O litoral do Espírito Santo

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    Quarta feira, 19- 04- 2006.

    Chegamos ao Sudeste onde estão alguns do Estados mais ricos e populosos do Brasil. A zona costeira da região reflete exatamente isto. A ocupação, para o veraneio, desta parte do litoral começou mais cedo que no resto do Brasil. Foi no final da década de 60 e, mais fortemente, na década seguinte, a de 70. Este período da história recente, conhecido como “milagre brasileiro”. Foi durante estes anos que paulistas e cariocas mais abastados tiveram sobras de dinheiro que financiaram suas casas de veraneio, especialmente nas praias do litoral norte de São Paulo e na costa do Rio de Janeiro. Coincidiu também com a abertura da estrada litorânea deste trecho, a BR 101, que foi inaugurada sem que antes houvesse um planejamento da ocupação de seu entorno. O resultado não foi brilhante. Manguezais foram aterrados para dar lugar ao asfalto, as encostas da Serra do Mar começaram a ser ocupadas, caiçaras vendiam suas posses por miséria iniciando um processo de favelização e exclusão ainda maior que no período em que eram pescadores artesanais. Suas casas, acanhadas e singelas, deram lugar a refúgios para descanso de alto padrão. Muros foram erguidos para proteger estes imóveis, tirando a visão do mar a partir de certos ângulos e, às vezes, iniciando um processo de privatização de algumas praias que apesar de tudo continuam a ser áreas públicas. Mais recentemente condomínios brotaram como ervas daninhas. E a especulação imobiliária reinou durante todo o tempo. De um momento para o outro milhares de pessoas passaram a freqüentar o litoral não só nas férias, mas em finais de semana e feriados. E por curioso que possa ser, como já informei nestes diários, uma pesquisa mostra que o brasileiro se relaciona com o mar apenas como mais um espaço de lazer.

    Neste período de riqueza e expansão, não cresceu a infraestrutura das cidades que recebem os turistas e veranistas. Como sempre acontece o Estado brasileiro ficou para trás, incapaz de se antecipar ou acompanhar a mudança. Hoje, de um modo geral, há um enorme deficit de esgotos tratados, e mesmo de coleta de lixo na maioria dos municípios da zona costeira. E a sujeira vai toda pro mar quase sempre “in natura”, contribuindo para que o espaço marítimo continue a ser tratado como lata de lixo da humanidade como sempre foi. No início dos anos 70, a vasta maioria das praias também recebeu hotéis e pousadas. Hoje muitas delas têm resorts, especialmente na Baía de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. E como a região é altamente industrializada e rica, quatro dos cinco maiores portos nacionais estão aqui: Santos e São Sebastião, em São Paulo, Sepetiba, no Rio de Janeiro, e Tubarão, em Vitória, além de centenas de garandes empresas. Não é pouca coisa. A pressão, como se vê, é muito intensa. Aos poucos vamos desvendando mais esta região do Brasil, conhecendo suas entranhas e transmitindo impressões. Mas como tudo tem um começo, no caso do Sudeste este início, para quem vem do norte como nós, é o Estado do Espírito Santo.

    São cerca de 400 quilômetros de extensão de litoral com grande diversidade de paisagens. Uma área de transição que “herda características da Bahia do lado norte, e do Rio de Janeiro do lado sul”, como disse a professora Jacqueline Albino, cuja disciplina é Morfologia e Processos Litorâneos, na Universidade Federal do Espírito Santo, a UFES.

    É por isto, segundo ela, que no litoral norte do Espírito Santo a gente encontra uma área de falésias vivas, como as do sul da Bahia e, mais próximo de Vitória, e até Guarapari, as rochas cristalinas predominam. Estas são formações típicas do Rio de Janeiro, iguais as do Pão de Açúcar.

    Da mesma forma, segundo o oceanógrafo Agnaldo Martins, com quem também conversamos, os mares capixabas têm características subtropicais ao sul, e tropicais ao norte.

    De acordo com as estatísticas haveria entre oito e dez mil pescadores no Estado, divididos em 45 comunidades a maioria praticando a pesca em pequena escala, dita artesanal, dividida em várias modalidades. Desde a pesca da lagosta com as redes caçoeira (frota de cerca de 300 barcos), até o arrasto, ou a pesca de linha em Abrolhos (garoupa, cioba, badejo, etc). E ainda existem focos de pesca industrial em alguns locais específicos que mais adiante vamos visitar. De acordo com o professor, juntos eles retiram do mar cerca de 20 mil toneladas de quilos de peixes anualmente. E apesar deste número, a pesca não é uma atividade muito importante para a economia do Estado. Justamente porque a grande maioria é de pescadores artesanais, cuja receita não pesa muito no bolo de receitas do Estado para efeito de arrecadação. Mas isto é assunto para outro dia. Hoje demos apenas uma pincelada no que nos espera. Amanhã começamos a dissecar um pouco mais estas informações.

    Quinta feira, 20- 04- 2006.

    Uma das questões que mais chamam a atenção no Espírito Santo, atraindo ambientalistas e mídia, é a do reflorestamento feito com eucalipto. Seja por causa das lendas que cercam esta árvore originária da Austrália, seja por abusos praticados nos anos 70 quando os militares criaram incentivos para seu plantio e muita Mata Atlântica veio abaixo, ou ainda por recentes ações, irresponsáveis e ilegais, levadas a cabo por vândalos do MST e da Via Campesina. Como se sabe há pouco foi invadida e destruída uma estação de pesquisas da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul. Na ocasião, João Pedro Stédile (recebido mais de uma vez no gabinete da Presidência de República, sendo que numa delas Lula se deixou fotografar usando o famoso bonezinho vermelho, símbolo do movimento), um dos líderes, declarou que “seus companheiros estão de parabéns pelo ato de chamar a atenção da sociedade”. Foi uma demonstração inequívoca do desapreço que ele nutre pela democracia e o Estado de Direito. No mesmo período, outro dirigente, Jaime Amorim, ao saber do choro desesperado da responsável que perdeu, com a barbárie, anos de trabalho, teve o desplante de dizer: “ Se fosse uma pesquisadora séria não teria se vendido às multinacionais”. Para arrematar o festival de sandices, Stédile repetiu o propalado chavão segundo o qual “a indústria de celulose gera desertos verdes com o eucalipto”. A mídia, óbvio, reproduziu as declarações. Pronto! É assim que dizem no nordeste. Não precisamos mais nada neste torneio de desinformação em que vivemos. Por estas e outras as lendas em torno do eucalipto se propagam.

    Por isto mesmo antes de viajar para Vitória procuramos entrevistar um professor da USP, Universidade de São Paulo, já que sendo paulista ele não poderia ser acusado de sofrer as influências do Poder Público capixaba, ou das empresas que atuam em reflorestamento no Espírito Santo onde a cultura do eucalipto representa 21% do PIB.

    Na verdade tivemos uma aula particular com o professor Gregório Ceccantini, especializado em anatomia vegetal, do departamento de botânica da USP. E ele comentou um a um os mitos que rondam o reflorestamento à base de eucalipto.

    Para começar levantei a questão do “deserto verde”. A resposta: “Toda vez que o homem simplifica uma área vegetal faz o mesmo, em conseqüência, com a vida animal”. Em outras palavras, “a homogeneidade do sistema não permite grande diversidade de seus ocupantes”.

    Ele prosseguiu explicando que, da forma como as árvores são plantadas, muito próximas umas das outras com o objetivo de que a insolação atinja quase só a copa das árvores (facilitando também o manejo e corte), os troncos acabam ficando extremamente lisos e retos, sem forquilhas, prejudicando a nidificação. Também há diminuição de mamíferos, mas “há diversidade de invertebrados, insetos, e microorganismos. Deserto, não é”. Além disto, esta diminuição ocorre em qualquer monocultura, o eucalipto não é pior que as outras. O professor disse que a árvore exige menos defensivos e agrotóxicos, por ser uma planta forte, rústica, sobrevivente de um solo pobre e árido como é o da Austrália. Normalmente o solo recebe apenas cal para aumentar o PH. “E neste sentido ele é melhor que muitas outras monoculturas”.

    Segundo Gregório Ceccantini um pouco da má fama do eucalipto vem da lembrança do que ocorreu quando os militares deram incentivos para o incremento do reflorestamento no país. “Naquela época, anos 70, sem a consciência ambiental que existe hoje, grandes áreas de mata nativa foram derrubadas para o reflorestamento, o que é um óbvio absurdo”.

    De fato, este problema influencia não só esta região como traz conseqüências para outros Estados como Sergipe e Alagoas. Quer saber onde? Ora, este é apenas um dos problemas da foz do rio São Francisco, assoreada, que visitamos recentemente. Muitos de seus afluentes em Minas Gerais tiveram suas matas ciliares derrubadas, e campos, várzeas, e charcos ocupados, para dar lugar à cultura do eucalipto nos anos 70. Hoje são áreas totalmente degradadas e abandonadas.

    Segundo Gregório, “esta não é a regra do plantio atual”.

    Abordamos a questão do emprego e o professor concordou que o eucalipto não é um grande gerador de empregos, porque áreas maiores são sempre mecanizadas, usam tecnologia de ponta, e “como todas as monoculturas esta também não emprega muita gente”. Ele ainda brincou dizendo que a única que faz isto é a cana-de-açúcar, “porque ainda utiliza métodos medievais”.

    Em seguida comentamos os pontos positivos do plantio, e o professor chamou a atenção para o fato de que “o reflorestamento tira a pressão em cima da mata nativa”. Ele lembrou a brutal necessidade da madeira e seus subprodutos em várias atividades cotidianas como papel- higiênico e cadernos, ou a lenha para fornos de pizzarias e padarias, além de móveis, postes de luz, carvão, etc. Na indústria pesada o eucalipto transformado em carvão vegetal é usado nas siderúrgicas e para produzir aço e ferroligas. Por fim ele ainda serve para perfumes, cosméticos e remédios.

    “O aço brasileiro deve muito ao eucalipto, porque ele é mais puro que o estrangeiro, que utiliza carvão mineral que o deixa com resíduos”, lembrou.

    Mas vamos finalmente conhecer um pouco da própria celulose. De acordo com o ex-Ministro Maílson da Nóbrega (O Estado de S. Paulo, 26- 03- 2006), “ a internet e a tecnologia de informação descortinaram um novo mundo para a celulose de fibra curta. Agora, quando impressa, a informação é gerada ao lado do computador. Aumentou muito o consumo de papel com boa absorção de tinta e toner. A fibra curta é a adequada. O país tende a ser o maior produtor mundial de celulose (hoje é o quinto).”

    Li ainda outros estudos pró e contra o eucalipto na internet. Destaco alguns dados que tirei de um documento da ABRAF (Associação Brasileira dos Produtores de Floresta Plantada): no Brasil se consome anualmente cerca de 300 milhões de metros cúbicos de madeira por ano e só um terço dela vem de florestas plantadas. Outra: o setor emprega dois milhões de brasileiros entre diretos e indiretos. Seu faturamento é de 21 bilhões de dólares/ano, o que corresponde a 4% do PIB nacional. Por fim no Brasil, hoje, temos cinco milhões de hectares de florestas plantadas e existe a intenção de elevar este patamar para onze milhões. Só para efeito de comparação a soja ocupa 60 milhões de hectares.

    Finalmente, para a ABRAF, a questão é plantar em locais apropriados, que não faltariam no país. Segundo eles nós “temos hoje 90 milhões de hectares de áreas desmatadas ou 900 mil km2 de terras degradadas”. É nelas que propõem o plantio.

    Só posso entender tanta polêmica pelos erros cometidos no passado, parte deles aqui onde estamos. O Espírito Santo tem cerca de 250 mil hectares de florestas plantadas. Grande parte pertence a Aracruz Celulose. Agora o Estado tem planos de aumentar esta área passando para 600 mil hectares. E com este plano levantou a ira dos ambientalistas além de movimentos de esquerda, igreja, sindicalistas, partidos políticos, e outros.

    Vamos ver “in loco” a ocupação. Alugamos um carro para rodar até a divisa com a Bahia, em Riacho Doce. Há poucas baías abrigadas para fundearmos o Mar Sem Fim no litoral norte capixaba, por isto optamos pelo carro. Um dos lugares possíveis seria o rio Doce, mas tenho informações que ele está assoreado, com sua barra cheia de bancos de areia. Depois do que passamos no Jequitinhonha nem penso em repetir a dose. Mais seguro ir de carro. Amanhã iniciamos a viagem. Então vou ver o que foi que fizeram. Em seguida volto a relatar.

    Sexta feira, 21- 04- 2006.

    Saímos cedo do Iate Clube de Vitória e rodamos quase 300 quilômetros sempre em direção ao norte, onde se concentram as áreas de reflorestamento. Nossa intenção era ir até a fronteira com a Bahia e depois descer, parando nas praias e comunidades do litoral, para podermos gravar como anda sua ocupação.

    Chegamos em Riacho Doce no começo da tarde. Nossos últimos quilômetros foram feitos em chão batido já que o asfalto só chega até Barra da Conceição (a infraestrutura do Espírito Santo, comparanda aos maiores Estados do Nordeste, como Bahia e Ceará deixa muito a desejar). De lá pegamos uma estradinha que leva inicialmente até Itaúnas, pequena cidade que ainda guarda o traçado original dos jesuítas, em forma de Quadrado, com uma igreja numa ponta e as casas em volta. Ali pudemos ver novamente a resposta da natureza ao mau uso da terra. A antiga vila de pescadores foi coberta por dunas de até 30 metros de altura e teve que mudar de lugar. De tanto cortarem a vegetação que as fixava, a areia das dunas acabou enterrando as casas, como nos explicou a professora Jacqueline Albino.

    Descemos para gravar nas ruínas da igreja original, hoje quase toda soterra

    da. Em seguida continuamos nosso caminho em direção à divisa. Primeiro a estrada passa por trás das montanhas de areia, depois entramos numa região de áreas alagadas de um lado, e restinga do outro.Um pouco mais adiante estava o mar. A estrada é bem bonita, às vezes cercada de árvores da Mata Atlântica cujas copas formam túneis tão espessos que mal se vê o sol. De repente, ao sairmos de uma curva, um susto: da mata pujante e variada passamos para uma imensa e monótona área de reflorestamento da Aracruz. Foi chocante o encontro abrupto do eucalipto com o que sobra da Mata Atlântica. Mas eles estavam ali, um ao lado do outro, como vizinhos em pé de guerra. Mais tarde descobri que os eucaliptos ocupam cerca de 50 mil hectares, só no extremo norte do Estado, em pleno tabuleiro onde antes havia mata.

    Em Riacho Doce, última vila antes da divisa, não há quase nada. Cerca de 15 casas de moradores que vivem da pesca, espalhadas, longe umas das outras, e um restaurante de um mineiro na beira do rio que é o marco divisório entre os dois Estados. Na outra margem já é Bahia. Conversando ouvi mais uma vez o que alguns biólogos e ambientalistas já tinham me dito recentemente. A Aracruz não adquire mais áreas, mas “fomenta” o plantio entregando mudas a pequenos fazendeiros, dando assessoria, e prometendo depois comprar a produção. O pior é que toda esta área faz parte do Parque Estadual de Itaúnas, inaugurado em 1991, quando já não havia quase nada a preservar. O grosso da mata nativa havia sido transformado em eucaliptos ou pastos. Mais uma vez se constata a inoperância dos órgãos que deveriam cuidar de nosso meio ambiente. De acordo com a lei 9.985/2002, que instituíu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), e a determinação 013/90, do Conama, ficou proibido o plantio e eucalipto no entorno destas unidades. O Ministério Público Federal (que tem força de lei, ao contrário das Resoluções do Conama) foi claro na proibição em um raio de 10 quilômetros das UCs (unidades de conservação). Mas no Espírito Santo a distância às vezes não ultrapassa os 10 metros! Tudo bem que esta área que visitei na divisa com a Bahia seja de um antigo reflorestamento, feito ainda nos anos 60/70. Mas os atuais não diferem tanto assim.

    Porque então transformar em reservas o que já não “reserva” nada de especial? Eis aí mais um erro que vejo que se repete (especialmente na Bahia, mas não só). O de transformarem toda a costa em APAs, Parques, Reservas, Ucs, às vezes sem motivo para preservação. O ponto comum é que a maioria tem pouca ou nenhuma infraestrutura. Agindo assim o Estado banaliza e expõe ao ridículo e ao descrédito, tanto estas áreas, como seu próprio poder. Ao mesmo tempo, ao viajar por aqui, eu comecei a entender a polêmica que põe de um lado os grandes produtores de madeira e o Estado capixaba e, do outro, os ambientalistas, associações de classe, pequenas comunidades extrativistas, jornalistas, etc.

    Quando se instalaram as empresas de reflorestamento foram, no mínimo, infelizes ao escolherem seus lotes (procedimento, repito, que ainda ocorre. Em 2005 o Ibama da Bahia multou a Veracel-50% de suas ações são da Aracruz- em R$ 360 mil, por dificultar a regeneração natural de florestas de Mata Atlântica no Estado). Grande parte deles está no litoral, alguns em áreas de tabuleiro, onde antes havia Mata Atlântica. Aliado a isto, para o processo de branqueamento do papel elas usam cloro, produto tóxico que acaba poluindo a água dos rios. Somente a partir da década de 1990 a Aracruz passou a processar uma pequena parte de sua produção de celulose sem utilizar cloro, em função da exigência de países compradores do produto, como a Alemanha, por exemplo. Ela tem ainda vários portos ao longo da costa baiana e capixaba para escoar a madeira. E pelo menos um deles já andou sendo multado pelo Ibama em função de derramamento de óleo (fica abaixo da foz do Jequitinhonha). Ambientalistas também reclamam da pressão pela navegação de enormes barcaças com eucalipto na região de Abrolhos, um fragilíssimo ecossistema que fica no meio do caminho entre os portos da empresa.

    Isto, mais o fato da Aracruz ser uma gigante com faturamento estratosférico, é claro que chama a atenção. E a briga é feia.

    Em Vitória conversamos com o professor Luis Fernando Schettino, da cadeira de Ecologia e Recursos Naturais, da Universidade Federal do Espírito Santo. Ele é ex-secretário de Meio Ambiente do Estado, na gestão do governador Victor Bouaiz, em 1995, e novamente entre 2003 e 2004, na gestão Paulo Hartung. Segundo o professor a área total do Espírito Santo é de quatro e meio milhões de hectares, e “só tem pouco mais de 200, 250 mil ocupados pelo eucalipto”. Ele conta que o Estado perdeu sua cobertura vegetal, leia-se Mata Atlântica, mais fortemente nas décadas de 60 e 70 do século passado, “especialmente para alimentar a febre da construção civil no Rio de Janeiro”. Depois a destruição prosseguiu com os militares e sua política de incentivos fiscais para reflorestamento, que fizeram com que a mata nativa fosse ainda mais reduzida, “e com amparo legal na época”, ressalta. E tudo isto contribuiu para a polêmica em torno da árvore.

    Segundo Schettino, a propalada voracidade do eucalipto “de sugar água” não é verdadeira. Em sua explanação ele mostra que a raiz do eucalipto é enorme, chega a ter 12 metros para o interior, e ultrapassa regiões pantanosas, drenando-as, e dando a impressão de as transformar em áreas secas. Mas as mudas utilizadas para produção da madeira são clonadas, “suas raízes não atingem mais que um metro e meio, e além do mais não devem ser plantadas em áreas de preservação permanente”. Schettino não recomenda o eucalipto para áreas que possam receber outras culturas, mas prega seu uso nas já degradadas e acha que não seria demais a cultura ocupar 600 mil hectares no Estado, em vez dos atuais 250 mil. Ele lembra que só de pastos o Espírito Santo tem um milhão e oitocentos mil hectares.

    E você, o que acha?

    É claro que ver enormes áreas com eucaliptos em pela zona costeira choca. Mas afora isto, as praias do extremo norte do Estado estão quase todas desocupadas. São bem compridas e no geral estreitas. Algumas têm mais de 10 km quase sem nenhum obstáculo. Longas retas, com areia branca e ondas fracas. Ao menos aquelas que vão da fronteira com a Bahia até Conceição da Barra. Amanhã vamos ver um processo de erosão que tomou conta desta cidade, e vamos conversar com pescadores artesanais sobre uma iniciativa do governo capixaba de fomentar a pesca de camarão que acabou redundando em fracasso.

    Era já tarde da noite quando chegamos em Conceição da Barra para dormir. Jantamos otimamente no restaurante Abrolhos. Em seguida nos hospedando numa pousada de mineiros logo ao lado.

    Sábado, 22- 04- 2006.

    Pela manhã saímos passeando por Conceição da Barra para vermos o fenômeno da erosão que o município sofre. Resolvi ir até um local de pescadores xeretar. Encontrei um deles, mais velho, que por sua idade tinha acompanhado todo o processo. Com um jeito simples e humilde, seu Napoleão, o pescador, nos contou sobre vários problemas. As matas ciliares ao longo do rio Cricaré, que banha a cidade, foram cortadas. Plantações tomaram seu lugar, e o rio começou a assorear. Ao mesmo tempo uma espécie de península que avança para o mar formando uma das margens da barra, antes repleta de coqueirais, foi ocupada pelos moradores e muitas casas foram construídas. Ao logo do tempo as prefeituras que se sucederam não deram atenção aos primeiros sinais de desbarrancamento. E continuaram ocupando a área sem estudos prévios. Calçadões que foram feitos para urbanizar a orla vieram abaixo. O mar começou a penetrar no continente. Ruas foram alagadas, muros de casas ruíram, e até o Farol que havia na cidade não agüentou e também desmoronou. No todo a cidade perdeu cerca de 200 moradias tragadas pelo mar. A barra ficou tão rasa que os barcos pesqueiros não conseguem mais entrar ou sair com facilidade.

    Em Vitória ao entrevistamos a professora Jacqueline Albino, do curso de Morfologia e Processos Litorâneos, da UFES, ela reforçou a idéia de que o litoral capixaba tem deficit de sedimentos costeiros (leia-se areia). Como já foi dito, a maioria das praias daqui é bastante estreita, portanto ainda mais frágeis do que já são normalmente. Talvez seja este um dos motivos. O fato é que ninguém tem uma explicação conclusiva. Só se sabe que a erosão continua a desbastar pedaços de terra ameaçando ruas e avenidas, e mais casas estão a um passo de submergirem. Perguntei a Jacqueline se foi feita alguma interferência na costa próxima à cidade. A resposta foi negativa. Normalmente elas causam erosão. A zona costeira e sua peculiar dinâmica não toleram a ação do homem. E reage sempre. Mas neste caso, aparentemente, não é este o motivo. Talvez seja apenas o corte da capa vegetal e conseqüente assoreamento do rio, ou um mistério ainda a ser desvendado, se possível antes que Conceição da Barra tenha que se mudar de local como aconteceu com Itaúnas.

    Apesar de todos estes evidentes sinais o Governo do Estado investiu na pesca do arrasto de camarão. Danou-se. Alguém duvida que foi um fracasso? Para pescar camarão é preciso uma frota de barcos. E para que ela possa cumprir sua missão além de camarões o mar tem que ter profundidade suficiente para que os barcos possam entrar e sair da barra. Não é este o caso daqui.

    Seguimos nosso caminho em direção à Regência, nas margens do rio Doce, o mais importante rio do Espírito Santo. Queríamos visitar mais uma base do Tamar que fica na praia de Comboios, a única onde as tartarugas de couro (são as maiores tartarugas marinhas) desovam no Brasil. No caminho passamos por São Mateus e fomos visitar seu antigo porto fluvial nas margens do rio Cricaré. Em épocas remotas foi um porto muito importante que escoava a maior produção de farinha de mandioca do Brasil. Bonito o local, com a praça do Chafariz cercada por belo casario antigo e bem preservado. Mas o porto mesmo ficou só na memória dos mais velhos. Apenas pequenas canoas têm calado para freqüentá-lo hoje.

    À medida que vou descendo a costa brasileira fica cada vez mais claro que talvez nosso único rio não assoreado seja o Amazonas. É uma pena. Os “rios são fonte de vida”, como diziam as placas que vi no Oiapoque, lá em cima, na divisa com a Guiana Francesa…

    Pé na estrada de novo. Vamos rodar agora até a altura do município de Linhares, que fica cerca de 150 quilômetros ao sul da divisa com a Bahia.

    Durante o trajeto, na estrada, tudo que vimos foram pastos para o gado e áreas reflorestadas com eucalipto. Mesmo os morros são pelados.Quase chegando vimos duas reservas de Mata Atlântica, as únicas que restam no Estado. Não resistimos. Paramos e fomos ver como era a mata que cobria o Espírito Santo.

    A Reserva Biológica de Sooretama tem 24 mil hectares e é mantida pelo Estado. Trata-se de uma unidade de conservação de proteção integral. Nesta categoria de reserva a interferência humana é a menor possível, ainda bem. Por isto podem-se ver algumas árvores centenárias, todas ameaçadas de extinção, como o jacarandá-da-bahia, a quixabeira, o jequitibá, ipês e canelas, entre outras. Entre as árvores estão macucos, mutuns, papagaios-chauá, e muitas outras aves também ameaçadas.

    Logo a seguir paramos em outra reserva, esta particular, mantida pela Companhia Vale do Rio Doce. São mais 22 mil hectares da mais bela das florestas nativas, a Mata Atlântica. Mas isto é tudo que sobra no Espírito Santo. Algo como 50 mil hectares. O que resta são apenas alguns tufos esparsos ao longo da costa. Normalmente pequenas restingas. Ou ilhas de vegetação, minúsculas, na Serra do Mar. E é tudo. Mais uma pista para entender a grita de jornalistas e ambientalistas com relação ao reflorestamento no Estado.

    Bem, já passava do meio- dia quando chegamos em Regência. Demorou mais que esperávamos, especialmente porque a estrada litorânea, a BR 101, passa longe da costa, ao contrário do que acontece no Rio e São Paulo, e no Nordeste. Neste Estado, às vezes a estrada passa a cerca de 40 km do litoral, como no caso de Regência. Tivemos que pegar uma estradinha de terra batida que segue paralela ao rio Doce, sempre cercada por fazendas de cacau (a vassoura-de-bruxa não chegou aqui), ou pastos, até chegarmos no mar.

    Mas valeu a pena. Por confusão o pessoal da base do Tamar não tinha sido avisado de nossa viagem e não havia nenhum responsável no momento em que chegamos. Mas nos deram o endereço deles na pequena cidade de mil e quinhentos habitantes. Fomos até lá e batemos na porta da casa de Joca ( João Carlos Alciati Thomé), e sua mulher, a veterinária Cecília Baptistotte. Fomos muito bem recebidos. O simpático casal nos levou até a base e explicou em detalhes seu “modus operandi”. Eles dividiram conosco o pouco que se sabe sobre os hábitos deste enorme animal que pode atingir até 600 quilos. Em nossa costa chegam raros indivíduos. Não passam de dez. No entanto escolheram a praia de Comboios para desovar. Joca e Cecília aprenderam que estas tartarugas não têm aquela couraça dura das outras, mas uma espécie de couro resistente. E isto porque elas mergulham a até mil metros de profundidade, e não fosse por esta “cobertura” mais mole, jamais poderiam fazê-lo pela pressão violenta debaixo d’água.

    A base do Tamar daqui é dos anos 80, e foi das primeiras a ser instalada na costa brasileira. Ela é uma das maiores geradoras de empregos para os habitantes de Regência que não têm lá muitas outras opções. Na confecção que montaram, a maior entre todas as bases, trabalham cerca de 50 pessoas que assim complementam a renda de suas famílias. Camisetas, bonés e outros produtos são feitos, e depois vendidos em várias partes do litoral, como já expliquei em etapas anteriores.

    Depois da visita Joca ainda nos levou de barco, um dos raros que o Ibama tem, para vermos a foz do rio Doce. O local é muito bonito, mas o rio mesmo já era. Sempre teve bancos de areia em sua foz, das mais perigosas de nossa costa. Há inúmeros naufrágios ao redor, desde os tempos do Império. Hoje, além destes bancos, o rio Doce está totalmente assoreado. Mas ainda tem peixes, especialmente o robalo, para mim o melhor das águas tupiniquins. Vi vários barcos de pesca pequenos jogando redes em plena arrebentação, e tirando dezenas de robalões. Segundo Joca os pescadores seguem um defeso típico deles, em vez de três meses parados na época de acasalação, eles ficam 15 dias parados e outros 15 trabalhando. O Ibama faz vista grossa que, neste caso aplaudo, já que nunca a força bruta ou a imposição foram uma boa solução. Os pescadores ainda concordaram em diminuir a quantidade de redes. Melhor aceitar esta proposta. Ao menos o esforço de pesca diminui e é isto que interessa.

    Joca começa agora a montar uma fazenda de criação de robalos com auxílio dos nativos, e nos mostrou os tanques já prontos para receber os primeiros peixes. Bravos! Por iniciativa própria esta base do Tamar está tentando fazer algo em termos de maricultura que traga recursos e benefícios para os moradores, e que não seja a catastrófica criação de camarões.

    Torço muito para seu sucesso.

    Já era de noite quando voltamos ao portinho nos fundos da sede do Tamar. Nos despedimos e seguimos viagem. Desta vez pegamos a estrada velha, cujo trajeto passa rente à costa lembrando muito a BR 101 no litoral norte de São Paulo. Mas é de terra batida…Nesta noite dormimos na Barra do Sahy (não é só em São Paulo que existe uma), na Pousada dos Cocais, que nos foi indicada por nossos anfitriões em Regência. Uma linda pousada, por sinal, cercada por um resto de restinga. Discreta o suficiente para não estragar a paisagem, ela ainda gera empregos e movimenta a economia. Esta sim pode dizer que é ecológica e sustentável. Turismo como este é um exemplo. Até que enfim.

    Amanhã comento um pouco mais esta questão no litoral capixaba, que nem de longe lembra a destruição causada pelo turismo elitista (resorts exclusivos), ou o de massa, que acontece no Nordeste.

    Domingo, 23- 04- 2006.

    Como falei ontem, as praias do litoral norte capixaba ainda são pouco ocupadas. Quanto mais próximas da Bahia menor a quantidade de pessoas. Até os anos 80 do século passado, entre o rio Doce e a divisa baiana, havia só Mata Atlântica ou as pequenas comunidades que vivem da pesca artesanal. Assim, municípios ou vilas, como Riacho Doce, Itaúnas, Conceição da Barra, São Mateus, e Pontal do Ipiranga só mais recentemente é que passaram a atrair a atenção de empreendedores, empresas de reflorestamento, e poucos turistas. Na vasta maioria das praias a única opção, felizmente, são as pequenas pousadas.

    Depois, continuando em direção ao sul, vem Linhares e, a partir deste município, pode-se atingir Regência. A cidadezinha é um fim de linha da estrada. A partir dela não se vai a lugar nenhum. Este fator geográfico favorece que seja pouco ocupada. Ali, além de fazendas de cacau, há um depósito da Petrobrás que extrai petróleo tanto do continente como do mar (os navios tanque recolhem o óleo a partir de dutos que seguem pelo leito do mar até algumas milhas para fora). O depósito fica pouco atrás da praia de Comboios, uma restinga que o pessoal do Tamar conseguiu transformar em Reserva Biológica, portanto mais uma barreira para a ocupação. A outra característica é que as praias do lado sul do rio Doce sofrem influência do rio, e suas águas são turvas em função das correntes. Já a praia de Comboios, a preferida dos surfistas de Vitória, acumula muita sujeira que vem carregada pela massa de água dos 800 km do rio Doce, que nasce em Mariana, Minas Gerais, atravessa centenas de pequenas vilas e cidades, e finalmente deságua aqui no norte do Espírito Santo. Por causa disto, e da carência de saneamento básico no país, suas águas trazem muita poluição, com lixo e detritos que acabam depositados na praia de Comboios. De tempos em tempos Cecília organiza, com os moradores de Regência e surfistas, uma gincana de limpeza. Mas a sujeira acaba sempre voltando…

    Logo depois de Comboios, sempre em sentido ao sul, fica a Barra do Riacho. Ali foi instalado outro porto da Aracruz Celulose, ao lado de uma vila de funcionários da empresa. A foz do rio é bem poluída. É mais uma prova de que a atividade econômica intensa não combina muito com preservação ambiental. Como conciliar os dois aspectos, eis a questão.

    Bem, continuando na mesma direção, chegamos na barra do Sahy, onde as praias são bem menores em extensão, crivadas de pequenas baías, com areia mais escura, num bonito tom entre o amarronzado e o alaranjado, lembra a cor da Nespera. Outra característica é os bancos de algas que quase todas elas têm e o turismo de baixa escala.

    A partir daqui, e quanto mais próximas de Vitória, maior a ocupação, a densidade da população, e as opções de turismo das praias.

    Continuando passamos por Coqueiral, depois Santa Cruz, nas margens do rio Perequê-Açu, onde existe outra colônia de pesca, e até um pequeno Iate Clube com lanchas e veleiros.

    Depois chegamos em Nova Almeida, antiga aldeia dos Reis Magos, fundada pelos jesuítas ainda no século 16. Mais uma vez o sítio original foi estabelecido no topo de um platô, com o famoso Quadrado com uma igreja numa extremidade e casas cercando o local. Neste caso se trata da linda Igreja dos Reis Magos, uma das mais bonitas que vi, com uma vista esplendorosa de cima.

    De volta a estrada chegamos no município de Jacaraípe, cujas praias são bastante ocupadas seja pelas casas dos moradores, seja por hotéis ou casas de veraneio do pessoal da capital. Em seguida, Vitória. Neste último trajeto a paisagem começa a mudar. Se, para o lado norte vemos dunas e falésias, como na Bahia, aqui já se impõem as rochas cristalinas que tanto caracterizam o Rio de Janeiro ou mesmo o litoral de São Paulo. Também passa a fazer parte da paisagem a Serra do Mar, mais para trás da linha da costa. Ela vai nos acompanhar daqui até o sul de Santa Catarina.

    Segunda feira, 24- 04- 2006.

    Nesta noite dormimos a bordo novamente, no Iate Clube de Vitória. Ainda temos algumas gravações para fazer, antes de iniciarmos a navegada em direção ao litoral sul do Estado, a Guarapari, e outros pontos da costa onde pretendemos fundear.

    Hoje fomos gravar em Prainha, onde começou a nascer a cidade de Vila Velha, e local que deu início à colonização do Espírito Santo pelo primeiro donatário da então capitania hereditária. Mais uma vez conhecemos uma igreja, Nossa Senhora do Rosário, que as pessoas dizem ser “a segunda mais antiga do Brasil”. Ao longo de nossa viagem já encontramos pelo menos quatro que tinham igual fama. Duas em Pernambuco, Igaraçu e Itamaracá, e a terceira em Ilhéus, na Bahia. Depois tentamos gravar o belíssimo convento Nossa Senhora da Penha, fundado em 1558, mas como era dia de festa da Padroeira o acesso estava fechado para carros. Vamos deixar para amanhã.

    Aproveitamos o tempo livre para irmos até Santa Teresa, no alto da serra, a 70 quilômetros de Vitória, visitar o Museu de Biologia Mello Leitão, antiga casa do naturalista capixaba Augusto Ruschi. O Museu foi fundado em 1949, e tem como objetivo colecionar espécies de plantas e animais com fins científicos.

    Saímos de Vitória, pegamos novamente a BR 101, e rodamos até Fundão. De lá mudamos para uma estrada secundária que sobe a Serra do Mar até Santa Teresa. Sempre quis conhecer a serra capixaba. Toda vez que parava em Vitória, a caminho de Abrolhos, eu tentava. Mas nunca conseguia tempo. Quando lançamos a regata Eldorado- Brasilis (Vitória- Trindade- Vitória), no tempo que ainda dirigia a rádio Eldorado, em 2000, por várias vezes ameacei ir, mas na última hora alguma faina a bordo me obrigava a ficar. Desta vez foi diferente. E não me arrependi.

    A paisagem é linda. Aqui a Serra do Mar é extremamente íngreme, com paredões de rocha imensos que devem fazer a felicidade dos alpinistas. Mas as encostas são quase todas ocupadas por sítios, a maioria de imigrantes italianos, que conseguem plantar nos lugares mais improváveis. Basta ter um trecho qualquer livre de pedras, e lá está uma roça de café, uma plantação de bananas, ou mesmo o indefectível eucalipto. Até aqui em cima! Fico atônito com o eucalipto em toda parte, mesmo em áreas mínimas. Aproveito para deixar passar que todas as fontes que encontrei neste Estado, excluindo os professores da UFES, disseram a mesma coisa: a Aracruz não pode mais comprar terras no Estado, então fomenta o plantio. Sobre este assunto li também uma matéria na Folha de S. Paulo ( Abril de 2006), em que o jornal destaca a valorização das terras na Bahia (cerca de 260% de valorização) desde 2004 quando a Aracruz, Veracel e Suzano aumentaram a aquisição de terras para reflorestamento no Estado. Segundo a reportagem, a estratégia do fomento visa “ evitar invasões, reduzir a pressão social e diminuir seus custos”. A reportagem segue afirmando que “ com o fomento as empresas repassaram aos produtores cerca de R$ 1.750 por hectare plantado e fornecem gratuitamente assistência técnica, mudas, formicidas e insumos”. Ao assinarem o acordo, os pequenos produtores recebem um “adiantamento que é transformado em dívida que deve ser paga em metro cúbico de madeira depois de seis anos”. Ainda segundo o jornal, em 2005 a Veracel inaugurou sua fábrica de celulose em Eunápolis (BA) num invesvimento de US$ 1,250 bilhão. A Suzano também estaria investindo US$ 1,3 bilhão na ampliação e modernização de sua fábrica de Mucuri (BA). No corpo da reportagem há um box interessante. Sob o título “Cultivo foi tábua de salvação para a Área”, há duas declarações emblemáticas. Uma do Presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Extremo Sul da Bahia, Darilo Carlos de Souza. Segundo ele “ cultivar eucalipto foi a tábua da salvação porque plantar eucalipto rende cinco ou seis vezes mais que criar gado ou tirar leite”. Já o secretário da Indústria e Comércio de Teixeira de Freitas (município do sul da Bahia), Antonio Eccher, disse que “o fomento é uma tentação para os pequenos agricultores”.

    “Acho que a maioria vai se arrepender. Posso dizer que o projeto da monocultura do eucalipto NÃO TRAZ NENHUM RETORNO SOCIAL ( grifo meu) para o município porque as empresas só querem saber de lucrar muito, e não se preocupam com o futuro”.

    Coloquei o grifo porque, de fato, não vi nenhum projeto social das empresas de reflorestamento seja no sul da Bahia, seja no Espírito Santo. Menciono neste diário a reserva de Mata Atlântica que vi da Companhia Vale do Rio Doce, que atua neste Estado, sabe dos prejuízos e impactos ambientais de suas ações e, em contrapartida ao menos, se impôs o dever de manter esta reserva, aberta ao público, com um importante canteiro de mudas de árvores da Mata Atlântica para amenizar áreas muito degradadas. Mas das empresas reflorestadoras não vi nada parecido.

    E assim o eucalipto acaba tomando o lugar das árvores nativas, mesmo nestas alturas inimagináveis. Ok, as florestas plantadas amenizam a pressão que sofrem as nativas, mas que é feio ver uma planta sem graça e monótona tirar o verde pujante e a biodiversidade da Mata Atlântica, isto não tenho dúvidas. Mesmo assim gostei da viagem e recomendo: quem puder que visite a Serra capixaba. Vale a pena.

    No Museu nos esperava o diretor, Hélio Boudet Fernandes, que nos mostrou tudo ao redor. Foi aqui que nasceu e viveu este pioneiro ambientalista, Augusto Ruschie, que passou a vida denunciando o processo de desertificação que ameaçava o norte do Espírito Santo em função da derrubada da mata nativa (que nós acabamos de constatar). Não ouviram seus dramáticos apelos. Hoje o Estado conta com apenas 30,28 % da sua capa vegetal original…Mas o parque do Museu é uma beleza. Árvores imensas, uma quantidade impressionante de pássaros, especialmente beija- flores, o xodó do naturalista. E ainda animais, insetos, anfíbios, enfim, um pouco da formidável vida que existe no entorno. No acervo do Museu estão cerca de 7.300 exemplares de aves, entre os quais 1.700 beija- flores, 2.700 mamíferos, 4.000 anfíbios, e 1.600 répteis. Na área de botânica a coleção chega a 24 mil amostras de plantas. Também há uma formidável biblioteca que reúne considerável coleção de títulos voltados para as áreas de Ciências Biológicas. Adorei ter conhecido um pouco da obra deste visionário defensor da natureza, muito antes de ser moda ou politicamente correto fazer isto, e que, além de tudo, tinha um bom gosto fenomenal. Basta conhecer a área onde ficava sua casa, entre rios, árvores, e muita vida animal. Ruschi gostava especialmente de beija- flores e orquídeas, duas das jóias da Mata Atlântica, e teve papel fundamental na criação de áreas de conservação no Estado, além de alertar a sociedade sobre os impactos ambientais de grandes projetos industriais. Ele morreu na década de 80, e foi enterrado aqui, o lugar de que mais gostava, na Reserva Santa Lúcia, justamente no Dia Mundial do Meio Ambiente, 3 de junho de 1986.

    Terça feira, 25- 04- 2006.

    Hoje conseguimos subir o morro no topo do qual foi erguido o Convento Nossa Senhora da Penha, cuja construção começou ainda no século 16. Um espetáculo por dentro e por fora. O convento nasce em cima da pedra com paredes que sobem ainda mais para o alto, como se quisesse chegar no paraíso, provavelmente para ficar mais perto Dele. Por dentro é uma beleza, com altares em madeira ricamente trabalhados, e enormes quadros de Benedito Calixto em seus corredores. Pela brutal dificuldade de se construir algo daquela magnitude, e em lugar de tamanha complexidade de acesso, o Convento acaba por ser uma testemunha, e homenagem viva, à engenharia e obstinação da sociedade da época. A vista lá de cima é impressionante e não recomendada àqueles que sofrem de vertigem. De arrepiar os cabelos.

    Em seguida correria. Devolução do carro alugado, supermercado, embarque, acomodação de dezenas de itens entre víveres e pequenas utilidades, e vamos em frente.

    Antes de descer a costa tínhamos que gravar a Baía de Vitória que é poluída por metais pesados. Queríamos navegar perto do porto de Tubarão, da Vale do Rio Doce (responsável pela poluição), e também ver o outro porto da cidade, do lado oposto da baía. Por último havia os mangues do entorno e do fundo quase totalmente ocupados por populações de baixa renda. Dizem que agora estão em pleno processo de urbanização.

    O porto de Tubarão exporta minério de ferro que chega aqui em forma de lâminas. Como o vento é muito forte em certas épocas do ano, acaba levantando e carregando componentes do minério que poluem a capital e a baía. No passado cansei de ver. Ou será não ver? De todo modo quase não se enxergava Vitória, mesmo de dentro da baía, tal a quantidade de minério envolvido no ar sempre com aparência densa. Um fluído leve por natureza, aquele ar parecia pesado e opaco. Mais recentemente a companhia reflorestou a margem da baía onde fica o porto, na tentativa de diminuir a quantidade de minério levado pelo vento. Melhorou, mas não resolveu totalmente.

    De Tubarão, que fica na extremidade norte, fomos para o sul da baía, onde fica o outro porto. Ele é enorme, e fica em um canal onde de um lado está a cidade, e do outro as formações rochosas, com cais de atracação em ambas as margens. Quando chegamos no final descemos o bote de borracha e fomos de motor de popa gravar o mangue e as favelas em volta. Cena triste. Feia. Mais um atestado da péssima distribuição de renda do Brasil.

    Como sempre acontece os sem casa vão se instalar e construir seus casebres na periferia da cidade. No caso das litorâneas, como Vitória, um destes lados dá sempre no mar, ou em lagamares cobertos de mangues. E eles acabam aterrados e ocupados por milhares de pessoas, sem que haja condições mínimas de higiene, segurança, esgotos tratados, coleta de lixo, etc. Aqui em Vitória a prefeitura desenvolve agora um programa de urbanização que foi mencionado como sendo um bom exemplo pelos professores que entrevistamos na UFES. Mas porque agir sempre depois? A obrigação do Estado era planejar, estar na frente, dar os caminhos, não apenas pavimentá-los ou remendá-los, depois que a necessidade obrigou os moradores a abrí-los.

    Terminamos as gravações já tarde. Eu queria ir hoje para Guarapari, mas não vai ser possível. Temos 20 milhas (uma milha = 1852 metros) de navegação. Se sairmos agora chegaremos de noite. E não se deve fazer isto quando não se conhece perfeitamente o local de ancoragem. Por aqui há bancos de recifes, pedras, lajes, etc. Melhor dormir ao abrigo do Iate clube e seguir viagem amanhã de madrugada.

    Quarta feira, 26- 04- 2006.

    Começamos a navegar às cinco e meia da manhã, tão logo o dia amanheceu. E viemos tranqüilamente no motor mais uma vez. Não havia vento suficiente, só um lestezinho que não passava dos 10 nós, muito pouco para nós. Quando eram quase oito da manhã estávamos entrando na baía de Guarapari, que em Tupi Guarani quer dizer “reunião de Guarás”, aquela famosa e bela ave, da família dos flamingos, vermelha, que eram abundantes no litoral brasileiro, mas que o progresso acabou por quase erradicar de grande parte da nossa costa. Hoje são encontrados mais no norte do país, como já falamos nestes diários, e em poucos locais determinados da costa sudeste e sul.

    Guarapari é o mais famoso balneário do Espírito Santo, freqüentado não só por capixabas, mas por muitos mineiros e também cariocas. Super adensado, prédios enormes na orla, aquela coisa já mais conhecida do sudeste. A população é de 85.500 habitantes que ocupam 24.500 domicílios. Apenas 35% têm seus esgotos tratados, já o lixo é coletado em 85% (dados do IBGE 2000). Em cada temporada outras milhares de pessoas se hospedam por aqui aumentando em muito as estatísticas. Então é mais lixo, cocô, e xixi despejados “in natura” no mar. Este é mais um problema recorrente da costa. A absoluta falta de estrutura das cidades turísticas do litoral. E o “gap” aumenta mais rápido que a capacidade de investimento do Estado, apesar da brutal carga de impostos. Mas é aquela história: o Estado é perdulário, gasta mal seus recursos. Acaba sobrando muito pouco para obrigações básicas como saneamento. Depois, pela falta dele, ainda se aplica outro tanto para a saúde pública em tratamento de doenças como diarréia, cólera, irritações de pele, e problemas bem mais sérios, como mortalidade infantil. Uma das causas destas doenças não é outra senão a falta de saneamento básico.

    Demagogia dá nisto. Muito papo e pouca ação. Este aliás é um fenômeno mundial. De acordo com a ONU há 2,6 bilhões de pessoas que carecem de banheiro em suas casas. 75% delas na Ásia, 18% na África, e 5% na América Latina e Caribe. Ainda segundo as Nações Unidas, por ano mais de 2 milhões de meninos e meninas morrem por doenças relacionadas à falta de saneamento, como a diarréia, por exemplo.

    E mesmo no Estado mais rico da Federação, São Paulo, a coisa não é lá muito melhor. De acordo com o presidente da Sabesp (maior empresa de saneamento do mundo), Dalmo Nogueira, “o Governo Federal anuncia que bilhões foram investidos em saneamento quando na prática isto não acontece”. Segundo Dalmo, “eles colocam no orçamento mas no primeiro dia útil do ano contingenciam mais de 90%”.

    Mas vamos voltar pra nossa navegação. Ou não paro mais.

    Queríamos entrar numa baía ao norte de Guarapari, a enseada do Perocão, mas não há profundidade suficiente, além de vermos lajes e recifes na entrada. Teríamos que fundear uma milha para fora pelo menos. Desistimos.

    No Iate Clube de Vitória tinham nos recomendado fundear do lado norte da baía de Guarapari, próximo ao morro da Pescaria e, de fato, vimos alguns veleiros e barcos de pesca neste canto. Mas ao nos aproximarmos da praia um barco grande saía do Canal de Guarapari, do lado sul, que corta a cidade, e onde há um píer para barcos de turismo do tipo escunas. Então resolvemos seguí-lo e entramos sem problemas, a profundidade não ficou abaixo dos três metros. Atracamos a contrabordo de uma destas escunas, pouco antes de uma ponte. Aqui estamos bem protegidos contra qualquer tempo, mesmo o sudoeste.

    Nossa intenção ao descermos até Búzios é entrar ainda, pela ordem, em Meaípe, Anchieta, Itaipava, e Marataízes, já próximo da fronteira com o Rio de Janeiro. De Guarapari até nossa última escala não temos mais que 30 milhas. Em seguida serão mais 130 até Búzios, o ponto final desta viagem. Temos pouco tempo e muita água (e continente) para ver. Precisamos ser rápidos.

    Para começar, logo depois da atracação, eu e Cardozo subimos o canal para ver como anda sua ocupação. A faixa de mangue que cerca suas margens é extremamente rala, uma ou duas fileiras de árvores, no máximo, e já atrás a terra é pelada. Virou pasto. Fechando a nossa paisagem estava a Serra do Mar, um pouco mais para o interior. Mas dava para ver que suas encostas hoje estão nuas. Não têm árvores ou arbustos, mas capim ou vegetação rala. É impressionante a perda de mata nativa neste Estado. Ainda tive outro desgosto. Nas margens do canal, depois de uma fileira de casas de veraneio com seus barcos na porta, vi muitos pinus plantados onde antes havia mangue. Até na beira de rios eles plantam esta árvore sem graça, típica de climas frios. E não é reflorestamento. Estou falando de algumas fileiras de pinus, plantadas à guisa de cerca viva. Desde o Ceará temos visto este uso para o pinus nas praias. Acho horrível esta inversão. Ao invés de árvores da Mata Atlântica, típicas, lindas, e de todos os tipos, plantam esta droga. Meu Deus, que mau gosto!

    Na volta arrisquei um currico, mas não fisgamos nada apesar dos pescadores dizerem que tem muito robalo no rio. O problema é que só são atraídos por isca viva, neste caso o camarão, que não tínhamos. Deu pra divertir pelo menos.

    Na volta ainda havia luz suficiente, então fomos de táxi até a enseada do Perocão. Mais uma vez não gostei do que vi. As praias aqui já têm pouca areia, são ainda mais frágeis que as demais, mesmo assim parece que as cidades foram erguidas por “amantes” do mar. As ruas começam poucos metros depois da arrebentação. E a erosão se manifesta, claro. Derruba muros, calçadões, casas, o que tiver. Cheguei a fotografar um poste de luz, de cimento, em plena areia, levando ondas seguidas em sua base. Quanto tempo vai levar para cair? Um ano? Talvez menos. Então o poder público coloca outro que também vai desabar e assim sucessivamente.

    Pior foi encontrar duas enseadas privatizadas. Isto mesmo. Áreas públicas que foram apropriadas por alguns poderosos em benefício próprio. Não se pode alcançá-las a pé ou de carro, só de barco. Uma é conhecida como Três Praias, que fica depois da ponta do Boião. Ali um grupo empresarial investiu para construir um resort com cassinos, assim nos contaram. Aconteceu há dois anos. A obra foi embargada mas o portão fechando a estrada, única forma de acessar a praia, permaneceu intacto. Trancado com correntes e cadeados.

    A outra também privatizada virou um condomínio dos “muito ricos”, segundo disse o motorista do táxi. É o condomínio Aldeia da Praia. Na entrada do acesso principal colocaram uma guarita com portão para afugentar quem quer entrar. Tentamos passar mas fomos barrados. Só com convite de algum morador, nos falou o guarda. Argumentei que praias são áreas públicas por isto não poderiam ser fechadas. Nosso amigo então sugeriu que fôssemos por outro caminho. Seguimos seu conselho e chegamos numa pracinha com um muro onde havia um portão que dava para o mar. À direita ficava o condomínio, mas para ir até suas praias só escalando um paredão de pedras. Ou seja, as praias estão abertas ao público por esta via tortuosa, desde que o visitante seja um misto de atleta-alpinista, caso contrário desiste. Um absurdo. E outro erro recorrente que vimos no Nordeste. Em Alagoas há casos iguais, mas não só lá.

    Quando voltamos para bordo Alonso contou que tinha acabado de falar com a mulher, Julia, que mora em Santos. Ela relatava a entrada de uma frente fria com ventos de até 50 nós. Vixe! Se for isto mesmo danou-se. Amanhã ela está aqui e vai deixar o mar e os ventos na nossa cara, sem falar que não há abrigos pelo caminho. Vou checar na internet.

    Quinta feira, 27- 04- 2006.

    Ainda ontem de noite confirmei que a frente não tinha a violência dos tais 50 nós, mas era parruda o suficiente para brecar nosso avanço por dias. Não dá pra pegar 130 milhas de contra vento se não for por necessidade muito urgente, ou falta de opção. E nós temos uma que é ficar aqui onde estamos. Guarapari é o único destes lugares abrigado para todos os ventos. Os outros pontos da costa são abertos para o sul, rasos, e têm pedras. Não vale a pena correr o risco. Por isto resolvemos alugar um carro novamente, e tocar direto para Marataízes, o ponto derradeiro que queríamos visitar.

    Com pouco menos de uma hora estávamos chegando. Marataízes é mais um balneário do litoral sul que recebe nos picos do verão uma quantidade considerável de turistas. A cidade tinha sido citada pela professora Jacqueline Albino como exemplo de ações antrópicas desastrosas praticadas pelo Estado. E é mesmo. Simplesmente a estrada litorânea passa por cima de uma região de falésias, tidas como APPs, Área de Proteção Permanente, que não deveriam ser ocupadas. Até agora, nesta viagem, não tinha visto semelhante crime ambiental perpetrado por quem deveria protegê-lo, o Estado. Fiquei estarrecido quando vi os sulcos nas falésias. Elas são antigas linhas da costa que a regressão do mar, em eras passadas, deixou de fora, realçou. São formadas por camadas de areia sujeitas a desmoronamento, mesmo assim a estrada rasga as falésias e coloca asfalto em faixas sobre ela. Ao mesmo tempo algumas paredes dão o troco. As obras ainda nem terminaram e elas já começam a desmoronar sobre a pista de rodagem (vide fotos). Há vários desbarrancamentos pelo caminho. E outros tantos acontecerão, podem ter certeza. Até o Baunser (meu labrador debilóide) já sabe que isto acontece. É tiro e queda. O Estado do Espírito Santo, no entanto, parece que faltou nesta aula.

    E não foi por falta de exemplos. Calçadões foram construídos na orla, em uma praia totalmente aberta para o mar e desprotegida. Desabaram em seguida. Jazem na areia toneladas de grossos pedaços de cimento. Mas eles insistem e reconstroem. Quase todas as vilas e cidades do litoral sul são grudadas na praia ao lado da arrebentação. Desde o Amapá não vi nada parecido, com cidades ou vilas tão próximas do mar e sujeitas à erosão.

    De Marataízes começamos a voltar. Nossa primeira parada foi Itaipava, uma comunidade pesqueira empreendedora e vitoriosa, um caso raro no litoral brasileiro. Quem nos falou a respeito foi o oceanógrafo Agnaldo Martins, da Universidade Federal do Espírito Santo. Fomos conferir.

    Segundo Agnaldo estes pescadores investiram em tecnologia, compraram novos equipamentos como sondas, GPSs, rádios potentes, etc, e começaram a expandir a área em que pescavam. Hoje muitos dos barcos pescam do Rio Grande, no extremo sul do Brasil, até Belém.

    Conferimos estas informações em entrevista com Geraldo Buarque da Cunha, diretor da Associação de Pesca. Ele confirmou os investimentos da frota, e disse mais. Explicou que a SEAP ( secretaria especial de aquicultura pesca , ligada à Presidência da República), introduziu um empréstimo subsidiado, que permite que mestres e pescadores possam comprar parte do barco de seus patrões, e esta ação teria sido uma das que deu coragem aos pescadores e armadores daqui para continuarem acreditando e investindo. Muitos equipamentos de ponta foram adquiridos com este financiamento feito através da Pronaf ( Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), com recursos do Banco do Brasil. Já a Associação promove cursos para Mestres de barcos de pesca entre outros, e todos os pescadores têm carteira assinada. Ao mesmo tempo o Governo do Estado começou a construção de um píer para a frota pesqueira. O molhe que vimos (vide fotos) é a primeira fase deste projeto. Até dois anos atrás não havia nada. Os barcos ficavam ao sabor dos ventos e das ondas que entravam direto. Houve mais. O governo estadual ainda deu isenção de ICMS para o óleo diesel, um dos maiores gastos dos armadores. E a indústria soube aproveitar. Os barcos começam a procurar o pescado mais longe, por isto hoje estão em toda parte da costa brasileira. Ao todo são cerca de 300 embarcações. Segundo Geraldo 30% têm como proprietário o próprio mestre, os outros 70% são de armadores que têm, entre um, e três barcos em média. A maioria é de propriedade de empresários do Espírito Santo, mas há outros do Rio, São Paulo, e até um americano.

    Em média cada barco leva sete a oito tripulantes, o que daria um total de 2.400 empregos diretos. Se pensarmos que cada um tem pelo menos três dependentes, chegaríamos em 7.200 pessoas, sem falar na indústria que corre paralela, dos carpinteiros navais, pintores, calafates, entrepostos pesqueiros, indústria de gelo, etc. Com estes dados pode-se imaginar o número de pessoas que vivem da pesca só nesta cidade. Não são poucos.

    Perguntei sobre as espécies mais pescadas. A resposta veio na lata: atum e dourado, mas também pescam o badejo e cherne, especialmente próximo às plataformas de petróleo da costa capixaba. Elas agem como um atributo para mais peixes, seja pelos pilares fincados no mar, onde a vida marinha se agarra, através de algas, que atraem peixes pequenos, que viram alimento para os maiores, etc, seja através do próprio ruído industrial que acaba despertando a atenção de mais vida marinha. A produção anual dos pescadores de Itaipava gira em torno das duas mil e quinhentas a três mil toneladas, e eles já foram considerados o segundo entreposto pesqueiro da costa brasileira em termos de produtividade. O primeiro colocado é de Santa Catarina.

    Perguntei como eles encaram o futuro já que a pesca está ameaçada no mundo todo. Geraldo fez então um longo arrazoado, explicando que antes se pescava com barcos à vela, que por isto mesmo não iam muito longe. Depois vieram os movidos a motor com equipamentos modernos que descobrem cardumes no fundo do mar, e os barcos de outros países que freqüentam nossa costa ilegalmente (ele conta que a colônia já denunciou barcos coreanos, pescando a menos de 80 milhas da costa do Estado, portanto em águas territoriais brasileiras). Por isto, segundo Geraldo, “os peixes estão cada vez mais longe da costa”. E prosseguiu: “ a cada dia temos mais pescadores e menos pescado”. Perguntei se era só pela modernização das frotas. “Não. Falta fiscalização. Muitos barcos pescam peixes abaixo do tamanho mínimo recomendável, furam defesos, etc”. E por estes motivos ele se esquivou de responder quando perguntei se a tendência é a frota crescer ainda mais. Preferiu dizer que é preciso pescar com mais atenção, com mais qualidade.

    Aproveitei que estava com ele para perguntar sobre o que me disse o Oceanógrafo da UFES. Segundo este professor que entrevistamos em Vitória, há uma suspeita por parte dos pescadores de Vitória que o Peroá ( peixe porco), muito pescado por aqui, teria desaparecido por efeito da sísmica provocada por “navios chupa- cabra”. Estes navios fazem prospecção de petróleo, e para tanto emitem ecos que se aprofundam no leito oceânico, sendo muito violentos e agressivos. Geraldo confirma a presença destes monstros na costa capixaba. Diz que a maioria deles, do mundo inteiro, esteve, ou está por aqui, em razão da “abertura” da extração de petróleo, mas acha que a falta do Peroá se deve mais a sobrepesca que a sua presença. Pelo sim, pelo não, diz que os barcos de Itaipava avisam via rádio sobre a presença destes navios em trechos da costa brasileira de modo que os outros evitem a área.

    Nos despedimos depois da entrevista, e tocamos para Anchieta, outra cidade costeira do Estado, fundada pelo Apóstolo do Brasil, e que guarda algumas de suas relíquias. Digno de registro é o mesmo fenômeno de falta de sedimentos nas praias, além da vila mais uma vez ter sido erguida ao lado da arrebentação. Quando chegamos era maré cheia e as ondas quebravam quase na avenida principal. Fora este detalhe há uma belíssima igreja e convento onde estão guardados os restos do beato.

    Pé na estrada de novo. Vamos subir em direção ao sul, seguindo a direção de Guarapari, até chegarmos em Meaípe, uma belíssima enseada, já bastante ocupada, mas que conserva sua beleza natural. É mais uma praia cheia de casas de alto padrão de moradores de Vitória que fazem dela seu local de veraneio. No caminho passamos pelo terceiro porto do Espírito Santo, mais um da Vale do Rio Doce, o porto de Ubu, no meio do caminho entre Anchieta e Meaípe. Ele emprega muita gente, sem dúvida, e gera divisas, mas é mais um que exporta minério de ferro, aumentando a forte pressão industrial na costa capixaba. São três portos só neste Estado!

    No caminho algumas falésias vivas, ou seja, ainda talhadas constantemente pela água do mar. E as praias estreitas sempre com esta areia de cor peculiar, meio alaranjada, e muitos pinus plantados como cercas vivas, infelizmente.

    Concluímos esta viagem retornando para Guarapari. Acabamos fazendo de carro o que pretendíamos fazer de barco por causa da frente fria. Esta é também a primeira vez, desde que começou nossa aventura, que usei casacos e dormi com cobertor. Estamos não só entrando em áreas mais temperadas, como fazendo isto na mudança de estação, já na Primavera. Me pergunto como será quando chegarmos no sul em pleno inverno? Nunca me aventurei muito para aquelas bandas, conheço o litoral só até Santa Catarina, mesmo assim a única vez que estive lá de veleiro foi em pleno Verão. Pelo visto vamos ter que nos adaptar.

    Já aqui, de volta ao Mar Sem Fim, atracado ao lado de uma escuna, nos esperava nosso companheiro Alonso Góes. Ele havia conversado com o mestre da escuna sobre meu hobby de colecionar miniaturas de barcos da costa brasileira. E este não perdeu tempo.

    Tão logo embarquei ele me mostrou um modelo de escuna muito bem feito, caprichado, e ainda por cima com suas velas armadas, o que é raro. Comprei sem discutir. E chamei o artesão para uma entrevista. Através dele descobri outro artista que mora em Meaípe, cuja especialidade são barcos de pesca. Imediatamente retornei ao carro e toquei para lá. Indagando descobri onde morava o cidadão. Mais ou menos onde Judas perdeu as botas. Mas cheguei lá. E fiquei de queixo caído pela exatidão do modelo. Poucas vezes vi um tão rico em detalhes e tão perfeito na escala. Uma jóia. O cidadão, de nome João, não é um artesão, mas um modelista, tal a pefeição das miniaturas que faz. Demorou algumas horas a discussão sobre o preço, mas saí com ele debaixo do braço. E feliz da vida por terminar mais uma etapa com recordações tão singelas, feitas por esta gente criativa que só de morar perto do mar e observar, aprende a fazer.

    Amanhã voltamos de avião, via Vitória. Assim que passar os efeitos da frente fria Alonso leva o veleiro para Búzios. Nossa próxima etapa começa lá.

    Vamos fazer mais dois programas: um sobre Búzios, este notório balneário, e outro sobre Macaé que hoje desfruta dos benefícios dos royalties que a Petrobrás lhe paga por extrair de seu litoral grande parte do Petróleo que produz. Então rumaremos para o Rio de Janeiro, já pertinho de casa.

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