Barragem no Estreito de Bering contra colapso da AMOC

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Barragem no Estreito de Bering contra colapso da AMOC

A barragem no Estreito de Bering parece roteiro de ficção científica. Ainda assim, dois cientistas holandeses decidiram estudar a ideia. O objetivo seria tentar impedir o colapso da AMOC, a grande circulação oceânica do Atlântico que ajuda a regular o clima em várias partes do planeta. O estudo, publicado na Science Advances, não propõe a obra como solução imediata. Ele mostra outra coisa: a crise climática já empurra a ciência para hipóteses extremas.

Mapa do Estreito de Bering .
Imagem, NASA.

A preocupação não surgiu do nada. Em 2023, um estudo publicado na Nature Communications estimou que a AMOC poderia entrar em colapso entre 2037 e 2109, com maior probabilidade em meados deste século, se as emissões continuarem no ritmo atual. Agora, em abril de 2026, outro estudo publicado na Science Advances tornou o alerta ainda mais grave: a AMOC pode enfraquecer entre 43% e 59% até 2100. A média chega a 51%, quase 60% acima do enfraquecimento projetado por modelos climáticos anteriores.

É neste contexto que aparece a barragem no Estreito de Bering. A proposta não deve ser lida como obra pronta para sair do papel. Ela serve, antes, como sintoma de uma época em que cientistas já estudam intervenções antes vistas como impensáveis. Segundo a Universidade de Utrecht, a ideia poderia ajudar apenas em determinadas condições. Se a AMOC já estiver fraca demais, fechar o Estreito de Bering poderia piorar o problema.

Europa mais fria sem a AMOC

Nós já explicamos como os oceanos regulam o clima na Terra, através de suas correntes marítimas em interação coma atmosfera.

Pois saiba que a  AMOC também funciona como uma espécie de aquecimento natural para o noroeste da Europa. Ela transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte e ajuda a manter mais amenas as temperaturas de países como Reino Unido, Irlanda, Noruega, Dinamarca, Holanda e parte da França. Sem esse transporte de calor, a região poderia esfriar de forma brusca.

O Met Office, serviço meteorológico britânico, afirma que, sem a AMOC, as temperaturas do noroeste europeu seriam muito mais baixas. Já estudos recentes citados pelo Carbon Brief indicam que um colapso da circulação poderia derrubar as temperaturas de inverno no norte da Europa, a ponto de superar parte do aquecimento global causado pelo homem. Não seria uma nova era do gelo planetária, mas poderia significar frio extremo em países hoje protegidos por essa corrente oceânica.

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Como funcionaria a barragem no Estreito de Bering

A barragem no Estreito de Bering fecharia a passagem entre o Alasca e a Sibéria. Como há ilhas no meio do caminho, os autores estudaram três barragens: duas com cerca de 38 quilômetros e uma terceira, entre as ilhas Diomedes, com cerca de quatro quilômetros.

A lógica é reduzir a entrada de água relativamente doce do Pacífico no Ártico. Parte dessa água chega ao Atlântico Norte e pode atrapalhar a AMOC, que depende de água fria e salgada para funcionar.

Plano para a barragem no Estreito de Bering.
Ilustração publicada pela Science.org com a seguinte legenda: O BSD proposto (linhas negras) que consiste em três barragens separadas: uma seção ocidental que liga a Rússia continental com a Ilha Big Diomede (~ 38 km), uma seção intermediária que liga a Ilha de Diomede a Little Diomede Island (~ 4 km) e uma seção leste que liga a Ilha de Little Diomede ao Alasca, EUA (~38 kmA), com perfil de profundidade correspondente ao longo desses transectos (B) e o BSD em uma visão geral regional Cmostrando-o Dados de batimetria de (62).

Mas Jelle Soons, da Universidade de Utrecht, disse ao New York Times que o estudo é uma “prova de conceito”, não um plano de ação. Os autores testaram uma hipótese em modelos climáticos. Ainda falta saber se a barragem funcionaria, se seria viável e quais danos ambientais poderia causar.

O alerta maior é outro. Se a AMOC já estiver fraca demais, fechar o Estreito de Bering poderia piorar o problema. Por isso, a proposta vale mais como sinal dos tempos do que como obra possível.

Uma ideia extrema, não uma solução

A barragem no Estreito de Bering não deve ser tratada como solução para o colapso da AMOC. Ela mostra, antes, o tamanho do impasse em que entramos. Quando cientistas passam a estudar o fechamento de um estreito entre dois continentes para tentar salvar uma corrente oceânica, o alerta fala por si.

A solução ideal continua muito menos espetacular, mas infinitamente mais urgente: cortar emissões de gases de efeito estufa. Só que esta tarefa ficou ainda mais difícil. Em janeiro de 2025, Donald Trump determinou a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris. A saída passou a valer a partir de janeiro de 2026. O país responde por cerca de 12,7% das emissões globais de CO2 por combustíveis, segundo a Agência Internacional de Energia.

Como reduzir emissões se um dos maiores emissores abandona o principal pacto climático do planeta? A crise da AMOC reforça uma verdade incômoda: problema coletivo exige resposta coletiva. Sem a contribuição de todos, qualquer barragem no Estreito de Bering vira apenas um remendo improvável diante de um problema criado pela nossa teimosia em aquecer o planeta.

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