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Erosão na praia do Preá: da especulação ao muro contra o mar

Erosão na praia do Preá: depois da especulação, o muro contra o mar

A erosão na praia do Preá, no município de Cruz, no Ceará, expõe o choque entre a ocupação da orla e a dinâmica do litoral. Um vídeo recente mostra a construção de um muro à beira-mar, diante de uma praia que atravessa intenso surte de especulação imobiliária. O plano municipal de Cruz reconhece falhas de fiscalização e registra “ocupações irregulares”, “especulação imobiliária” e “crescimento urbano desordenado”.

Muro para conter erosão na praia do Preá, CE
Imagem, Redes Antissociais.

Agora, o concreto avança como defesa contra as ondas assim como fez na vizinha praia de Jericoacoara. Ambas, pelo mesmo motivo: ocupação em cima de dunas e restingas para as famigeradas casas pé na areia, o equívoco dos Tristes Trópicos. Mas proteger os imóveis significa também proteger a praia? Nem sempre. Um muro pode resguardar as construções e, ao mesmo tempo, agravar a perda de areia como já mostramos. Assim, a tentativa de salvar o patrimônio privado pode comprometer o resto da praia que pertence a todos.

No início dos anos 2000, observei, perplexo, a especulação imobiliária avançar pelo litoral leste do Estado, com construções em áreas proibidas enquanto a fiscalização se omitia. Gradualmente, o ataque se deslocou para o oeste, uma região preservada, onde comunidades de pescadores ocupavam as últimas praias intocadas.

O Mar Sem Fim alertou para essa transformação

Em março de 2022, mostramos como o turismo e a especulação imobiliária transformavam a praia do Preá. O lugar que conheci em 2006, com pescadores e suas canoas de risco, atraía compradores interessados em um “pedaço do paraíso”. Entretanto, a corrida por terrenos ameaçava justamente a paisagem e os modos de vida que tornavam o Preá especial.

A comparação das imagens de 2009 e 2021 mostra a velocidade dessa mudança. Em apenas 12 anos, construções preencheram espaços antes livres e avançaram pelo território. O adensamento salta aos olhos. Embora as imagens não expliquem, sozinhas, as causas da erosão na praia do Preá, elas documentam a dimensão dessa transformação.

Aeroporto e estrada asfaltada em 2018, e licenciamento frouxo a partir de 2019

Como sempre acontece, houve ajuda externa. Assim, em 2018 o aeroporto de Jericoacoara entrou em operação, e a estrada de 10 km até o Preá foi asfaltada. No mesmo ano, o governador Camilo Santana (PT) deu imensa ajuda ao transferir o licenciamento ambiental do Estado para os municípios, era a gota d’água que faltava. São Paulo, de Geraldo Alckmin, João Dória, e Tarcísio de Freitas, também embarcou nesta canoa furada que hoje ocupa topos de morros com cicatrizes da tragédia de 2023. Em seguida, a especulação imobiliária acordou, ainda que em menor escala, com as primeiras vendas de terrenos em áreas de marinha sobre dunas.

Uma coisa traz a outra. Com a chegada de forasteiros portando dinheiro vivo, os nativos seduzidos pela ilusão passaram a vender lotes que não lhes pertenciam e até parte dos terrenos onde viviam, outros cercavam áreas e as revendiam em seguida. Dez, quinze mil reais, eram suficientes para comprar as primeiras posses.  A paisagem bucólica e idílica começou a mudar, assim como os usos e costumes tradicionais.

Percebendo a algazarra, uma facção do Comando Vermelho, que encabeça o tráfico de drogas na vila de Jeri, se instalou no Preá. Hoje, a região é ‘dominada’ por duas facções do C.V.

“Primeira praia planejada do Brasil”

Um investidor paulista conheceu o Preá em 2014, atraído pelo kitesurfe. Em 2020, começou a investir na região. A escala impressiona. “Hoje temos 12 milhões de metros quadrados e direito de preferência sobre outros 8 milhões”, declarou à Forbes. A área inclui cinco quilômetros de frente para o mar. Segundo a CNN, os investimentos podem chegar a R$ 4 bilhões em dez anos. O pacote reúne condomínio de alto padrão, clube de kitesurfe com hospedagem, resort Anantara e hotéis de bandeiras internacionais.

Em julho de 2024, o investidor entregou a primeira fase do Vila Carnaúba, condomínio de alto padrão com 230 lotes avaliados entre R$ 3,5 milhões e R$ 6,5 milhões. Sob a promessa de criar a “primeira praia planejada do Brasil”, o megainvestimento ajudou a desencadear um surto especulativo que transformou a região. O discurso prometia um destino “planejado” e “sustentável”. Mas planejar condomínios de luxo não significa preparar o Preá para a pressão que esses negócios exercem sobre a infraestrutura, a paisagem e a vida dos moradores.

Em dezembro de 2024, voltamos ao tema na reportagem Investimentos no litoral oeste do Ceará causam surto especulativo. Dessa vez, percorri a região, conversei com moradores e empresários e registrei o avanço das construções. As imagens mostravam terrenos desmatados, dunas niveladas, e uma paisagem cada vez mais fragmentada.

Enquanto isso, empreendedores anunciavam condomínios, hotéis, resorts, com “planejamento” e “sustentabilidade” repetidamente na divulgação. O surto especulativo foi de tal ordem que ultrapassou a fronteira do Estado atingindo também o litoral do Piauí. Porém, a infraestrutura, o planejamento e a sustentabilidade, ao que parece, ficaram a ver navios.

A prefeitura de Cruz conhecia os problemas. Quais providências tomou?

A prefeitura não pode alegar desconhecimento dos problemas que agravam a erosão na praia do Preá. Seu Plano de Gestão da Orla identificou ocupações inadequadas. O diagnóstico aponta que barracas ocupam a faixa de alcance das ondas e alteram o transporte de sedimentos. Ou seja, a prefeitura sabia que essas construções interferiam nos processos que movimentam a areia. Mas o que fez diante dessa constatação?

Buscamos informações sobre o muro que avança à beira-mar em páginas da Prefeitura de Cruz, registros de licitações disponíveis nas buscas públicas e publicações sobre intervenções na orla do Preá. Não localizamos documentos que permitam identificar quem executa a obra, quem a financia, qual licença a autoriza ou quais estudos a sustentam. Isso não comprova que os documentos inexistam. Porém, revela a dificuldade de encontrar informações básicas sobre uma intervenção na praia.

A Prefeitura de Cruz precisa esclarecer quem responde pela obra, se ela tem autorização e quais estudos justificam sua construção.

Tentamos contato com a Prefeitura de Cruz por telefone, mas ninguém atendeu. Em seguida, enviamos um e-mail à secretária de Meio Ambiente, Maria José de Farias. Até o momento, não recebemos resposta. Caso a prefeitura se manifeste, atualizaremos o post.

O concreto ameaça o que o turismo vende

O turismo vende a paisagem, mas a ocupação desordenada pode destruir seu principal atrativo. A erosão na praia do Preá expõe esse conflito. Moradores e visitantes precisam da praia, de seus acessos e de seus espaços livres. Proteger esse patrimônio exige controlar a expansão imobiliária e respeitar a dinâmica costeira.

Antes de transformar a orla numa linha de defesa de imóveis, o poder público precisa responder: qual futuro pretende garantir para a própria praia?

Assista ao vídeo e saiba mais

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