Turbinas eólicas: a Caatinga, conflitos, e o litoral
As turbinas eólicas já respondem por uma parcela importante da eletricidade gerada no Brasil. Em 2025, a fonte eólica produziu 116,5 TWh e alcançou 34,7 GW de capacidade instalada, segundo a EPE. A maior parte dos parques está no Nordeste, onde os ventos transformaram a região na principal fronteira eólica do País.
O avanço das fontes renováveis é indispensável diante do aquecimento global. Porém, a expansão acelerada das eólicas deixou problemas pelo caminho. Aerogeradores ocuparam áreas da Caatinga, dunas e paisagens costeiras. Também provocaram conflitos com comunidades tradicionais.

Agora surgiu outro paradoxo. Depois de instalar milhares de turbinas, o sistema elétrico não consegue aproveitar toda a energia que elas poderiam produzir. Em determinados períodos, o Operador Nacional do Sistema Elétrico manda reduzir a geração por excesso de oferta ou por limitações na transmissão da eletricidade produzida no Nordeste.
Este post mostra os dois lados dessa expansão: os custos ambientais e sociais deixados no território e a falta de planejamento. O sistema elétrico não consegue aproveitar toda a energia eólica disponível e, em vários momentos, o ONS precisa cortar a geração.
Mais lidos
Tsunami meteorológico atinge Sul do Brasil: entenda o fenômenoErosão costeira e inteligência artificial: Maldivas recuperam praiasErosão em Boa Viagem ameaça novo calçadão de R$ 146 milhõesA proteção da paisagem brasileira, um bem de todos os cidadãos
Este site tem focado bastante na questão da paisagem recentemente. O principal motivo é a falta de atenção que ela recebe tanto na mídia quanto nas redes sociais. Outro ponto importante é que as novas gerações, ao visitarem o litoral, já se deparam com uma paisagem bastante prejudicada pela especulação imobiliária e pelo crescimento desordenado. É essencial lembrar a esses jovens que a situação nem sempre foi essa e que ainda há muito a ser protegido. Além disso, um fato pouco conhecido é que a Constituição brasileira defende a paisagem como um princípio, assim como faz com as florestas. Como já foi mostrado, todas as Constituições do Brasil, desde a de 1937 até a de 1988, incluem esse princípio.

Neste contexto, surge a questão das turbinas eólicas, muitas instaladas na zona costeira detonando a paisagem e sequer respeitando dunas. Mas essa não é a única questão problemática que elas trazem.
Conflitos em comunidades na Caatinga e ao longo do litoral
Nas minhas viagens pelo litoral, ao visitar comunidades, raramente deixei de ouvir reclamações variadas. Os motivos incluem conflitos entre pescadores artesanais e industriais, condições de vida precárias e falta de políticas públicas. Além disso, muitas comunidades, especialmente no Nordeste, foram surpreendidas por enormes parques eólicos ao seu redor.
Leia também
Orquídeas ameaçadas de extinção: risco atinge mais da metadeMonitoramento de tubarões no Recife volta após 11 anosPraia contaminada em Salvador vira caso de políciaO mesmo problema se verifica na Caatinga. “Onde eles botam essas bichas, ninguém pode trabalhar. Onde tem essas bichas, casa não pode ter perto. Que nem essa aí”, fala indignado José Ponciano de Oliveira, 73 anos à Agência Pública, enquanto aponta para o enorme aerogerador, de 135 metros de altura, construído ao lado de sua casa. Ele mora há mais de 40 anos no sítio Cabeça dos Ferreira, comunidade quilombola Macambira, Rio Grande do Norte.

‘A monumentalidade e o barulho constante do aerogerador dominam todo o ambiente: casa, terreiro e curral. Pouco mais de cem metros separam a casa da turbina. O equipamento é instalado em uma propriedade vizinha, mas bem próximo à cerca e à casa de Ponciano’.
Pela regulamentação vigente, destaca a Agência Pública, a resolução Conama 462, de 24 de julho de 2014, a distância não poderia ser menor que 400 metros, pelos riscos envolvidos e impactos gerados na operação do equipamento.
Assista ao vídeo da Agência Pública que mostra os conflitos na Caatinga
O aumento da energia eólica
O avanço da energia eólica é positivo e ajudou a ampliar a participação das fontes renováveis na matriz elétrica brasileira. Em 2025, a geração eólica chegou a 116,5 TWh, alta de 8,2% em relação ao ano anterior. A potência instalada alcançou 34,7 GW, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
A maior parte dessa capacidade está concentrada no Nordeste, região que reúne as melhores condições de vento do País. A expansão foi tão rápida que transformou estados como Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Piauí em grandes produtores de eletricidade eólica.
Mas o ritmo começou a mudar. Em 2026, a entrada de novos parques eólicos desacelerou bastante. Até agosto, apenas três usinas eólicas, somando 184,5 MW, haviam entrado em operação comercial no Brasil. No mesmo período, 75 novas usinas solares acrescentaram mais de 3,5 GW ao sistema.
Essa desaceleração ocorre quando o setor enfrenta um problema crescente: em vários momentos, há vento e capacidade para gerar mais eletricidade, mas o sistema não consegue absorver ou transportar toda essa produção. É aí que começa o problema do chamado curtailment.
Caatinga abriga 78% de todas as turbinas instaladas
Grande parte da expansão das turbinas eólicas ocorreu na Caatinga e no litoral nordestino. A EPE divide o potencial eólico regional entre o interior e o litoral do Nordeste, tamanha a concentração dos empreendimentos nessas áreas.
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e ocupa cerca de 10% do território nacional. Além da biodiversidade, abriga comunidades tradicionais que dependem diretamente do território e de seus recursos naturais.
Além disso, existem outros problemas. Uma reportagem da BBC destacou os impactos negativos da energia eólica no Nordeste. Segundo Felipe Melo, do Departamento de Botânica da UFPE, o Nordeste produz 86% da energia eólica do Brasil, com a Caatinga abrigando a maior parte das turbinas. Melo destaca que a Caatinga é vulnerável, porque apenas menos de 10% de suas áreas têm proteção legal e, dentre estas, somente 2% estão na categoria de proteção integral.
Melo reconhece a importância da energia eólica para atingir metas de desenvolvimento sustentável, mas alerta sobre seus impactos na natureza. Morcegos e aves, que controlam pragas, colidem com as pás das turbinas e morrem.
Ponta Tubarão, no Rio Grande do Norte

Adryane Gorayeb destaca vários impactos significativos causados pelos parques eólicos. Ela menciona a emissão de ruído pelas hélices das turbinas, que pode afetar negativamente a saúde humana, causando distúrbios do sono, enxaquecas e estresse. Outras consequências incluem a interferência nas rotas migratórias de aves e a modificação da paisagem natural. Assim, surgem conflitos comunitários decorrentes de mudanças no modo de vida tradicional.
Fernando de Noronha e a primeira turbina eólica
Uma matéria de Giovanna Cardoso no Marco Zero, em 2022, apontou que as torres de geração de energia eólica alteraram não apenas a paisagem no Nordeste, mas também a vida de milhares de pessoas, nem sempre positivamente.
Assim como outras reportagens, o trabalho de Giovanna não questiona a necessidade de energia renovável, mas desafia a noção de que a energia eólica é uma “energia limpa” e de “baixo impacto ambiental”. Essas expressões, frequentemente associadas à energia eólica, podem não ser tão precisas quanto se acredita.
Enxu Queimado, RN
Além do cerco às suas terras pelos empreendimentos eólicos e da ameaça da especulação imobiliária, os pescadores de Enxu Queimado enfrentam outro desafio, conforme aponta Cardoso. Eles precisam lutar para não perder o direito à pesca, já que a comunidade pode ser uma das primeiras no Brasil a receber parques de geração de energia offshore.
Aracati, Ceará
Em 2013, o Estadão publicou uma reportagem “Energia limpa’ é alvo de ambientalistas, de Wilson Tosta, abordando os impactos dos parques eólicos no Nordeste. O texto relata a história do pescador José Nazário da Silva, de 49 anos, que mora em uma casa simples sem eletricidade em Canoa Quebrada, em Aracati (CE). Ele observa os grandes cataventos nas dunas, lembrando-se de como a chegada da usina causou desmatamento e não gerou empregos na região.
“Do outro lado da cidade, no Cumbe, Ronaldo Gonzaga, um catador de caranguejos de 32 anos, aponta para os cabos de energia expostos no Parque Eólico Aracati, que tem 67 torres. Ele mostra dunas destruídas por estradas e locais onde removeram sítios arqueológicos para a instalação da geração de energia.”
A reportagem também menciona o caso de Ponta do Tubarão (RN). No Ceará, o professor Jeovah Meireles (que já entrevistamos sobre outro flagelo nordestino, a carcinicultura), da Universidade Federal do Ceará, questiona a noção de “energia limpa”, destacando que a energia produzida está sendo exportada sem benefício local. Ele compara a situação com as plantações de cana-de-açúcar que dominaram a região por séculos, chamando-a de “monocultura eólica”.
Os impactos socioambientais da energia eólica no Nordeste
Ele explicou que a instalação dos aerogeradores envolve a construção de várias vias de acesso através de campos de dunas móveis, resultando no soterramento de sistemas lacustres. Essas dunas móveis estão sendo artificialmente fixadas, o que desestrutura a dinâmica ambiental e ecológica de um extenso campo de dunas no Ceará, com mais de 500 quilômetros.
Meireles detalhou que os impactos ambientais incluem a desestruturação morfológica das dunas, alterações na paisagem e soterramento de lagoas costeiras. Ele enfatizou que essa alteração leva à perda da formação natural e da mobilidade das dunas, comprometendo sua capacidade de mitigar processos erosivos. Essas mudanças representam uma séria preocupação para a integridade ecológica da região.
“Os parques eólicos estão causando a erosão das praias, e o mar já está batendo nos aerogeradores
Meireles acentua o potencial energético dos parques eólicos, mas adverte que eles devem ser instalados em áreas adequadas.
…”Estamos observando também que os aerogeradores estão sendo construídos em áreas de intensa dinâmica das praias. Para se ter ideia, os parques estão causando a erosão das praias, e o mar já está batendo nos aerogeradores. Já foram construídos muros com blocos de rochas para protegê-los. Além disso, os parques estão sendo construídos em manguezais, dentro de áreas que deveriam ser investidas para potencializar a biodiversidade, uma vez que o sistema manguezal tem uma relação muito estreita com a soberania alimentar dos povos e comunidades tradicionais.”
O Brasil parece seguir uma direção contrária às práticas ambientais globais. Enquanto no mundo todo se promove o replantio de manguezais por sua capacidade de proteger a linha costeira. Porém, o mais importante serviço dos mangais neste momento é o fato deles armazenarem quatro vezes mais CO2 do que as florestas terrestres.
A Agência Pública também destacou a transformação da paisagem costeira nordestina devido à energia eólica. “Se alguém viajasse ao longo do litoral cearense junto ao mar, encontraria parques eólicos sobre campos de dunas em quase todas as praias.”
Reiteramos: não há oposição à energia eólica em si, mas sim à forma precipitada e com falta de discussão sobre onde ela está sendo instalada. A instalação de parques eólicos que banalizam a paisagem costeira, destruindo mangues e dunas, representa um contrassenso. É necessário um equilíbrio entre o desenvolvimento de energias renováveis, a preservação de ecossistemas vitais, e a paisagem no litoral.
Assista ao vídeo sobre os conflitos no litoral










O estudo de localização dos parques eólicos começa pela medição da velocidade e estabilidade do vento em cada área disponibilizada pelos proprietários. Os contratos podem incluem um aluguel fixo e uma parte variável a depender do faturamento. O investimento inicial é alto.
A populaçao brasileira, sobretursdo as mais carentes, devem ser alertadas na hora de assinarem um contrato com essas empresas geradoras de energia ou de sinal. Muitas, por desiformação ou desorientadas estão repassando o direito vitalício ao usufruto e abrindo mão de seis direitos e sujeitas à altas penalidades que inviabilizarão sua paz e suas posse por conta de uma locação risível.
aaaaaaaaaaA mundança sem o devido planejamente sustentável para as comunidades, o planejamente que sempre mostra o lado bom, mas o lado ruim não é contado no fim é isso que gera a rejeição, as empresas e o governo não dão a menor importância aos desassossego de todos que moram em torno desses geradores. A mudança estrutural é evidente e o local nunca mais será o mesmo, fica sempre a desconfiança que as vidas terão que se alocar em outros locais mais longe, se não era bom, ficará pior. O governo sempre massacrando o povo do nosso pobre nordeste que nunca foi conteplado com melhorias que possam melhor as suas vidas. aaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Essa é a prova que não existe desenvolvimento sustentável, tudo traz degradação e danos a natureza, mesmo que digam que existem energias melhores eu não concordo, se querem melhorar o mundo é necessário investir em eficiência no uso de recurso e não tentar substituir os recurso por outros isso não muda nada.