Fazendas de salmão no Canadá ameaçam o Pacífico
O governo do Canadá informa que o país é o quarto maior produtor mundial de salmão de viveiro. As fazendas de salmão cultivam principalmente o salmão-do-Atlântico. Também produzem as espécies Chinook e Coho.
Os Estados Unidos lideram como principal mercado comprador. O salmão ocupa a terceira posição entre as exportações de frutos do mar do Canadá em valor. Na Colúmbia Britânica, lidera as exportações do setor agroalimentar.
O peso econômico das criações de salmão
Dados oficiais mostram que as fazendas movimentaram, em média, US$ 735,2 milhões por ano entre 2011 e 2015. A Colúmbia Britânica responde por cerca de 60% desse total.
O setor se tornou estratégico para a economia regional. Mas os impactos ambientais também cresceram na mesma proporção.
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Em 2017, indígenas e ambientalistas ocuparam uma das fazendas perto de Alert Bay, na Colúmbia Britânica. O grupo anunciou que só deixaria o local quando os governos provincial e federal revogassem a licença da instalação.
Ernest Alfred, um dos líderes do movimento, afirmou que as fazendas de salmão ameaçam o modo de vida tradicional de seu povo. Segundo ele, os criadouros afetam os estoques de salmão e arenque.
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O grupo exige o fim das redes abertas no arquipélago de Broughton, uma área ecologicamente sensível. Entre os problemas apontados estão surtos de doenças, infestação por piolho-do-mar e deformações em peixes mantidos em cativeiro.
A CBC ouviu a bióloga Alexandra Morton, crítica histórica das fazendas de salmão. Ela participou da ocupação a bordo de um navio da Sea Shepherd Conservation Society.
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Poluição e bioinvasão nas criações de salmão
Situação semelhante ocorre no Chile, segundo maior produtor mundial de salmão, atrás apenas da Noruega. Lá, surtos de doenças e mortandades em massa atingem as fazendas de salmão há anos. No ano de 2021 a Argentina proibiu a criação de salmão nos canais da Patagônia, na Terra do Fogo, após avaliar os riscos ambientais.
Em 2025, um novo estudo sobre mortes massivas em fazendas de salmão nas ilhas Hébridas voltou a colocar o modelo de aquicultura em xeque.
Em regra, fazendas de salmão em redes abertas liberam fezes, restos de ração e antibióticos no mar. Elas favorecem surtos de doenças e facilitam a fuga de peixes exóticos. Quando escapam, competem com espécies nativas e alteram o equilíbrio ecológico.
No Chile, o quadro se agrava. A atividade já registrou mortes de trabalhadores, denúncias de condições precárias e uso excessivo de antibióticos. Comunidades costeiras e pescadores artesanais acumulam os prejuízos.
O problema não se limita às fazendas de salmão. O Brasil, maior produtor mundial de tilápia-do-Nilo, também sofre com impactos da bioinvasão. A espécie já ocupa várias bacias hidrográficas, inclusive na Amazônia. Pior: a tilápia escapou para o mar e hoje aparece em trechos extensos do litoral brasileiro.
Por que as fazendas são insustentáveis
As fazendas de salmão vendem a imagem de solução para a pesca excessiva. Mas o modelo depende da captura de peixes selvagens para produzir ração.
A alimentação inclui farinha e óleo de peixe. Para cada quilo de salmão produzido, a indústria pode usar entre 2,5 e 5 quilos de peixes capturados no mar.
Ou seja, as fazendas de salmão não reduzem a pressão sobre os oceanos. Elas transformam peixes selvagens em ração. A lógica é simples: o sistema consome mais proteína marinha do que entrega.
A conta não fecha.
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Documentário expõe riscos das fazendas no Canadá
O documentário da cineasta Twyla Roscovich, com a bióloga Alexandra Morton, investigou as fazendas de salmão na Colúmbia Britânica. O filme mostra que salmões selvagens testaram positivo para vírus de origem europeia associados à aquicultura intensiva.
Os pesquisadores relacionam esses patógenos à criação de salmão em redes abertas. Segundo o documentário, o governo canadense reagiu às conclusões e tentou contestar ou limitar a divulgação dos resultados.
O episódio ampliou o debate sobre transparência, saúde pública e impactos das fazendas de salmão no Pacífico.