De Luis Correia, Piauí, para Fortaleza, Ceará

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    Segunda-feira, Primeiro de Agosto, 2005.

    Dia todo gasto na viagem para cá. Saímos de São Paulo, para Brasília, onde houve atraso de quase duas horas na conexão. Depois seguimos para Teresina, pousando às duas da tarde. Em seguida pegamos um táxi, e rodamos cerca de 400 quilômetros, até finalmente chegarmos a Luis Correia, no começo da noite. Estávamos cansados da viagem, do calor fortíssimo do Piauí, e das intermináveis conversas do nosso motorista, seu Antonio, que falava compulsoriamente. Ele abordava todos os assuntos sem cerimônia. Os principais destaques, entretanto, foram sobre corrupção, claro. Mas seu Antonio não falava apenas de dólares na cueca dos amigos do PT. Ele reclamava das condições das estradas, mal sinalizadas, esburacadas, e sem acostamento, do Estado do Piauí. Ele é mais um brasileiro desencantado, que sabe que o dinheiro sai de Brasília para o conserto, mas quase nunca chega ao destino de forma integral. Um pedágio aqui, uma comissão ali, outra mordida acolá. O resultado é que as obras que dependem de verbas públicas, para manutenção ou reparos, estão quase sempre em estado lastimável. E quando chega o dinheiro percebe-se que mais da metade ficou pelo caminho, restando poucos caraminguás para a conservação…

    De tanto ele falar acabei ficando atordoado. No fim da viagem, quando começava a verborragia, eu deitava a cabeça no encosto, e fingia dormir para não ser obrigado a responder. Numa destas vezes quase engasguei quando ouvi nosso condutor contando das mazelas de sua esposa, que sofre de problemas de estômago. Dores terríveis. Já foi em todos os médicos, mas ninguém descobre a causa. Ele mesmo tem sua teoria, e acha que ela é muito estressada, trabalha demais. Tanto que quando saíram de férias, comia de tudo e não passava mal. “Sabe, seu João, depois de comer, se ela romitar, ou obrar, a dor passa logo”. Aqui é assim mesmo: o povo do Piauí troca o “v” inicial das palavras, pelo “r”. Quanto ao “obrar”, creio não ser preciso uma tradução. Mas quando ouvi a expressão levei um baita susto, e me preparei para o pior. Felizmente seu Antonio parou por aí, não explicou outras características.

    Terça-feira, 2 de Agosto, 2005.

    Hoje o dia foi tirado para filmagens em Parnaíba, que fica a poucos quilômetros de Luiz Correia, e é uma cidade encantadora, nascida nas margens do rio de mesmo nome. Sua parte antiga, a região do Porto da Barca, tem um lindo conjunto de prédios dos séculos 18 e 19. Elas são do tempo em que Parnaíba era um porto importante para escoar a produção de gado, que seguia daqui direto para a Europa. São poucos os prédios e casarões, mas os que restam foram todos reformados, e hoje estão em bom estado de conservação. Alguns com lindos azulejos em suas fachadas, como os de São Luis, no Maranhão. Enquanto gravávamos, íamos armando encontros para os dias seguintes, levantando os problemas desta parte do litoral brasileiro. E não são poucos.

    Esta é uma área de estuário, com mangues, dunas, restingas, e lagoas, além de ser o lugar da foz de rios importantes do nordeste: o próprio Parnaíba, com seu enorme Delta, além do Timonha, e Ubatuba. Uma área bem frágil, onde a economia ainda é incipiente, e as forças motoras são a pesca artesanal, de peixes, camarão, e, especialmente, lagostas. A frota pesqueira é de aproximadamente 280 barcos. Além da pesca a economia conta com salinas, alguma criação de gado, e, mais recentemente, a famigerada carcinicultura. No mais, vivem também do extrativismo. No passado havia ainda a indústria da cera da Carnaúba, que chegou a ser o carro chefe da economia. Mas hoje, com os preços deprimidos, ela opera com 10% da capacidade instalada. Tínhamos, também, planejado ir até a foz dos rios Ubatuba, e Timonha, 20 milhas ao sul, para visitarmos uma das bases do Projeto Peixe Boi, que fica no município de Cajueiro da Praia.

    Depois das gravações, já anoitecendo, pegamos um táxi e tocamos para lá, onde nos esperava o responsável pela base, Magnus Severo Machado. Combinamos fazer uma saída de observação dos Peixes Boi, logo na madrugada seguinte, portanto apenas nos apresentamos. Em seguida fomos para uma pousada, na cidade, onde dormimos.

    Quarta-feira, 3 de Agosto, 2005.

    Acordamos às cinco da manhã. Tomamos um rápido café, e saímos com o Magnus, responsável pela base. Ele nos levou de moto até a praia, onde embarcamos numa canoa a vela, bem parecida com as bianas, do Maranhão, mas que aqui usam velas do tipo rabo de galo, iguais às usadas em jangadas. Para mim foi uma festa. Sempre quis velejar num barco destes, e hoje consegui. Ele nos levou até o meio da baía, onde deságuam os rios Ubatuba, e Timonha. Ali, bem no centro, há uma torre de madeira, erguida no meio da foz destes rios. É neste lugar que eles ficam observando para poder monitorar os peixes boi.

    Cajueiro da Praia foi o único lugar onde conseguiram ver, e filmar, o nascimento de um destes mamíferos. Magnus nos contou que no último censo, realizado ainda na década de 90, foram contabilizados quinze indivíduos. Como cada fêmea pode ter até um filhote por ano, a população total pode ser bem maior, apesar de ninguém saber a quantidade certa.

    O peixe- boi marinho é um mamífero enorme e dócil, que se alimenta basicamente de capim e ervas aquáticas, e, desde sempre, foi sistematicamente caçado, chegando quase a extinção. A caça predatória acontece desde a época em que só havia índios no litoral brasileiro, que os procuravam pela quantidade de carne que cada abate propiciava. Depois, com a chegada dos europeus, e o início da colonização, a matança se acelerou barbaramente.

    Durante alguns anos Manaus e Belém tinham sua iluminação pública à base de lampiões com óleo de peixe- boi. Depois os próprios ribeirinhos continuaram a caçá-los, especialmente pela carne, mas também pelo couro, duro e resistente, útil para a fabricação de correias, e outras necessidades, e até pelos ossos, usados na fabricação de cabos de ferramentas. Ajudando a devastação, está o temperamento tranqüilo do animal, que precisa respirar e vem à tona constantemente. Nestes momentos os caboclos costumavam enfiar tocos de madeira em suas narinas, para matá-los por asfixia. Assim sobram hoje poucos exemplares, espalhados pela região amazônica, os que vivem em água doce, e, o restante, marinhos, entre o litoral do Maranhão até Alagoas.

    Passamos a manhã no alto da torre, ouvindo boas histórias contadas pelo Magnus, e dois moradores de Cajueiro da Praia que estavam conosco, mas infelizmente não tivemos sorte. Nenhum animal foi avistado.

    Lá de cima pudemos ver algumas fazendas dedicadas a carcinicultura, instaladas em áreas de mangues adjacentes, especialmente na foz do Ubatuba. É inacreditável a devastação que elas causam. Para começar derrubam toda vegetação, para, em seu lugar, construírem tanques de engorda. Como se não bastasse as fazendas despejam metabissulfito nestes tanques, uma substância tóxica, antioxidante, usada para manter a cor dos camarões depois de mortos. Ao fim do processo, depois da despesca, esta mesma água é devolvida ao estuário sem qualquer tratamento. E o pior é que os mangues, que são áreas públicas, são cedidos com a conivência do Estado, já que, no Piauí, é o Ibama quem dá a licença para as criações de camarões. Nos outros Estados a autorização pode ser conseguida nos próprios órgãos estaduais, encarregados de lidar com o meio ambiente, como secretarias, por exemplo.

    Há muito o quê falar sobre o pequeno e belo litoral do Piauí, com apenas 66 quilômetros. Por enquanto fica esta pincelada. Amanha tem mais.

    Quinta-feira, 4 de Agosto, 2005.

    Cajueiro da Praia é um município com cerca de seis mil habitantes espalhados por quatro praias, e o interior. A vila principal é simpática, muito limpa, com ruas calçadas com pedras, casas construídas de tijolos, simples e gostosas. No geral são baixas, com apenas um andar, e feitas onde se deve: depois do final da praia, atrás de uma faixa de coqueirais, com seus telhados nunca sendo mais altos que as copas das árvores, de modo que do mar quase não se vê a vila, e as praias todas, ainda que ocupadas, permanecem como eram desde que Cabral chegou aqui, lindas e com aparência virgem. Só por isto, pela organização e limpeza, adorei o lugar. Parece bem planejada a cidade, com seu ritmo lento, ar interiorano, e uma ingenuidade que remete a singeleza. Seria melhor ainda se contasse com mais árvores para refrescar e dar sombra, mas como quase todas as vilas e pequenas cidades desta parte da costa, Cajueiro da Praia não foge a regra, as pessoas daqui também cortaram mais que plantaram. Como resultado de dia o calor é muito forte. Na hora do pico, das 11hs até às 15hs, melhor ficar em casa, ou debaixo da sombra dos coqueirais da praia, desfrutando do forte vento nordeste que bate de Setembro até Dezembro. De noite, no entanto, vale a pena uma caminhada por suas ruas, se possível com uma parada no bar da praça, para um dedo de prosa, por onde passeiam vacas com sinos no pescoço, e algumas cabras. Nem parece que saímos de São Paulo há poucos dias. A sensação ainda é mais estranha, porque as neuroses provocadas pela metrópole cinza, horrenda, violenta, onde nem se pode mais sair fora de casa sem correr um sério risco, ainda estão presentes em nosso espírito, a despeito de, de repente, estarmos aqui nesta pitoresca e pacata cidade.

    Mas Cajueiro da Praia também corre risco. Aqui, em Luiz Correia, e no Delta do Parnaíba, um pouco mais ao norte, o grande problema é a sobrepesca, as salinas, a agropecuária, e a carcinicultura. Andamos conversando com vários elos da cadeia de pesca, e o diagnóstico é assustador. Em pouco tempo não haverá mais lagostas no nordeste, e algo de muito pior pode acontecer com os camarões nativos.

    O problema da lagosta é que há muitos barcos, muitos pescadores, e pouco pescado. Como disse José dos Navegantes, presidente da colônia de pescadores de Luis Correia, quando ele era menino, havia “pouca tecnologia, e muita pesca”. Hoje, ao contrario, “existe muita tecnologia, mas pouco o que capturar”. De acordo com ele, Luiz Correia tem 22 barcos com licença para a pesca da lagosta, e outros 200 ilegais! Entre estes, cerca de 70 praticam a pesca com compressor, e mesmo podendo ver e escolher as lagostas, ainda assim capturam muitas abaixo do tamanho mínimo que é de 13 centímetros. Oficialmente a temporada da pesca da lagosta de 2005, que vai Maio, até 31 de Dezembro, estima uma captura da ordem de 24 toneladas. Extra oficialmente, dados reconhecidos pelo próprio chefe do Ibama, fala-se em cifras bem maiores, que vão de 50 a 60 toneladas.

    Segundo o presidente da associação de pescadores, José dos Navegantes, a produção deste ano será ainda maior: 70 toneladas, sendo 30 t. de tamanho correto, e 40 t com tamanho inferior aos 13 centímetros.

    Há muito que a pesca da lagosta vem decaindo em todo o nordeste, devido à sobrepesca, e a captura de animais ainda em formação, antes de atingirem seu período reprodutivo. Além disto, nem todos os barcos observam o período de defeso. Para piorar alguns barcos usam técnicas predatórias, como a que utiliza compressor, ou então redes, como a calçoeira, autorizada pelo Ibama, mas que danifica o cascalho do fundo do mar, habitat destes crustáceos.

    Para pescar lagosta é preciso ter licença, e faz anos que o Ibama não libera mais nenhuma, mesmo assim, para o Estado do Piauí existem 22, todas nas mãos de cearenses que se mudaram para cá, talvez em função exatamente delas. Segundo José dos Navegantes, ou o pequeno armador Edésio, a quem também entrevistamos, dezenas de barcos de Sergipe, Rio Grande do Norte, Paraíba, e Ceará, todos sem licença, se aproveitam da fraca fiscalização para pescar no litoral do Piauí. O resultado é que, de ano para ano, diminui a quantidade embarcada.

    Houve um fato curioso comentado por todos com quem falamos. Eles afirmaram que sempre que há fiscalização a notícia sai na frente, alertando os pescadores que se refugiam na costa, onde escondem seu arsenal irregular e, assim, se livram dos rigores da lei. O próprio chefe da APA do delta do Parnaíba, Raimundo Ivan Mota, do Ibama, reconhece a falta de estrutura do órgão, que conta com apenas dez funcionários para a fiscalização de uma área com 2700 quilômetros quadrados. Nós mesmos pudemos observar, na noite em que chegamos, dezenas de pequenos barcos que entravam barra adentro, em Luiz Correia, durante horas seguidas. No dia seguinte descobrimos o porquê : havia fiscalização do Ibama, com auxílio da Marinha, naquele primeiro de Agosto. Como sempre a notícia saiu no jornal Meio Norte, publicado em Teresina, uma semana antes. O resultado não podia ser diferente, e, na véspera, cada um cuidou de se livrar do material proibido que levava.

    Sexta-feira, 5, Agosto, 2005.

    Tivemos que voltar para Luis Correia para pegar nosso veleiro e seguir caminho. No trajeto de 60 quilômetros, feito a luz do dia, pudemos ver o ecossistema da região. Zona costeira com restingas e dunas, tudo muito frágil, e bonito. Mas ao nos aproximarmos de Luiz Correia, já se pode ver as construções irregulares que avançam pelas dunas. Em Cajueiro da Praia, onde também há dunas, vimos processo semelhante em menor escala.

    Enquanto isto as salinas seguem destruindo o mangue, com seus donos se apropriando de rios inteiros (que são APPs- áreas de preservação permanente, de acordo com portarias do Ibama), fechando suas saídas para aprisionarem a água do mar, de onde será extraído o sal. O representante do Ibama nos informou que a pratica das salinas já devastou algo como 35% da área de mangue do delta do Parnaíba.

    Mas tem mais. A implantação de projetos de carcinicultura tem causado danos ambientais, e conflitos, alguns bem sérios. Um deles aconteceu quando da instalação do projeto da Fazenda Recanto, da Eurobrasil Crustáceos, empresa do Grupo Europa, em Mexeriqueira, que fomos visitar (Vide fotos.). Naquela ocasião, no ano de 2000, um dos que protestaram era o presidente da associação de moradores, que acabou morto a bala. Claro que depois o projeto foi em frente. Hoje há quatorze fazendas de camarão no delta, mesmo sendo a região uma APA- área de proteção ambiental, e nove em Cajueiro da Praia. Alguns dos donos são poderosos políticos, como o senador Mão Santa, e membros de sua família. As fazendas costumam cercar suas áreas, o mangue, de onde a população nativa costumava extrair caranguejos e outros alimentos, daí o conflito. Às vezes algumas comunidades pequenas ficam cercadas, isoladas completamente.

    Em 2003 uma resolução do Conama passou a considerar os alagados, área adjacente, como mangue. Desde então o Ibama do Piauí decretou uma espécie de moratória, e não tem dado mais autorização, aqui ao menos, para novos projetos. Mas em toda a costa nordeste os mangues estão sendo depredados, e se transformam aos poucos, em áreas de criação de camarões

    E com todas estas informações fermentando na cabeça, tocamos viagem, desta vez para Camocim, já no Ceará.

    Saímos pela manhã. Desde o início o vento estava bem forte, com 24, 25, nós, e nas rajadas, 30. O mar também se armou. Ondas grandes, com mais de dois metros, fizeram o Mar Sem Fim balançar bastante.

    Quando faltavam 15 milhas para chegar aconteceu o pior. A bomba ejetora de combustível quebrou. Passamos a depender só da vela como propulsão. O problema é que o nosso destino estava na direção oposta ao vento. Não conseguimos chegar, claro. Foi escurecendo, o vento aumentou, bateu nos 35 nós nas rajadas, e nossos bordos passaram a ser negativos: eles nos afastavam de nosso objetivo, ao invés de aproximar.

    Resolvemos fundear o mais próximo da barra e esperar o dia amanhecer. Bem cedinho o vento é sempre mais brando. Foi uma noite e tanto…

    Sábado, 6 de Agosto, 2005.

    Pela manhã, com brisa leve, pudemos velejar até a entrada. A barra do rio Camocim é assoreada pela areia das dunas em torno da cidade, além de ter uma faixa de recifes de cada lado. Fica livre apenas um estreito trecho, um pouco mais a direita de quem entra. E ainda assim, é bem raso este trecho. Paramos um pouco antes da entrada da barra. Desci o bote e fui até lá para ver. Confirmei o caminho e retornei. Entramos somente na vela, com o bote amarrado ao costado do barco, motor pronto para ser ligado, para dar apoio se necessário. Foi de dar calafrios. E com direito a quase receber no rosto os respingos da água que batia nas pedras de cada lado do barco. Mas passamos. Enquanto olhávamos a paisagem deslumbrante, com dunas em um dos lados do rio, a cidade do outro, e mangues verdes ao fundo, tudo cercado por enormes botes, e lindas canoas com seu velame colorido, lembramos que a peripécia ainda não tinha acabado. Mal entramos e ficou ainda mais raso, a ponto de podermos encalhar, chegamos a roçar o fundo do mar com nossa quilha. Felizmente o vento estava fraco, mas nossa situação não era cômoda, era preciso sair logo dali, a manhã tinha ficado pra trás, o vento aumentava, já íamos para o período da tarde. Comecei a empurrar o Mar Sem Fim, desta vez pela popa. Foi meu erro. O veleiro até que ia navegando bem, mas o bote acabou furando. Foram minutos bem chatos, mas sem perigo iminente, porque, apesar da barra ser perigosa, navegávamos em boa velocidade e aos poucos deixamos para trás a difícil entrada. Fundeamos no final do canal, depois de termos navegado ao lado da avenida principal, com sua praia lotada de botes e canoas. Havia centenas delas.

    O flash, apesar de rápido, foi suficiente para me tornar fã de Camocim. Almoçamos a bordo mesmo, e logo descemos em terra. A cidade, de cerca de 50 mil habitantes, é extremamente limpa, colorida, com casas baixas, quase todas de um ou dois andares no máximo, pequenas, mas bem tratadas. A arquitetura é do final do século 19, e começos do século 20, com casas mostrando as datas de 1920, 1930 nas fachadas.

    Camocim é mais uma cidade que vive em função da pesca, mas, de uns anos para cá, experimenta também o turismo, ainda um tanto desregulado, talvez exagerado, para a região. Estávamos cansados da noite mal dormida e da batalha pela entrada. Encerramos logo os trabalhos, e voltamos a bordo. E cama. Desta vez sem balanços, parados calmamente, no fundo de uma bela baía.

    Domingo, 7 de Agosto, 2005.

    Hoje começamos a cuidar do Mar Sem Fim. Logo cedo Alonso desceu em terra e voltou com um mecânico. A bomba ejetora foi retirada, mas aqui não há quem possa consertá-la. Alonso, o fiel imediato de bordo, e alma do veleiro, segue com ela, amanhã, para Sobral, enquanto nós três vamos aproveitar para mais gravações e entrevistas com os pescadores daqui. E não são poucos. De acordo com a associação de pesca, são dois mil pescadores, e 300 barcos, em Camocim. Oitenta por cento são artesanais, movidos a vela, especialmente botes e canoas. E vinte por cento são barcos de ferro, a motor. Eles normalmente saem de noite para a pesca, e voltam com o dia amanhecendo, embora alguns às vezes fiquem 15 dias fora. Fomos esperá-los na beira da praia, e assistimos a um dos mais bonitos espetáculos que há no litoral brasileiro: ver estas canoas tradicionais, com suas velas muito especiais, voltando de um dia de trabalho.

    A faina de atracação, na praia, com vento forte, é sensacional. Entrevistamos vários pescadores, e o lamento é geral. Há pouco pescado e muito pescador. O resultado é que quase não vale mais a pena aparelhar um barco e enfrentar as dificuldades do mar. Um dos pescadores entrevistados nos disse que quando pequeno chegou a matar, num só dia, três toneladas de lagosta! Ele nem se dava conta de que fatos como este, justificam a situação atual.

    Hoje, quando dá muito, ele volta para terra com algo como quatro quilos. Estamos assistindo, in loco, o que lemos em relatórios e artigos publicados na imprensa brasileira e estrangeira. A pesca no mundo está superexplorada, e a capacidade de reposição, no limite do suportável. Durante milênios, desde o início da civilização, quando o homem deixou de ser caçador coletor, e começou a se fixar em pontos específicos, ele vem usando os mares como depósito de seus rejeitos, além abusar do extrativismo. Hoje, com a industrialização, o crescimento econômico, a pressão imobiliária, o turismo de massa, as industrias instaladas na costa, os derramamentos de petróleo, os agrotóxicos usados na agricultura, os avanços na tecnologia utilizada na pesca, e tantos outros fatores, o diagnóstico é um só: os oceanos do planeta estão entorpecidos. Fracos, sem defesas naturais. Eles não têm força suficiente para reagir, caso não recebam nossa ajuda. E não temos feito nossa parte.

    Apesar da responsabilidade do Brasil, e de todos os brasileiros, pelo imenso litoral que temos, parece que o espaço marítimo não consegue sensibilizar as pessoas. Elas lutam pela Amazônia, pela Mata Atlântica, ou pelo Cerrado. Mas continuam a tratar os mares como lata de lixo. O resultado não poderia ser diferente.

    Segunda- feira, 8 de Agosto, 2005.

    Bem que eu queria ficar mais, só curtindo estes fantásticos botes com velas bastardas (vide fotos), tão típicos daqui, mas estava na hora de pensar no que fazer. Não poderíamos ficar a espera da bomba, indefinidamente, por que temos prazos para cumprir, programas para entregar etc. Resolvemos ir até a próxima parada, Jericoacoara, de carro, e lá tomar uma decisão. Se o conserto for breve, retornamos para Camocim e concluímos a etapa normalmente. Se, no entanto, demorar mais, faremos o restante desta etapa, até Fortaleza, de carro. Foi uma decisão difícil. Mas afinal pensei no melhor para o telespectador. Havia duas opções. Uma era esperar, e correr o risco de não ter novos programas para pôr no ar. A solução seria se contentar com a reprise de alguns episódios. A outra opção seria cumprir o trecho programado, entrando em “todos os buracos possíveis”, como sempre tenho me proposto, só que de carro. No caso do litoral oeste do Ceará isto seria possível.

    Antes de decidir liguei ao Alonso, que, de Sobral, confirmava que o conserto ia demorar pelo menos mais dois dias. Resolvi seguir de carro.

    Assim, mais ou menos às 11hs da manhã de hoje, trocamos o Mar Sem Fim por um bugue, e seguimos para Jeri. O trajeto alterna praias, e dunas, e atravessa duas vilas: Tatajuba, e Mangue Seco, nas margens do rio Guriu. Neste trajeto ficamos impressionados com a quantidade de carros e peruas 4 x 4 de um lado para o outro. É inevitável que algumas marcas permanentes deste tráfego sejam vistas pelo caminho.

    Com uma hora e meia de viagem estávamos chegando em Jericoacoara, considerada uma das mais belas praias do mundo. E de fato é. Mas cheia de muitos problemas. Amanhã falamos deles.

    Terça- feira, 9 de Agosto, 2005.

    Até o início dos anos 80 Jericoacoara era apenas mais uma pequena vila de pescadores artesanais, erguida numa região de dunas, no norte do Estado do Ceará.

    Hoje é uma caricatura de si mesma. E continua sendo mais deformada dia a dia. Sua história recente é complexa e confusa. A região tornou-se uma APA em 1984. E desde então começou o engodo de que são vitimas os moradores. Esta APA, de acordo com as fontes com as quais conversamos, foi criada muito mais para atender interesses especulativos de políticos. Para começar a comunidade foi enganada. Os moradores antigos assinaram o documento que transformava o status de sua região, pensando se tratar de um abaixo assinado para a volta de uma maternidade ao local. Só depois descobriram que aquela folha de papel, na qual colocaram suas assinaturas, não era por uma maternidade, mas pela transformação de Jericoacoara em APA. Daquele momento em diante eles não poderiam continuar a construir como bem entendessem, ou mesmo a exercer sua atividade profissional, a pesca, da maneira como vinham fazendo há gerações. Uma APA implica em normas rígidas para a construção, ou mesmo para a atividade extrativista. Estes impedimentos legais frustraram a comunidade. Mas ela reagiu, se articulou, fez barulho, e conseguiu trazer a imprensa, mas também a notoriedade, que por sua vez atraiu os primeiros moradores de fora.

    Nesta altura os turistas que a visitavam se hospedavam na casa dos moradores, oferecendo como pagamento pequenos presentes, comida, etc. Parecia fácil comprar esta gente simples e ingênua, e assim as primeiras posses foram vendidas por preços irrisórios. O que aconteceu de forma exasperada no litoral sudeste do Brasil, com os caiçaras perdendo suas casas, a saída para o mar, e seu próprio sustento, começava em Jeri, como é chamada. De lá pra cá este processo só fez aumentar. Hoje a pequena vila, de apenas meia dúzia de ruas, chega a receber até dez mil turistas na alta temporada! Há carradas de pousadas, muitas em mãos de europeus, e até hotéis de alto luxo, como o Mosquito Blue, de propriedade de italianos. Construções pipocam por todos os lados, descaracterizando completamente o que Jericoacoara foi um dia.

    Até as autoridades da fiscalização concordam que é difícil os nativos entenderem porque, hoje, só eles não podem construir. Os ricos, os de fora, mais certos políticos, e espertalhões, são os principais agentes de um frenético movimento de compra e venda de terrenos, além da construção de casas, hotéis, pousadas, e locais de comércio, num show de especulação imobiliária.

    Perguntamos aos representantes do Ibama, em sua suntuosa sede que mais parece uma pousada de luxo, cujo chefe atual é o professor José Osmar Fonteles, qual o milagre que autoriza as construções, algumas de muito mau gosto, urbanas, altas, com dois andares, que nada têm a ver com a região, enquanto os pobres moradores não podem sequer construir um barraco ou ampliar um cômodo. A resposta é um cipoal de leis e poderes, uns se sobrepondo aos outros, que, ao fim e ao cabo ninguém sabe explicar muito bem. Segundo o Ibama, depois da criação da APA, a área ainda foi transformada em Parque Nacional (2002). A partir deste ano apenas a vila de Jericoacoara permaneceu como APA, uma área de 197 hectares, enquanto, ao Parque Nacional, sobrou a responsabilidade pelo restante da área. Neste momento outro agente entrou na contenda, o MPF ( Ministério Público Federal), que fez uma recomendação ao Ibama para não mais dar autorizações para construções. Elas foram congeladas por longo período, até que os moradores resolveram não mais esperar a burocracia, e começaram a fazer as reformas e construções que suas necessidades impunham. Acontece que, de acordo com a legislação, elas estão proibidas, e são sempre embargadas pelo Ibama.

    De acordo com o órgão, em razão desta sobreposição de alçadas, e legislações diferentes, só quem fizer um estudo de impacto ambiental, o famoso EIA-Rima, pode construir. E estes estudos são caros, podendo sair por até 25 mil reais, ou seja, os donos do lugar, seus antigos moradores, não têm como pagar, portanto ficam proibidos de construir. Mas os que têm dinheiro, investidores, políticos, especuladores, estes, diz o Ibama, pagam tais estudos e constroem livremente.

    O resultado é que, em alguns locais, Jericoacoara parece um enorme canteiro de obras, para raiva dos moradores que não entendem como alguns são “mais iguais” que os outros, e podem fazer livremente aquilo que lhes é proibido.

    A grita praticamente é geral. A exceção fica por conta de alguns bugueiros, felizes com a quantidade de turistas, e uns poucos moradores, que são chamados para trabalhar nos novos postos que o turismo tem aberto. Mas são poucos, porque os hotéis mais chiques preferem importar trabalhadores de outros estados, como São Paulo, ou Minas Gerais.

    Para mim, que conheci Jericoacoara nos anos 80, ainda como uma charmosa vila de pescadores, o que vi é assustador. O local perde suas raízes, não tem planejamento, e cresce desordenadamente. Para complicar, não há qualquer tratamento de lixo, ou esgotos. Jericoacoara rapidamente se transforma num cortiço onde coabitam pescadores, turistas, empresários e hippies. E onde muitos europeus passaram a ser os donos da terra.

    Quando perguntei ao vice- presidente da associação dos moradores qual a atitude do prefeito frente a tudo isto, levei um susto maior. Perdi totalmente a esperança, mas entendi rapidamente a bagunça. O homem é espanhol, naturalizado, e nem sequer mora em Jericoacoara. Era um antigo motorista que levava turistas em carros com tração nas quatro rodas, mas, ao sentir o potencial da região, abandonou a profissão e entrou na política. Mais uma vez, vê-se aqui uma inversão total de valores. E a pessoa que deveria defender os interesses dos moradores passa a ser seu algoz principal.

    Quarta- feira, 10 de Agosto, 2005.

    Ainda atordoado com a situação caótica que ameaça Jericoacoara, com sua belíssima praia, e áreas de dunas em volta, saímos cedo em direção ao sul, seguindo nosso caminho para Fortaleza. No caminho pude perceber que a situação de alta especulação imobiliária de Jericoacoara não é exceção. Com maior ou menor grau, ela se repete em quase todas as praias, até chegarmos à capital do Estado.

    Neste primeiro dia passamos pelas praias do Preá, Itarema, Almofala, Porto Torrões, nas margens do rio Mirim, com um belo porto de barcos pesqueiros, até chegarmos a Icaraizinho de Amontada. Este último é mais um ponto onde a especulação corre solta. Trata-se de uma linda enseada, cercada por coqueirais, com algumas casas e pousadas. Moradores nos contaram que quase toda semana aparece alguém de Fortaleza querendo comprar terrenos. Um deles, irmão de um famoso político do Ceará, de expressão nacional, chegou a oferecer 500 mil reais por uma grande área de frente para o mar mas não conseguiu levar. Em Icaraizinho, um terreno de 20 metros de frente, por 40 ou 50 de fundo, e não dando frente para o mar, estava a venda por 30 mil reais. Mas há muitas outras ofertas. Um empresário de Fortaleza, apertado, colocou a venda quase metade da praia, mas até nossa visita ainda não tinha conseguido achar um comprador.

    Seguimos em frente. A próxima praia a ser visitada seria a da Baleia Nova, e Baleia Velha. Neste ponto do litoral cearense, já se começa a ver o predomínio das jangadas sobre botes ou canoas a vela. E pode-se notar que cada vez mais a zona costeira começa a ser ocupada, com muitas mansões construídas onde não poderiam, ou deveriam estar: na linha da praia, bem comum, de uso de todos os brasileiros, e área pertencente à União.

    Neste ponto o que chamou mais a atenção foi uma imensa área de dunas, contígua a praia, com quase cinco quilômetros de extensão, que está totalmente demarcada com cercas (vide fotos). Impressionante a cara de pau do empresário que cercou mais esta área pública. A certeza da impunidade é tamanha, que até mesmo placas foram colocadas onde se lê: “Propriedade Privada. JR Palace Hotel e Resort Ltda. Fortaleza- 85-3264 7264”. Mais adiante há outras duas placas, parecidas com a primeira, fincadas na mesma área. Uma diz simplesmente, “Nova Atlântida”, e a outra, “Pitiuso Palace Hotel Ltda. Fortaleza- 85-3264 7264 ” (vide fotos).

    Continuamos nossa marcha, agora em direção a praia de Mundaú. Este é talvez o lugar mais bonito que vi desde que começamos nossa viagem, lá em cima, no rio Oiapoque. Mais uma vez trata-se de uma pequena vila de pescadores artesanais, nas margens do rio Mundaú, que aqui deságua no mar. Cercada por coqueirais, a vila é pequena e charmosa, mas já conta com infraestrutura hoteleira. São várias pousadas, em construções que, por enquanto, respeitam as normas legais não avançando sobre a praia. Ao lado, depois da foz do rio, uma pequena e abrigada baía serve de ancoradouro para a frota de barcos pesqueiros. Ela é formada por jangadas, grandes botes com velas bastardas, canoas, e até um modelo novo para mim, uma espécie de pequeno bote, com vela tipo rabo de galo, e uma pequena buja na proa. Dormimos esta noite por aqui.

    Quinta- feira, 11 de Agosto, 2005.

    Iniciamos a última perna que nos levará a Fortaleza, capital do Estado. A primeira parada foi na praia de Embuaca, em seguida, Fleixeiras. Aqui pudemos conhecer uma criação de algas, que pode vir a se tornar uma boa opção, além do turismo responsável, para os moradores que já não conseguem sobrevier apenas da pesca. A dica nos foi passada pelo pessoal da ONG Terramar, uma entidade séria, que tem feito um belo trabalho em todo o litoral do Ceará. Conversamos com o presidente da ASCF (Associação de Desenvolvimento Comunitário de Fleixeras), Raimundo Nonato Nunes. Ele explicou que grande parte do trabalho de recolher e secar as algas, feito pelas mulheres dos pescadores, tem ajudado bastante na complementação de renda de parte dos moradores. Depois de secas, as algas se tornam a base para a fabricação de cosméticos, sabonetes, e até mesmo comida, na forma de gelatinas, sopas, e outros produtos. Para que a produção cresça ainda mais, é preciso um selo de qualidade que está em vias de ser liberado pela comunidade acadêmica do Ceará.

    Fleixeiras também está bastante ocupada, seja por casas de gente de fora, seja por pousadas. E, neste caso, há opções para todos os bolsos. Uma delas, de propriedade do grupo português Casa Orixás, de Sintra, o Orixás Art Hotel, é de alto padrão, e chega a cobrar diárias de 750 reais!

    Depois das entrevistas continuamos nosso trajeto, sempre descendo, em direção a Fortaleza. Passamos pelas praias de Guajiru, e em seguida, Lagoinha. Em ambas pode-se ver que a ocupação da zona costeira aumenta consideravelmente. Enormes mansões, de empresários e políticos, foram erguidas na praia e dunas adjacentes, numa enorme demonstração de descaso em relação à legislação.

    De Lagoinha fomos para a cidade de Paraipaba, maior produtora de cocos do Ceará. Em seguida, agora por estradas de asfalto, tocamos até a cidade de Paracuru, onde mais uma vez a especulação corre solta. Aqui a coisa foi tão grave, que parte da praia de Paracuru foi, digamos, “privatizada”, já que as mansões foram construídas a beira mar, uma ao lado da outra, praticamente fechando as entradas da rua para a praia.

    De Paracuru retomamos o caminho em direção a Taíba, uma praia um tanto sem graça, muito larga, longa, e com dunas por trás. Quem a visita, mais uma vez, assiste a inúmeras demonstrações de desacato para com a legislação que impede construções na zona da praia. Uma delas, talvez a mais agressiva, imensa, e toda cercada por gigantescos muros de pedra, pertence a Renato Aragão. E ele não é o único artista a dar este mau exemplo. Muitos outros fizeram o mesmo.

    Antes de encerrar nossa viagem, ainda passamos pelo porto de Pecém, construído a partir de um imenso pontão que começa na praia, avançando mar adentro. Em seguida atravessamos a praia de Cumbuco.

    No final do dia, cansados, e preocupados com a ocupação desordenada desta parte da costa do Ceará, chegamos a Fortaleza.

    Nas próximas etapas, ainda neste Estado, vamos conversar com a comunidade acadêmica que estuda os problemas da costa, e assim trazer ao leitor que nos acompanha a opinião dos especialistas.

    Até lá.

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