Porto Seguro- Abrolhos- Vitória, ES

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    Domingo, 2- 04- 2006.

    Faltam cinco minutos para as três da tarde. O dia está deslumbrante com poucas nuvens no céu, vento fraco, e temperatura agradável na sombra. Esta semana Abrolhos (o maior conjunto de corais do Atlântico Sul) esteve na rota de uma forte frente fria. A mesma que passou fazendo estrondo por São Paulo poucos dias antes. Mal dormi naquela terça feira, antepenúltimo dia de Março, tal o estardalhaço dos trovões. No dia seguinte, quarta feira, quando embarcamos para Porto Seguro, pude ver que a massa de ar frio já atravessara o Rio de Janeiro e seguia para Vitória. Enfraquecida, mas ativa, ela atingiria o sul da Bahia na quinta feira, nosso segundo dia nesta etapa.

    Desde sábado de manhã estamos em Abrolhos. No caminho pudemos sentir os efeitos da mudança de tempo. O vento tradicional para esta época do ano, de nordeste, estava soprando de sueste. E as ondas e correntes, normalmente a favor, estavam contra nosso avanço. Por isto demoramos quinze horas e meia, empurrados pelo motor e não pelas velas, para cobrir as 92 milhas de Porto Seguro até aqui. Mesmo assim só hoje, depois de cinco dias, consegui tempo para fazer um resumo de nossas andanças e descobertas nesta etapa.

    Na quarta, dia da chegada, alugamos um carro para podermos gravar em Coroa Vermelha, e Santa Cruz de Cabrália, cerca de 20 quilômetros ao norte de Porto Seguro. Era preciso registrar o local da primeira Missa e a baía ao lado nomeada por Cabral “ Porto Seguro”, hoje Cabrália em sua homenagem ( em 1817 a baía que Cabral batizara como sendo um abrigo seguro teve seu nome alterado para baía Cabrália, passando Porto Seguro a designar apenas a cidade na margem do rio Buranhem). Chegamos tarde em Coroa Vermelha, não foi possível gravar muito. Voltamos no dia seguinte para as filmagens e passagens que eu queria fazer. O lugar é lindíssimo. Uma imensa e calma baía com a entrada meio fechada por um recife de arenito, como se fosse uma porta, e lá dentro “lugar para mais de 200 navios” como escreveu Pero Vaz de Caminha. Eu queria chamar a atenção para mestre João Faras, médico real e astrônomo, um personagem da armada de Cabral que tinha por missão achar e descrever uma estrela, ou um grupo delas, que servisse aos mareantes para marcação da latitude e posição estimada com a mesma função e importância que a estrela Polar exercia no hemisfério Norte. Mestre João não deixou por menos. Desceu com seu astrolábio em punho, em meio à generalizada algazarra produzida pelo encontro inédito de índios com europeus, e não só descreveu, como em seguida batizou, o mais notável e bonito conjunto de astros daquele pedaço de céu. Escolheu o Cruzeiro do Sul. Todos os outros navegadores depois dele fizeram uso desta Constelação e de suas marcações para se localizarem. E até hoje ela serve como guia e uma espécie de seta celeste pronta para mostrar a direção a quem possa estar perdido. Fiz uma passagem sobre esta descoberta para o programa e outra realçando o bom gosto de Pedro Álvares Cabral. A baía que hoje leva seu nome é talvez uma das enseadas mais encantadoras do sul da Bahia. E está pouco ocupada felizmente. Não vi casas de turistas, apenas barracas dos índios Pataxó que vendem artesanato e, uma ou outra, tenda do tipo “bar e restaurante”. Incrível. Menos de 15 quilômetros para o sul e Porto Seguro ferve. Tem até lanchonete McDonald’s . É o “point” mais procurado da Bahia. Há visitantes de todas as classes sociais. Dos mais abastados até o turismo de massa.

    Ao sul do rio Buranhem ficam dois de seus distritos, Arraial D’Ajuda e mais adiante Trancoso, também surperlativos quando se fala em assédio turístico. Na região há mais de sete mil leitos distribuídos em 120 hotéis e pousadas. E mais recentemente chegaram os famigerados resorts.

    Enquanto isto aqui ao lado reina a maior calma e tranqüilidade.

    Depois de Coroa Vermelha fomos gravar no centro antigo de Santa Cruz de Cabrália. Este é mais um povoadozinho nas margens do rio João de Tiba que, assim como Porto Seguro, foi fundado pelo primeiro colonizador, o donatário Pero de Campo Tourinho na primeira metade do século 16. O lugar é uma beleza e segue o mesmo padrão das vilas vizinhas. Como sempre o local escolhido é alto, de preferência no topo de um platô com vista privilegiada do mar. Na extremidade de uma praça plana e descampada, de formato retangular, uma igreja foi construída. Na outra ponta ergueram uma casa de cadeia. Entre as duas edificações estende-se um amplo tapete verde. Ocupando suas bordas ficam as casas dos moradores. Assim todos em roda, uns pertos dos outros, os colonizadores se sentiam mais seguros quanto aos ataques de índios. Pois estas vilas todas do sul da Bahia, do que se chama “Costa do Descobrimento” (parte do litoral baiano que começa em Belmonte, 73 quilômetros ao norte de Porto Seguro, e se prolonga até Caraívas, 46 km ao sul de Trancoso), conservaram estes sítios relativamente preservados. As cidades cresceram mais para baixo e para os lados. É justamente no centro histórico de Trancoso que se encontra os picos da especulação imobiliária, com o metro quadrado mais caro do sul da Bahia. Um pequeno casebre em condições precárias, com dez metros de frente, chega a valer 300 mil reais. Nas restingas, na parte baixa (onde é proibido construir), há mansões avaliadas em milhões de dólares. Mas isto não é tudo. Na alta temporada o local é invadido especialmente por paulistas que, às vezes ultrapassam os 15 mil ! Ao todo chegam até 20 mil turistas na alta temporada. Eles se hospedam nas 39 pousadas em um resort que a área abriga. Para efeito de comparação a população de Trancoso é de 15 mil habitantes.

    Já seu irmão quase gêmeo, o Quadrado de Cabrália, é totalmente light, com apenas três ou quatro casas de estrangeiros, italianos na maioria, e outras poucas dos nativos. Como diferença maior, além do nível de ocupação, há a torre cônica da igreja de Cabrália, muito rara, só vista em Pernambuco numa capela próxima do farol do Cabo de Santo Agostinho. A torre tem esta forma para servir de marco às navegações próximas da costa.

    Fiquei chocado com a diferença entre as vilas. O mesmo estilo e a mesma beleza. Mas só uma delas é abarrotada de turistas, ricos, e famosos. A outra parece que preserva até o ritmo da época dos primeiros colonizadores. Melhor assim.

    As praias desta parte da Bahia em geral são extensas e estreitas. Em muitas há recifes de corais e, em algumas, além deles há os recifes de arenito, antiga linha da costa que ficou exposta num movimento de regressão dos oceanos.

    A estrada que liga estas cidades litorâneas, a BA 001, passa quase rente às praias, a uma distância da água de cerca de 200 metros, talvez um pouco mais, deixando livre uma estreita faixa de terra entre a areia e o asfalto, quase sempre formada por restingas. Este traçado contribuiu para que as casas de veranistas fossem erguidas do outro lado da pista, sem estragarem a beleza cênica da orla que se mantém praticamente a mesma dos primeiros tempos. Infelizmente os resorts estão chegando também aqui. E eles, quando se instalam, detonam quase sempre a paisagem. Na última etapa visitamos dois em construção próximos a Belmonte. Aqui em Trancoso mais dois anunciam para breve sua inauguração: o Terravista Golf Hotel & Spa, e o Leopoldo Beach Terravista, ambos do complexo Terravista que já tem o Clube Med Trancoso, com pista de golfe de 18 buracos, e campo de pouso privativo. Não é à toa que visto do mar o trecho que vai de Porto Seguro até Trancoso já apresenta evidentes sinais de erosão, super adensamento, ocupação irregular de topos de falésias, enfim, modificações antrópicas irreversíveis, e que começam a desfigurar a beleza da paisagem e a biodiversidade marítima.

    O Município de Porto Seguro que abriga estes sub-distritos tem pouca infraestrutura. Apenas 23,8% das 23.900 residências têm seus esgotos tratados. Já 79,7% delas têm coleta regular de lixo (IBGE 2000).

    Atrair o turismo para movimentar a economia, gerar empregos, e aumentar a renda da comunidade é uma ótima e possível solução para o litoral. Mas trazê-lo para enfear a exuberante paisagem, patrimônio de todos os brasileiros, além de pouco contribuir para a economia local, acelerando a poluição e agravando tensões sociais me parece um desperdício inconseqüente pelo qual ainda vamos nos arrepender.

    Explico: o sucesso dos resorts daqui se deve especialmente a uma agressiva política por parte do governo baiano. Através do Prodetur-BA ( Programa de Desenvolvimento Turístico da Bahia ), criado em 1991, foram adotadas políticas para melhorar a infra- estrutura estadual. Entre elas houve a ampliação dos aeroportos de Salvador e Porto Seguro e a construção das estradas que dão acesso às praias. E foram várias de lá para cá. Ilhéus- Itacaré, Porto Seguro- Trancoso, e a Linha Verde, que passou a ligar Salvador a Sergipe. Esta última é a via de comunicação dos hotéis da Costa dos Coqueiros (ao norte de Salvador), entre os quais o monumental complexo de Sauípe, e o Praia do Forte “Ecoresort” que, de “eco” com sentido de preservar a ecologia não tem rigorosamente nada. E outros gigantes que estão sendo construídos, a começar do faraônico Iberostar, em plena praia e em estilo neoclássico.

    O presidente da Bahiatursa, Cláudio Taboada, informa que de 1991 até 2006 foram empenhados pelo governo quase dois bilhões de dólares em melhorias visando o turismo. Deste total 1,4 bilhão de dólares foram gastos até agora (entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, de 26 de julho de 2005).

    O resultado começa a aparecer. E não gosto nada de seu jeito. Nossos governantes não têm visão de longo prazo. Querem resultados imediatos, nem que para isto comprometam as futuras gerações inclusive as de suas próprias famílias.

    Sobre a maluca concentração que faz com que dois ou três resorts com mais de três mil leitos sejam construídos um do lado do outro, encontrei a explicação ao tomar conhecimento da declaração do diretor do grupo português Vila Galé, José Wahnon, que constrói no momento mais um resort na Costa dos Coqueiros, na praia de Guarajuba, em Camaçari, a 12 quilômetros da Praia do Forte. Segundo ele “a grande concentração de resorts foi um atrativo para a rede hoteleira”. E disfarçando conclui entregando: “A concorrência é salutar neste caso. Ninguém faz um vôo charter para atender a apenas um hotel”, (entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 26 de julho de 2005).

    Aí está outro dos malefícios deste tipo de hotel. A grande maioria é de imensas proporções. Como se não bastasse, para conseguirem economia de escala seu sucesso depende da concentração. Não é suficiente um monstro destes receber milhares de visitantes por vez, é preciso mais três ou quatro em volta. Como os turistas não dão um passo para fora de suas muralhas não vêm o que ocorre, muito menos aquecem a economia local. A maioria fica lá dentro ao lado das mesmas grifes, restaurantes, cafés, pessoas e amenidades que freqüentam ou praticam em suas cidades. Outros, uns poucos, influenciados por sutil propaganda, caem em logro acreditando que praticam o turismo sustentável. E preferem curtir as carpas que certos estabelecimentos colocam em tanques internos a conhecer a fauna, a flora, a paisagem ou os costumes dos nativos.

    Sua chegada e saída é feita por aeroportos que não ficam a mais de uma hora de distância, de modo que o cara quase não põe o pé na terra incógnita. Ele apenas desocupa o acento de um avião charter para tomar outro numa van com ar condicionado. De lá vai para o saguão mas não perde tempo. O check in já foi feito pela operadora. Logo é encaminhado para um quarto onde o carpete felpudo provavelmente alcança seu queixo. Tudo igualzinho à sua casa. De lá sai para fazer tudo que fazia na cidade onde mora. Ao fim da temporada repete a operação e, em poucas horas, já está em casa em outro país, cheio de fotos de papagaios, cacatuas e carpas para mostrar aos amigos.

    Bom, recapitulei um tanto do que fizemos. Ainda falta contar a navegação até aqui. Mas isto fica pra amanhã. Há um silêncio no barco só quebrado pelo tonitruante ronco do Cardozo. São onze e meia da noite. Eu também tenho sono.

    Segunda feira, 03- 04- 2006.

    O Mar Sem Fim está fundeado no lado norte da Ilha de Santa Bárbara, a maior do arquipélago de Abrolhos, na mesma parte onde estão as casas da guarnição da Marinha do Brasil. São cinco famílias que ficam aqui por dois anos, sendo depois substituídas. Aguardamos para breve a chegada do cinegrafista submarino, cujo apelido é Perereca, que vem de Caravelas se encontrar conosco. Enquanto espero aproveito para adiantar meu relato.

    Na quinta feira, dia 30 de Março, depois de Santa Cruz de Cabrália, seguimos mais ao norte até chegarmos em Santo André, e em seguida Santo Antônio, mais duas vilas na direção de Belmonte. Eu queria ver como anda a ocupação da orla. E não é que ela também está livre, com poucas construções? No caminho o padrão da paisagem não se altera. Praias compridas, estreitas, algumas com corais. Do outro lado restingas se estendem até encontrarem a Mata Atlântica mais para o interior.

    No fim da tarde voltamos para o frenesi de Porto Seguro. Almoçamos e fomos ao supermercado. De noite estávamos de volta ao veleiro nos preparando para a partida no dia seguinte.

    Zarpamos sábado, às três e meia da tarde. O dia estava nublado, resquícios da frente fria, e com um vento sueste fraco. Consultei um site de previsão de tempo e vi que era o rabo da frente. Saímos em seguida.

    Fora do molhe, já em mar aberto, a força do ventou subiu até os 15 nós. Havia algumas ondas contrárias o que fez nosso barco caturrar (balançar no sentido proa- popa, de frente). Mas nada que chegasse a ser uma navegada desagradável, ainda que de vez em quando chovesse. Na maior parte do tempo Alonso veio no leme apenas vigiando o horizonte, já que estávamos com o piloto automático, este santo companheiro de bordo, ligado. De tempos em tempos tínhamos de desviar de alguns barcos de pesca. É impressionante a quantidade deles ao largo de Abrolhos. E não sem motivo, já que este é um dos trechos mais ricos em pescado da pobre (em biomassa pesqueira) costa brasileira.

    Nossa plataforma continental no geral é estreita. Vai de 20 a 50 km, no máximo, e daí já cai para profundidades abissais com mais de quatro mil metros de profundidade. Uma das exceções é o sul da Bahia (a outra é a foz do Amazonas), onde a plataforma se estende por cerca de 200 km, justamente onde estão os bancos de corais de Abrolhos.

    Já foi dito que a riqueza deste ecossistema rivaliza com a das florestas tropicais. Um sem- número de espécies vive em seu entorno. Peixes, algas, moluscos, crustáceos, microalgas que lhe conferem cor, pólipos, milhares de microorganismos, etc. E por isto a região é tão visada pelas frotas pesqueiras. De noite navegamos em ziguezague desviando dos barcos. Rendi o Alonso as três da manhã, e não foi diferente no meu turno. Um olho na proa outro na tela do radar o tempo todo.

    Desde 1983 Abrolhos se tornou um Parque Nacional Marinho, uma das poucas áreas protegidas dos nossos mares. Aproveito para mais uma vez chamar a atenção. Cerca de 23% do espaço terrestre brasileiro é protegido em forma de parques e que tais, e menos de 1% dos mares recebem o mesmo tratamento (no mundo menos de 0,5% dos oceanos são protegidos) ! O descaso em relação ao espaço marítimo custa um alto preço que, daqui pra frente, só vai aumentar. É como a taxa de juros no Brasil. Dois passos para frente, um para trás. A área total do Parque é de 913 km2, sendo 110 só no Recife de Timbebas. Mas, como quase todos os parques nacionais, este não tem quase estrutura. Para começar o guarda- parques, que fica em Santa Bárbara, tem apenas um bote de borracha com um pequeno motor de popa que não permite navegação mais longa para fiscalizar a pesca dentro dos limites do Parque. Isto faz com que cada vez mais os barcos desafiem a lei jogando suas iscas, arpões e armadilhas em locais proibidos dizimando a fauna a ponto de ser rara a visão de um budião (peixe comum em recifes) fora do perímetro das cinco ilhas que compõe o arquipélago. Se você mergulhar no Parcel das Paredes, que fica no trajeto entre Caravelas e Abrolhos, além de demorar horas sem ver um único peixe ganha um doce quem não encontrar um coral quebrado ou mesmo destruído pelas âncoras destes barcos. A ousadia é tamanha que o atual guarda- parques, o santista Maurício de Oliveira, nos informou que numa noite destas estava passeando na ponta oeste de Santa Bárbara quando percebeu uma claridade por detrás do morro da Ilha Redonda logo em frente. Imediatamente pegou seu bote e foi verificar. Era um barco de mergulhadores profissionais que, com seus arpões, detonam a fauna do fundo dos mares escolhendo os peixes bem debaixo das barbas do pomposo Parque Nacional Marinho. Maurício não tem poder de polícia, apenas ministra palestras de educação ambiental. Mas, ao surpreender o intruso, pediu que este o acompanhasse até a bóia da Marinha que fica em frente à ilha de Sta. Bárbara. No começo a lancha obedeceu. Mas no caminho mediu forças e percebeu a desproporção. Então, simplesmente fez uma curva de 180 graus, acelerou e, tranqüilamente, fugiu sem dar pelota ao desinfeliz funcionário. Sem mais nem menos. Também pudera. Imagine desarmar toda a polícia brasileira para ver a ousadia dos bandidos. Pois aqui é assim. Nas ilhas, e na costa brasileira em geral, impera a lei do mais forte por pura omissão do Estado.

    Mas não é só esta a ameaça aos corais de Abrolhos. Conversamos com uma grande especialista da Universidade Federal da Bahia, a professora Zelinda Leal, e ela nos contou sobre uma série enorme. A primeira vem do fato da costa da Bahia ter sido toda loteada para extração de Petróleo, em leilões organizados pela ANP (Agência Nacional de Petróleo). Recentemente a área de Abrolhos foi salva de ir ao pregão na hora do gongo, graças a uma ação de ambientalistas, professores- entre eles Zelinda, Ongs, e pesquisadores, que conseguiram uma liminar. Eles pedem tempo ao governo para estudarem mais a região e assim minimizar o risco ou, se conseguirem, impedir de vez a prospecção neste local.

    Mas existem outras ameaças tão, ou mais graves, que esta. O aquecimento global é uma delas. O outra é a ocupação que ocorre ao longo da costa, especialmente com o desmatamento.

    Um destes casos acontece com o beneplácito das autoridades baianas e envolve a carcinicultura, a famigerada criação de camarões exóticos em cativeiro. É que uma das áreas escolhidas para esta atividade, pelo governo baiano, é justamente Caravelas que dista cerca de 40 milhas daqui. Extremamente poluídora a iniciativa foi condenada pelos ambientalistas da região. Eles enfrentaram o prefito de Caravelas que, em sociedade com o senador João Batista Motta (PDS- ES), eram sócios de um destes empreendimentos. Um dos cabeças do movimento pela rejeição foi Marcelo Lourenço, chefe do Parque Nacional Marinho de Abrolhos. Marcelo e seus companheiros foram até Brasília pressionar o Ibama e conseguiram êxito, ao menos por enquanto. Na véspera da reunião em que o Conselho Estadual de Meio Ambiente votaria a favor da licença estes “ guerreiros do arco- íris “ fizeram com que o Ibama publicasse uma medida que determinava a proibição de qualquer atividade parecida num perímetro de 250 quilômetros entre o oceano e a costa. Estava criada a “ zona de amortecimento “ no entorno do Parque Marinho. O Senado, por intermédio de seu membro João Batista Motta, pediu anulação da área de preservação. A pendenga continua na pauta, ainda não foi resolvida em definitivo. É preciso pressionar sempre e nunca perder a esperança.

    Quer mais problemas que afligem Abrolhos ? Pois pode acrescentar o turismo descontrolado, a sobrepesca, a poluição industrial, derramamento de petróleo, só para citar os mais improtantes .

    Você acha que isto é tudo? Pois este pedaço de paraíso tem um futuro sombrio. Quase não se faz pesquisa marinha no Brasil e, como disse o professor Rubens Lopes, do Instituto Oceanográfico da USP, “ o manejo só é possível quando se conhece. Se você não conhece não há o que fazer”.

    Em nossa conversa com Rubens exploramos bastante a questão do conhecimento científico.

    Falamos sobre diversos aspectos. Ao compararmos o fato de que 60% da população mundial mora numa distância entre 50 e 100 km da costa, e a FAO estima que em 2010 seremos 7 bilhões de pessoas, ele diz que “realmente o ambiente marinho é negligenciado na sua importância para a Humanidade”.

    E explicou: O ambiente costeiro é a área onde se encontra a maior ocupação humana em termos mundiais. No Brasil também. Aqui, na zona costeira, a densidade média é de 87 habitantes por km 2, cinco vezes maior que a média nacional de 17 habitantes por km2. Os dados são do IBGE.

    Para piorar existe uma clara limitação de recursos para a pesquisa em todos os campos do conhecimento. E a participação do setor privado no fomento da atividade é muito frágil, tímida ainda. Segundo Rubens “isto acontece porque o interesse maior da iniciativa privada reside na contrapartida que a pesquisa vai dar para sua própria atividade. E no mar brasileiro, com sua baixa produção biológica e, conseqüente, fraca produção, as pesquisas científicas acabam tendo pouca reverberação”. E prossegue: “ Além do uso mais direto pela população, que é o uso para lazer, uso recreativo com paisagem de fundo, há agora uma tendência de modificação desta questão com relação ao setor de gás e petróleo que nas duas últimas décadas cresceu muito no Brasil. Este é um exemplo interessante de como esse impacto econômico pode ser traduzido num interesse maior do setor privado”.

    Ainda assim temos uma boa notícia. No final do ano passado uma pesquisa sobre Abrolhos foi aprovada pelo CNPq, “ Produtividade, Sustentalibilidade e Utilização do Ecossistema do Banco de Abrolhos”, o Pro- Abrolhos. Liderada pelo IOUSP, a pesquisa será feita por dez instituições de pesquisa e uma ONG, e reunirá 50 cientistas de todos o país. Este grupo terá até 2008 para apresentar uma “investigação minuciosa em torno do funcionamento, com vista à preservação do ecossistema marinho de Abrolhos”. Segundo o professor Dr. Belmiro Mendes de Castro Filho, vice-coordenador do projeto, a idéia é “com estes dados gerenciar de forma racional seus recursos biológicos limitados”. Oxalá tenham enorme sucesso.

    Pois é, não é fácil. E não pense que em outras partes do mundo é diferente. Só para você registrar anote isto: De acordo com alguns peritos pode haver até 30 milhões de espécies de animais vivendo no mar. A maioria sequer foi descoberta. E muitas desaparecerão antes de sê-lo.

    Em 1995 uma estimativa feita por órgãos americanos calculou a frota pesqueira mundial em 37 mil grandes barcos industriais, e mais de um milhão de pesqueiros menores. Eles vêm tirando do mar o dobro da quantidade de peixes pescados apenas 25 anos antes. Algumas companhias usam aviões para localizar os cardumes e suas redes chegam a ter o tamanho de seis aviões jumbo! Anualmente vinte e dois milhões de toneladas de peixes são devolvidos ao mar, mortos, depois de pescados em redes de arrasto. Segundo a revista The Economist, “ainda estamos na idade da pedra. Simplesmente atiramos uma rede no mar para ver o que ela traz de volta”.

    Já o Comitê de Pesca da FAO estima que “ 75% de toda a pesca mundial é sobre- explorada, numa situação que pode levar a um colapso da atividade em escala global”.

    Apesar disto os dados atuais mostram que, com o desmoronamento da pesca tradicional no hemisfério Norte, os esforços da frotas industriais são agora direcionados para as costas da África e o Pacífico.

    De acordo com o Dr. Daniel Pauly, especialista canadense, “ se a escala continuar como está nossos filhos vão comer águas- vivas”.

    Mais uma para dormir bem. Esta informação versa sobre a ignorância mundial a respeito dos mares: Em 1957/58 a comunidade científica mundial decretou que aquele seria o ano Geofísico Internacional. Em congressos mundiais oceanógrafos estudavam o fundo dos mares para depósito de resíduo radioativo. A discussão aconteceu em público, não às escondidas ! E desde 1964, acredite se quiser, os Estados Unidos jogam resíduos radiativos colocados em tambores de 208 litros, no mar, mais precisamente na ilhas Farallon, 50 km ao largo da Califórnia.

    Tal procedimento só foi interrompido na década de 1990. Até que fose suspenso mais de 50 mil barris foram atirados no mar de Farallon. Além dos Estados Unidos, Rússia, China, Japão e outros países europeus fizeram o mesmo em diversas áreas oceânicas. Pelo menos neste ponto há progressos. Hoje, navios que cruzam os mares com lixo radioativo são monitorados por ONGs e tratados como párias flutuantes, sendo raros os portos que aceitam recebê-los devido à pressão internacional.

    Mas o buraco, como se vê, ainda é muito profundo. Mais adiante falo mais sobre isto e sobre a poluição em outros mares. Agora preciso retomar a viagem para Abrolhos. Vamos a ela.

    Alonso veio me substituir às seis da manhã. A luz do Farol de Abrolhos há muito já nos guiava. Fui dormir. Acordei novamente bem mais tarde com o veleiro já amarrado numa das poitas que foram colocadas para evitar dano contínuo aos corais.

    Neste dia não fizemos muito mais. Apenas alguns mergulhos ao lado do barco para curtir um pouco o fundo do mar, já que a profundidade é bem baixa e a água cristalina. É um privilégio mergulhar em Abrolhos, mesmo com uma frente fria recente que mexeu as águas, deslocando sedimentos que agora ficam em suspensão provocando alguma turbidez.

    Mesmo assim a visibilidade é fantástica, igual a de uma piscina bem tratada.

    Ao meio-dia, como café da manhã, assamos costelinhas de porco no forno. Uma delícia. Depois a tripulação voltou cada um pro seu canto. No fim da tarde almoçamos e em seguida todos fomos dormir.

    O domingo foi mais uma vez reservado aos mergulhos por perto. Garoupas, badejos, barracudas, tartarugas e outras espécies nos fizeram companhia quase o tempo todo. Pela manhã ainda visitamos a ilha Siriba, a única das cinco em que permitem desembarque de turistas. E não pense que isto é um exagero. A vegetação das ilhas é muito rala e normalmente extremamente seca, porque é raro chover. A camada de terra é muito fina, pouco profunda justamente porque estas são ilhas vulcânicas, formadas entre 40 a 50 milhões de anos atrás por erupções submarinas que depositaram lava no fundo do oceano. Sobre ela lentamente foram se fixando algas calcárias, corais, em seguida outros organismos, até que se formou o arquipélago que agora visitamos. Debaixo d’água ele é extremamente rico e complexo. Acima é árido e pobre em vegetação. Atrai poucos tipos de aves, entre eles a fragata, o atobá branco e o marrom, o papagaio do mar, e poucos outros. Fora estes apenas alguns répteis se adaptaram ao clima. E tanto dentro, como fora da água, os ecossistemas são muito frágeis. Se houvesse desembarque em outras ilhas, e se as trilhas não fossem previamente demarcadas, evitando sempre que possível pisar na vegetação, não sei o que restaria disso.

    Mauricio nos levou para um breve passeio. No trajeto notei que ainda restam algumas cabras em Santa Bárbara. Já contei deste costume dos nautas portugueses, talvez uma de suas poucas ações com as quais não vibro, que era o de deixar em todas as ilhas por eles visitadas alguns casais destes animais. Os desgraçados vivem em qualquer condição, quase não bebem água e comem o que tiver pela frente. Eles serviam de alimento das grandes viagens que quase sempre dizimavam parte dos marujos por doenças provocadas pela falta de comida fresca, como o escorbuto. Os exemplares que vi, e não são tão poucos assim, possivelmente descendem dos mesmos ruminantes deixados pelos portugueses. Lastimo muito que o Ibama não dê cabo de todos de uma vez por todas. Eles servem apenas para se tornarem churrasco para os marinheiros da guarnição e, no tempo que lhes resta, devastam o que sobra da rala cobertura vegetal.

    Não sei se no passado, Abrolhos, com sua área restrita e aridez peculiar, teve uma vegetação muito rica. Acredito que não. Ainda assim imagino que arbustos, algumas árvores pequenas e, talvez mais do que as dez ou doze palmeiras de hoje, ela deve ter tido. Mesmo assim o pessoal do Ibama não pode fazer nada. Santa Bárbara pertence à Marinha do Brasil e não ao Parque…Pobre de nossas ilhas.

    Abrolhos tem ainda outra riqueza que infelizmente não pudemos ver em nossa estada.

    Entre os meses de julho até novembro a área é visitada por baleias Jubarte. Durante o inverno, na Antártica, estes enormes cetáceos deixam a região fria e migram para uma mais quente para procriar e amamentar seus filhotes. Estima-se que haja no mundo cerca de 40 mil destes animais e, algo como 5 mil deles, visitam anualmente Abrolhos.

    Terça feira, 04- 04- 2006.

    Ontem, no final da tarde, depois de descermos da torre do Farol inaugurada em 1861, vimos o barco do Perereca chegar. Ele jogou um cabo para o Mar Sem Fim, que estava fundeado na bóia da Marinha, para juntos passarmos a noite. O programa de hoje é mergulhar. Mais tarde conto como foi.

    A água não estava em seus melhores dias. A força da frente fria e a mudança da direção do vento cobraram um preço. Havia suspenção e turbidez e, enfrentamos também, correnteza. Era preciso estar sempre atento, corrigindo a postura do corpo com os pés e as mãos, para manter na água uma posição favorável à observação. Mesmo assim conseguimos registrar em filme e foto o suficiente para os dois programas que queremos fazer. E isso é o que importa. Mergulhamos em dois ou três pontos diferentes para registrar a maior variedade possível de corais. Na volta retornamos para nossa poita na ilha de Sta. Bárbara.

    Quarta feira, 05- 04- 2006.

    Esta madrugada o barco do cinegrafista nos deixou logo que o sol nasceu. Eles retornaram para Caravelas, pouco mais de 30 milhas na direção oeste, de onde haviam saído dois dias atrás. É de Caravelas e Alcobaça, outra cidade um pouco acima da primeira, que saem as grandes levas de barcos de pesca que vêm tentar a sorte no banco de Abrolhos. Estive visitando estas cidades recentemente e fiquei impressionado com a quantidade de barcos que vi. São centenas. Em Cabrália e Porto Seguro, de onde saímos, a modalidade mais praticada é a pesca da lagosta. Vimos enormes lagosteiros parados em Cabrália, à espera do fim do defeso.

    Mais uma vez nosso programa foi o mergulho. Desta vez em apnéia.

    Quando estávamos já cansados da atividade dei uma volta de 360 graus pelas ilhas, com o Mar Sem Fim, para podermos gravar imagens de Abrolhos de todos os ângulos. Depois retornamos para nossa poita, para nossa última noite por aqui. Amanhã suspendemos para Vitória. Deixaremos de vez a região nordeste para entrarmos na sudeste.

    Quinta feira, 06- 04- 2006.

    Antes de iniciarmos a navegada levantamos as velas do Mar Sem Fim e passamos entre as ilhas de Santa Bárbara e Redonda, numa profundidade de cerca de 4 metros, onde o azul da água do mar é deslumbrante, quase transparente, em tons que vão do mais escuro até o verde esmeralda. Em seguida colocamos na bússola 240 graus e, quase sem vento, apenas com um sueste fraco, iniciamos a última perna desta etapa.

    Comentei acima que falaria um pouco sobre a questão da poluição em outros mares, só para que não fique a impressão de que só nós não fazemos nossa parte. Pois tenho em mãos um artigo cujo título é “Sem cura para mares enfermos”, de autoria do jornalista Diego Cevallos, e os dados que ele trás são aterradores. O tema principal é o mar do Caribe e, entre algumas informações, destaco as seguintes: 80% a 90% do esgoto proveniente de fontes terrestres chegam aos mares da região sem nenhum tratamento. Para Chris Corbin, do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), este é um grande problema. E prosseguiu: “Para a maioria dos governos a contaminação dos mares e rios não é um assunto prioritário. Muitos acordos e compromissos internacionais são feitos, mas tudo fica nas palavras”.

    A America Latina e o Caribe têm 64 mil quilômetros de litoral e 16 milhões de quilômetros quadrados de territórios marinhos, diariamente afetados por milhares de toneladas de esgoto procedente de zonas urbanas, industriais e agrícolas. Sessenta das 77 maiores cidades da região são costeiras e 60% da população vive a menos de cem quilômetros do litoral. De acordo com o artigo apenas 2% do esgoto recebe tratamento antes de chegar nos rios e mares. As conseqüências são desastrosas. Um estudo da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) indica que alguns manguezais e recifes de coral foram danificados além de sua capacidade de regeneração. Além disto, em toda a região se reporta uma clara redução da pesca. Investigações feitas pela PNUMA indicam que “o consumo de alimentos de zonas costeiras e de água doce proveniente de áreas contaminadas produzem cerca de 2,5 milhões de casos de hepatite com 25 mil registros de óbitos”. A cólera, a diarréia e diversas infecções de pele também estão diretamente vinculadas a contaminação dos mares.

    Felipe Vasquez, pesquisador do Instituto de Ciências do Mar, da Universidade Autônoma do México (Unam), afirma que “os governos estão paralisados” diante do avanço da contaminação marítima, e que as medidas aplicadas são dispersas e escassas”. E conclui: “Esta é a situação em que se colocou os mangues, um ecossistema em decadência, cuja superfície mundial diminuiu 35% nas últimas décadas, chegando a cerca de 17 milhões de hectares”. Segundo o Greenpeace a destruição desse ecossistema decorre da contaminação, do avanço urbano e das indústrias, ou do agronegócio, e segue ao ritmo de 2,1% ao ano. No mesmo período as florestas tropicais diminuem apenas 0,8% .

    Aí estão, pois, alguns dados sobre a região do Caribe, mais rica que a nossa e, mesmo assim, com um resultado medíocre. O que podemos esperar da costa africana, seja no lado do Atlântico, seja no do Índico? E do paupérrimo sudoeste asiático? Como se vê não há motivos para comemoração. Ao contrário. Os mares não chamam a atenção, e não sensibilizam a opinião pública, apenas no Brasil. Infelizmente o descaso é mundial.

    Voltamos agora à nossa viagem.

    Foram muitas horas navegando sem maiores imprevistos, com motor e vela mestra ajudando, para cobrir as 190 milhas de Abrolhos até aqui. Na manhã de sexta- feira, às 8h 30, finalmente atracamos no Iate Clube de Vitória.

    Agora retornamos para São Paulo. Vamos editar o material e voltaremos em breve para conhecermos o litoral do Espírito Santo. Espero vocês.

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