Parque Nacional Marinho do Albardão é criado no litoral do Rio Grande do Sul
O Parque Nacional Marinho do Albardão foi finalmente criado no litoral do Rio Grande do Sul. A nova unidade de conservação coroa um processo longo, que passou por estudo técnico, proposta de criação, diagnóstico ambiental, mapa da área e, por fim, consultas públicas promovidas pelo ICMBio.

Trata-se de uma reivindicação antiga de pesquisadores, da academia e de ambientalistas. A criação do parque representa um avanço raro na agenda ambiental marinha, travada há anos, ao menos desde o governo Temer. A conquista merece ser comemorada. Ainda assim, a realidade mostra que o Brasil continua atrasado na proteção do bioma marinho, especialmente quando comparado a países que levam a conservação do mar mais a sério, como o Chile. Este post foi publicado originalmente em abril de 2024 e atualizado em 6/3/2026.
Antes da criação do parque, o Mar Sem Fim já mostrava por que a região do Farol do Albardão merecia proteção integral; releia aqui o post de 2020 sobre essa antiga reivindicação.
Por que o Albardão merecia proteção
Algumas praias do litoral gaúcho, sobretudo entre o litoral médio e o extremo sul, estão entre as mais selvagens do Brasil. Felizmente, grandes trechos ainda escapam da especulação imobiliária e do padrão predatório de ocupação que já desfigurou boa parte da costa brasileira. Só a preservação dessa paisagem original já justificaria a criação de um parque nacional. Afinal, a proteção da paisagem é princípio constitucional no Brasil desde a Carta de 1934, mantido nas Constituições de 1937, 1946, 1967, 1969 e 1988.
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Mas o Albardão não impressiona apenas pela paisagem agreste, rústica e espetacular, nem pela vasta planície costeira que se estende logo atrás da faixa litorânea. A região também abriga um refúgio ainda pouco explorado, que merece ser preservado para as futuras gerações. Estudo da Universidade de Caxias do Sul aponta três características que diferenciam a planície costeira gaúcha de outras formações semelhantes no mundo.
A primeira é a presença de dois grandes corpos d’água na área da planície: a Laguna dos Patos e a Lagoa Mirim. Eles existem graças à largura extraordinária da planície, que em alguns trechos supera 70 quilômetros entre o mar e as montanhas.
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A segunda é a sequência de lagoas menores entre essas grandes lagunas e o oceano. Embora lagunas extensas existam em várias partes do mundo, raramente aparecem acompanhadas desse conjunto intermediário de lagoas costeiras, o chamado “Rosário” de lagoas do litoral gaúcho.
A terceira característica, apontada como a mais importante, é a presença de lagoas de água doce muito próximas ao mar.
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Os estudos para proteger o Albardão não começaram ontem. Desde o fim dos anos 1990, o Ministério do Meio Ambiente já apontava a região como prioritária para a conservação.
Ao longo dos anos 2000, sua importância para a biodiversidade, especialmente para tubarões e raias, foi reforçada por novos levantamentos, até que o ICMBio abriu oficialmente o processo de criação de uma unidade de conservação. Nessa trajetória, o NEMA teve papel pioneiro e ajudou a manter viva, por mais de duas décadas, a defesa de áreas protegidas no extremo sul do Brasil.
A cena na região do Farol do Albardão, acima, resume muitas contradições do litoral brasileiro. A engenhoca improvisada, montada para puxar rede na faixa de arrebentação, revela ao mesmo tempo a pobreza histórica a que foram relegadas comunidades costeiras, a criatividade de quem aprendeu a sobreviver com quase nada, e a ausência do poder público numa região ecologicamente sensível. Nada disso apaga o fato de que a arrebentação funciona como berçário natural de inúmeras espécies e, por isso, exige proteção rigorosa. Mas a responsabilidade por essa pressão não pode recair apenas sobre os mais frágeis, sobretudo num trecho de costa também castigado pela pesca industrial no mar. É nesse contexto que a criação do Parque Nacional Marinho do Albardão se torna não apenas oportuna, mas necessária.
Os impactos dos plantios de Pinus
A planície costeira gaúcha também sofreu fortes impactos. Nos anos 1970, por falta de conhecimento, o governo federal passou a incentivar o reflorestamento com Pinus por meio de subsídios que duraram até 1988. No Rio Grande do Sul, a atividade ocupou extensas áreas entre Torres e o Chuí, muitas delas em terrenos alagados que precisaram ser drenados.
A drenagem destruiu parte da fauna, especialmente anfíbios e répteis, e ressecou a vegetação que ajudava a fixar as dunas frontais. Com isso, o vento passou a empurrar areia para o interior da planície, assoreando diversas lagunas, inclusive no Parque Nacional da Lagoa do Peixe.
Sistema hidrológico amplia a importância do parque
A área do parque ganha ainda mais relevância por sua ligação com um sistema hidrológico singular. A influência da pluma do rio da Prata, do complexo Lagoa dos Patos-Lagoa Mirim e do fluxo de água subterrânea da Lagoa Mangueira ajuda a fazer do Albardão uma das regiões ecologicamente mais importantes da plataforma continental brasileira.
Fora os impactos dos plantios de Pinus, a paisagem ainda preserva muito de sua feição original, marcada pela presença constante de aves nativas e migratórias.
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Na faixa de transição entre o mar e a terra, o Albardão abriga uma biodiversidade excepcional. Lobos e leões-marinhos usam suas praias como área de descanso; elasmobrânquios ameaçados, como cação-anjo, raia-viola e cação-bico-doce, ainda ocorrem na região; a toninha, cetáceo mais ameaçado do Brasil, e tartarugas-marinhas também dependem desse ambiente.
Além disso, o mar em frente ao parque integra a rota migratória de baleias jubartes e francas. Essa riqueza biológica, somada à paisagem ainda pouco alterada, explica por que a criação do parque era uma necessidade antiga.
Um primeiro passo para o bioma marinho
A criação do Parque Nacional Marinho do Albardão representa um avanço importante e merece registro. Depois de anos de paralisia na agenda do bioma marinho, o governo finalmente tomou uma medida concreta fora da Amazônia. Ainda há muito por fazer, da recategorização da Reserva Biológica do Arvoredo à ampliação de Abrolhos, passando por políticas nacionais para erosão costeira, recuperação de manguezais e restingas e fiscalização efetiva no litoral. Mas, desta vez, é justo reconhecer: com o Albardão, Marina Silva deu um passo na direção certa.