Navio oceanográfico Prof. W. Besnard aderna em Santos
O navio oceanográfico Prof. W. Besnard adernou na noite de 13 de março, no cais do Parque Valongo, em Santos. Ficou assentado no leito, ainda amarrado ao cais, sem risco iminente à navegação. A Marinha informou que não houve vítimas nem poluição hídrica e instaurou Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação para apurar as causas e os possíveis responsáveis. O Mar Sem Fim já havia denunciado o abandono do navio oceanográfico e registrado a tentativa de salvá-lo como navio-museu. O episódio de agora enterrou de vez a esperança de um destino digno (Texto atualizado em 14 de março de 2026 após o adernamento do navio no cais do Valongo, em Santos).

Nada disso, porém, autoriza espanto. O que se viu em Santos não foi um acidente isolado. Foi o desfecho de uma degradação longa, pública e vergonhosa. O Professor W. Besnard está atracado em Santos desde 2008 e, apesar da importância que teve para a pesquisa oceanográfica brasileira, acabou lançado ao abandono.

O navio que levou a oceanografia brasileira ao mar
O navio oceanográfico não foi uma embarcação qualquer. O Instituto Oceanográfico da USP informa que ele chegou a Santos em 9 de agosto de 1967, depois de quase dez anos de esforços para dar ao instituto um navio de pesquisa à altura de suas ambições. Desde o início, a USP o concebeu para duas funções: pesquisa oceanográfica e pesca experimental.
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Brasil sofreu 4.699 desastres climáticos e perdeu R$ 38 bi em 2024Médico brasileiro lidera a Globe 40 e busca feito inéditoManguezais remapeados expõem riqueza e omissão no BrasilSeu valor histórico é ainda maior. Segundo o Jornal da Orla, o navio realizou centenas de viagens científicas e participou de seis expedições à Antártica. Não se trata, portanto, de um casco velho qualquer. Trata-se de uma peça importante da história da ciência do mar no Brasil.
Wladimir Besnard e a ambição científica que o país esqueceu
O nome do navio oceanográfico já bastaria para lhe garantir lugar especial na memória nacional. A embarcação homenageia Wladimir Besnard, pioneiro da oceanografia brasileira. O próprio histórico do IOUSP registra que ele trabalhou para que a universidade tivesse um navio próprio e com autonomia para navegar em mar aberto, mas morreu antes de ver esse projeto realizado.
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Como o Mar Sem Fim lembrou em seu perfil sobre o pesquisador, Wladimir Besnard ajudou a estruturar a oceanografia moderna no país. Instalou base em Cananeia, no Lagamar, dirigiu expedições a Trindade e Martim Vaz e esteve por trás dos primeiros passos da construção institucional do que depois se consolidaria como o Instituto Oceanográfico da USP.
Do abandono ao vexame
É isso que torna a cena de Santos ainda mais amarga. O navio que levava o nome de um dos pais da oceanografia nacional terminou reduzido a estorvo, ferrugem e embaraço. Em vez de receber o tratamento reservado a um patrimônio científico, o Professor W. Besnard ficou anos entregue à omissão, às promessas e ao improviso.
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O caso expõe um defeito antigo do Brasil. O país gosta de exaltar a ciência em discursos e cerimônias. Mas trata mal seus símbolos concretos. Quando abandona um navio que ajudou a formar gerações de pesquisadores, não perde apenas um bem material. Rebaixa sua própria memória científica.
A história do Prof. W. Besnard ficou ainda mais amarga porque houve, sim, uma tentativa séria de lhe dar destino mais digno. Como o Mar Sem Fim mostrou em 2024, Fernando Liberalli, à frente do Instituto do Mar, lutou para restaurar a embarcação e transformá-la em navio-museu, com uso educativo e aberto ao público. A proposta mobilizou professores da USP, passou pelo Ministério Público, chegou ao Condephaat e acabou reforçada quando o navio recebeu o reconhecimento de Patrimônio Cultural do Estado de São Paulo. Mais tarde, a ideia ainda se ligou ao projeto do Parque Valongo. Nada disso bastou. A burocracia, a omissão e o velho descaso brasileiro com a memória científica falaram mais alto.
Quando o descaso afunda a memória
O Professor W. Besnard adernou em Santos no dia 13 de março de 2026. Mas seu verdadeiro naufrágio começou muito antes. Começou quando o poder público e os responsáveis aceitaram, quase sem constrangimento, que um dos símbolos da oceanografia brasileira definhasse diante de todos. Agora, já não adianta fingir surpresa.
Assista ao vídeo e saiba mais sobre o fim do navio oceanográfico Prof. W. Besnard
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Que bela reportagem, João!
Estando na segunda graduação na USP, fico muito feliz como parte da comunidade, em ver a memória sendo respeitada! Ainda mais a memória de tantas contribuições pioneiras para a nossa oceanografia e ciências em geral.
Todo esse trabalho do Liberalli (e de outros guerreiros) afirma também a força e efetividade da sociedade civil quando se organiza para defender patrimônios (seja os entes históricos ou o acervo ambiental) de alcaides de visão estreita… estreitíssima…
Mas como diz o poeta: “eles passarão, nós passarinho”.
Abraço e, mais uma vez, parabéns por contribuir tanto com esse blog e a tua luta
Vendo os comentários desconheço atuação dessa petrocenter haja vista que o legítimo proprietário da embarcação e o IMAR Instituto do Mar…na pessoa de Fernando Liberalli….
Bom dia colega Caselato!
O que a atuação da Petrocenter tem em relação com a legitimidade do IMAR? Ambas as coisas são possíveis dentro do mesmo universo.
A Petrocenter está prestando um serviço para o IMAR. Se quer conhecer a atuação dela e de seus colaboradores, recomendo que vá ao navio. Tenho certeza de que não irá se aborrecer.
Uma lástima não haver qualquer a Petrocenter. Se esse navio está bonito nas fotos, é por conta dessa empresa. Ela que vem trabalhando há mais de 100 dias cuidando do navio, sob um contrato, vale mencionar.
O artigo é excelente, bonito e bem escrito, mas tem esse furo. Por algum acaso o autor visitou a embarcação?
Caro Hugo: Eu estive com o Fernando Liberalli que me contou as novidades de modo que eu pudesse reconstituir a saga deste navio nos últimos anos. Fernando citou o trabalho da PETROCENTER, assim como o de inúmeros colaboradores que teve nestes últimos anos em que está envolvido no ‘salvamento’o Besnard. Agora, quando chegou a primeira mensagem do Sr. Anônimo, consultei-o novamente. A resposta foi:”João, estou há oito anos nessa luta, já vi esse navio lavado inúmeras vezes por diversos colaboradores. O pessoal da Petrocenter chegou há exatos três meses, merecem meu respeito e agradecimento”. Como isso espero ter respondido tanto a você, como ao Anônimo. Não vamos nos exaltar, concentremos o foco em salvar o Besnard. Grande abraço
Bom dia nobre João Lara, como vai?
Muito bom ter uma resposta do autor em tempo recorde.
Sigo recomendando sua visita ao navio e aos colegas que estão lá dia após dia. Você constatará que não se trata apenas de uma lavagem. Não obstante, esses mesmos colaboradores já solucionaram um punhado de situações cabeludas com a Guarda Portuária, Autoridade Portuária, CODESP, Prefeitura de Santos e outras entidades de peso no porto de Santos.
Eu ainda mantenho minha opinião firme: a matéria faz um ótimo trabalho para a sociedade, com todos os fatos apresentados. No entanto, existe a ausência de conteúdo sobre a atualidade, sobre o estado atual.
Um bom fim de semana e continue com o excelente trabalho!
Obrigado, Hugo, vamos em frente. abraços
Pelo termo “cabeludo” me refiro ao uso moderno da palavra, contemporâneo. Sendo: dificuldades diversas, de diferentes graus e impactos no objeto.
Não no sentido ‘antigo’ do termo, seja ele qual for. Sou da geração Z gente, calma lá!
Nenhuma menção da Petrocenter? A empresa que tem, há mais de 100 dias, estado a frente de TODAS as reformas, limpezas e restauros do navio? Isso sem receber absolutamente nada em troca. A empresa praticamente assumiu o navio. Se ele está limpo e pintado, como nas fotos recentes do Valongo, é graças a essa empresa e seus funcionários.