Erosão nas praias: quando pedras e concreto pioram o problema
A erosão nas praias faz parte da dinâmica natural de um ambiente em constante movimento. Elas avançam, recuam, acumulam areia e mudam de forma ao sabor das ondas, marés, ventos e correntes. O problema começa quando ocupamos esse espaço extremamente dinâmico e, depois, tentamos obrigá-lo a permanecer no mesmo lugar.
É aí que surgem muros, espigões, enrocamentos e outras estruturas rígidas. Muitas vezes, elas protegem um ponto da costa. Porém, ao alterar o transporte natural de sedimentos, podem agravar a erosão nas praias vizinhas.
No Brasil, estudos feitos no Ceará e em Santa Catarina mostram como esse processo se repete. Em vez de trabalhar com a dinâmica natural da costa, seguimos tentando contê-la com pedras e concreto. E, não raro, cada nova obra cria a necessidade da próxima.
O que estruturas rígidas fazem com uma praia
A erosão nas praias pode se agravar quando estruturas rígidas alteram a circulação natural da areia. Espigões, molhes, enrocamentos e muros interferem no transporte de sedimentos provocado pelas ondas e correntes.
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Expedição vai explorar a Zona de Fratura RomancheTubarões ajudam a prever furacõesLicenciamento ambiental em xeque no STFEm alguns casos, essas obras conseguem proteger um trecho específico. Porém, a areia retida de um lado deixa de alimentar as praias localizadas adiante. Assim, a erosão pode simplesmente mudar de lugar.
Esse efeito é conhecido como erosão a sotamar. Como mostra o Guia de Diretrizes de Prevenção e Proteção à Erosão Costeira, uma estrutura que interrompe o transporte de sedimentos pode provocar acúmulo de areia de um lado e erosão do outro.
Fortaleza e Caucaia: quando a erosão muda de lugar
O litoral de Fortaleza oferece um dos exemplos brasileiros mais claros. Segundo o geógrafo Davis Pereira de Paula, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), os 16 espigões construídos na capital a partir da década de 1960 alteraram o transporte de sedimentos e contribuíram para intensificar a erosão nas praias de Caucaia, município vizinho.
Na Praia do Icaraí, em Caucaia, estudos de Davis e colaboradores mostram que mesmo trechos protegidos por estruturas rígidas sofreram recuo durante episódios de ressaca. Em trabalho publicado em 2016, os pesquisadores registraram recuo da parte superior do perfil da praia nos setores protegidos.
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O caso mostra o risco de uma sequência conhecida: protege-se um trecho com estruturas rígidas, altera-se a dinâmica sedimentar e a erosão reaparece mais adiante.
Santa Catarina: 607 obras e praias encolhendo
A erosão nas praias também aparece com força em Santa Catarina. Em estudo publicado em 2023 na revista Ocean & Coastal Management, a geógrafa Mariana Pereira Koerich e o oceanógrafo Pedro de Souza Pereira, ambos da UFSC, identificaram 607 obras costeiras ao longo do Estado, portanto, antes da malfadada disputa pelo metro quadrado mais caro do País que agora tanto encanta o poder público local.
O levantamento mostrou que 25 dos 29 municípios litorâneos apresentavam praias com redução da faixa de areia. Segundo os autores, os trechos mais urbanizados e com maior concentração de estruturas rígidas também reuniam os impactos mais intensos.
Entre as intervenções mais comuns estavam enrocamentos, muros e quebra-mares. Para os pesquisadores, o resultado reforça um problema recorrente: obras feitas para proteger áreas urbanizadas podem alterar a morfologia da praia e reduzir o espaço disponível para a própria faixa de areia.
Quando a gestão pública piora o problema
A erosão nas praias também se agrava quando obras locais ignoram a dinâmica do litoral como um todo. Uma intervenção pode proteger um trecho e, ao mesmo tempo, aumentar o problema na praia vizinha.
A bióloga Marinez Scherer, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), chama atenção para essa falha de planejamento. “Projetos malsucedidos, comuns em todo o Brasil, resultam da má gestão pública. Muitas vezes, o poder público deixa de cumprir a lei ou adota diretrizes equivocadas no plano diretor municipal”, afirma.
Segundo ela, outro problema está no licenciamento. “As obras costeiras são planejadas pelos governos municipais ou estaduais e, em geral, autorizadas com estudos de impacto simplificados, que não consideram o que pode acontecer com as praias vizinhas.”
É precisamente esse olhar fragmentado que ajuda a explicar por que tantas obras de contenção acabam exigindo novas intervenções mais adiante.
O problema não é apenas a obra: é tentar imobilizar a costa
A erosão nas praias se torna ainda mais grave quando a urbanização impede que a linha de costa recue naturalmente. Praias precisam de espaço para avançar e recuar conforme mudam as ondas, as marés e o nível do mar.
Quando encontram avenidas, prédios, muros ou enrocamentos no lugar onde antes havia mangues, restingas ou dunas, esse movimento fica bloqueado. A praia perde espaço para recuar e também parte dos ambientes que ajudam a armazenar e redistribuir sedimentos.
Com o tempo, a faixa de areia pode se estreitar cada vez mais e, em alguns casos, desaparecer. O problema, portanto, não está apenas numa obra específica, mas na tentativa de manter imóvel um ambiente que, por natureza, precisa se mover.
Trabalhar com a natureza, não contra ela
A erosão nas praias exige outra lógica. Em vez de tentar fixar a costa, soluções baseadas na natureza procuram recuperar dunas, restingas e manguezais, preservar o transporte de sedimentos e dar espaço para que a praia se movimente. Em alguns casos, também entram recuo planejado e soluções híbridas.
Não são respostas mágicas. Porém, partem de um princípio mais sensato: trabalhar com a dinâmica natural da costa, e não contra ela.
Não é possível exigir que uma praia permaneça exatamente onde decidimos construir. Continuar respondendo à erosão com mais pedras e concreto pode apenas alimentar uma sequência interminável de novas obras.