Cabo Verde e Brasil: a escala que mudou a história do Atlântico

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Cabo Verde e Brasil: a escala que mudou a história do Atlântico

Nosso tema de hoje é Cabo Verde e Brasil, uma ligação antiga nas rotas do Atlântico. A Copa de 2026 revelou ao mundo um país insular ainda pouco conhecido e muito peculiar: Cabo Verde. O arquipélago fica ao largo da costa da África Ocidental e reúne dez ilhas vulcânicas, nove delas habitadas, além de oito ilhéus. Tem cerca de 525 mil habitantes. A capital, com o sugestivo nome de Praia, fica na ilha de Santiago.

O português é a língua oficial. No entanto, a população também fala o crioulo cabo-verdiano, que muitos brasileiros conhecem pela doce voz de Cesária Évora, mais um lançamento da Eldorado FM no Brasil. O site oficial afirma que europeus livres e escravos da costa africana fundiram-se num só povo, o cabo-verdiano, com uma forma de estar e viver muito própria e o crioulo emergiu como idioma da comunidade maioritariamente mestiça.

Mindelo, ilha de São Vicente.
Mindelo, ilha de São Vicente. Imagem, Facebook.

Apesar da população pequena, com menos de um milhão de habitantes, Cabo Verde deu um show de garra e espírito esportivo. Enfrentou de igual para igual países muito maiores e com longa tradição no futebol. Fez bonito. Além disso, encantou torcedores mundo afora como raramente se viu numa Copa.

Mas poucos brasileiros sabem que a história de Cabo Verde e Brasil anda próxima desde priscas eras. Afinal, os dois estavam na rota das grandes navegações portuguesas. Essa estrada marítima entraria para a história como a  Carreira da Índia. Rumo à África, com escala no Brasil e destino final nas Índias das especiarias, ela explica o elo antigo entre os dois lados do Atlântico, entre Cabo Verde e Brasil.

Ambos são filhos da ousadia portuguesa

Cabo Verde e Brasil nasceram da mesma ousadia: a  Era dos Descobrimentos. No entanto, essa ligação não surgiu por acaso. A navegação à vela dependia de ventos, correntes e escalas seguras. Por isso, antes de cruzar o Atlântico Sul, as frotas portuguesas desciam pela costa africana e encontravam em Cabo Verde um ponto de apoio quase obrigatório.

Além disso, o arquipélago ficava no caminho natural das naus. Dali, Portugal organizava a travessia para o Brasil, para o cabo da Boa Esperança e, depois, para as Índias. Assim, nessa estrada invisível, feita de mar e vento, Cabo Verde e Brasil entraram juntos na história.

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Antes de Cabo Verde, o medo do Bojador

Para entender Cabo Verde, é preciso voltar à primeira metade do século 15, quando Portugal ainda aprendia a descer a costa africana para concluir seu plano de atingir as Índias pelo ‘mar tenebroso’. O primeiro grande obstáculo tinha nome: Cabo Bojador. Durante muito tempo, marinheiros europeus trataram aquele ponto como limite do mundo conhecido. Falavam em monstros, correntes impossíveis, nevoeiros e mares sem volta.

Até que, em 1434, Gil Eanes rompeu essa barreira. A mando do infante D. Henrique, dobrou o Cabo Bojador e mostrou que havia mar navegável ao sul. A partir daí, Portugal ganhou confiança. As viagens avançaram pela costa ocidental da África. Vieram novas escalas, novos mapas, novos negócios e a obsessão por encontrar o caminho marítimo para as Índias.

Cabo Verde entra na história em 1460

Em 1460, Portugal vivia o reinado de D. Afonso V, o Africano. No entanto, quem ainda impulsionava as navegações era o infante D. Henrique, morto naquele mesmo ano.

Foi nesse contexto que Cabo Verde entrou na história. A tradição marca 1460 como o ano da chegada dos europeus ao arquipélago. Entre os nomes mais citados aparecem Diogo Gomes, navegador português, e António da Noli, genovês a serviço de Portugal. Como quase sempre nas grandes descobertas, há disputa sobre autoria e datas.

As fontes indicam que Cabo Verde não tinha população permanente quando os navegadores chegaram. O povoamento começou em 1462, sobretudo na ilha de Santiago. Mas não nasceu como simples colônia agrícola. Desde cedo, Portugal levou para lá colonos europeus e escravizados da Guiné. Além disso, poucos anos depois, a Coroa deu aos moradores o direito de comerciar na costa africana.

Praia em Cabo Verde
A cor da agua é um dos atrativos do arquipélago. Imagem, www.travelandleisure.es.com.

Assim, Cabo Verde virou escala, entreposto e peça central no tráfico negreiro atlântico que então se formava. Mais tarde, o Brasil também entraria de forma brutal nessa mesma engrenagem. Portanto, além da língua, do mar e das rotas das caravelas, há também essa herança dura a ligar os dois lados do Atlântico.

Talvez por isso a simpatia brasileira por Cabo Verde tenha surgido tão naturalmente nesta Copa. A seleção cabo-verdiana encantou pelo futebol, pela garra e pela alegria. Mas talvez tenha despertado também algo mais fundo. Afinal, Cabo Verde e Brasil dividem raízes antigas, embora pouco evidentes para a maioria dos brasileiros. É como reencontrar, pelo futebol, um irmão africano que a história manteve distante por séculos.

O encontro que ajudou a entender o Brasil

Cabo Verde e Brasil ainda se cruzariam de modo decisivo logo depois do ‘achamento’ de 1500. Em 1501, D. Manuel I mandou uma nova expedição ao Atlântico Sul. Queria saber o tamanho, a posição e a importância da terra encontrada por Cabral. A frota seguiu sob comando de Gonçalo Coelho, mas com Américo Vespúcio a bordo.

Antes da travessia, porém, a expedição encontrou navios da armada de Cabral que voltavam da Índia. O encontro ocorreu na região de Cabo Verde, ou em Bezeguiche, ponto próximo ao arquipélago. Ali, Vespúcio ouviu relatos de quem havia passado pela Terra de Vera Cruz no ano anterior.

Casa tradicional em Cidade Velha
Casa tradicional em Cidade Velha. Imagem, @Xandu, wikipedia

A informação mudou a compreensão daquela terra ainda misteriosa. Até então, Portugal sabia pouco sobre o descobrimento de Cabral. Não estava claro se a Terra de Vera Cruz era uma ilha, uma costa extensa ou parte de algo muito maior. Depois da viagem de Vespúcio pelo litoral, e fruto do encontro que ele teve com as naus de Cabral antes de cruzar o Atlântico, a dúvida começou a cair. Aquela terra não parecia uma ilha perdida no Atlântico. Era parte de um mundo novo, expressão que Vespúcio tornaria famosa em sua carta Mundus Novus.

E este, é outro saboroso detalhe histórico que nos une ao time de Vozinha, o goleiro que saiu do anonimato para tornar-se uma celebridade mundial com mais de 27 milhões de seguidores nas redes antissociais, mérito que ele conquistou com grandeza nos jogos da Copa.

História de Cabo Verde e Brasil passa pelo mar

No fim, a história de Cabo Verde e Brasil passa sempre pelo mar. Foi o Atlântico que levou os navegadores portugueses ao arquipélago. Foi o mesmo Atlântico que trouxe Cabral à Terra de Vera Cruz. E foi ainda esse oceano que transformou Cabo Verde em escala, entreposto e ponto de circulação de notícias, mercadorias, escravizados e ideias.

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Cena do interior da ilha de Santo Antão, Cabo Verde.
Cena do interior da ilha de Santo Antão, Cabo Verde. Image, Facebook.

Por isso, a simpatia despertada pela seleção cabo-verdiana talvez não tenha surgido do nada. O futebol apenas revelou uma proximidade antiga. Cabo Verde e Brasil já estavam ligados pelo idioma, pelas rotas, pela diáspora africana e por uma história atlântica comum, luminosa em alguns pontos, brutal em outros.

Biodiversidade e geografia

Segundo o site oficial de Cabo Verde, a fauna e flora são preservadas por várias reservas e parques naturais. Entre as principais espécies de fauna, têm especial importância as aves, nomeadamente a passarinha, o corvo e a corredeira. Em termos de fauna, contam-se 755 espécies vegetais, das quais se 83 endêmicas e 224 indígenas. O dragoeiro é particularmente importante por tratar-se de uma árvore cuja presença antecede o descobrimento do próprio arquipélago.

As ilhas são divididas em dois grupos, o de Barlavento e Sotavento, de onde sopra o vento e por onde se escoa o vento, respectivamente. À excepção das ilhas da Boavista, do Sal e do Maio, o relevo do arquipélago é acidentado, com altitudes que ultrapassam os mil metros em algumas ilhas atingindo os 2.882 metros na ilha do Fogo, o ponto mais alto.

Cabo Verde é independente desde julho de 1975. E, segundo o site oficial, em 1991, na sequência das primeiras eleições multipartidarias realizadas no país, foi instituída uma democracia parlamentar com todas as instituições de uma democracia moderna. Hoje Cabo verde é um país com estabilidade e paz sociais, pelo que goza de crédito junto de governos, empresas e instituições financeiras internacionais.

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