Expedição Franklin: capitão foi canibalizado em 1845
O Royal Museums Greenwich relata que, por mais de 400 anos, exploradores arriscaram a vida em busca da Passagem do Noroeste, no Ártico, rota que ligaria o Atlântico ao Pacífico. Caso fosse encontrada, ela encurtaria em cerca de 11 mil quilômetros a distância entre a Europa e a Ásia. A Expedição Franklin, comentário de hoje, foi a terceira e derradeira viagem do navegador.
O primeiro a tentar foi John Cabot, em 1497, a mando do rei Henry VII of England. Cabot, porém, não passou de chegar à América do Norte. Depois veio Jacques Cartier, que em 1534 reivindicou o Canadá para a França. Muitos historiadores afirmam que Cartier também buscava a passagem quando alcançou aquelas terras.

Outros exploradores deixaram sua marca nessa busca. Entre eles está James Cook que entre 1776 e 1778 tentou encontrar a rota pelo norte do Pacífico. Cook não teve sucesso e acabou morto no Havaí.

Quanto maior a dificuldade, maior seria o prestígio do país e de seus exploradores caso conseguissem resolver o enigma. Assim, no início do século 19, quase todo o mundo habitado já havia sido mapeado. Restavam poucas áreas para exploração pioneira. Entre elas estava a Passagem do Noroeste, que continuava a desafiar navegadores.
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Ernest Shackleton: a biografia de um herói cheio de falhasPorto Brasil Sul ameaça hotspot da Baía da BabitongaElevação do nível do mar pode explicar crise no litoral brasileiroA rota só seria finalmente percorrida com sucesso em 1903 pelo norueguês Roald Amundsen . Curiosamente, Amundsen inspirou-se nas tentativas anteriores de John Franklin, o personagem central desta história.
A derradeira expedição
Antes, duas palavras sobre a importância daquela rota. A especialista Julia Duin explica:
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A busca pela lendária Passagem do Noroeste — que ligaria os mercados europeus ao Oriente pelo Hemisfério Ocidental — alimentou a imaginação dos europeus durante séculos. A partir de meados do século XV, o Império Otomano passou a cobrar pesados impostos sobre as principais rotas comerciais terrestres entre a Europa e a Ásia. A alternativa pelo mar, contornando o Cabo da Boa Esperança, era longa e dominada por portugueses e espanhóis. Assim, a tarefa recaiu sobre a Royal Navy, que deveria encontrar uma nova rota marítima capaz de ligar diretamente a Europa e a Ásia.

Franklin partiu em 1845 sua terceira e última tentativa
Em maio de 1845, Franklin partiu em sua terceira e última tentativa de encontrar a passagem, liderando uma expedição composta pelos navios HMS Erebus, comandado por James Fitzjames, e o HMS Terror. O Royal Museums Greenwich destaca que, em comparação com os padrões anteriores, o Erebus e o Terror eram embarcações poderosas e luxuosas, equipadas com sistemas de aquecimento e abundantes fontes de alimentos preservados. No final de julho, um baleeiro avistou os dois navios na Baía de Baffin, aguardando o degelo para iniciar a jornada rumo ao Estreito de Bering. Por falar em baleeiros, eles foram importantes na descoberta da Antártica e pioneiros na navegação em mares austrais.
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Essa foi a última vez que alguém viu os 129 tripulantes vivos. Depois de dois anos sem receber qualquer comunicação da missão, o Almirantado enviou uma frota de busca, mas não obteve sucesso. Um total de 39 missões foram enviadas ao Ártico, mas somente na década de 1850 surgiram evidências sobre o que aconteceu com os homens. As circunstâncias exatas de suas mortes permanecem um mistério até hoje.
Em 2014 acharam o HMS Erebus, em 2016, o HMS Terror
O Erebus foi descoberto em 2014. Já, o Terror, em 2016. Ambos, feitos de arqueólogos subaquáticos da Parks Canada. Estavam a poucos quilômetros da ilha de King William. Alguns inuítes viram membros vivos da expedição, enquanto outros, mais tarde, encontraram seus corpos.

Da tradição oral inuíte recolheram-se relatos de canibalismo, posteriormente comprovados em 2024, entre membros da expedição. Eles ainda forneceram informações para grupos liderados por Charles Francis Hall e Frederick Schwatka, que os ajudaram a descobrir pistas cruciais sobre o destino de Franklin. Mais recentemente, informações dos inuítes ajudaram a impulsionar a descoberta dos dois navios.
Como o frio do Ártico contribui para a preservação, ao encontrarem o navio recuperaram vários artefatos. De ferramentas a um serviço de porcelana. Um arqueólogo da Fundação para a Pesquisa do Ártico, Adrian Schimnowski, contou que os investigadores entraram “em várias cabines e encontraram despensas de comida com pratos e latas nas prateleiras. E também duas garrafas de vinho, mesas, prateleiras vazias, gavetas abertas…” Até mesmo a carta deixada pela tripulação relatando os progressos foi encontrada.

Breve reconstituição da rota de Franklin
O Royal Museums Greenwich faz uma breve reconstituição do trajeto de Franklin. Os dois navios navegaram pelo Canal Wellington antes de virarem para o sul em direção à Ilha Beechey, onde passariam o inverno. Na primavera, os exploradores navegaram para o sul pelo Peel Sound. Contudo, ao chegarem ao ponto mais ao norte da Ilha Rei William ficaram presos pelo fluxo de gelo no Canal McClintock.

Na primavera de 1847, um grupo da expedição viajou através do gelo para Point Victory em terra e depositou um registro escrito de seu progresso. Acredita-se que eles chegaram ao Cabo Herschel na costa sul da ilha, preenchendo a parte inexplorada da Passagem do Noroeste. Sir John Franklin morreu em junho daquele ano.
Ainda presos no gelo, em 1848 o capitão Crozier ordenou o abandono do Erebus e do Terror. Enfraquecidos pela fome e pelo escorbuto, os 105 homens sobreviventes se dirigiram ao sul para o Grande Rio dos Peixes. A maioria morreu em marcha ao longo da costa oeste da Ilha King William.
Ossadas encontradas em 1860
Segundo o Guardian, pesquisadores localizaram o local onde Fitzjames e pelo menos uma dúzia de outros morreram na década de 1860. Eles seguiram histórias contadas pelos inuítes sobre os sobreviventes recorrendo ao canibalismo, notícias que abalaram a Inglaterra vitoriana. Contudo, no final da década de 1990 a antropóloga Anne Keenleyside apoiou esse testemunho ao encontrar marcas consistentes com cortes feitos por humanos em quase um quarto dos ossos.

Mas até recentemente, não havia ideia de quem eram esses indivíduos, além do fato de que eles eram membros da expedição. Em 2013, Stenton e a equipe receberam permissão para remover restos do local, incluindo oito mandíbulas.
Em 2017, após uma grande exposição da expedição Franklin em Greenwich, Stenton e a equipe solicitaram a possíveis parentes que doassem amostras de DNA para seu projeto de bioarqueologia e receberam muitas ofertas. Assim, mais de 170 anos após a partida, os pesquisadores descobriram os restos mortais do capitão do Erebus, James Fitzjames.
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Mas não foi apenas o capitão que os pesquisadores identificaram. Fitzjames tornou-se apenas o segundo entre os 105 tripulantes com identificação positiva. Em 2021, a mesma equipe identificou John Gregory, engenheiro a bordo do Erebus, após extrair DNA de seu crânio, revelou o Guardian. Para os pesquisadores, uma combinação de escorbuto e hipotermia foram as principais causas das mortes que, entretanto, não excluem o canibalismo.
‘Uma sombra sobre a exploração britânica do Ártico’
O choque da morte lançou uma sombra sobre a exploração britânica do Ártico, e o desaparecimento da expedição desferiu um golpe significativo nas ideias vitorianas de superioridade tecnológica e progresso inexorável. Enquanto pesquisadores tentavam descobrir o que havia acontecido com os homens, muitos ignoraram as vozes dos inuítes e ainda os difamaram. Desprezaram sua experiência — até ficar claro que eles estavam certos sobre o destino da expedição o tempo todo.
Para Douglas Stenton, antropólogo da Universidade de Waterloo, coautor do estudo publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, ‘os restos mortais de Fitzjames fornecem insights sombrios sobre a luta desesperada da tripulação pela sobrevivência. Marcas cortadas em sua mandíbula, consistentes com o abate de carne, confirmam que o canibalismo ocorreu enquanto os sobreviventes lutavam para se manter vivos. Nem o posto nem o status eram o princípio governante nos últimos dias desesperados da expedição, enquanto se esforçavam para se salvar. As marcas sugerem que Fitzjames havia morrido antes de outros marinheiros que, em suas terríveis circunstâncias, recorreram ao canibalismo’.
Assista ao vídeo da Parks Canada e saiba mais










Que tragedia, tem uma mini-serie sobre e é cheia de detalhes recomendo
Terminei de ler. A TV inglesa já fez uma série sobre o assunto com 10 epsódios.
Fantástico relato. Tenho um livro de Dan Simmons onde ele narra a tragedia que foi essa expedição . Algo de gelar o sangue.
Caramba ‘
Deve ser interessante, historicamente falando saber a saga desse pessoal e o seu sofrimento e resiliência
É a vida humana .
O autor esqueceu-se de mencionar de onde tirou este artigo. Este artigo vem do jornal americano THE NYT, de onde se obtem inclusive todos os links de artogos escritos na imprensa inglesa sobre oque estava realmente ocorrendo na expedição; eu ainda preciso terminarr de ver os links, lá tem muito material sobre oque ocorreu na época. Isso pode até virar um livro ou filme no futuro.