The Beaches Are Moving: o livro que previu o caos na costa

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The Beaches Are Moving: o livro que previu o caos na costa

Em fins dos anos 1970, quando a erosão costeira ainda aparecia pouco no noticiário, um livro já apontava o erro que continua de pé. The Beaches Are Moving reuniu dois autores que sabiam do que falavam: Wallace Kaufman, ligado ao ativismo ambiental, e Orrin H. Pilkey Jr, geólogo costeiro que se tornaria uma das vozes mais respeitadas dos Estados Unidos no estudo das praias. Juntos, eles mostraram que a costa não para.

Capa do livro The Beaches Are Moving

As praias recuam, avançam, afundam e mudam de forma. Mesmo assim, prefeitos, governadores e empreendedores continuam tratando a beira-mar como se fosse um lote urbano estável. Décadas depois, um estudo da Rede Braspor ajuda a entender por que esse erro se espalhou tanto e como o turismo, o veraneio e a ilusão de uma costa imóvel agravaram a ocupação litorânea.

Um livro antigo, um aviso atual

A edição hoje mais fácil de encontrar é a da Duke University Press, publicada em janeiro de 1984, com 336 páginas, na série Living with the Shore. Mas a obra é anterior. Referências bibliográficas e textos acadêmicos situam a primeira edição em 1979. Essa diferença importa porque mede a força do alerta. The Beaches Are Moving não surgiu depois da atual onda de preocupação com o litoral. Ao contrário, nasceu décadas antes.

Capa original do livro The Beaches Are Moving.
Capa original do livro The Beaches Are Moving.

A apresentação da Duke resume a tese central com brutal clareza. As praias sofrem erosão, afundam e desaparecem sob casas, hotéis e pontes. Ao mesmo tempo, muros de contenção, aterros e espigões entram em cena numa defesa frenética contra um sistema natural em movimento. Assim, o desejo romântico de viver à beira-mar entra em conflito com um velho padrão de migração das praias.

The Beaches Are Moving e a ilusão de fixar a praia

O mérito maior do livro, que quase nenhum prefeito brasileiro leu, ou lerá, está em desmontar uma fantasia que segue viva. A praia não é imóvel. Nunca foi. Ela se move porque esse é o seu modo de existir. Quando o poder público ignora isso e autoriza ocupação pesada em áreas frágeis, o resultado costuma ser o mesmo: erosão, perda de areia, destruição da paisagem, gasto público e novas obras vendidas como solução. No fim, o que parecia progresso vira remendo.

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Erosão em praias norte-americanas.
Tanto lá, como aqui, desafiar as praias resulta em perda patrimonial do Estado e particulares, massacre da paisagem, e perda de biodiversidade marinha.

Em Santa Catarina, a desculpa da ignorância não cabe. Professores da UFSC avisaram o poder público, com clareza e antecedência, em duas notas técnicas – Nota Técnica PES n°05/2025 e a NT Nota Técnica PES 2023. Explicaram os riscos, questionaram os projetos e mostraram que essas intervenções não entregam o que prometem. Ainda assim, prefeitos e gestores seguiram adiante. Portanto, não erraram por falta de informação. Erraram porque quiseram. Preferiram a propaganda imobiliária à ciência, o marketing de curto prazo ao interesse público, e a valorização artificial do metro quadrado à proteção da costa.

O pior é que essa irresponsabilidade já faz escola. De tanto as prefeituras alardearem as engordas de praias como troféu político e vitrine para vender um litoral de cartão-postal, a prática começa a se espalhar para outros Estados, como Paraná e Rio Grande do Norte. Ou seja: não bastava insistir no erro. Resolveram exportá-lo.

A casa ideal para uma praia é uma tenda

No texto da Rede Braspor há uma passagem especialmente feliz, retirada do livro. Kaufman e Pilkey resumem sua tese com uma imagem simples e devastadora: a casa ideal para uma praia é uma tenda. Faz sentido. A tenda ocupa pouco espaço, pode ser removida com rapidez e interfere menos num ambiente que vive em movimento. Já casas, hotéis, condomínios, avenidas e obras fixas fazem o contrário. Elas pesam, endurecem, travam a dinâmica natural e, mais cedo ou mais tarde, entram em choque com ela.

A frase vale quase como síntese de The Beaches Are Moving. A praia aceita estruturas leves e passageiras. O concreto, não. Por isso, toda vez que o poder público aposta no concreto, repete o erro que o livro denunciava no fim dos anos 1970. O resultado é conhecido: mais erosão, mais gasto público, mais destruição da paisagem e novas intervenções vendidas como salvação.

Perderam-se o medo e a memória

O texto da Rede Braspor também ajuda a enxergar o problema em perspectiva histórica. Durante séculos, o mar e a costa despertaram medo. Por isso, as pessoas conheciam os riscos, calculavam os perigos e, sempre que possível, evitavam a ocupação. No entanto, isso mudou em pouco mais de um século. A orla ganhou novos usos, as construções se multiplicaram e muita gente passou a imaginar uma linha de costa fixa, como se ela pudesse permanecer imóvel para sempre. A partir daí, a técnica e a engenharia tentaram domesticar o litoral.

Foi então, como observa a autora, que se perderam o medo e a memória. Esqueceram-se os perigos. Desde então, viver junto ao mar, com segurança permanente, virou uma ilusão do século XX. Agora, porém, a erosão costeira, o fracasso repetido das obras de contenção e a subida do nível do mar mostram o contrário. O litoral não se deixou domesticar. Em muitos casos, ele entrou numa situação cada vez mais difícil de controlar.

Do veraneio à antropicosta

O estudo da Rede Braspor amplia o alcance do livro ao mostrar como essa ocupação ganhou força ao longo do século XX. Com a invenção do veraneio, a beira-mar deixou de ser vista apenas como margem instável e passou a ser tratada como espaço de lazer, prestígio e negócio. Aos poucos, muitos trechos do litoral se transformaram no que a autora chama de antropicostas, isto é, faixas artificializadas em nome do turismo, da indústria e da valorização imobiliária.

Assim, o sonho de viver no paraíso começou a produzir o seu avesso. Novos focos de erosão costeira surgiram ao longo de vários litorais do mundo, enquanto a ocupação ultrapassava a capacidade de carga e os limites de resiliência dos sistemas naturais. Em vez de adaptar a presença humana à dinâmica da costa, fez-se o contrário: tentou-se adaptar a costa aos interesses humanos.

Com isso, o litoral virou negócio, vitrine e mercadoria. E, como quase sempre ocorre quando a especulação assume o comando, a conta ambiental não tarda a chegar. O que se promete como progresso termina, muitas vezes, em paisagem banalizada, obras de emergência, gasto público e praias cada vez mais frágeis.

“Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade.”

A frase, atribuída a Nelson Rodrigues, parece feita para o litoral brasileiro. Esta é a luta de hoje: impedir que a ignorância, a especulação e a má gestão terminem de arrasar a costa. Se vencerem, não faltará concreto. Faltarão praia, paisagem e vergonha.

Assista ao documentário baseado no livro

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