A era dos Beach Clubs e o ocaso do litoral
A lindeza e a singularidade do litoral surgem no primeiro documento oficial. Pero Vaz de Caminha descreveu uma paisagem que…“de ponta a ponta, é toda praia, muito chã e muito formosa”. Um vaticínio. Por séculos, europeus compararam a costa brasileira à utopia, ao Jardim do Éden. Não foram os únicos. Músicos como Dorival Caymmi, escritores como Jorge Amado, ou pintores como Di Cavalcanti e José Pancetti, entre outros, tiveram na beleza da orla a sua inspiração máxima. E poetas, como Vicente de Carvalho, pioneiro ao se insurgir contra a privatização de praias, e a especulação, nos anos 30 do século passado. Em vão! Quase quinhentos anos depois o “cara-pálida” decidiu tomar posse do espaço. Começava a especulação imobiliária, hoje mais ativa do que nunca. A praia ‘chã e formosa’ cedeu aos Beach Clubs, iniciando o ocaso do litoral que acabamos de assistir.

A estupidez em Jurerê Internacional
Jurerê Internacional tornou-se um ícone desta fase de entorpecimento moral em que nos encontramos, quando ‘os idiotas tomaram conta do mundo não pela capacidade mas pela quantidade’, como sugeriu Nelson Rodrigues. À linda palavra tupi-guarani, que significa ‘boca de água pequena’, algum idiota acrescentou ‘Internacional’ provando a tese do complexo vira-latas que assola Pindorama, e que faz a maioria admirar e respeitar apenas o que é de fora. Como eles são maioria…

E, foi ali, em Jurerê Internacional, que nasceram os beach clubs, na mesma praia onde ostentação abraça a especulação, o que a tornou uma referência.
Não adiantou o alerta do Poeta do Mar, como Vicente de Carvalho passou a ser mais conhecido, ‘um pioneiro no cuidado com o meio ambiente — décadas antes de isso se tornar pauta pública’, como escreveu Inácio de Loyola Brandão em sua biografia.
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Crime ambiental na praia de Jacarecica, MaceióDegelo do permafrost contamina os rios do ÁrticoEstudantes contribuem para erradicar o coral-solAo perceber a praia da Barra, em Santos, ameaçada pela privatização e especulação escreveu uma célebre carta ao presidente Epitácio Pessoa na qual alertava:
O tradicional logradouro público desapareceria fracionado, mutilado, despedaçado como por mãos de bárbaros, com proveito pecuniário de alguns indivíduos. E, sacrilegamente coalhada de construções particulares, a linda praia da Barra deixaria de existir, como dádiva mal empregada feita pela natureza a quem não a soube aproveitar
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Assim fez a especulação. Ela não altera apenas nomes indígenas, muito menos é exclusiva da região Sul. Espalhada como a metástase de um câncer, ao logo de toda a zona costeira, ela passa por cima de séculos de tradições, escangalha a paisagem, os costumes centenários, a tradição, e sobretudo os ecossistemas que por 450 anos foram mantidos por caiçaras e nativos.
Trocando espelhos por trabalho escravo
Assim como os europeus do século 16, os caras-pálidas do século 20 avançaram sobre um litoral quase prístino até os anos 1950. Eles trocaram rádios elétricos por terrenos onde não havia energia, como ocorreu com o avô do Carlão, caiçara do litoral norte paulista. Em casos piores, ofereceram garrafas de cachaça a nativos em abstinência em troca de posses. Eu testemunhei isso na Ilha do Mel.
Quando muito, seduziram populações que mal conheciam o papel-moeda, oferecendo merrecas por posses a quem sequer usava dinheiro.
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Crime ambiental na praia de Jacarecica, MaceióMar ignora a engorda de praia e avança em Ponta Negra, RNComeça o turismo de base comunitária em Castelhanos, IlhabelaE desse modo, aos poucos tomaram o lugar que por gerações foi o porto seguro de povos originários e, mais uma vez, demonstraram que além de malícia nada mais têm a oferecer. Os ‘costumes’ de medíocres das grandes cidades passaram a vigorar na zona costeira.
A vaidade lidera a lista. Ela empurra a construção de mansões desmedidas sem a menor preocupação com o cenário idílico que a rodeia, e apenas para exibir poder e status. A ganância vem logo atrás. Ela transforma paisagem em mercadoria e trata a praia como ativo financeiro. A soberba completa o tripé. Ela faz muitos acreditarem que estão acima da natureza e das leis.
Há ainda a irresponsabilidade. Ela ignora alertas técnicos e científicos sobre o que não fazer na orla. Some-se a isso a omissão que permite que crimes ambientais sigam impunes. Por fim, a miopia histórica. Ela impede a compreensão de que o litoral não pertence a uma geração, mas a todas.
A indústria da construção civil e o setor do turismo viram neste avanço o seu maná, e passaram a colaborar com prefeitos desqualificados, em sua grande maioria, que veem no cargo uma possibilidade de melhorarem de vida e que são ainda mais ignorantes que a turba de veranistas.
A ignorância, e a apatia de muitos, domina a zona costeira
A maioria não tem noção da função de cada ecossistema que sustenta as praias como restingas, manguezais, dunas e campos de dunas, e às vezes até mesmo costões, transformando-os em quintal para suas casas de segunda residência. O poder público deu o exemplo construindo infraestrutura como ruas, avenidas, e até estradas, sufocando ou extirpando os mesmos ecossistemas. Não à toa, hoje, com o aumento do nível do mar e a quantidade de eventos extremos cada vez mais frequentes e poderosos, a erosão se alastra por 60% da costa brasileira.
Os caras-pálidas impuseram os seus pervertidos costumes a um litoral semi-intocado, quase virgem, transfigurando uma paisagem que encantou por séculos, e que é um bem da coletividade ‘protegido’ pela Constituição, amparado por um poder público podre, corrompido, e inoperante em sua vasta maioria.
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O ocaso do litoral que segue ao deus-dará
Desde a invasão iniciada nos anos 1950, o litoral segue ao deus-dará, como sempre alertamos. A grande mídia, em sua versão abobalhada, batiza trechos destruídos de “paraísos”. Paraísos de concreto armado. As imagens oníricas e pitorescas que encantaram artistas quase já não existem. A propaganda reforça a desinformação. Ela reduz praias a uma vitrine de bundas protuberantes de “musas” ou “famosas” enxertadas com silicone.
Enquanto isso, muitos prefeitos comandam a especulação sem questionamentos. A indústria da construção civil e do turismo agradece. Ela ergue resorts, condomínios, hotéis, marinas e espigões. Quanto mais altos, agressivos e próximos do mar, melhor.
Há Estados, como Santa Catarina, onde o poder público ampara e estimula a especulação. O governo comemora o metro quadrado mais caro do País. A grande mídia, mais uma vez, quase não questiona. Quando você, leitor, viu uma reportagem sobre os estragos da especulação no litoral?
Assim, as cenas macabras vistas nas redes nesta virada de 2025 para 2026 retratam o abandono do poder público, que quase nunca olhou para o litoral, a começar do atual Ministério de Meio Ambiente que ainda não percebeu que a orla também deveria fazer parte de suas preocupações ambientais. O cenário expõe a alienação da maior parte da população, que age como manada e ignora a barbaridade que pratica.
O crime organizado ocupa o vácuo
A ocupação maciça e desordenada gerou outra consequência grave. Ela atraiu grande migração, sobretudo de trabalhadores da construção civil, mas não só. Prefeitos despreparados e desatentos ignoram o problema. Eles não planejam moradia popular. O quadro se repete no litoral norte de São Paulo e também nos confins do Piauí.
O resultado aparece no inchaço dos sertões das praias. Ele continua até hoje. Essa população ocupa o que restou. Ou seja, áreas de risco. As encostas da Serra do Mar e locais semelhantes. Sem presença do Estado, o crime organizado avançou rápido. Quem manda ali vira rei. Hoje, o Comando Vermelho, o Primeiro Comando da Capital e outras gangues controlam o tráfico nessas áreas.
Sim, o crime organizado já se se encastelou em varias regiões da zona costeira. Ele atua com força no sul da Bahia, na Baixada Santista e no litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro. Também avança no Ceará, Rio Grande do Norte, e no Piauí, entre outros.
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Mesmo perto do Parque Nacional de Jericoacoara, surgem placas pichadas nas estradas. As frases intimidam: “O Comando Vermelho chegou”, “Respeite o C.V.”. O Estado assiste, enquanto as elites apáticas reforçam a segurança de condomínios e mansões, como se não fosse problema delas.
Cenas de horror na virada 2025/2026
No Ceará, festas reúnem milhares de pessoas no topo das falésias protegidas de Canoa Quebrada. O trânsito trava. O lixo se espalha por dezenas de quilômetros. A infraestrutura falha, como sempre. A cidade entra em colapso.
Destinos como Porto de Galinhas (PE), Jericoacoara (CE) e Maragogi (AL) viraram palco de experiências traumáticas para turistas. Relatos nas redes sociais confirmam o clima de tensão. Em algumas praias, turistas entraram em confronto com barraqueiros e foram espancados. Em outras, uma simples espiga de milho pode custar até R$ 150. Tudo em meio a arrastões, assaltos, crimes de morte, afogamentos às carradas, etc.
A riquíssima e hiper maltratada: Ilhabela naufraga
Chuvas mais fortes, como as que atingem Ilhabela, matam pessoas como em tempos de guerra, não em festa de Ano-Novo. Foram dois óbitos só na ilha. O caso expõe mais uma vez o colapso da gestão pública. Mesmo rica, Ilhabela falha no básico. A cidade figura entre as que mais recebem royalties do petróleo. Só em 2023, quase R$ 300 milhões entraram nos cofres municipais. Ainda assim, a prefeitura não garantiu infraestrutura mínima. Não por acaso, no ranking estadual de turismo, entre 78 estâncias balneárias avaliadas, Ilhabela segue na última posição. Balneário Camboriú, ícone da cafonice, da ostentação, e da destruição cênica, um dos metros quadrados mais caros do País, também sucumbiu a uma simples chuva quando as ruas passaram a ser local de prática de esportes aquáticos.

Base de falésia viva escapa de ser estrada
Em João Pessoa, a falésia ativa de Cabo Branco quase virou base de estrada de rodagem. O então prefeito empurrou a ideia ao custo de R$ 300 milhões. Ao mesmo tempo, o esgoto contaminava a foz do Rio Jaguaribe e outras praias.
Cartão postal de Natal destruído por dois prefeitos
Em Natal, o estrago foi maior. Dois prefeitos, o atual e o anterior, ignoraram alertas e destruíram Ponta Negra, cartão-postal da capital. Eles contrataram a DAT Engenharia, a mesma que mutilou a Praia Central de Balneário Camboriú (R$ 66 milhões pela primeira engorda, e mais R$ 31 pela segunda). A conta chegou a R$ 108 milhões. Três meses depois o mar ignorou o ‘experimento’ e alagou a orla.
Dia do Juízo Final ou da virada de ano?

Agora diga, que espécie de povo é este que defeca na praia e no mar, briga com enxadas e troca garrafadas, enquanto outros cobram preços abusivos e espancam quem reclama? A Faixa de Gaza parece mais civilizada.
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Provando a absoluta falta de serviços básicos, e a inoperância do poder público, centenas de praias ficaram sem água na passagem, algumas sem luz, enquanto a turba ‘comemorava’. O quê?

O ‘recuerdo’ de quem ‘ama’ o litoral…

Mas isso é apenas um aperitivo…

E ainda teve quem levou na piada…

Outros mostraram ferocidade animalesca.

A decadente mídia mal abordou o tema, quase generalizado, que enfureceu a turista.
Não participo dessa orgia escatológica. Tampouco ignoro a barbárie coletiva. É preciso manter esperança. Precisamos refletir e, quem sabe, rever o modelo decadente de ocupação do litoral. Ainda há o que salvar. É pouco. Mas ainda há tempo.

Que venham os Beach Clubs de 2026!











João, ótimo texto, parabéns! Realmente a comparação com a Faixa de Gaza é apropriada. Tanto na ida quanto na volta o transito se compara às fugas em massa provocadas pelos bombardeios e ordens para desocupação de áreas a serem bombardeadas. No litoral houve destruição massiva das paisagens originais e o povo, que também é filho de Deus, desceu ávido para gozar os prazeres do litoral, apregoados pela Mídia vendida, e acabaram por ferver na bosta. Não se surpreenda, o reveillon deste ano será ainda pior.
Obrigado, amigo, é um alento e tanto. Abraços