Brasil ignora o fundo do mar que ajuda a sustentar sua economia
Foi uma boa surpresa encontrar o artigo ‘Mapear o fundo dos oceanos é uma questão de soberania, especialmente para o Brasil‘, do professor Alex Cardoso Bastos, titular do Departamento de Oceanografia e Ecologia da UFES. O tema, que seduz pouco a mídia, merece ser mais conhecido. Afinal, trata de ciência, economia, defesa e soberania. Cardoso Bastos mostra, ainda, que o Brasil depende do mar, quer ampliar sua Amazônia Azul, mas conhece pouco o território submerso que pretende governar.

Brasil vive do mar, mas pouco conhece o fundo
O ponto central do artigo é simples: o Brasil tem bons pesquisadores e descobertas importantes no fundo do mar, mas faltam investimento, tecnologia e embarcações para aprofundar esse trabalho. É esta a contradição. Neste momento, o Brasil discute com a ONU nova ampliação de sua ZEE, de 3,6 milhões para 5,7 milhões de km², em razão das descobertas de metais de terras raras, entre outros minerais, na Elevação do Rio Grande. Além disso, o País acaba de obter o reconhecimento de mais 360 mil km² na Margem Equatorial. Em outras palavras, o Brasil quer mais mar, mas ainda investe pouco para conhecê-lo.
Vamos recordar, e esta é uma contribuição deste site para a discussão, que o petróleo bruto foi o principal produto de exportação do País em 2025, com cerca de US$ 44,7 bilhões vendidos ao exterior. Mesmo assim, seguimos investindo pouco para conhecer o fundo do mar.
Ainda que o professor, Alex Cardoso Bastos, não detalhe os números do petróleo na balança comercial, ele lembrou que os setores ligados ‘à economia do mar no Brasil — pesca, petróleo e gás, turismo costeiro, transporte marítimo, aquicultura e cadeia de suprimentos — respondem por cerca de 6,4% do PIB nacional e 4,5% dos empregos’. Ou seja, não se trata de assunto lateral. O mar já pesa na economia brasileira. Falta tratá-lo com a mesma seriedade na ciência, na pesquisa e na soberania.
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Pacote antiambiental no Congresso ameaça biomas e fiscalizaçãoMarcelo Vianna: icônica Baía de GuanabaraDNA ambiental revela vida marinha no sul da BahiaAlex Cardoso Bastos também lembra que o mapeamento do fundo do mar não serve apenas à ciência. Portos, cabos submarinos de internet, rotas comerciais e plataformas de petróleo dependem de cartas náuticas precisas. Além disso, sedimentos marinhos acumulam carbono por milênios, enquanto corais de água profunda, fontes hidrotermais e montes submarinos abrigam ecossistemas únicos. Muitos seguem desconhecidos. Não por acaso, quando o Seabed 2030 começou, em 2017, só 5% do fundo oceânico havia sido mapeado com precisão acústica. Hoje são 28%. A meta é chegar a 100% até o fim da década.
Geodiversidade revela onde a vida se esconde
O professor Cardoso Bastos também aponta caminhos. Entre eles, ‘ampliar os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia em Ciências Oceânicas’ e ‘criar incentivos fiscais para que pesquisadores tenham acesso a embarcações privadas de maior porte’. É uma saída pragmática.
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O artigo mostra por que embarcações com tecnologia de ponta fazem tanta diferença. Alex Cardoso Bastos diz que ‘os anos de 2026 e 2027 representam uma janela histórica’ pela vinda do navio Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, que fará expedições no Atlântico Sul Ocidental em parceria com pesquisadores brasileiros e internacionais.
A bordo, explica o professor, equipamentos modernos permitem mapear o fundo do mar, coletar dados e estudar ambientes profundos com precisão que o Brasil ainda não consegue garantir de forma contínua. Você pode ler o artigo na íntegra neste link.
O problema não é apenas científico. É também material. Em 2024, o Mar Sem Fim mostrou que os Laboratórios de Ensino Flutuantes, criados pelo MEC para formar estudantes e apoiar pesquisas em Ciências do Mar, ficaram sem verba de custeio. Os embarques estavam suspensos desde setembro de 2023, mesmo depois de investimento milionário em embarcações. Houve movimentações posteriores, inclusive notícias recentes sobre orçamento e planejamento para 2026. Ainda assim, o diagnóstico permanece: o Brasil tem poucos navios oceanográficos, manutenção cara e financiamento instável para conhecer o próprio mar.