O resgate do Mar Sem Fim, um ano após o dramático naufrágio
O navegador João Lara Mesquita volta ao local do naufrágio, na Antártica, e realiza o resgate de seu trawler de 76 pés, que afundou na ilha Rei George.
Por Gilberto Ungaretti, Revista Boat, edição 45.
“O NAVIO ESTÁ MORTO!”
“Foi assim que marinheiros brasileiros se referiram ao Mar Sem Fim quando entraram em seu interior. Perdemos o barco, mas, felizmente, o naufrágio não causou qualquer impacto ambiental no local”, declarou João Lara Mesquita logo após o resgate.
Na manhã de 31 de janeiro, os antigos tripulantes do trawler Mar Sem Fim reuniram-se na Antártica. Participariam de uma cerimônia quase religiosa: retirar do fundo do mar o barco de 76 pés. Nove meses antes, placas de gelo haviam esmagado a embarcação na Baía de Fildes e provocado seu naufrágio.
“É maravilhoso ver flutuar novamente este barco que tanto prazer me deu na vida”, comentou seu capitão, o jornalista João Lara Mesquita. A imagem do casco comoveu o comandante. Afinal, as águas geladas da Antártica conservaram a estrutura, sem plantas ou incrustações.
O resgate exigiu uma jornada de 25 horas. Primeiro, mergulhadores da Nautilus, empresa especializada nesse tipo de operação, passaram fitas sob o casco. Depois, amarraram as fitas a boias e as inflaram. Assim, o “Marzão”, apelido carinhoso que os tripulantes deram ao trawler, voltou a flutuar.
Nos dias seguintes, João Lara acompanhou o reboque do Mar Sem Fim até Punta Arenas, no extremo sul do Chile. Ali, o barco teria um “funeral” à altura e encerraria seu ciclo no mar. Enquanto isso, o jornalista recordava o drama que vivera nove meses antes.
Um giro pela Antártica
Aos 56 anos, João Lara Mesquita embarcou em seu trawler de 76 pés, avaliado em US$ 700 mil, rumo à Antártica. Não imaginava que a viagem terminaria em naufrágio e exigiria uma operação de resgate. O jornalista, fotógrafo, músico, velejador, capitão amador e explorador pretendia produzir uma série de documentários para a TV. O objetivo era mostrar as primeiras consequências do aquecimento global na península gelada.
No entanto, não imaginava o calvário que viveria dias depois com sua tripulação. A equipe incluía o experiente skipper Pedro Camargo, o Pedrão, e os marinheiros Alonso Goes e Manuel de Souza. Às vésperas do naufrágio, porém, Plínio Romeiro Jr. substituiu Pedrão.
O Mar Sem Fim partiu do Iate Clube Afasyn
O Mar Sem Fim partiu do Iate Clube Afasyn, em Ushuaia, no dia 7 de março. A previsão anunciava uma “janela de tempo” para atravessar o Estreito de Drake. Com o apoio de especialistas e cerca de 60 mil milhas de experiência, João Lara considerava os riscos relativamente calculados. Ainda não imaginava, porém, os desafios do naufrágio e do resgateque viriam depois.
O mar, porém, não se submete a cálculos. Ernest Hemingway descreveu as grandes correntes oceânicas como o último país selvagem. A reflexão aparece em On the Blue Water (Na Água Azul), uma de suas cartas para a revista Esquire, escritas entre 1933 e 1936.
“Assim que você perde de vista a terra e os outros barcos, você fica ainda mais sozinho do que numa caçada, e o mar é o mesmo que tem sido desde os tempos em que os homens não navegavam”, comparou o autor de O Velho e o Mar.
Afinal, controlar o barco e seus instrumentos é uma coisa. Enfrentar as surpresas do oceano é outra.
Quando o mar engrossa, até motores, hélices, lemes, quilha e bombas parecem tremer de medo. Nem a tecnologia mais avançada elimina o imponderável. Ele continua à espreita, pronto para surpreender. E surpreendeu o Mar Sem Fim…
O RESGATE
A jornada se estendeu por 25 horas. Mergulhadores especializados passaram fitas sob o casco e amarraram boias no trawler Mar Sem Fim
Barulho estranho
Depois de enfrentar o Canal de Beagle e o Cabo Horn, a tripulação do Mar Sem Fim cruzou o complicado Estreito de Drake. Em seguida, ouviu um barulho estranho nos eixos do barco.
“Pensamos que a hélice poderia ter enroscado em alguma linha de pesca ou cabo. Para examinar os eixos e as hélices, porém, precisávamos mergulhar ou improvisar.”
A tripulação escolheu a segunda opção. “Decidimos filmar com o telefone à prova d’água do Pedrão. Amarramos o aparelho num remo, mergulhamos na direção do leme e filmamos.”
As imagens não mostraram cabos enrolados. Na verdade, a bucha do pé de galinha do eixo direito havia saído do lugar. “Encrenca brava”, definiu o capitão.
Seria preciso ajuda externa
Os tripulantes do Mar Sem Fim usaram várias ferramentas para tentar empurrar a bucha de volta ao lugar. Nada funcionou. Por isso, buscaram ajuda na base argentina de Carlini, na ilha Rei George. Para chegar lá, precisaram percorrer 60 milhas, sem ultrapassar 5 nós. Era mais um obstáculo naquela viagem que terminaria em naufrágio e exigiria o resgatedo barco.
Na base, os passageiros e o skipper Pedrão desembarcaram. Depois, voltaram para casa de avião. Enquanto isso, Plínio Romeiro Jr. seguia no sentido contrário, com as peças para o reparo. Amigo de longa data de João Lara, ele conhecia profundamente a arte da marinharia.
Primeiro, mergulhadores argentinos removeram a hélice e retiraram a bucha danificada. Em seguida, instalaram a nova. A equipe concluiu o reparo com sucesso às 16h30 de 29 de março de 2012.
O capitão pediu, então, uma previsão à Commanders Weather. Precisava atravessar o Drake de volta à América do Sul com segurança. Afinal, o barco enfrentaria frio intenso, mares bravios e muito gelo pela proa.
A empresa informou que havia pouca chance de travessia naquela semana. A única possibilidade seria em 6 de abril, mas ainda dependia de confirmação. Mesmo assim, a previsão indicava ondas de 3 a 4 metros, talvez um pouco mais.
A fúria dos ventos
A ilha Rei George, cenário do naufrágio e do resgate do Mar Sem Fim, é a maior do arquipélago das Shetland do Sul. Ao norte, fica o Estreito de Drake. Ao sul, o Estreito de Bransfield separa o arquipélago da Península Antártica. Cerca de 120 quilômetros separavam o Mar Sem Fim da península. Portanto, o trawler continuava exposto à fúria dos ventos do Drake.
Em 2 de abril, a previsão indicava ventos fortes de leste, com rajadas de 60 nós. Por isso, João Lara decidiu deixar a Baía Potter. O destino era a Baía Fildes, a 9 milhas dali, onde fica a base chilena Frei.
Geleiras cercam a Baía Potter. Delas se desprendem enormes blocos de gelo, que ficam à deriva. Assim, ameaçavam o Mar Sem Fim, que estava fundeado no meio da baía.
“Como a previsão indicava ventos muito fortes para os próximos dias, resolvemos mudar para Frei, onde ao menos não temos gelo solto nos ameaçando”, explicou o capitão.
Baía Fildes, ilha Rei George
4 de abril de 2012. Amanhece na Baía Fildes, ilha Rei George. A temperatura é de menos 6 °C, o vento de Sudeste, na casa dos 30 nós, com rajadas de até 40 nós. O Mar Sem Fim se desgarra. Motores ligados, Plínio tenta fazer o ferro grudar no fundo do mar. Em vão. Entra uma rajada mais forte, com 56 nós. O barco desloca-se a favor do vento em direção à praia, enquanto a nevasca deixa tudo branco, impedindo uma visão apurada. Visibilidade zero.
Tensão, frio na barriga, sensação de pequenez
O capitão do Mar Sem Fim descreve o clima a bordo: “Tensão, frio na barriga, sensação de pequenez diante da poderosa força dos elementos que nos cercam: frio glacial, ventania, ondas desencontradas, barulhos estranhos e incomuns.”
Enquanto isso, chega mais uma previsão de tempo: “Ventos com força de mais de 50 nós são esperados para esta noite. Mas amanhã é que a coisa fica mais preta: furacão à vista, com ventos de 80 nós e ondas de 10 metros de altura ao norte da ilha Rei George.” Os termos usados pelos meteorologistas americanos, normalmente frios, eram absolutamente alarmantes.
Abandonar o barco
Com o ponteiro da sua bússola apontado para a preservação física de sua tripulação, o capitão decide abandonar o barco rumo à base chilena Presidente Eduardo Frei Montalva. “Decididamente seria estupidez sair para o mar com essa situação”, pondera João Lara. Antes, era preciso fundear o trawler a sotavento de uma ilhota na baía, com os dois ferros de 95 kg cada um. Manobra perfeita, com Plínio Romeiro ao leme.
Em seguida, o capitão fechou o barco, desligou os aparelhos e embarcou no enorme bote de borracha, com dois motores de 60 cavalos cada. Com o qual o pessoal da base chilena fez o resgate. “Foi uma epopeia. Ondas de mais de um metro e meio e vento com mais de 40 nós faziam com que o bote saltasse para um lado e outro, como um cavalo xucro num rodeio”, lembra João Lara. Já no conforto do alojamento da base Fildes, a tripulação do Mar Sem Fim não viu o barco ser submetido à violência das ondas e do vento, que atingiu 75 nós de pico – cerca de 140 quilômetros por hora. Pela manhã, quando João Lara chegou à baía onde o “Marzão” estava fundeado, a baía estava cercada por blocos de gelo trazidos pelo furacão da noite passada, com o barco preso entre eles.
O Mar Sem Fim afundou
7 de abril de 2012. Exatamente um mês depois de levantar ferros em Ushuaia, o Mar Sem Fim afundou. Preocupado com os sinais de vazamento de parte dos 8.000 litros de óleo diesel do Mar Sem Fim no fundo da Baía de Fildes, contribuindo para a poluição local, João Lara teve de esperar o verão da Antártica e o consequente derretimento do gelo, para iniciar a operação de resgate do casco.
Pelo Protocolo de Madri, tratado internacional para a exploração da Antártica, é responsabilidade de cada país a remoção de detritos deixados na região. Como a embarcação tinha bandeira brasileira, a remoção ficaria a cargo da Marinha, caso o proprietário não limpasse a área. Apaixonado pelo mar, e um obstinado defensor da Antártica (e do meio ambiente), João Lara não iria pagar um mico desses.
Causa nobre
Fiscal da natureza, há tempos João Lara Mesquita navega para mostrar as belezas e os problemas que o homem vem causando
Muito antes do naufrágio e do resgate, João Lara Mesquita já documentava os problemas ambientais do litoral brasileiro. Em 2003, deixou a direção da Rádio Eldorado, empresa do Grupo Estado, que pertence à sua família. Desde então, dedica-se à produção de documentários.
Entre 2005 e 2007, navegou pela costa brasileira a bordo de um veleiro Morgan de 46 pés, o Mar Sem Fim. Ao longo da expedição, percorreu quase 10 mil quilômetros, do Oiapoque ao Chuí, passando também pelos rios da Amazônia.
A viagem deu origem ao programa Mar Sem Fim, que a TV Cultura exibiu. Além disso, rendeu os dois volumes do livro O Brasil Visto Pelo Mar Sem Fim.
Em outubro de 2009, o jornalista e equipe partiram para uma segunda expedição, dessa vez à Antártica, com o objetivo de pesquisar o impacto do aquecimento global sobre a península gelada. Para isso, escolheu um trawler de 76 pés, também batizado de Mar Sem Fim. A jornada acabou se transformando em uma nova série televisiva, exibida na TV pela Band.
A recente viagem, em que perdeu seu barco, foi a segunda expedição de João Lara à Antártica. O objetivo era o mesmo da anterior: mostrar a beleza da natureza e os problemas que o homem vem causando nela, como, no caso do continente gelado e branco, o aquecimento global. “Eu já ficaria contente se os documentários deixassem uma sementinha que ajude a conscientizar as pessoas sobre a importância da Antártica”, justificou.
O que, de fato, aconteceu?
Antes do resgate, o Mar Sem Fim enfrentou um fenômeno meteorológico chamado “jato frio inercial”. Ele intensifica três condições extremas da Antártica: frio, vento e acúmulo de gelo. A temperatura cai ainda mais. Além disso, o vento vira vendaval e empurra blocos de gelo para a baía. A pressão do gelo abriu uma fissura no casco. Com isso, o trawler de 76 pés começou a fazer água e afundou.

“Não há palavras para descrever o que senti depois de ver o Mar Sem Fim flutuando outra vez. Fiquei arrasado. Mas feliz por descobrir que não houve impacto ambiental”, Joao lara mesquita.
COMO ELE ERA
Assim era o Mar Sem Fim antes de naufragar na Antártica e ser vendido como sucata. Todo o casco, de alumínio, será reciclado e revendido em pedaços no Chile


















Boa tarde! Assistindo toda a primeira viagem até a Antártida e a derradeira segunda, segundo o próprio João Lara, não houve nenhuma fissura ou vazamento. Com o desligamento dos motores e pressão do gelo, a água entrou no barco pelo cano do esgoto. É incrível como pela naturalidade e carinho de João Lara pela viagem, me senti parte da tripulação também…