Estação Científica Comandante Ferraz

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    Chegamos na estação brasileira dia 21 de janeiro, um mês depois de sairmos de Ushuaia.

    Comandante Ferraz
    Comandante Ferraz

    A base, instalada na ilha Rei George desde 1984, fica no fundo da baía do Almirantado, na enseada Martel.

    Trinta- réis cujo ninho é próximo ao mastro da estação
    Trinta- réis cujo ninho é próximo ao mastro da estação

    Não tivemos um minuto de descanso. Fundeamos e iniciamos o trabalho para a TV. Ao desembarcar fomos recebidos pelo atual chefe, Glenio Borges da Silva. Ele nos mostrou cada detalhe da construção feita com contêineres. Dos alojamentos, à biblioteca, passando por laboratórios, cozinha, sala de almoço e jantar, academia de ginástica, estação de tratamento de lixo e esgotos, etc. A base é permanente (funciona no inverno e verão). Ela pode abrigar até 64 pessoas. Nesta temporada está com 37 pessoas, sendo 10 pesquisadores.

    Lucélia Donatti aproveita o sol...
    Lucélia Donatti aproveita o sol…

    Barcos pequenos, como o nosso, costumam evitar a área. Quando eu disse que viria não foram poucos os que desaconselharam, alegando péssimas condições de meteorologia. Vento muito forte, baía desprotegida, etc. Pode ser que tenham razão. Mas como fazer documentários sobre a Antártica, para a TV, sem mostrar a estação brasileira? Não entra na minha cabeça.

    Esqueleto montado pela equipe de Cousteau, nos anos 70
    Esqueleto montado pela equipe de Cousteau, nos anos 70

    Além disto, a Antártica já nos cobrou seu tradicional pedágio, no início, quando ainda estávamos no Drake. Como diz o ditado: “eu não acredito em bruxas. Mas que elas existem, existem”. A primeira frase que Amyr Klink disse quando nos encontramos foi sobre este tributo.

    Ele soube de nosso acidente quando estava em Puerto Willians. Disseram que o Mar Sem Fim tinha sido afundado pelos que nos socorreram.

    Muitas vezes é o que acontece em regiões inóspitas, como a que estávamos: salvam a tripulação mas afundam o barco para que não cause mais problemas.

    Amyr ficou tão preocupado que pediu à mulher, Marina, que fosse até uma lan house checar na internet. Então, através de nosso site, descobriu a verdadeira história. Quando nos encontramos ele estava com o livro de Adrian de Gerlache nas mãos, o primeiro a invernar na Antártica. Para me consolar, falou do sofrimento e desventuras de todos que ousaram vir pra cá.

    Gerlache por pouco não perdeu seu barco, o Belgica. Robert Scott pagou com a vida. Shakleton passou perto do inferno para deixar de ser mais um, na era heróica, e protagonizar uma das mais belas sagas do continente, imortalizando seu nome. E assim por diante.

    É óbvio que não tenho a pretensão de me comparar aos exploradores dos séculos XIX e XX. Tenho bem clara a noção do ridículo. Mas o fato é que, até hoje, quem vem pela primeira vez costuma apanhar. Alguns desistem. Nós, não. Apesar de eu ter ficado muito chateado, e assustado pelo perrengue de passar “uma noite a rola”, sem motor, no pior pedaço de mar do planeta.

    Quando percebi que não havia como reparar o problema sem antes sermos rebocados, cheguei a instruir o cinegrafista para salvar o material, e equipamento de filmagem, colocando tudo num saco à prova d”água. Porque, se o mar não tivesse acalmado, não seria possível o reboque.

    Teríamos de abandonar o barco. Então vieram as bruxas. E elas, ao que tudo indica, sentiram comiseração pela história do Mar Sem Fim. O vento parou. As ondas foram embora. O mar alisou totalmente, a ponto de sermos puxados a dez, onze nós de velocidade. Quem assistir aos documentários da TV verá o tamanho do swell nos primeiros dois terços da travessia. Eram ondas de respeito. Mas, no terceiro e decisivo dia, elas se foram…

    Desde então a Antártica nos trata bem. Já disse em postagens anteriores, das boas condições que tivemos na península. Nas Shetland do Sul não foi diferente. Estamos com sorte. Escrevo dia 26/1. Desde que chegamos o tempo está relativamente bom. Muitos dias com sol, e ventos fracos em geral.

    Rei George foi descoberta em 1820, pelo foqueiro inglês William Smith, que tinha fretado seu navio aos ingleses. Edward Bransfield, oficial da marinha britânica, comandava a viagem e tomou posse da ilha em nome do Rei George III.

    Em seguida os foqueiros ocuparam a ilha.

    O extermínio dos animais não demorou. A pele das focas era valiosa para os chineses, que dominavam a técnica da peleteria. Cada uma era vendida por cerca de cem dólares, um valor altíssimo para a época.

    Enquanto as peles viravam roupa no exterior, o óleo extraído dos elefantes marinhos era usado para iluminar as ruas de Londres, ou lubrificar as máquinas da revolução industrial.

    Duas ou três temporadas depois, já não havia focas, ou elefantes marinhos, nas Shetland do Sul. Foram praticamente exterminados.

    Então, pouco tempo depois, chegaram os baleeiros. Não há quase nenhuma baía, relativamente abrigada deste arquipélago, que não tenha se transformado em uma estação baleeira. É só andar um pouco para ver montanhas de ossos em todos os cantos. É surpreendente que ainda existam baleias nos oceanos.

    Esqueleto montado pela equipe de Cousteau, nos anos 70
    Esqueleto montado pela equipe de Cousteau, nos anos 70

    A caça, na Antártica, começou no final do século XIX, princípio do século XX, mas foi intensificada depois dos anos 40, quando surgiram os navios fábrica. A matança então, “foi realmente pesada”, como disse o especialista da USP, Vicente Gomes.

    A sala de refeições
    A sala de refeições

    De acordo com Luciano Dalla Rosa, pesquisador de baleias do PROANTAR, que entrevistamos em Rio Grande, algumas populacões foram reduzidas a menos de 5% de seus estoques.

    Biblioteca. Na última mesa, O Brasil Visto do Mar Sem Fim, minha contribuição...
    Biblioteca. Na última mesa, O Brasil Visto do Mar Sem Fim, minha contribuição…

    Na estação Ferraz, o Capitão de Fragata Glenio Borges da Silva ajudou no que pôde. Com isto aprofundamos as matérias. Logo no dia seguinte à chegada saímos a campo, quer dizer, ao mar, com uma equipe liderada pela bióloga Lucélia Donatti. Ela faz pesquisas sobre peixes.

    Lucélia precisava coletar alguns exemplares na enseada em frente a base. Lá fomos nós, acompanhar o trabalho, a bordo da lancha Skua, mais um equipamento da estação brasileira. Foi um passeio divertido onde aprendi sobre a vida marinha na Antártica.

    A equipe na de Lucélia na Skua
    A equipe na de Lucélia na Skua

    Aqui existem cerca de 300, a 350 tipos de peixes. A maior parte não tem valor econômico. Mesmo assim duas espécies já estão ameaçadas de extinção, em razão da sobrepesca: a merluza negra, e o bacalhau marmorado. Quem pesca? Até certo tempo atrás, oficialmente (sempre há os que fazem às escondidas), o Japão.

    Um dos laboratórios
    Um dos laboratórios

    Atualmente preferem o krill, base da cadeia alimentar…e baleias, como todo mundo sabe. Para pesquisas, eles alegam, com total cara de pau! É inacreditável que um país com o nível cultural do Japão não se incomode de ver sua imagem atrelada a questões como estas.

    A enseada Martel e a estação Ferraz, à esquerda
    A enseada Martel e a estação Ferraz, à esquerda

    E tem mais: anualmente 40 milhões de tubarões são mortos para a extração das barbatanas. Elas são usadas para fazer sopa, considerada uma iguaria no país do sol nascente…em seguida o peixe é atirado de volta ao mar, ainda agonizando. Resultado: já há várias espécies de tubarões ameaçados de extinção.

    Só mais um exemplo, para não cansar: o atum- azul. Esta magnífica espécie pode atingir 3,65 metros de comprimento, pesar até 680 quilos, e viver cerca de 30 anos. A National Geographic, de abril de 2007, publicou um dossiê sobre pesca que é um primor. Tenho cópias em casa e no barco. E vivo recorrendo à ela, como agora. Sobre esta espécie a revista explica que no passado milhões de atuns- azuis migravam por toda bacia do Atlântico e mar Mediterrâneo. O peixe era tão importante para os povos antigos, “que pintavam sua imagem em cavernas e a cunhavam em moedas”. A carne “amanteigada” de sua barriga é considerada o mais fino sushi do mundo, diz a matéria.

    Nos últimos anos “frotas pesqueiras high-tech perseguem atuns- azuis de uma ponta a outra do Mediterrâneo, e capturam, muitas vezes ilegalmente, dezenas de milhares por ano”. E concluí: “são tantos que sua população corre risco de extinção”.

    Paisagem defronte a estação brasileira
    Paisagem defronte a estação brasileira

    A revista ressalta que “o extermínio desta espécie reflete todos os problemas hoje encontrados na pesca: a capacidade de abate multiplicada pela teconologia, a suspeita de empresas internacionais que têm lucros estratosféricos, a negligência no manejo da pesca e na aplicação das leis, e a INDIFERENÇA DOS CONSUMIDORES SOBRE A SORTE DO PEIXE QUE COMPRAM (grifo meu). É incrível ! O uso indecente que se faz dos oceanos não comove as pessoas. A grande maioria é indiferente. Por isto a situação persiste. O resultado é o comprometimento da saúde do mais importante ecossistema do planeta.

    Laboratório do INPE
    Laboratório do INPE

    No Mediterrâneo empresas usam aviões para que a pesca (melhor seria dizer extermínio) seja mais eficiente. Eles localizam os cardumes de atuns na primavera, “quando as águas se aquecem e os peixes sobem à superfície para a desova. Em um dia claro esta turbulência pode ser vista do alto”. É aí que entram os aviões. Eles marcam a posicão com o GPS, e avisam os navios fábrica que passam a rede, rapando tudo que existe. Isto acontece em plena época da procriação!

    Este jogo é disputado por todo pessoal da estação
    Este jogo é disputado por todo pessoal da estação

    “Os japoneses, procurando novas fontes, foram para o Mediterrâneo, que tinha grandes estoques de atum-azul”.

    Hoje uma parte destes peixes é criada em gaiolas, no mar. De acordo com o dossiê, “ a disseminação de fazendas significa que a espécie está sendo dizimada em todas as fases de sua vida”.

    “No centro desta indústria pesqueira está a empresa Ricardo Fuentes & Filhos, sediada em Cartagena. Especialistas afirmam que ela controla 60% do gigantesco ramo do atum-azul no Mediterrâneo, faturando mais de 200 milhões de dólares anuais.Em parceria com as gigantes japonesas Mitsui, Mitsubishi e Maruha, o Grupo Fuentes, com subsídios da União Européia e Espanha, comprou as gaiolas marinhas, os rebocadores e os barcos de apoio necessários a operações de engorda em grande escala”.

    Por estas e outras especialistas prevêm que a pesca industrial estará esgotada até 2048…

    A academia é bem aparelhada
    A academia é bem aparelhada

    Mas é importante frisar que os japoneses não são os únicos vilões. Dados da WWF indicam que, por ano, os subsídios para a pesca atingem a estratosférica soma de 20 bilhões de dólares, a maior parte vem da União Européia, e…do Japão.

    Quanto aos biólogos de Ferraz, eles têm autorização especial, em razão da pesquisa que desenvolvem.

    Enquanto eu e Cardozo saímos na Skua, Pedrão e equipe aproveitaram as condições excelentes, mar liso e ausência de ventos, para encher os tanques do Mar Sem Fim com água doce. Depois de um mês, desde a a última vez que abastecemos, nossas reservas estavam no fim.

    Depois de reabastecer, Manoel aproveita para lavar o Mar Sem Fim
    Depois de reabastecer, Manoel aproveita para lavar o Mar Sem Fim

    A gentileza do pessoal da estação, que se desdobrou para ajudar, permitiu que cada tripulante pudesse tomar o primeiro banho na Antártica. Que maravilha! Estava ficando difícil suportar o próprio cheiro. O comandante ainda sugeriu que lavássemos nossas roupas na estação. Não perdemos tempo. No mesmo dia descemos com uma enorme trouxa. Estes pequenos detalhes trazem mais conforto, e elevam o moral da tropa.

    No dia seguinte nova rodada de entrevistas. Desta vez com duas doutorando em microbiologia: Lia Teixeira e Karen Tavares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Elas estudam bactérias.

    Também conversamos com pesquisadores do INPE. Luciano Marani, monitora o buraco da camada de ozônio, e Héber Reis Passos, técnico em eletrônica, trabalha na estação meteorológica instalada em Ferraz.

    Passeio a bordo do Mar Sem Fim
    Passeio a bordo do Mar Sem Fim

    Todos tiveram enorme paciência em explicar o motivo de suas pesquisas, e o que os trouxe até a Antártica. Em comum, entre eles, a paixão pelo que fazem, e a extrema dedicação ao trabalho.

    Esta é a regra em Comandante Ferraz. Tanto entre o pessoal da Marinha, que dá apoio e mantém a infraestrutura, como entre os pesquisadores. Seus olhos brilham quando explicam. Por isto fazem bem feito.

    Acreditem: temos motivos para ter orgulho da estação científica Comandante Ferraz, e do trabalho aqui realizado.

    Nós, brasileiros, temos o péssimo costume de duvidar de nós mesmos. Gostamos de denegrir o que é nosso. Parece que só os outros fazem bem feito. Não é o caso do que acontece na Antártica, apesar do pouco que se aplica em pesquisa no Brasil. Até recentemente não chegava a 1% do PIB.

    Nos primeiros 23 anos do programa, de 1982 até 2005, foram investidos apenas 25 milhões de reais em projetos de ciência. Uma esmola. Este dado acachapante veio à tona em 2007, quando o CNPq encomendou um estudou sobre o PROANTAR ao CGEE- Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, “órgão de economia mista responsável por estudos e avaliações de grande vulto”, como publicou a Folha de S. Paulo, em matéria do Caderno de Ciência, em 3 de outubro de 2007.

    Hoje a situação é um pouco menos ruim. Em 2006 o Brasil investiu 13 bilhões de dólares em pesquisas de ciência e tecnologia, o que representou 1,2% do Produto Interno Bruto. As nacões desenvolvidas investem em média 2,5%.

    Os Estados Unidos lideram o ranking com 369 bilhões anuais, 2,69% do PIB. Em seguida o Japão, com 148 bilhões, ou 3,44% . A China aloca 102 bilhões de dólares para pesquisas, a França 43 bilhões, Inglaterra, 39 bilhões, Índia, 14 bi, etc (fonte: OCDE- Organisation for Economic Co-operation and Development)

    A questão não é falta de dinheiro, mas de vontade política. As coisas só começaram a melhorar para o PROANTAR depois da formação de uma frente parlamentar que tem evitado cortes dramáticos neste programa.

    No início do PROANTAR as coisas foram muito improvisadas, contou o professor Antônio Rocha Campos, do Instituto de Geociências da USP, um dos mais respeitados especialistas em Antártica. Nós o entrevistamos antes de iniciar a viagem do Mar Sem Fim.

    Segundo ele “o Brasil ficou de fora do Tratado Antártico”. “Só foi aderir em 1975, aceitando o artigo quarto, que abdica das reivindicações territoriais” (A Argentina foi o último dos sete países a fazê-lo, ainda nos anos 50). E prossegue: “e não fizemos mais nada depois disto”. “Foi somente em 1982 que o governo tomou a iniciativa de criar o programa antártico brasileiro”. Então, explica o professor, ex- presidente do prestigioso Comitê Científico para Pesquisas Polares, o Scar, na sigla em inglês, “em 1982 compraram um navio…foi tudo apressado, uma grande aventura. Tinha tudo para dar errado, mas deu certo”.

    Ainda o passeio com o pessoal da estação
    Ainda o passeio com o pessoal da estação

    “Hoje, reconhece, “temos um programa de porte médio, bem organizado, com uma logística muito boa”.

    E finaliza: “Temos um número de cientistas que atingiu três centenas de pesquisadores antárticos, e seus trabalhos têm repercussão”. “No âmbito sul americano é um dos melhores”.

    Programa domingueiro em Ferraz: passeio no Mar Sem Fim
    Programa domingueiro em Ferraz: passeio no Mar Sem Fim

    Outro veterano, o professor da USP e meteorologista, Rubens Junqueira Villela, também tem críticas e elogios a fazer.

    Rubens nos explicou como o processo começou, em 1982, “e fez enormes progressos desde então”. Ele participou da primeira viagem, a bordo do navio Professor Besnard (comprado depois de uma campanha do Estadão). E ressaltou: “mas acho que marcamos passo. Não saímos de uma ilha na periferia do continente Antártico…estamos a 130 km da península que nem é muito representativa do continente. É um prolongamento da cordilheira dos Andes”.

    Mas reconhece que “do ponto de vista científico a ilha se mostrou boa para pesquisa”. “Mesmo com seis países, os brasileiros continuam desenvolvendo estudos inéditos até hoje”.

    Rubens encerrou a entrevista contando que “finalmente chegamos ao interior do continente antártico, por iniciativa da FURG – Universidade Federal do Rio Grande, que, através do glaciologista Jeferson Cardia Simões, está desenvolvendo boas pesquisas nos Montes Patriotas”.

    25 de janeiro, aniversário do Mestre Alonso
    25 de janeiro, aniversário do Mestre Alonso

    Outro renomado especialista que elogia a atuacão do PROANTAR, também é da USP: o professor Paulo Roberto dos Santos, do Instituto de Geologia, para quem “o Brasil tem se distinguido muito nas pesquisas atuais”.

    Se você é daqueles céticos, que continua apostando em nosso fracasso, assista aos episódios da série Mar Sem Fim: uma viagem à Antártica, em breve no ar, pela Rede Bandeirantes de Televisão.

    Somos testemunhas do cuidado com que as coisas são feitas. Em nossa viagem visitamos dezenas de bases. Em algumas constatamos sujeira ao redor, sacos plásticos no chão, vazamentos de óleo, ou gasolina, bases abandonadas, e construcões que agridem a paisagem sem necessidade. Até isto foi planejado. O modo de construção da estação científica Comandante Ferraz, compacto, altera pouco o cenário da enseada Martel. Carros, quadriciclos e motos de neve são usados em último caso, para evitar que o barulho prejudique a vida animal sempre presente em volta das estacões.

    Há pouco eu falei do tempo bom. Só pra contrariar, hoje, 27 de janeiro, a coisa desandou. Neva sem parar desde a noite passada. Faz muito frio, zero graus…O ventou aumentou, mas nada que cause problemas ao barco. Problemas só para nós, como o fator vento, que faz com que a sensação térmica chegue a menos 16ºC.

    Até a luz de navegação ficou congelada...
    Até a luz de navegação ficou congelada…

    Enquanto aguardamos a chegada do navio de apoio Ary Rongel, aproveitamos para conhecer a região.

    No domingo, dia de folga, levamos o pessoal da estação para um passeio pelas baías aqui ao lado. E ontem visitamos a base polonesa, Arctowski, instalada na ilha desde 1977.

    Bandeira brasileira hasteada em Arctowski
    Bandeira brasileira hasteada em Arctowski

    Foi emocionante o modo como os poloneses nos receberam. Era visível o esforço para que nos sentíssemos à vontade. A estação praticamente parou para receber o Mar Sem Fim. Chegaram ao ponto de hastear a bandeira brasileira no mastro em frente ao prédio principal. Conversamos com o chefe, Krysztof Krajewski, da academia de ciências polonesa. Enquanto batíamos papo, um banquete foi servido: sucos, frutas, chá, café, bolo, doces de todos os tipos, pães.

    A sala da base polonesa é aconchegante
    A sala da base polonesa é aconchegante

    Além do mais, por dentro a base é uma graça. Construída em 1977, em madeira, o salão principal parece cenário de filme de Walt Disney, aconchegante e charmoso. Houve mútua empatia. Eles por nossa viagem num barquinho tão pequeno, nós pelo carinho com que nos atenderam.

    Lobo marinho no 'jardim'' da base polonesa'
    Lobo marinho no ‘jardim” da base polonesa’

    De repente me dei conta que estas coisas só acontecem por aqui. Um continente semi- virgem em pleno século XXI, sem fronteiras demarcadas, ou moeda; onde não existe a imposicão da lei do mais forte. As portas, na Antártica, estão sempre abertas.

    As pessoas que vêm para cá estão prontas a cooperar umas com as outras, estudar, conhecer e dividir informações. A solidariedade faz parte do cotidiano.

    Uma nobreza de sentimentos rara de se ver.

    Apesar de ainda estar na Antártica, já começo a sentir nostalgia porque sei que nosso tempo é curto.

    É um sentimento que aperta o coração. E é muito forte. Pode acontecer com qualquer pessoa, mesmo as não emotivas. Basta passar um tempo aqui.

    Hoje, a única certeza que tenho, é que vou voltar.

    Se possível, trazendo meus filhos, Luis e José.

    Como disse o comandante Glenio, um militar que faz o tipo durão, entrevistado ontem de manhã.

    Depois de um ano chefiando a base, ele está de partida. Ao final da entrevista, quando eu perguntei como lembraria do tempo passado na Antártica, respondeu: “é difícil explicar em palavras”. Na hora eu percebi o esforço que ele fazia para se controlar. “É uma coisa de sensação, não se explica”.

    Seus olhos marejaram ligeiramente. Houve uma pausa. “É uma comunhão com o ambiente e com as pessoas. Algo muito diferente do que a gente vive no Brasil”.

    Na madrugada de ontem, 27/1, finalmente o Ary Rongel fundeou ao nosso lado.

    Barreira de contenção cerca o barco na faina de abastecimento
    Barreira de contenção cerca o barco na faina de abastecimento

    Hoje a função começou cedo e está sendo frenética. Pela manhã nos aproximamos da praia para reabastecer os tanques de água doce do Mar Sem Fim.

    Manoel se defende do frio
    Manoel se defende do frio

    Em seguida atracamos a contrabordo do Ary Rongel para pegar diesel. Enquanto a equipe do Mar Sem Fim cuidava da transferência, eu e Cardozo, o cinegrafista, almoçamos com o Comandante Capetti, e o imediato Seibel. Contei nossa história, e fiz uma entrevista com o Comandante.

    Tudo bem, Alonso?
    Tudo bem, Alonso?

    A hora de dizer adeus se aproxima.

    Esta semana fizemos contato com nossos serviços de meteorologia. Parece que está se abrindo uma janela de tempo para amanhã, dia 29.

    O helicóptero do Ary Rongel sobrevoa o Mar Sem Fim
    O helicóptero do Ary Rongel sobrevoa o Mar Sem Fim

    Neste momento, cinco da tarde, enquanto aguardamos uma confirmação, a tripulação do Mar Sem Fim prepara o barco para a travessia liberando tudo da proa, amarrando as coisas soltas no convés, etc.

    O passadiço do Ary Rongel...
    O passadiço do Ary Rongel…

    Vem aí uma nova travessia do Drake.

    Enquanto ela durar, vou procurar alimentar o site a cada 12 horas.

    Nosso plano é navegar para o Cabo Horn, onde devemos fazer gravações para os programas. Em seguida subiremos o Beagle até a ilha Navarino, pelo mesmo motivo.

    Manobra concluída: o Mar Sem Fim se afasta do Ary Rongel
    Manobra concluída: o Mar Sem Fim se afasta do Ary Rongel

    Finalmente, encerrada esta parte, retornamos para Ushuaia.

    Então coloco novas fotos no site.

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