Fandango caiçara: a cultura que ainda resiste no litoral brasileiro

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Fandango caiçara: a cultura que ainda resiste no litoral brasileiro

O som dos tamancos ecoa no chão de madeira das rústicas casas. A rabeca e a viola puxam a música. Os versos contam histórias de amor, trabalho e vida à beira-mar. Assim começa o fandango caiçara, uma das expressões mais singulares do litoral brasileiro. Suas raízes vêm das danças e músicas da Península Ibérica. Mas foram as comunidades caiçaras que lhe deram o ritmo e o sentido que conhecemos hoje.

Os instrumentos do fandango caiçara
O interior de uma casa na comunidade de Abacateiro, Lagamar. Acervo MSF.

Durante gerações, o baile reuniu vizinhos depois dos mutirões na roça, na pesca ou na construção de uma casa. Quem ajudava durante o dia encontrava comida, música e dança à noite. O fandango celebrava o trabalho coletivo e fortalecia os laços da comunidade caiçara.

Agora, essa tradição enfrenta uma pergunta incômoda: como manter o baile se os caiçaras perdem o espaço onde vivem e se encontram? Antonio Carlos Diegues e Daniele Maia Teixeira Coelho mostram que o título de patrimônio cultural, por si só, não resolve o problema. Enquanto isso, a especulação apaga a identidade do litoral e o transforma numa vitrine de beach clubs.

O baile que nascia do mutirão

Na costa de São Paulo e norte do Paraná, o fandango faz parte da vida caiçara. Quando uma família precisava abrir uma roça, erguer uma casa ou puxar uma canoa, chamava os vizinhos para um mutirão. Ao fim do trabalho, oferecia comida e promovia um baile.

No fandango batido, os dançarinos marcavam o ritmo com os tamancos. No bailado, ou valsado, os pares dançavam de forma mais suave. As cantigas falavam de amores, saudades e acontecimentos locais. Cada comunidade cultivava suas modas e seu jeito de dançar.

Patrimônios da costa brasileira

O fandango integra um patrimônio cultural muito maior. Os navegadores portugueses trouxeram crenças e costumes que ganharam novos sentidos no Brasil. Na Ilha dos Lençóis, no Maranhão, por exemplo, Dom Sebastião entrou para o mundo dos encantados. A história reúne elementos portugueses, africanos e indígenas.

Há também um tesouro que quase ninguém valoriza: a construção naval artesanal. Mestres construtores adaptaram barcos aos ventos, às águas e às necessidades de cada região. Em alguns casos, usando o mesmo tipo de vela das caravelas da esquadra de Cabral!

Caravelas, da carta de Juan de la Cosa.
As caravelas usavam o aparelho conhecido como velas bastardas latinas.

Só as canoas de pau apresentam cerca de cem tipos ainda em atividade. O Iphan reconhece o valor e já tombou embarcações tradicionais como bens culturais. Ainda assim, pouca gente conhece esses barcos e os saberes de quem os constrói.

Bote bastardo, Vasco da Gama
Este modelo, muito usado em partes do Nordeste, é conhecido como bote bastardo e usado em pescarias. Seu aparelho descende das caravelas e segue até hoje em atividade assim como os saveiros de pena da Bahia. Acervo MSF.

As lendas transmitidas de geração em geração, as marujadas, as cantigas e as brincadeiras de roda, entre outras, completam esse retrato. São expressões diferentes de uma costa plural até nossa chegada.

Não à toa, o artigo 225, parágrafo 4º, da Constituição reconhece a Zona Costeira como ‘patrimônio nacional’.

Por isso, é preciso cuidar das comunidades que mantêm o fandango vivo, vale dizer, preservar o que resta de original no litoral.

Uma tradição que passa de mão em mão

O fandango sobrevive em algumas comunidades, mas enfrenta ameaças concretas. Mestres ainda tocam, cantam e tentam ensinar os mais jovens. Para construir violas e rabecas, porém, precisam de madeira à qual as regras de conservação nem sempre lhes permitem acesso. Diegues e Daniele Coelho apontam esse conflito: o poder público reconhece o fandango como patrimônio, mas impõe restrições a práticas que ajudam a sustentá-lo.

Jovens no fandango caiçara em Ubatuba copiar.
Jovens no fandango caiçara em Ubatuba. Acervo MSF.

O problema vai além da música. No Lagamar, você observa que novas canoas já usam fibra de vidro diante das restrições à construção tradicional. E, enquanto a especulação devora paisagens e tradições, grande parte dos brasileiros segue desconhecendo essas riquezas. Sim, o litoral também é feito de barcos, ofícios, festas e modos de vida. Reduzi-lo a praias é miopia.

Patrimônio no papel, ameaças no território

Em 2012, o Iphan reconheceu o fandango caiçara como Patrimônio Cultural. A conquista nasceu da mobilização dos fandangueiros e deu visibilidade a uma tradição que luta para sobreviver. Mas título não garante continuidade.

Instrumentos do fandango caiçara
Instrumentos do fandango caiçara numa casa em Abacateiro, Lagamar. Acervo MSF.

Antonio Carlos Diegues e Daniele Maia Teixeira Coelho apontam a contradição. O Estado celebra a música e a dança, mas nem sempre assegura às comunidades o território, os espaços de encontro e o acesso aos materiais de que precisam. Se os caiçaras perdem essas condições, quem manterá o baile?

O litoral perde sua identidade

Há quase 60 anos navego pela costa brasileira. Quando comecei, encontrei longos trechos quase prístinos. Hoje, vejo a maioria das praias mais procuradas cercadas por concreto, superlotadas, e com a paisagem em frangalhos. A especulação vende a transformação como progresso. Para mim, ela apequena o litoral.

O fandango mostra o que está em jogo. A cada comunidade que perde seu lugar, o litoral arrisca perder também seus barcos, suas festas, conhecimentos e memória. A paisagem não se resume à faixa de areia. Ela inclui a biodiversidade e a cultura de quem, por séculos, viveu ali e ajudou a preservá-la.

É preciso mudar o modelo destrutivo de ocupação, ainda há o que salvar. Podemos usufruir do litoral sem apagá-lo, e às suas populações originais. A isso se dá o nome de ‘ocupação sustentável’. Todos têm o direito de usufruir deste patrimônio, inclusive os que ainda virão.

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Comentários

2 COMENTÁRIOS

  1. João, perfeita a abordagem. Temos que preservar nossa cultura, arte, folclore, …, para que tenhamos nossa identidade e nacionalidade preservadas. Cabe aos nossos governantes a compreensão e lucidez para criar Normas que permitam e fomentem esta preservação.

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