Guerra contra o Irã: o custo ambiental chega ao mar
A guerra contra o Irã ameaça um mar especialmente vulnerável. Raso e semifechado, o golfo Pérsico troca água com o oceano pelo estreito de Ormuz. Essa circulação limitada dificulta a dispersão de poluentes e pode prolongar a contaminação, alertam pesquisadores em artigo na revista Ambio. Nesse ambiente, ataques a navios e instalações petrolíferas, naufrágios e vazamentos somam novas agressões a ecossistemas que já enfrentam calor extremo e salinidade elevada. Enquanto o mundo acompanha o preço do petróleo, o óleo chega ao mar e ameaça a vida que depende dele.

Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, a Organização Marítima Internacional confirmou 113 incidentes com embarcações na região, até 14 de outubro. Três navios mercantes afundaram, segundo a Reuters. No caso do porta-contêineres Safeen Prestige, a OMI registrou uma mancha de óleo após o naufrágio.

Além da carga, os navios carregam nos tanques outra ameaça: o próprio combustível. Muitos queimam uma mistura que aproveita os resíduos pesados do refino do petróleo. Esse produto viscoso contém hidrocarbonetos tóxicos e pode carregar enxofre e metais, como níquel e vanádio. Como mostramos no post sobre o combustível de navios, poluente e insustentável, trata-se de uma ameaça à saúde humana e à vida marinha. E a quantidade pode chegar a milhares de toneladas por embarcação. Ainda não sabemos quanto combustível havia nos três mercantes que afundaram na região de Ormuz, nem a composição exata dos produtos que levavam.
Dugongos, tartarugas e recifes: a vida que a guerra ameaça
O golfo Pérsico abriga manguezais, recifes de coral e extensos prados submarinos que a guerra contra o Irã ameaça. Esses ambientes oferecem alimento, abrigo e locais de reprodução para peixes, tartarugas e mamíferos marinhos. Entre seus habitantes estão os dugongos, parentes dos peixes-bois que pastam na vegetação submersa. Segundo a Agência Ambiental de Abu Dhabi, cerca de 3 mil vivem nas águas do emirado, principalmente na Reserva da Biosfera Marinha de Marawah e na Área Marinha Protegida de Al Yasat. A concentração está entre as maiores do mundo.
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Além disso, o sul do golfo oferece áreas de alimentação e reprodução para golfinhos e pequenos cetáceos sem nadadeira dorsal. A Força-Tarefa de Áreas Protegidas para Mamíferos Marinhos destaca o golfinho-corcunda-do-Índico, que enfrenta risco de extinção. Os dugongos e as toninhas-sem-nadadeira do Indo-Pacífico também integram a lista de espécies ameaçadas, na categoria vulnerável.

Reserva da Biosfera de Hara
A guerra contra o Irã também ameaça ambientes como a Reserva da Biosfera de Hara, na margem iraniana, perto de Ormuz. A reserva protege o maior conjunto de manguezais do gênero Avicennia na costa do golfo Pérsico. Segundo a Unesco, suas águas abrigam tartarugas-de-pente, criticamente ameaçadas de extinção. Tartarugas-verdes procuram alimento na região, enquanto pelicanos usam a área durante o inverno. Serpentes marinhas também encontram ali locais para se alimentar e reproduzir.

Os recifes guardam outra particularidade. Corais do golfo conseguem sobreviver a temperaturas de verão que chegam a 36 °C. Entre eles está o Acropora downingi, um coral que forma colônias semelhantes a mesas. Um estudo publicado na revista Coral Reefs o identifica como endêmico da região — sua distribuição inclui águas vizinhas, além do golfo Pérsico. Apesar da elevada tolerância térmica, suas populações sofreram grandes episódios de mortalidade nas últimas décadas. É essa vida, adaptada a condições extremas e já sob pressão, que agora enfrenta as consequências da guerra.

Ameaça de bioinvasão sem precedentes
Além disso, a guerra contra o Irã pode espalhar prejuízos ambientais para muito além do golfo Pérsico. Como já alertamos, os navios presos em Ormuz representam uma ameaça de bioinvasão global. A longa imobilidade favorece o acúmulo de algas, cracas e outros organismos nos cascos. Quando retomarem suas rotas, as embarcações poderão transportar esses passageiros para outros mares, onde alguns podem se tornar invasores e ameaçar a biodiversidade local.
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A poluição marinha também ameaça o abastecimento em terra. Países do golfo dependem de usinas que retiram o sal da água do mar. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ataques a essas instalações colocam em risco comunidades que dependem delas.

Além dos bombardeios, manchas de óleo podem comprometer a captação e o tratamento da água, alerta o Observatório de Conflitos e Meio Ambiente. Assim, os efeitos dos ataques no mar podem alcançar as torneiras de quem vive em terra.
A guerra dificulta medir o próprio estrago
As imagens de satélite mostram manchas na superfície, mas não revelam toda a extensão dos danos à vida marinha. Segundo o Observatório de Conflitos e Meio Ambiente, as restrições de acesso e de informação dificultam avaliar as consequências da guerra. Ao mesmo tempo, os combates atrapalham a contenção e a limpeza dos vazamentos. O petróleo pode continuar causando danos muito depois de desaparecer das imagens — e das manchetes.
Assista ao vídeo para ver a dimensão da poluição









