Irã sofre colapso ambiental com água em falta e solo afundando

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Irã sofre colapso ambiental com água em falta e solo afundando

O colapso ambiental no Irã não começou ontem. O país sempre esteve numa região árida e sempre enfrentou limitações naturais de água. Ainda assim, a crise atual não decorre apenas da geografia. Ela se agravou muito nas últimas décadas, sobretudo depois da Revolução de 1979, quando o regime passou a apostar cada vez mais em barragens, poços profundos e expansão agrícola em áreas secas. Os sinais mais visíveis do desastre, porém, aceleraram-se a partir dos anos 1990. Foi nessa fase que lagos como o Urmia entraram em forte declínio, enquanto aquíferos, rios e áreas úmidas começaram a ceder de forma mais evidente.

crise ambiental no Irã
Imagem, www.ncr-iran.org.

O Irã enfrenta sua pior crise ambiental em décadas num país com cerca de 91,6 milhões de habitantes, a maior parte vivendo em cidades. Só a região metropolitana de Teerã reúne cerca de 14 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial projeta aumento da pobreza no país em 2025 e 2026, num quadro de desigualdades persistentes. Isso ajuda a medir o tamanho do problema. Diante da falta d’água, do calor extremo e da degradação ambiental, milhões de iranianos não têm como simplesmente mudar de casa e recomeçar a vida em outro lugar.

O modelo de gestão da água

O Yale E360 mostra que a raiz do problema é anterior e está ligada ao modelo de gestão da água baseado em barragens, poços e irrigação intensiva. O país enfrenta, ao mesmo tempo, falta d’água, calor extremo, solo afundando, rios exaustos e lagos reduzidos a salinas. Outra fonte, um artigo acadêmico recente na ScienceDirect que diz que, depois da Revolução de 1979, políticas ideológicas passaram a tratar a água subterrânea quase como recurso de acesso aberto, o que ajudou a acelerar a superexploração dos aquíferos

Em Teerã, a crise chegou a tal ponto que o governo passou a discutir a transferência da capital. Além disso, o que acontece ali resulta não só do avanço da mudança climática. Resulta também de décadas de má gestão, da superexploração de aquíferos, de barragens, de desvios de rios e do incentivo a atividades incompatíveis com um território árido.

lago Urmia, no Irã, antes e depois da crise ambiental
O lago Urmia, antes e depois da crise, em imagem da NASA.

O caso mais simbólico talvez seja o do lago Urmia, no noroeste do país. Durante décadas, ele figurou entre os maiores lagos hipersalinos do mundo. No entanto, entrou em forte declínio desde os anos 1990. A NASA e outras fontes atribuem a tragédia à combinação de menos chuva, mais evaporação, barragens e desvios de água para a agricultura. Assim, o que antes era um grande ecossistema virou, em amplas áreas, um deserto de sal.

A guerra agrava o colapso ambiental no Irã

A crise ambiental iraniana pode ter ganhado um novo agravante com a guerra. Além da seca, da exaustão dos aquíferos e da destruição de lagos e áreas úmidas, ataques com bombas, mísseis e drones contra depósitos de combustível, refinarias e outras instalações passaram a lançar no ar fumaça tóxica, fuligem e resíduos perigosos.

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Consequências da guerra para a crise ambiental do Irã.
Ilustração, Organização Mundial da Saúde, EUA Agência de Proteção Ambiental, Crescente Vermelho do Irã e Organização de Proteção Ambiental.

Depois dos ataques a depósitos e refinarias, Teerã ficou sob nuvens espessas de fumaça tóxica. Em 10 de março de 2026, a Organização Mundial da Saúde, agência da ONU, alertou que a chamada black rain e a chuva ácida associada aos incêndios representam risco à saúde, sobretudo respiratório. Segundo a Reuters, a queima de petróleo lançou hidrocarbonetos, dióxido de enxofre e dióxido de nitrogênio na atmosfera; em contato com a umidade, esses poluentes ajudaram a formar chuva corrosiva sobre a capital iraniana. O Guardian acrescenta que a fuligem e as partículas finas também levantaram temor de contaminação do solo e da água.

Chuva ácida é a precipitação que cai com acidez acima do normal. Ela se forma quando gases poluentes, sobretudo dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio, sobem para a atmosfera e reagem com a umidade do ar. Depois, voltam à superfície misturados à chuva, ao nevoeiro ou à poeira. No caso do Irã, o temor é que os incêndios em refinarias e depósitos de combustível tenham lançado esses poluentes em grande quantidade. Se isso se confirmar, a chuva ácida poderá agravar a contaminação do solo, da água, da vegetação e ainda ampliar os riscos à saúde.

O lago Urmia não está sozinho

O lago Urmia é apenas o caso mais famoso. No entanto, ele não está so. Outras áreas úmidas do Irã também perderam água, biodiversidade e capacidade de sustentar a vida ao redor. Com isso, o país viu crescer a salinização do solo, as tempestades de poeira e a degradação de ecossistemas inteiros. Além do dano ambiental, vieram também perdas econômicas e problemas de saúde.

Parte dessa tragédia nasceu de decisões erradas. Durante décadas, o governo incentivou barragens, perfuração de poços profundos e expansão agrícola em regiões secas. Ao mesmo tempo, o consumo de água seguiu acima do que a natureza conseguia repor. Assim, rios perderam vazão, lagos encolheram e os aquíferos começaram a ceder.

O subsolo também entrou em colapso

A crise iraniana não aparece apenas na superfície. Ela também avança no subsolo. Em várias partes do país, a retirada excessiva de água subterrânea provocou subsidência, isto é, o afundamento do terreno. Em linguagem simples, o solo perde sustentação porque o país tirou mais água do que devia durante tempo demais.

Esse processo já ameaça cidades, estradas, edifícios e redes de abastecimento. Além disso, ele compromete a própria capacidade futura de armazenar água no subsolo. Ou seja, não se trata apenas de falta d’água no presente. O país também destrói parte de sua reserva para o futuro.

Teerã resume a crise

Teerã concentra hoje boa parte desse desastre. A capital sofre com seca prolongada, reservatórios em queda e pressão crescente sobre o abastecimento. Por isso, o debate sobre a transferência da capital deixou de soar absurdo. Quando uma metrópole desse porte passa a temer falta crônica de água, o problema já saiu do campo ambiental e entrou no terreno político, econômico e social.

Mapa das instalações nucleares do Irã
Ilustração, The Nuclear Threat Initiative; Instituto para o Estudo da Guerra e Projeto de Ameaças Críticas da AEI.

Além disso, a crise da água afeta a energia, a agricultura e a vida cotidiana. Menos água nos reservatórios reduz a oferta para consumo e também atinge a geração elétrica. Enquanto isso, produtores rurais sofrem perdas e muitas famílias enfrentam condições mais duras para viver. Assim, a escassez deixa de ser apenas um dado técnico. Ela passa a moldar o cotidiano do país.

Uma lição para o resto do mundo

O caso do Irã interessa ao resto do mundo porque antecipa um risco cada vez mais comum. Quando mudança climática, má gestão e exploração sem freio se encontram, o colapso chega em cadeia. Primeiro falta água. Depois o solo se degrada. Em seguida, ecossistemas desaparecem, cidades entram em tensão e a economia sente o golpe.

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O estreito de Ormuz, no Irã
O estreito de Ormuz, no Irã, a passagem marítima mais vigiada hoje. Ilustração, Marineregions.org.

Por isso, o drama iraniano vai muito além de suas fronteiras. Ele mostra o que acontece quando governos ignoram os limites do território. Também mostra que não basta esperar a próxima chuva. Sem planejamento, sem controle e sem respeito à natureza, a conta sempre chega. E, quase sempre, chega alta demais.

Para a o National Council of Resistance of Iran, a má gestão do regime dos problemas ambientais, sociais e econômicos transformou a sociedade em um barril de pólvora ao acelerar uma crise hídrica no Irã sem precedentes. A mesma fonte destaca outro efeito perverso da crise: o aumento do preço da água potável. Sem acesso regular a água segura, parte da população se vê empurrada para fontes mais baratas e contaminadas. Muitos acabam comprando água de caminhões-pipa ou navios-tanque, frequentemente abastecidos por instalações estatais, a preços extorsivos.

O vídeo abaixo estava na matéria da NCR e mostra a agricultores iranianos em Isfahan protestando contra a má gestão e o colapso ambiental no Irã.

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