Banco de Abrolhos perde até 50% dos corais em 20 anos
O Banco dos Abrolhos se estende por 46 mil km² na costa brasileira. Trata-se da maior e mais rica formação recifal do Atlântico Sul. Mesmo assim, os dados mais recentes mostram um cenário preocupante. O banco perdeu uma parcela expressiva de seus corais nos últimos 20 anos. O alerta vem de um novo estudo publicado pela Royal Society, que analisou mudanças ecológicas profundas na região.

Ao longo do período analisado pelos pesquisadores, a cobertura coralínea do Banco dos Abrolhos caiu cerca de 15%. A perda se acelerou após 2017, no rastro da onda de calor marinha iniciada em 2016. Esse evento provocou o terceiro grande episódio global de branqueamento de corais.

Saiba onde fica Abrolhos
O Banco de Abrolhos se estende pelo sul da Bahia. Ele abriga o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e forma o maior banco recifal do Atlântico Sul.
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A região concentra espécies endêmicas. Também sustenta a pesca artesanal, o turismo e a biodiversidade marinha brasileira.
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Mudanças climáticas e poluição aceleram a degradação
O estudo associa a perda de corais no Banco de Abrolhos a múltiplos fatores.
As mudanças climáticas elevam a temperatura do mar. O aquecimento provoca eventos de branqueamento. O oceano também absorve mais CO₂, o que reduz o pH da água e enfraquece os esqueletos calcários.
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Danos aos oceanos duplicam custo do carbonoOceano supera recorde de calor e amplia riscos globaisPrefeitura do Rio decepa mangues por árvore de NatalA poluição costeira agrava o problema. O aumento de sedimentos e nutrientes favorece algas oportunistas. Elas competem com os corais por espaço e luz.

O resultado aparece nos dados. O ecossistema já não funciona como antes.
Coral-de-fogo, espécie que só existe no Brasil
O caso mais grave envolve o coral-de-fogo, espécie que só existe no Brasil. No Banco dos Abrolhos, ele já está em estado de colapso. Sua cobertura, que era inferior a 2% no início do estudo, encolheu ainda mais depois da onda de calor.
Com a morte das espécies maiores e estruturalmente mais complexas, o recife mudou de perfil. O espaço deixado por esses corais passou a ser ocupado por espécies menores e oportunistas.

Conhecidos como corais “ervas daninhas”, esses organismos crescem rápido e vivem pouco. Não constroem recifes robustos. Em 2006, eram o grupo menos abundante no Banco dos Abrolhos. Até 2023, sua presença aumentou mais de 150%.
O resultado é um ecossistema mais simples, mais frágil e menos capaz de sustentar a biodiversidade que sempre caracterizou o Banco dos Abrolhos.
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Lista do Patrimônio Natural da Unesco
O biólogo Rodrigo Moura, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, declarou à Folha de S. Paulo: “Quando a gente olha para a métrica de cobertura coralínea total, parece que é um declínio pequeno [de 15%]. Mas o ecossistema recifal se simplificou nas últimas décadas, perdendo funções e complexidade. Em longo prazo, ele tende a fornecer menos benefícios para a sociedade.”
“Há uma perspectiva sombria da transformação do porto de celulose do sul da Bahia, que já é problemático, em porto multimodal, recebendo uma ferrovia que transportaria, entre outras coisas, minérios de terras raras.”
Rodrigo Moura lembrou que o governo brasileiro lançou a candidatura de Abrolhos para a Lista do Patrimônio Natural da Unesco, e concluiu:
“Não adianta só um selo internacional. Se essa é uma região importante para o mundo, o licenciamento ambiental precisa ser mais rigoroso, adequado a essa característica única.”
O que mudou na estrutura do recife
O estudo mostra que Abrolhos não perdeu apenas corais. Ele perdeu complexidade.
Corais construtores criam abrigo para peixes, crustáceos e invertebrados. Quando eles desaparecem, o recife fica mais simples. Espécies resistentes, porém menos estruturais, ocupam o espaço.
Essa substituição altera toda a cadeia ecológica. Menos abrigo significa menos biodiversidade. Menos biodiversidade enfraquece o ecossistema.
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No Banco de Abrolhos, os pesquisadores registraram queda na cobertura coralínea e avanço de algas. Esse padrão já apareceu em outras regiões tropicais. Agora ele se confirma no maior banco recifal do Atlântico Sul.
Mudanças climáticas aceleram o processo
Abrolhos sofre com ondas de calor marinhas cada vez mais frequentes. A temperatura da água sobe além do limite tolerado pelos corais. Eles expulsam as alagas zooxantelas e branqueiam.
Eventos repetidos reduzem a capacidade de recuperação.
O oceano também absorve mais dióxido de carbono. Isso provoca acidificação. A água mais ácida dificulta a formação dos esqueletos calcários.
Poluição e pressão costeira
Abrolhos também recebe influência do continente.
O aumento de sedimentos, nutrientes e poluentes compromete a transparência da água. Corais dependem de luz. Sem luz suficiente, perdem eficiência metabólica.
Atividades costeiras mal planejadas agravam o problema. Desmatamento, ocupação irregular e escoamento agrícola ampliam a carga de nutrientes no mar.
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O resultado aparece nos dados. O Banco de Abrolhos muda lentamente de estado ecológico.
O estudo indica que essas pressões atuam juntas. O impacto não ocorre de forma isolada. Ele se acumula ao longo dos anos.
Um alerta estratégico para o Brasil
O Banco de Abrolhos não representa apenas biodiversidade. Ele sustenta pesca, turismo e proteção costeira.
Recifes funcionam como barreiras naturais. Eles dissipam energia das ondas. Reduzem erosão. Protegem comunidades litorâneas.
Se o Banco de Abrolhos continuar a perder corais, o impacto ultrapassa o campo ambiental. Ele atinge a economia regional.
Por isso, cientistas defendem a ampliação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e maior controle das pressões externas.
O estudo deixa claro: a transformação já está em curso. A janela para evitar perdas maiores diminui.
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