Mar Brasil, de Frederico Brandini

0
49
views

Frederico Brandini, do IOUSP, lança livro com crônicas escritas para o site O ECO

A baleia foi a primeira commodity do comércio global. A carne destes animais era salgada para consumo; a banha era usada na fritura e conservação de alimentos; as barbatanas bucais eram usadas em armação de vestidos e espartilhos; os intestinos davam o âmbar, o principal fixador de perfumes; toda a iluminação pública e doméstica nas capitais e vilas da Europa era feita à base de óleo de mamíferos marinhos, bem como a lubrificação de ferramentas e máquinas da Revolução Industrial.

Mar Brasil, de Frederico Brandini, capa de livro mar brasil

A paixão pelo mar aos oito anos

Brandini conta que sua paixão pelo mar começou cedo, aos oito anos, quando ganhou de seu pai uma canoa caiçara, construída por um dos mestres de Ubatuba. Com ela, em 1962, o menino atravessava a arrebentação e seguia até os costões rochosos quando, com uma máscara, snorkel, pé-de-pato, e uma fisga de três pontas,

prendia a respiração e mergulhava por entre as pedras. Me sentia como Mike Nelson, do seriado Viagem Submarina. Até os oito anos não me lembro de nada que me fizesse sentir tão livre e tão dono do mundo.

Os mergulhos impressionaram. Brandini estou biologia e hoje é oceanógrafo, diretor do Instituto de Oceanografia, da USP.

Cerca de 70% da população brasileira vive perto do mar, e, direta ou indiretamente, utiliza seus recursos de diversas formas. A pesca artesanal, esportiva e industrial, o turismo e os recursos minerais incluindo petróleo, transporte naval, obras oceânicas e construções ao longo da orla marítima, representam uma fração significativa do PIB Nacional.

A ignorância de políticos, empresários e educadores, um dos piores problemas

Desde os tempos universitários venho acompanhando de perto o impacto negativo que o desenvolvimento socioeconômico  dos últimos 30 anos provocou, e ainda provoca, em nosso mar. A total falta de reconhecimento por parte de quase todas as esferas da administração pública, dos políticos, empresários e educadores sobre a importância do mar para sociedade brasileira ameaça a integridade física e biológica dos ecossistemas marinhos.

Os primeiros invasores datam do período da descoberta

Com 300 páginas, fotos de Marcelo Skaf, e textos explicativos de Juliana L. Gonçalves, todos oceanógrafos, o livro recorda o início da degradação do Litoral, ainda no século 16

começou a invasão de espécies exóticas agarradas ao casco das caravelas. Assim que sentiam o decréscimo da salinidade na costa brasileira, lançavam suas larvas invasoras contaminando a teia alimentar local. Hoje fazem parte da paisagem submarina de nosso litoral.

Histórico da devastação

Em seguida, explica, começou a devastação da Mata Atlântica e, mais recentemente, as margens dos rios que deságuam no mar. Com a expansão urbana e industrial, veio a poluição. Nossas baías estão ameaçadas pela expansão urbana. Manguezais, fundamentais para inúmeras espécies de peixes e crustáceos, estão sendo devastados no Nordeste pela carcinicultura, a criação de camarões em cativeiro.

Não adianta alertar os maricultores, na maioria industriais, sobre o que aconteceu no Equador que cometeu o erro de devastar seus manguezais para substituí-los por fazendas de camarão. Como nas monoculturas o desequilíbrio ambiental trouxe doenças que devastaram grande parte da produção, além de prejudicar a pesca artesanal.

(Se você quer saber como é a carcinicultura no Nordeste, assista este programa)

E assim, numa linguajem simples, de um contador de histórias, Brandini explica o impacto do homem sobre a biodiversidade marinha; fala das populações tradicionais; de clima e circulação oceânica; da energia do mar; e ainda conservação e educação ambiental.

O Canadá dá subsídios para o pescador NÃO pescar

Ensinando que nossas águas temperadas são pobre em biomassa pesqueira, Brandini indaga:

de que adianta subsidiar o pescador com óleo diesel e construção de barcos de pesca se a quantidade de peixes não é suficiente para todos os que pescam?

E condena os “programas paternalistas”

envolvem subsídios, não são auto-sustentáveis e não geram autonomia. O Canadá dá subsídios ao pescador não para pescar, mas para montar uma padaria, uma oficina especializada, bolsa de estudos para os filhos, etc.

O livro é gostoso de ler e ainda ensina

O recado das crônicas de Brandini é claro: não podemos continuar ignorando os problemas causados pela ocupação do litoral, a poluição, a devastação de ecossistemas. É preciso mais seriedade, uma agenda de longo prazo, planejamento, entre outros. O livro é gostoso de ler. Fácil, são crônicas curtas, e extremamente educativas. Aborda quase todos os assuntos relacionados ao mar e ao litoral. Uma ótima contribuição. A palavra de especialistas, em português, é coisa rara.

E ainda é ilustrado com fotos deslumbrantes de Marcelo Skaf.

Mar Brasil, de Frederico Brandini, imagem submarina de uma arraia
Foto: Marcelo Skaf

Ao final, na última página, um recado de Juliana Gonçalves sobre nosso modo de vida. Ela buscou inspiração no economista francês Serge Latouche.

Para onde vamos? De cara contra o muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré, sem freio, que vai se arrebentar contra os limites do planeta

E completa:

Em busca da felicidade utópica

O enorme lixão no qual os oceanos estão se transformando é alimentado pelo nosso modelo atual de sociedade, economia, e estilo de vida. Em um mundo no qual se almeja o crescimento econômico infinito e o consumo ilimitado de bens e serviços em busca de uma felicidade utópica…Resta ao ser humano fazer uso de seu engenho para desacelerar esse bólido e, com esperança, encontrar a tão necessária marcha a ré.

SERVIÇOS

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here