Batalha de Salamina, parte da História da humanidade

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Batalha de Salamina, parte importante da História da humanidade

Imagine uma batalha naval travada em 480 a.C., num cenário de mar calmo e luz mediterrânea, entre a ilha de Salamina e a costa da Ática. De um lado, a frota de Xerxes, rei do Império Persa. Do outro, as cidades gregas, em franca desvantagem numérica. A vitória grega em Salamina entrou para a memória ocidental como um dos grandes pontos de inflexão da Antiguidade. Heródoto, nossa principal fonte narrativa sobre o episódio, ajudou a consolidar essa leitura ao apresentar o confronto como decisivo.

Batalha de Salamina na visão da IA
Batalha de Salamina na visão da IA.

Mas essa versão também consagrou um olhar profundamente grego, e por isso parcial. Ao reler a história do Império Aquemênida no livro Os Persas: a era dos grandes reis, o historiador Lloyd Llewellyn-Jones contesta esse velho enquadramento, que opõe um Ocidente livre, racional e progressista a um Oriente decadente, exótico e inferior. Sem descartar Heródoto, o autor mostra que ele precisa ser lido com cautela. Seu livro resgata a grandeza, a sofisticação e a complexidade do império persa, quase sempre distorcidas pela tradição ocidental.

Duas palavras sobre o narrador

Heródoto nasceu em Halicarnasso, capital da Cária, por volta de 484 a.C. Viajou muito e recolheu materiais para a obra que o tornaria célebre. Mas convém lembrar: ao narrar episódios como as guerras entre gregos e persas, ele trabalhou sobretudo com histórias que já circulavam havia décadas, transmitidas de boca em boca. Ou seja, boa parte de seu relato nasceu da tradição oral, não de documentos contemporâneos aos fatos. Nesse longo percurso, muita coisa certamente se perdeu, outra tanta mudou de forma, e quase tudo passou pelo filtro da memória, do interesse político e da imaginação de quem contou. Ainda assim, foi Heródoto quem preservou a grande narrativa que chegou até nós.

Percorreu o Egito e subiu o Nilo até Elefantina. Passou pela Líbia, pela Fenícia e pela Babilônia. Ao que tudo indica, a própria Pérsia também entrou em seu longo itinerário. Por onde andou, recolheu relatos, ouviu versões, juntou memórias. Com esse material compôs a grande narrativa que atravessaria os séculos.

ilustração de Heródoto, pai da história
Ilustração:dicasdehistoria.com.br.

Heródoto conheceu a Macedônia, a Trácia e a Cítia. Foi além do Danúbio e do Borístenes. Percorreu regiões do Oriente, colônias gregas da Ásia e os confins do mundo helênico. E, onde não esteve, buscou informar-se. Quis saber das cidades da Grécia europeia, de seus templos, campos de batalha, ilhas e lugares de memória. Juntou tudo isso para compor a narrativa que atravessaria os séculos.

Que espécie de obra escreveu Heródoto?

Heródoto escreveu algo próximo de uma história universal, mas guiada por um eixo central: o choque entre gregos e persas. Em sua narrativa, não estava em jogo apenas uma guerra entre povos rivais, mas um confronto entre modos opostos de organizar o mundo. De um lado, a Grécia, que ele associava à liberdade. De outro, a Ásia persa, que apresentava como terra de servidão e despotismo.

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ilustração de Cenário da batalha de Salamina.
Cenário da batalha de Salamina.

Foi assim que Heródoto ajudou a consolidar uma das ideias mais duradouras da Antiguidade: a oposição entre Europa e Ásia, liberdade e tirania. Seu relato deu grandeza épica à vitória grega, mas também fixou uma leitura profundamente parcial. Hoje, autores como Lloyd Llewellyn-Jones chamam atenção para isso: ao exaltar os gregos, Heródoto ajudou a diminuir a complexidade e a sofisticação do Império Persa.

Divisão do livro

E, acrescenta o Mar Sem Fim, trata-se de uma obra de leitura surpreendentemente fácil. Heródoto narra em estilo direto, embora rico em minúcias. O livro se divide em capítulos, e estes, por sua vez, em tópicos curtos, numerados e titulados, o que facilita muito a consulta. Assim, o leitor encontra sem dificuldade o trecho que procura. Em geral, são passagens breves, agradáveis de ler e cheias de descrições curiosas para quem vive 2.500 anos depois.

O inicio da batalha de Salamina.
O inicio da batalha de Salamina.

Por isso, a leitura linear não se impõe, como acontece num romance. Pode-se começar pelo fim, saltar para o meio, voltar ao início e ainda assim aproveitar cada trecho por si só. O mesmo não vale para Os Persas: a era dos grandes reis, de Lloyd Llewellyn-Jones. Ali, a leitura precisa seguir da primeira à última página, na sequência pensada pelo autor, porque o argumento se constrói aos poucos e ganha força justamente no encadeamento dos capítulos.

Os gregos e a construção naval

Os antigos gregos reduziram a dependência de ventos favoráveis com o uso das galés, embarcações movidas a vela e a remo. Esses navios, porém, tinham calado raso, serviam mal às viagens longas e ofereciam pouca capacidade para transporte de carga. Com o avanço da civilização grega e o aumento das exigências comerciais, os construtores desenvolveram o navio mercante, mais profundo que a galé e pensado para levar o máximo possível de mercadorias. As informações deste subtítulo têm como fonte o site www.byarcadia.org.

Os gregos também criaram uma ampla rede comercial ao longo das costas do Mediterrâneo e do Egeu, estendendo-se pela Ásia Menor, o Mar Negro e até a Espanha. Como o comércio marítimo crescia sem parar, crescia também a necessidade de poder naval.

Construir uma marinha era caro

Construir uma marinha era caro para qualquer estado antigo. No entanto, elas eram necessárias como uma linha robusta de defesa ao longo dos litorais na proteção do comércio e contra ataques e invasão inimiga.

Os primeiros navios da marinha grega foram usados principalmente para transportar exércitos em um barco remado por 50 homens, com 25 remos para cada lado, e uma vela  quadrada; como leme, usavam um remo à ré. Porém, a galera poderia ter um casco com cerca de 40 metros de comprimento, e era leve, porque foi projetada para velocidade máxima.

Desenho de trirreme grego
Desenho de trirreme grego. Imagem, www.byarcadia.org.

Fenícios, espinha dorsal da frota persa

A marinha persa seguia outro caminho. O grande império de Xerxes dominava vastidões de terra, mas devia sua força no mar sobretudo aos fenícios, de longe os melhores construtores de navios da Antiguidade e os marinheiros mais experientes de seu tempo. Foram eles que deram espinha dorsal à frota persa. O livro de Lloyd Llewellyn-Jones insiste nesse ponto com abundância de exemplos: sem os fenícios, a potência naval dos persas não teria alcançado a escala nem a eficiência que alcançou. Mestres do mar muito antes da ascensão da Pérsia, eles levaram para a frota imperial sua técnica, sua experiência e seu conhecimento das rotas, dos ventos e do combate naval.

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Assim, quando gregos e persas se enfrentaram em Salamina, não estavam frente a frente apenas duas potências rivais. De um lado, estavam cidades gregas que haviam aprendido a fazer do mar sua defesa. Do outro, um império continental que se projetava sobre as águas graças, sobretudo, à habilidade náutica dos fenícios.

Batalha de Salamina: curiosidades

Os persas reuniram a maior força de combate de que a Antiguidade teve notícia. Heródoto fala em 1.207 navios e 241.400 homens embarcados, números que muitos historiadores hoje consideram exagerados, mas que ainda assim traduzem a impressão de espanto causada pela escala da expedição. Para acelerar o avanço, Xerxes mandou abrir um canal na península do monte Atos, erguer pontes de barcos sobre o Helesponto, atual estreito de Dardanelos, e lançar outra sobre o rio Estrímon. A tradição grega transformou essas obras em prova de hybris, da desmedida de um rei que queria subjugar até a natureza.

Contudo, o livro Os Persas: a era dos grandes reis sugere outra leitura. Em vez de simples megalomania, essas obras revelam a extraordinária capacidade de organização do Império Persa. Xerxes não comandava uma horda improvisada. Comandava uma máquina imperial capaz de planejar, mobilizar recursos, abrir canais, lançar pontes e sustentar por terra e por mar uma campanha de escala inédita. Nesse quadro, a grandeza da frota persa não vinha apenas do poder do rei, mas também da competência marítima dos povos submetidos ao império, sobretudo os fenícios, que formavam sua espinha dorsal naval.  Heródoto registra, inclusive, que fenícios e egípcios construíram as pontes de barcos sobre o Helesponto.

ilustração de pontes de barcos de Xerxes
Ponte sobre o Helesponto. Ilustração: brewminate.com.

Uma surra no mar

Heródoto conta que, depois de uma tempestade destruir a primeira ponte de barcos sobre o Helesponto, Xerxes teria reagido como um déspota enlouquecido: mandou açoitar as águas, lançou maldições contra o estreito e puniu os engenheiros. A cena é célebre, e ajudou a fixar para sempre a imagem do rei persa como tirano arrogante, dominado pela fúria e pela hybris.

Mas Lloyd Llewellyn-Jones pede cautela. Ao reler a história persa com apoio em fontes não gregas, arqueologia e estudos recentes, ele mostra que Heródoto não deve ser tomado ao pé da letra quando descreve a corte aquemênida. A própria historiografia atual já admite que episódios como o do “açoite ao mar”, narrados sob lente moralizante grega, talvez deformem rituais e práticas do Oriente Próximo ou transformem um revés de engenharia em teatro político exemplar. Em outras palavras: mais que retrato fiel de Xerxes, a passagem talvez revele o gosto grego por reduzir o rei persa à caricatura do déspota oriental.

Ilustração mostra surra no mar ordenada por Xerxes

Isso não diminui a grandiosidade da obra. Ao contrário. A travessia do Helesponto continuou sendo um feito extraordinário de planejamento, técnica e mobilização imperial. O que para Heródoto servia como prova da desmedida de Xerxes, para Llewellyn-Jones ajuda a mostrar a força organizadora do Império Persa, capaz de lançar pontes sobre o estreito e mover uma campanha de escala inédita.

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Batalha de Salamina, batalha decisiva?

Por muito tempo, a tradição ocidental tratou Salamina como a batalha decisiva da guerra contra os persas, o momento em que se definiu o destino da Grécia e, por extensão, o da própria civilização ocidental. Hoje, essa interpretação já não passa incólume. A vitória grega foi enorme, sem dúvida, mas a importância quase absoluta que mais tarde lhe atribuíram deve muito à narrativa de Heródoto e à memória ateniense.

Xerxes assiste a Batalha de Salamina.
A batalha naval assistida pelo rei dos persas.

Até ali, a vantagem favorecia os persas. Atenas já havia caído, e Xerxes acompanhava o combate sentado em seu trono, instalado num ponto elevado, de onde podia observar a batalha. Ao lado dos persas lutavam várias nações submetidas ao império, entre elas fenícios, egípcios, sírios, cilícios, medos e outros povos que davam à expedição seu caráter multinacional.

Artemisa, princesa guerreira

Entre os comandantes da frota persa estava Artemisa, rainha de Halicarnasso, na Cária, e uma das figuras mais fascinantes de toda a campanha. Heródoto a admirava abertamente. Disse que ela merecia espanto ainda maior por ter tomado parte na expedição apesar de ser mulher, e contou que, após a morte do marido, assumiu o governo e decidiu seguir com os persas por vontade própria, levada pela coragem e grandeza de ânimo.

Artemisa chegou com cinco navios, que Heródoto considerava entre os melhores de toda a frota de Xerxes. A observação tem peso. Em meio a centenas de embarcações reunidas pelo império, foi justamente uma comandante da Cária que o historiador destacou como exceção. O elogio revela tanto a força de sua presença quanto o olhar grego, ainda surpreso ao ver uma mulher no comando de navios de guerra.

Artemisa por outro ângulo

Lloyd Llewellyn-Jones ajuda a enxergar Artemisa por outro ângulo. Em vez de simples curiosidade exótica no meio da narrativa de Heródoto, ela surge como expressão da própria diversidade do Império Persa. A expedição de Xerxes não reuniu apenas persas, mas um mosaico de povos, reinos e tradições. Artemisa fazia parte desse mundo imperial amplo e complexo, no qual elites locais podiam exercer poder real e participar diretamente de campanhas decisivas. Sua presença, portanto, não serve apenas para colorir a narrativa: mostra a sofisticação política do império que os gregos tantas vezes reduziram a caricatura.

Em Salamina, os navios que se chocaram eram sobretudo trirremes, velozes, estreitos e feitos para o combate de choque. Do lado grego, o grande articulador da resistência era Temístocles. Do lado persa, Xerxes comandava uma frota imensa, multinacional, formada em boa parte por marinheiros fenícios, egípcios, cipriotas, jônios e outros povos submetidos. Como coordenar tamanha massa de homens e embarcações, 2.500 anos atrás, sem os recursos da tecnologia moderna? A pergunta por si só ajuda a medir a escala extraordinária da batalha.

Outra grande guerreira naval, comparável a Artemisa em fama e audácia, só surgiria muitos séculos depois: Bouboulina, a grega que virou lenda no Mediterrâneo.

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Uma tempestade ajuda os gregos

Na narrativa de Heródoto, a campanha de Xerxes traz lances quase romanescos. Em terra, ele conta que leões atacaram os camelos que carregavam víveres do exército persa, detalhe que reforça o clima de espanto e grandeza com que descreve a invasão. No mar, a natureza também entrou na guerra: ao contornar a costa da Eubeia, a frota persa perdeu centenas de navios numa tempestade, revés que enfraqueceu o poder naval de Xerxes antes do choque decisivo com os gregos. A tradição grega transformou esse episódio em mais um sinal de que até os elementos pareciam conspirar contra o invasor.

Lloyd Llewellyn-Jones não ignora a tempestade. Ao contrário: ela ajuda a mostrar que a campanha persa enfrentou não apenas o inimigo grego, mas também os riscos brutais da geografia e do mar Egeu. A diferença está no tom. Em vez de apresentar o episódio como castigo exemplar imposto à arrogância de Xerxes, a releitura recente o insere no terreno da logística, da vulnerabilidade material e da escala extraordinária da operação. O desastre continua real, mas deixa de servir apenas como prova moral contra o rei persa.

gravura de trirreme em tempestade

Talvez aí esteja uma das diferenças mais fortes entre Heródoto e o autor de Os Persas: a era dos grandes reis. Heródoto narra a campanha como um drama grandioso, cheio de sinais, presságios e cenas inesquecíveis. Llewellyn-Jones prefere lê-la como o movimento de uma máquina imperial imensa, poderosa, sofisticada, mas ainda sujeita ao acaso, ao clima e aos limites de qualquer empreendimento humano.

Os trirremes na batalha de Salamina

A tradição grega costuma destacar o trirreme como símbolo da engenhosidade naval helênica. Mas Lloyd Llewellyn-Jones lembra que essa história não começou com os gregos. O birreme, antecessor direto do trirreme, tinha origem fenícia. E não por acaso. Já mostramos que os fenícios eram, os melhores construtores de navios da Antiguidade, além dos marinheiros mais experimentados de seu tempo.

desenho de um trirreme grego
Ilustração: brewminate.com

Isso ajuda a entender melhor a própria frota de Xerxes. Embora os gregos tenham transformado o trirreme em instrumento decisivo de sua defesa, os persas também combatiam com navios que deviam muito à tradição marítima fenícia. Em outras palavras, na batalha de Salamina não se enfrentaram apenas gregos e persas: enfrentaram-se também duas formas de aproveitar, adaptar e pôr em combate a herança naval do Mediterrâneo oriental.

As proporções do trimerreme

O trirreme tinha proporções impressionantes. Media cerca de 37 metros de comprimento e apenas 6 de largura. Cada remador dispunha de um espaço muito pequeno, o que dá ideia do aperto e da disciplina exigidos a bordo. O interior alcançava pouco mais de 4 metros de altura, enquanto o casco se elevava cerca de 2,15 metros acima da linha d’água.

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Seu calado era raso, em torno de 1 metro. Somado à quilha relativamente plana e ao baixo peso da embarcação, isso permitia encalhá-lo com facilidade. Essa característica fazia enorme diferença numa guerra naval, porque ajudava nas manobras rápidas e no recolhimento dos navios à praia quando necessário.

Distância percorrida pelos trirremes

A distância que um trirreme conseguia percorrer num dia dependia sobretudo do clima e das condições do mar. Em jornadas favoráveis, os remadores, trabalhando entre seis e oito horas, podiam levar a embarcação por algo entre 80 e 100 quilômetros. Em situações excepcionais, porém, navios novos e tripulações muito experientes conseguiam ir muito além. Tucídides menciona o caso raro de um trirreme que percorreu 300 quilômetros em um único dia.

A vitória de 300 navios gregos, contra 800 navios persas

Para o professor Mark Damen, da Utah State University, Xerxes queria liquidar o conflito sem demora. Os gregos perceberam essa pressa e souberam aproveitá-la. Ao concentrar a frota nos estreitos de Salamina, obrigaram os persas a combater num espaço apertado, onde a vantagem numérica perdia força e a manobra ficava mais difícil. Essa é a leitura clássica: a inteligência estratégica grega, sobretudo a de Temístocles, transformou o estreito na armadilha ideal.

mapa da região da batalha de salamina
Cenário da batalha de Salamina.

Lloyd Llewellyn-Jones não nega esse ponto, mas o complica. Ele também reconhece a astúcia de Temístocles ao atrair a frota inimiga para águas estreitas. Porém lembra que a vitória não se explica apenas pela genialidade grega nem pela suposta inferioridade persa. A frota de Xerxes reunia alguns dos melhores marinheiros do mundo antigo. Justamente por isso, o estreito de Salamina anulou uma das maiores virtudes persas: o espaço necessário para explorar sua melhor marinharia.

Em outras palavras, a versão tradicional diz: os gregos venceram porque escolheram o lugar certo. A releitura mais recente acrescenta: venceram também porque conseguiram obrigar uma frota excelente a lutar do pior modo possível. Assim, Salamina não mostra apenas a coragem grega. Mostra também que o maior império do tempo, apesar de toda a sua força, podia ver sua superioridade neutralizada por circunstâncias táticas muito precisas.

ilustração da batalha de salamina

Batalha de Salamina: os gregos os pegaram aos pouquinhos

Ainda segundo Mark Damen, Xerxes, instalado em seu trono sobre os penhascos, mandou a frota avançar para os estreitos. Assim começou a Batalha de Salamina.

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Navio após navio, a armada persa entrou na baía pelo estreito, em grupos pequenos, porque o espaço não permitia outra coisa. Era exatamente o que os gregos esperavam. Em vez de enfrentar a massa inteira da frota inimiga, passaram a atacá-la aos poucos.

Batalha de Salamina.
Navio grego persegue os persas. Imagem, Pinterest.

Para os persas, a confusão só aumentou. Alguns navios perceberam a armadilha e tentaram recuar. Ao manobrar em espaço tão apertado, chocaram-se com as embarcações que vinham atrás. Na desordem, mais de um navio persa acabou abalroado e afundado pelos próprios companheiros.

Navios menores combatendo desordenadamente

Para Matthias von Hellfeld, a maior agilidade dos navios gregos pode ter sido decisiva em Salamina. Já Heródoto preferiu outra explicação, mais fiel ao seu modo de contar a guerra: os persas perderam porque lutaram em desordem, sem método, contra gregos que mantinham a formação e obedeciam a uma tática. A tradição clássica adotou por muito tempo essa leitura, que transforma a batalha numa prova de superioridade técnica e moral dos gregos.

Lloyd Llewellyn-Jones pensa diferente. Ele não nega a vantagem grega nos estreitos, mas rejeita a caricatura de uma frota persa incapaz ou caótica. Afinal, Xerxes levou para a guerra alguns dos marinheiros mais experientes do período. O problema não estava numa suposta inferioridade natural dos persas, mas no cenário do combate. Em Salamina, o espaço apertado embaralhou a enorme frota imperial, reduziu sua capacidade de manobra e neutralizou parte importante da experiência naval fenícia. Assim, o que Heródoto apresenta como desordem bárbara pode ser lido também como efeito do terreno escolhido pelos gregos.

De qualquer modo, a escala da batalha impressiona. Frotas desse porte só voltariam a aparecer muitos séculos depois, em conflitos navais de outra era, como é o caso da Invencível Armada, no século 16.

Moral da história

Já conhecemos a importância do mar para a biodiversidade do planeta, para a oferta de alimentos, e para a riqueza das nações. Sabemos também que os oceanos prestam serviços essenciais à vida na Terra.

Mas há outro ponto, menos lembrado e igualmente decisivo: a geopolítica. Ao longo da História, toda potência que quis ampliar sua influência precisou dominar o mar. Sem poder naval, nenhuma nação sustentou por muito tempo sua ambição de grandeza. Os persas aprenderam isso em Salamina.

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O contrário também se confirmou repetidas vezes. As nações que alcançaram o domínio dos mares tornaram-se, em seu tempo, potências dominantes. Foi assim com Portugal, Espanha, Holanda, depois com a Inglaterra e, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos.

Assista à animação e saiba mais sobre a batalha de Salamina

Fontes: Heródoto, História, Ed.Tecnoprint S.A, e https://www.thevintagenews.com/2018/03/13/athenian-trireme/; https://brewminate.com/herodotus-and-the-persian-wars-the-first-historians-first-history/; https://www.britannica.com/event/Battle-of-Salamis; https://en.wikipedia.org/wiki/Trireme; https://www.dw.com/pt-br/batalha-de-salamina-decidiu-destino-da-europa-em-480-ac/a-4200910.

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Comentários

39 COMENTÁRIOS

  1. Oi, João.
    Muito boa sua narração sobre a batalha de Salamina. Mas permita-me uma observação. Heródoto não foi testemunha ocular da batalha. Escreveu a partir de relatos de terceiros. Quem lutou em Salamina e escreveu depois sobre a batalha foi Esquilo,autor da tragedia “Os Persas”. Abr/Celso

  2. Em razao da vitoria a marinha persa ficou prejudicada, na logistica de viveres, para o pessoal de terra que avançava, motivando a retirada da grecia.

  3. Muito interessante, depois desta reportagem vou ler a obra de Heródoto …
    Imaginem quantas árvores foram cortadas a 2.500 anos atrás para que se construíssem 1.500 navios … e posteriormente, até 100 anos atrás …. 01 galeão espanhol precisava de 8.000 árvores para ser construido … somente na guerra contra Elizabeth I, Felipe II da Espanha lançou em batalha 130 navios, contra cêrca de 150 da Inglaterra …. fora outras batalhas ocorridas na Europa e no Oriente Médio …. prá quem conhece, a Grécia hoje é praticamente pedras …. e o Líbano, com seu cedros, hoje só prá turista ver ….
    E aí, os europeus têm a cara-de-pau de quererem responsabilizar o Brasil pelo efeito estufa …
    Chega a ser ridícula essa postura, não fôsse a má intenção de políticos e empresários estrangeiros, escorados por uma claque de ignorantes desinformados.

  4. Coluna espetacular, texto maravilhoso, assunto interessantíssimo. Como sempre, Mar sem Fim e Estadão provando que já jornalismo de altíssima qualidade e alto nível cultural. Nesses tristes tempos em que temos como comandantes da nação pseudo-líderes mal intencionados, inconsequentes e propagadores de soluções fáceis para a parcela ignara da nossa sofrida população, ler um texto como esse é alentador. Parabéns e obrigado. Vamos estudar, pessoal. Estudar para não desaparecer.

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