarda outro atrativo impressionante: suas cavernas. Formações naturais belíssimas, pouco conhecidas do grande público.

Segundo a  Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), o estado de São Paulo abriga 12,5% das cavernas registradas no Brasil. São 718 sítios espeleológicos já cadastrados. Outros 40 aguardam inclusão oficial, com levantamento topográfico, dados sobre rochas, extensão e características geológicas.

Caverna Casa de Pedra
Note a proporção do helicóptero com o monumental pórtico de entrada da Casa da Pedra. Imagem, www.clube.gazetadopovo.com.br.

A Casa da Pedra, no PETAR, tem o maior pórtico de caverna do mundo, com 215 metros de altura. A região também abriga cavernas profundas, como o Abismo do Juvenal, com 241 metros de desnível.

salão da Caverna do Diabo
O salão da Caverna do Diabo, em imagem impecável do fotógrafo Ricardo Martinelli 

Vocação para o turismo

Para começo de conversa, Iguape está dentro da Área de Proteção Ambiental Federal (APA) Cananéia-Iguape-Peruíbe. A cidade também faz parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e do Sítio do Patrimônio Mundial Natural.

papagaio de cara roxa
O ameaçado Amazona brasiliensis, ou papagaio-de-cara-roxa. Acervo SMF.

A região abriga milhares de rios e canais cercados pela Mata Atlântica. Neles vivem espécies endêmicas e ameaçadas, como o papagaio-de-cara-roxa, bugios, tartarugas-verdes, botos-cinza, águias-cinzentas e micos-leões-da-cara-preta.

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Gosta de praia? A mais próxima do centro de Iguape fica a cinco minutos, em Ilha Comprida. São 70 km ininterruptos de areia e mar. Se quiser explorar mais, vale conhecer a praia de Camboriú (ou Cambriú, como também é chamada), na Ilha do Cardoso, a 90 km de distância. Para mim, é uma das mais bonitas do Brasil.

Praia Camboriú/Cambriú, ilha do Cardoso.
A espetacular praia Camboriú/Cambriú, Ilha do Cardoso, com uma pujante restinga atrás. Acervo MSF.

Iguape está entre as cinco cidades mais antigas do Brasil

Iguape é uma das cidades mais antigas do País. Como vimos no início deste post, o primeiro núcleo europeu surgiu no Outeiro do Bacharel, um pequeno morro na barra de Icapara.

Mas de onde vem o nome “Morro do Bacharel”? Ele homenageia um personagem histórico encontrado por Martim Afonso de Souza em sua expedição de 1531, na região de Cananéia. O relato da viagem, feito por Pêro Lopes, irmão de Martim, menciona o encontro com o bacharel, “mais sete ou oito espanhóis” e diversos indígenas.

Segundo o historiador Ernesto Guilherme Young, no livro Esboço Histórico da Fundação de Iguape, há fortes indícios de que o bacharel e seus companheiros fundaram a cidade.

Canoa Pantera, e última canoa à vela de São Paulo
Quando estive em Iguape a primeira vez flagrei a última canoa à vela, ainda em ação no litoral de São Paulo. A foto mostra Seu Apparício velejando a ‘Pantera’ no Canal do Valo Grande.

Mas Iguape tem outras características que a tornam única. Conhecida também como “Princesa do Litoral”, a cidade é um reduto da cultura caiçara. E, o melhor: essa cultura é valorizada pelos moradores e preservada no dia a dia.

caiçaras em Iguape
Acervo MSF.

Fandango, Marujada, Reiada ou Folia de Reis

Em Iguape, você pode se deparar com belas apresentações de Fandango, Marujada, Reiada ou Folia de Reis. No inverno, a cidade celebra a tradicional Festa da Tainha — um evento marcante da cultura local.

E tem mais. A devoção ao Senhor Bom Jesus de Iguape continua viva até hoje, com festas que atraem fiéis e visitantes. Sem falar na gastronomia caiçara, rica em sabores do mar e da terra.

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Sobrado em Iguape
Acervo MSF.

A culinária é variada e saborosa. Vai do pastel e da casquinha de siri à paçoca de carne-seca. Sem falar nos peixes frescos e outras iguarias típicas da região.

Igreja Matriz, cidade de Iguape

A cidade também valoriza sua história. Iguape cultiva o passado com orgulho. Um bom exemplo são seus museus. O Museu de Arte Sacra guarda peças religiosas raras. Já o Museu Histórico e Arqueológico funciona no prédio da primeira Casa de Fundição de Ouro do Brasil, inaugurada em 1635.

Casario colonial de Iguape
Acervo MSF.

Turismo, a força central da economia

Iguape tem tudo para fazer do turismo sua principal fonte de emprego e renda. Belezas naturais, patrimônio histórico e cultura viva não faltam. Mas um problema antigo continua travando o desenvolvimento: o maldito Canal do Valo Grande.

Centro de Iguape
Acervo MSF.

O excesso de água doce prejudicou a pesca. Hoje, só resta a manjuba. O mangue também foi afetado, e com ele, o turismo.

O turismo poderia ser extremamente potencializado…”

Para o prefeito Wilson Lima (PSDB), a solução é clara: “O turismo de Iguape poderia ser extremamente potencializado com o fechamento da barragem do Valo Grande. Porque nós poderíamos recuperar uma área extraordinária que, importante criatório de vida marinha, está neste momento com a vida comprometida.”

serra do mar
Não importa para qual lado você navegar no Lagamar. A Serra do Mar estará sempre no seu campo de visão. Acervo MSF.

“Temos 1.400 famílias vivendo da pesca artesanal”, diz o prefeito Wilson Lima. “Fora os informais, que são muitos. E também os pescadores esportivos, que formam uma atividade muito significativa. Mesmo com todos os problemas, temos marinas com alta ocupação. Gente de todo o Brasil vem pescar aqui.”

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mangue de Iguape Morto
O mangue de Iguape, morto. Acervo MSF.

Hoje já não há mais ostras na região. Peixes valorizados pela pesca esportiva, como o robalo, sumiram há tempos.

E o pior: o excesso de água doce continua ameaçando o lagamar Iguape-Cananéia-Paranaguá. Esse sistema é considerado o terceiro maior berçário de espécies marinhas do mundo.

raízes de mangue em Subaúma
Estas raízes de mangue são de Subaúma, a 28km de Iguape. Note a cor da água, marrom, do rio Ribeira, e não há uma ostra sequer, o excesso de água doce impede. Acervo MSF.

Paulo Egydio Martins fechou o Valo Grande — mas só por pouco tempo

Tudo isso por causa de uma simples barragem aberta. Uma pena. E o mais frustrante: o Valo Grande já foi fechado, mesmo que por pouco tempo.

Nos anos 1970, o Jornal da Tarde fez uma grande campanha pelo fechamento do canal. O então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, comprou a briga. Uma barragem de pedras foi construída. Mas em 1983, uma grande cheia do Ribeira destruiu tudo. A água doce voltou a invadir o Lagamar — e nunca mais parou.

Em 1998, o governo estadual construiu uma nova barragem. Mas, por pura negligência, ela nunca foi fechada.

rua das Neves, Iguape
Acervo MSF.

Ação civil pública contra o governo de São Paulo

Em 2017, o Ministério Público de São Paulo venceu a primeira batalha judicial contra o governo do Estado. A ação teve origem em um inquérito aberto em 2001.

A Justiça condenou o governo paulista e determinou o fechamento definitivo da barragem do Valo Grande.

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Canal do Valo Grande
O vilão, algoz de Iguape, Canal do Valo Grande. Acervo MSF.

Em 2019, quando abordamos esse caso pela primeira vez, mostramos a resposta do governo após a decisão judicial.

Por meio da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, o governo recorreu da sentença. Disse apenas que “interpôs recurso e aguarda nova manifestação do Poder Judiciário”.

Falta apenas o sistema eletromecânico de comportas

Na época, já informávamos: só faltava o sistema eletromecânico de comportas, que nunca foi instalado na barragem.

Em 2018, durante a campanha ao governo de São Paulo, Márcio França chegou a anunciar o investimento para concluir a obra. Mas nada foi feito.

Hoje, o Estado apenas recorre da decisão judicial e continua empurrando o problema.

Governo Serra liberou R$ 9 milhões

O prefeito Wilson Lima (PSDB) relembra: “O governo do Estado estava trabalhando. Ainda no tempo do governador José Serra, foram liberados R$ 9 milhões para conter a erosão nas margens do Valo Grande e iniciar a instalação das comportas”.

Mas em 2009–2010, tudo parou. O Ministério Público entrou com uma ação civil pública, e a obra foi travada.

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barragem do Valo Grande
A barragem construída em 1998 e que nunca ganhou suas comportas. Acervo MSF.

MP é contra sistema de comportas

Segundo nossa fonte, o Ministério Público é contra a abertura e o fechamento das comportas. Defende o fechamento definitivo do canal. Essa divergência parou tudo. O caso ficou anos sub judice. E, em 2019, uma decisão do Tribunal de Justiça revogou toda a ação anterior.

Para o prefeito Wilson Lima, o governo do Estado apoia a proposta original do DAEE — a instalação das comportas com monitoramento constante. O objetivo seria fechar o canal apenas quando a situação ambiental justificasse.

Prefeito de Iguape: Veio a decisão judicial e parou tudo”

“O que estava sendo feito parou”, relembra o prefeito Wilson Lima. “O governo recolheu cerca de R$ 3,5 milhões dos R$ 9,5 milhões liberados por Serra. Esse valor era para concluir o Manual de Operação da barragem e construir a Casa de Máquinas. Era só isso que faltava. Mas veio a decisão judicial, e tudo travou. E pior: o assoreamento aumentou muito.”

Perguntamos por quê.

“Porque retiraram as ensecadeiras a montante”, explicou o prefeito. “E ainda removeram parte da barragem a jusante. Isso potencializou, enormemente, brutalmente, o assoreamento do estuário.”

A proposta do DAEE é a melhor saída

Para o prefeito Wilson Lima, a proposta técnica do DAEE é a mais sensata. “Colocadas as comportas e feito o monitoramento, a tendência é o desassoreamento do canal. O Ribeira voltaria a correr até a foz, limpando o leito do rio.”

Hoje há um consórcio entre a União, o Estado e o município de Iguape, onde está a barragem. Mas, segundo Lima, a responsabilidade direta é do governo estadual. “Num primeiro momento, o Estado aceitou. Mas não nas condições impostas pela Justiça.”

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Governo Márcio França pediu orçamento ao DAEE

Durante o governo Márcio França, o Estado chegou a pedir um orçamento ao DAEE. A ideia era calcular quanto custaria cumprir exatamente o que o Ministério Público exigia na Justiça.

“Era quase como voltar ao Éden”, diz o prefeito Wilson Lima. “A proposta levaria cerca de 20 anos para ser concluída e custaria algo em torno de R$ 5 bilhões. Eles exigiam máquinas chinesas usadas em Dubai. Não temos nem esse recurso, nem esse tempo.”

Felizmente, segundo ele, essa proposta caiu quando o mérito da ação foi finalmente julgado.

Governo Doria retomou o projeto

O governo João Doria retomou o projeto do Valo Grande. Segundo o prefeito Wilson Lima, Doria esteve em Iguape pelo menos quatro vezes. “Fizemos uma reunião com o secretário Marcos Penido, que se interessou muito. A tese de doutorado dele é justamente sobre o Valo Grande.”

serra do mar
Ao subir qualquer rio da região do Lagamar você chega quase na nascente, na Serra do Mar. Acervo MSF.

Na equipe também estava Ricardo Borsari, ex-presidente do DAEE e da Sabesp, outro nome com profundo conhecimento da região. “Com pessoas assim, conseguimos convencer o governo Doria da importância da obra.”

A decisão foi seguir com as licitações. O processo avançou durante o governo Doria e continuou com Rodrigo Garcia. Mas, com a mudança de governo, veio a velha descontinuidade típica da política partidária.

Governo Tarcísio de Freitas para tudo outra vez

Com a entrada do governo Tarcísio, tudo parou de novo. Segundo o prefeito Wilson Lima, várias licitações estavam em andamento. O projeto técnico do DAEE havia sido atualizado, e já tinham sido feitos alguns trabalhos para mitigar o assoreamento do estuário.

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Mas ainda faltavam duas licitações essenciais: uma para o Manual de Operação da barragem, outra para a Casa de Máquinas e a instalação das comportas.

Nada disso andou. Tudo foi interrompido mais uma vez.

canoa
Acervo MSF.

Novo governo, velhos obstáculos

Toda vez que muda o governo, muda também uma série enorme de funcionários. E com isso, temos que recomeçar do zero.

Mesmo assim, enviei um ofício à secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Clima, Natália Resende. Perguntei sobre o andamento do processo e se algo estava sendo feito.

Coordenadora estadual do DAEE esteve em Iguape

A secretária Natália Resende respondeu ao ofício, mas de forma evasiva. Parecia ainda não estar a par da gravidade da situação. Diante disso, a coordenadora estadual do DAEE foi até Iguape.

Ela é especialista em barragens, altamente capacitada. Mas a visita foi um balde de água fria. Voltou a velha discussão: o ovo ou a galinha. Disse que o problema não era do DAEE, mas da Secretaria do Meio Ambiente.

Ora, o DAEE sempre esteve envolvido. O projeto é deles. E seria esse órgão o responsável por operar a barragem. Transferir tudo para o Meio Ambiente só cria mais confusão. Afinal, quem vai assumir?

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O resultado é o impasse. E estamos paralisados. Enquanto isso, o assoreamento cresce sem controle. Quando chove forte, a situação piora. O Ribeira desbarranca, e uma quantidade inimaginável de sedimentos desce para o estuário. É um mundo de lama.

mapa do Vale do Ribeira
O Vale do Ribeira tem uma população de 481 224 habitantes e inclui a área de 31 municípios. De acordo com o Wikipedia, ‘a região é destacada pela preservação de suas matas e por grande diversidade ecológica. Seus mais de 2,1 milhões de hectares de florestas equivalem a aproximadamente 21 por cento dos remanescentes de mata atlântica existentes no Brasil, sendo a maior área contínua de um ecossistema do Brasil’. Ilustração, Wikipedia.

Governador Tarcísio de Freitas, não deixe essa oportunidade escapar

Governador, o destino do Valo Grande — e de todo o Vale do Ribeira — está em suas mãos. O problema não é só ambiental. É também social, histórico e humano.

O próprio  site do governo reconhece: o Vale do Ribeira é a região mais pobre do Estado mais rico do Brasil. E há 300 anos discutimos o fechamento de uma barragem que segue destruindo o meio ambiente e afetando a vida de milhares de pessoas.

A hora de agir é agora. Não repita os erros do passado. O Vale não pode esperar mais.

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Comentários

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bem relatado, a maior catástrofe ambiental em vigor. Não sabemos quem é mais míope…o executivo, judiciário ou os ambientalistas.

  2. Conheço a região dos meus maravilhosos anos de estudante em S. Paulo. Faziamos ( a turma do meu Fusca e a turma do fusca do Issao) inesquecíveis acampamentos de até 5 dias nos feriadões e percorríamos esses rios , esse canal muito sacana , a fogueira na praia para assar peixes no vento quente, as conversas dos pescadores. Maravilha !!

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