Crime organizado controla territórios caiçaras no sul fluminense

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Crime organizado controla territórios caiçaras no sul fluminense

Em 10 de janeiro a Folha de S.Paulo, em raro momento de lucidez e coragem, colocou o dedo na ferida. O jornal publicou uma matéria sobre o domínio de facções no litoral sul fluminense, sobretudo em territórios caiçaras.

vista de Paraty
Vista de Paraty a partir do Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Nada surpreende. O crime organizado controla trechos do litoral há anos. No início de 2026, outro local emblemático entrou no noticiário. A imprensa chama de “paraíso”  Porto de Galinhas. Entretanto, ali, segundo apurações, quem manda é a facção Trem Bala/CLS.

O poder público abandonou essas áreas ao deus-dará. Alertamos para isso há muito tempo. A novidade está no foco. Pela primeira vez, um grande jornal mostrou o que acontece dentro de comunidades hoje valorizadas, formadas por populações originárias já vulneráveis.

casa de caiçara em Paraty

O problema atinge territórios caiçaras. Entre eles, a Praia de Cajaíba, terra de Dona Dica, ícone da região e pioneira em desmascarar a especulação imobiliária. A lista inclui ainda a Praia do Sono, Juatinga, Calhau, Trindade, e Paraty-Mirim. Ou bairros da periferia como Ilha das Cobras e Mangueira, que formaram-se ao redor do centro histórico após os caiçaras serem expulsos pela especulação.

Áreas dominadas pelo C.V. ficam dentro de UCs federais!

Desta vez, o quadro é ainda pior. As desculpas ficam intoleráveis. Muitas dessas áreas ficam dentro de Unidades de Conservação federais do bioma marinho. Como o diligente ICMBio não viu? E o Ibama, também não? O caso envolve a comunidade de Trindade. A vila está dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, sob gestão do ICMBio.

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Contudo, a Folha de S. Paulo não disse tudo. Nossas fontes confirmaram que a situação não é recente. O problema começou há cerca de dez anos, por volta de 2015. E se agravou nos últimos cinco anos.

Casarão de Paraty

Onde está a Prefeitura de Paraty? O governo municipal não respondeu aos questionamentos da Folha. O silêncio se repete no ICMBio. A Câmara de Vereadores também se cala, para a maioria dos políticos só interessa a especulação imobiliária como já comentamos. Aproveitamos e pedimos entrevista ao presidente, o vereador Vaguinho.

Praça em Paraty

Como aceitar o mutismo do poder legislativo municipal, eleito pelo povo, agora sob ameaça do Comando Vermelho?

Um retrospecto sobre alguns territórios caiçaras da região

Este escabroso caso do avanço do Comando Vermelho sobre redutos caiçaras apenas confirma o motivo da decadência da grande mídia. O exemplo mais contundente, mas não o único, foi a omissão sobre o assassinato em 2016 do caiçara  Jaison Caíque Sampaio, de 23 anos, por pistoleiros a serviço da empresa de Paraty, Trindade Desenvolvimento Territorial (TDT), que se diz dona da área.

gaivota em paraty

Quando soube do crime, comecei a pesquisar. Encontrei apenas uma matéria. O texto saiu no jornal espanhol El País. Na imprensa de Pindorama, o silêncio foi total. Zero repercussão. Até hoje os policiais que cometeram o brutal assassinato estão soltos.

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O descaso da mídia diante de um crime de morte ocorrido dentro de uma comunidade que tornou-se paradigma da luta contra a especulação imobiliária revela o tamanho do buraco.

janelas de Paraty

Muito bem. Segundo nossas fontes, muita gente passou a ver Trindade como um reduto hippie anos atrás. Ali, diziam, era possível fumar maconha sem ser incomodado. A ideia pegou entre os jovens.

Com o tempo, e como em qualquer lugar que tenha demanda, turistas começaram a levar drogas para vender aos usuários como uma maneira de ficarem mais tempo. Contudo, essa prática nunca trouxe problemas à comunidade.

O C.V. chegou, chegando!

Caiçaras de toda a região ouvidos pelo Mar Sem Fim foram unânimes. Cerca de cinco anos atrás, integrantes do Comando Vermelho decidiram assumir o controle. A ordem foi direta: o negócio das drogas passou a ser deles.

canoa caiçara em Paraty

Enquanto o PCC migrou para o tráfico internacional e abriu mão do varejo, o Comando Vermelho fez o oposto. Identificou a brecha e tomou os pontos de venda de maconha ao longo do litoral fluminense e do norte paulista.

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A gota d’água para a matéria da Folha

A gota d’água desse crime de omissão nas três esferas de poder foi a cobrança de uma taxa aos barqueiros da Praia do Sono. Ali vive, há gerações, uma comunidade caiçara.

caiçaras de Paraty pescando

Preocupados, moradores reagiram. A mobilização se espalhou em cadeia. Ela alcançou todas as comunidades já citadas. Assim, o escândalo chegou à Folha de S.Paulo.

Para sair ou chegar à Praia do Sono, só existem duas opções. A primeira é percorrer uma trilha longa e exaustiva. A segunda é usar lanchas com motor de popa.

canoa caiçara em Paraty

Essas lanchas partem do Condomínio Laranjeiras, local é símbolo da privatização de praias pelas elites financeiras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Sim, elites apenas financeiras. Somos partidários da tese do cientista político Bolívar Lamounier.

As elites apodrecidas de Pindorama

Para Bolívar, ‘nós não temos elites hoje, isso é uma ficção científica. Temos no sentido meramente de riqueza, aqueles 1% que detém 37% por cento da renda e da riqueza (do País). Nós não sabemos se estes 1% pensam alguma coisa, se têm alguma preocupação, o que é urgente para eles? Nós não sabemos’.

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É a mais pura verdade. A prova está em Paraty. A cidade é refúgio de segunda residência para ricos e muito ricos. Artistas, empresários, músicos, ‘famosos’, e herdeiros de grandes empresas frequentam a região. Até sangue real aparece por ali, assim como navegadores de fama internacional. Além deles, há centenas de donos das muitas lanchas, iates e veleiros atracados em marinas de Paraty.

Canoas caiçaras em Paraty

E, que se saiba, nenhum deles jamais denunciou os descalabros da região que frequentam. O silêncio impera. Vale para eles. Vale ainda mais para o poder público estadual e federal.

Por exemplo, já alertamos que conflitos entre traficantes não surgiram agora em Paraty. Há anos, guerras desse tipo provocam mortes de jovens. Mesmo assim, o silêncio persiste.

Nenhuma palavra sobre a disputa entre facções na Ilha das Cobras e na Mangueira. Cada área abriga uma facção rival. Elas matam, cobram propina e vendem “segurança”. Ainda assim, quase ninguém menciona esses crimes. Por quê? Ora, ‘atrapalha o turismo’ e a região vive do turismo. Ponto.

artesanato feito por caiçaras de Paraty

Vale lembrar, por exemplo, o caso do Mingau, baixista do Ultraje a Rigor que, em 2023 entrou na ilha das Cobras (ninguém sabe o motivo) e foi baleado na cabeça. Até hoje Reinaldo Oliveira Amaral, o Mingau, faz fisioterapia e tenta se recuperar. Mas ninguém nunca mais falou no crime que envolve traficantes de drogas. ‘A violência estrutural de Paraty é sempre abafada’, disseram as fontes.

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Polícia vende proteção

Em Paraty, segundo amigos, a polícia vende proteção aos comerciantes através de milícias, enquanto isso, traficantes se aproximam do povo para também vender proteção. ‘Ou você paga a polícia, ou paga bandidos’, disseram.

Paraty-Mirim

Quando houve a grita da praia do Sono, membros das facções através de um perfil falso nas redes antissociais colaram um comunicado no perfil de dezenas de caiçaras dizendo que ‘estavam ali para ajudar’, ‘dar segurança’.

Onde estão as denúncias?

Exceção à Folha de S. Paulo, dezenas de outros veículos, nanicos por sinal, copiaram e colaram a matéria. Não tentaram ouvir quem quer que seja, nenhum caiçara, nem o poder municipal de Paraty, muito menos o pessoal, inenarrável, do ICMBio a quem este site pediu entrevista. A ver se, e quando, falarão.

Gato em Paraty
A maioria das imagens deste post mostram os aspectos icônicos Paraty e arredores. Mas só esta mostra como são os locais  sob domínio do Comando Vermelho.

Isso é um retrato do abandono do litoral, mantra que repetimos desde que abrimos este site em 2002.

Depois de enfrentarem multinacionais poderosas e jagunços armados que tentaram privatizar as praias de Paraty, e após anos de resistência em defesa de suas comunidades tradicionais, mesmo sob abandono total das autoridades municipal, estadual e federal, os caiçaras agora encaram um inimigo ainda mais perigoso.

Sono

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Esse grito de socorro precisa ecoar. É imperativo que tenha efeito enquanto essas comunidades ainda conservam força e coragem para gritar!

Devemos isso a eles. Temos, sim, uma dívida com os caiçaras. Por cerca de 450 anos, essas comunidades ocuparam o litoral e preservaram uma paisagem excepcional, junto com seus ecossistemas.

O litoral seguia quase prístino quando a invasão cara-pálida ganhou força, a partir dos anos 1950. Pense nisso. Compartilhe este post.

Comentários

4 COMENTÁRIOS

  1. Vivo em Paraty desde 2014. Os relatos que recebi, quando cheguei na cidade, é que a ocupação do crime organizado sucedeu ao início das operações de repressão no Rio, que começaram com a retomada do Morro do Alemão e, a partir dela, a disseminação das UPPs. Aquelas imagens icônicas dos bandidos se evadindo do Morro do Alemão, na época apreciadas como vitória inconteste contra o crime, na verdade, demonstravam a metástase do câncer da criminalidade, que ali teve início. Faccionados do CV procuraram locais mais afastados onde pudessem se esconder enquanto a poeira baixasse. A costeira de Paraty era um local ideal. Instalaram-se inicialmente no Pouso da Cajaíba, onde o acesso é somente marítimo e há uma imensidão de matas para trás. Então, enquanto a poeira baixava no Rio, aproveitaram para abrir novas franquias locais. A partir do Pouso, onde se instalaram no começo até quase o final da década de 2010, expandiram sua ocupação e recrutamento de locais para outras comunidades da costeira, até chegar, hoje, nessa disseminação quase onipresente por toda a região. Complica muito o combate à criminalidade, o fato de que esse tipo de crime escapa da competência da PF. É atribuição da Civil, cujo comando é estadual. No caso do Rio de Janeiro (mas também em outros estados, com até SP visivelmente hoje), tanto governo, como especialmente suas instituições da segurança pública, parecem bem comprometidos com o próprio crime organizado. Há muitos indícios de comprometimento que a mídia vem mostrando, a partir das recentes operações da PF. Uma ponta de esperança para reverter essa criminalidade na costeira de Paraty, como em tantos outros locais do Brasil já atingidos pela mesma metástase do crime organizado, é a aprovação do PL do Sistema Único de Segurança Pública que tramita pelo Congresso. Daí, a PF poderá começar a atuar sobre esse problema. Creio que só então se poderá dar um tratamento mais efetivo a esse câncer que depende fundamentalmente de algo que não se vê nas polícias estaduais: inteligência policial e comprometimento com o serviço público. Prefeitura, ICMBio e outros culpados de plantão citados na matéria, não têm competência, nem capacidade para enfrentar esse problema. Parece até um cacoete pueril do jornalista procurar sempre apontar culpados fáceis, muito mais como bodes expiatórios para problemas sistêmicos que são infinitamente maiores. Somente uma abordagem sistêmica poderá fazer frente a esse câncer da criminalidade. A poluição, a destruição ambiental e climática, etc. são outros cânceres contemporâneos integrados, geralmente com a mesma dinâmica sistêmica que a criminalidade, porém em campos bem diferentes da realidade. A matéria é muito boa para mostrar questões importantes que têm que ser abordadas, o que pouca gente faz. Mas esse cacoete recorrente do jornalista de buscar culpados de plantão, diminui muito sua contribuição. Antes, provoca esmorecimento em quem, de alguma forma, se esforça por enfrentar o problema com armamentos bem defasados da necessidade real para o enfrentamento. E os inculpamentos terminam redundando em fogo amigo.

    • Caro Flávio: obrigado por seu comentário. Mas faço um reparo: Sua frase, “Parece até um cacoete pueril do jornalista procurar sempre apontar culpados fáceis, muito mais como bodes expiatórios para problemas sistêmicos que são infinitamente maiores”, não reflete meu pensamento. Jamais esperei, ou sugeri, que a prefeitura deveria combater o crime organizado. O que deixei claro é que não houve nenhum pronunciamento por parte da prefeitura e Câmara de Vereadores, disse ainda que o mesmo silêncio impera entre ricos e famosos que frequentam Paraty. São pessoas conhecidas, que têm abertura na mídia e que, se não fossem omissos, emprestariam seu nome para protestar publicamente contra o abandono em que se encontram os caiçaras da região. O mesmo vale para Ibama e ICMBio, citados, não espero deles combate ao crime, mas alertas públicos às autoridades. Contudo, em vez disso, permanecem calados, covardemente, calados.
      É isso, seja muito bem-vindo.

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