Um negacionista na Casa Branca: o retrocesso ganha o mundo
Um negacionista na Casa Branca não ameaça apenas a política ambiental dos Estados Unidos. Donald Trump oferece uma referência de poder a quem combate a ciência e tenta enfraquecer a proteção ambiental em outros países. Seu discurso encoraja aliados e ajuda a apresentar o retrocesso como defesa da liberdade, da soberania e da economia. O negacionismo já existia, mas ganhou na presidência americana uma poderosa vitrine. Enquanto isso, a crise climática avança, os oceanos aquecem e o litoral acumula ameaças. Se o negacionismo vencer e nada for feito, o resultado final é o colapso, a extinção e o vazio — o apagão da vida na Terra.

O retrocesso também alcança os refúgios da vida marinha. Como mostramos, o autoritário presidente abriu à pesca comercial áreas de monumentos marinhos do Pacífico. A decisão anula conquistas de vários governos americanos e transmite um sinal perigoso: a proteção da biodiversidade pode ceder à pressão de interesses econômicos, mesmo em áreas que o país escolheu preservar.
O retrocesso encontra aliados no mundo
Na Argentina, Javier Milei celebrou em Davos, em 2025, uma aliança internacional que incluía Trump, atacou o ambientalismo e a agenda climática. Dias depois da decisão americana, seu governo também estudou abandonar o Acordo de Paris.
No Reino Unido, Nigel Farage, líder do partido Reform UK, leva essa ofensiva à política energética. Ele promete abandonar as políticas de neutralidade climática. A organização Carbon Brief identificou dezenas de afirmações falsas ou enganosas do partido sobre clima e energia. A mentira é parte da estratégia.
Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, a AfD, também seguiu o negacionista do clima. Em fevereiro de 2025, o vice-presidente, JD Vance, reuniu-se com sua líder, Alice Weidel, às vésperas da eleição nacional. A legenda defendia retirar o país do Acordo de Paris e manter o uso de combustíveis fósseis. A teimosia também é parte do arsenal.
No Japão, Sohei Kamiya, líder do partido nacionalista Sanseito, buscou espaço nesse barco. Copiou Trump ao adotar o lema “Japoneses primeiro”. Em 2025, seu partido criou uma divisão para estreitar relações com aliados do americano, como o arquiteto ideológico do populismo nacionalista moderno, Steve Bannon.
No Brasil, a influência apareceu na campanha de 2018. Jair Bolsonaro prometeu seguir Trump e retirar o país do Acordo de Paris, embora depois tenha recuado. A aliança também ofereceu respaldo político: em agosto de 2019, durante a crise internacional provocada pelos incêndios que devastaram a Amazônia, Trump declarou apoio a Bolsonaro.
China e Estados Unidos: maiores emissores fazem escolhas diferentes
China e Estados Unidos lideram as emissões anuais de CO₂ de origem fóssil. Segundo o Global Carbon Budget 2025, em 2024 os chineses responderam por 32% do total mundial, e os americanos, por 13%. Juntos, concentraram cerca de 45% dessas emissões, que incluem a queima de combustíveis fósseis e processos industriais.
Apesar dessa enorme responsabilidade, a China investe na transição energética. Segundo a Agência Internacional de Energia, o país destinou mais de US$ 625 bilhões à energia limpa em 2024. Também alcançou sua meta de capacidade solar e eólica para 2030 com seis anos de antecedência. Entretanto, mantém forte dependência do carvão. Seus avanços são expressivos, mas ainda convivem com uma estrutura energética altamente poluente.
Enquanto isso, o governo americano segue na direção contrária. O Mar Sem Fim acompanha a ofensiva desde a redução histórica de áreas protegidas no primeiro mandato. Na volta à Casa Branca, Trump aprofundou o ataque à ciência e à proteção ambiental, e promoveu demissões em massa na NOAA, referência mundial na pesquisa dos oceanos e do clima. A ofensiva contempla iniciativas para avançar na mineração submarina à margem da ISA.
Governos passam, os danos permanecem
O mandato de um presidente tem prazo, felizmente. Já os gases que se acumulam na atmosfera prolongam seus efeitos por gerações. O mesmo vale para a destruição de habitats e a perda de biodiversidade: uma eleição pode mudar o governo, mas não recompõe o que desapareceu.
O respaldo da Presidência americana amplia o alcance dessas posições. Mesmo quando não conseguem derrubar uma política, seus adversários podem atrasá-la. E, numa crise que exige cortes nas emissões, o atraso também causa danos. Seus aliados encontram no negacionista da Casa Branca um argumento para enfraquecer compromissos e adiar decisões.
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