Como a Holanda evitou alagamentos?
A tragédia de 2024 no Rio Grande do Sul levou o governo do Estado e a Prefeitura de Porto Alegre a buscar a experiência de quem há séculos convive com a ameaça das águas. Técnicos holandeses vieram ao Estado para avaliar os danos e sugerir medidas de proteção contra novas enchentes. A visita despertou nosso interesse: afinal, como a Holanda evitou alagamentos e se tornou referência mundial no enfrentamento das águas?
A questão ganha ainda mais importância neste período de acelerada subida do nível do mar, que ameaça milhões de pessoas mundo afora.
No caso holandês, o perigo vem de duas grandes frentes. De um lado está o Mar do Norte, capaz de empurrar enormes volumes de água contra uma costa muito baixa. Do outro estão grandes rios, especialmente o Reno e o Mosa, além de lagos e canais que atravessam o país.
Para enfrentar o mar, a Holanda construiu diques, barragens e enormes barreiras móveis. Já nos rios, além de reforçar diques, passou a criar espaço para a água durante as grandes cheias. É sobre essas duas estratégias que vamos falar.
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Esta frase é repetida à exaustão pela população, e com razão, afinal, até agora eles venceram uma batalha contra os elementos; a imensa força dos oceanos, assim, a Holanda evitou alagamentos tão comuns na história do país.
Os antigos moinhos de vento tiveram papel histórico decisivo na luta dos holandeses contra a água. A partir do século XV, muitos passaram a bombear a água dos polders — áreas baixas cercadas por diques — para canais e rios, mantendo secas terras onde o escoamento natural já não era suficiente. Mais tarde, conjuntos de moinhos também ajudaram a drenar lagos e transformar seus fundos em novas áreas agrícolas.
No século XVII, aperfeiçoamentos nos sistemas de bombeamento permitiram retirar água de áreas cada vez mais profundas. Assim, os famosos moinhos holandeses foram peça essencial durante séculos na conquista e manutenção de terras abaixo do nível das águas.
60% da Holanda está vulnerável a inundações
Segundo a Rijkswaterstaat, órgão responsável pela gestão das águas no país, cerca de 60% do território holandês é vulnerável a inundações. Sem suas defesas, grandes áreas ficariam debaixo d’água. Hoje, mais de 3.700 quilômetros de barreiras primárias — entre dunas, diques, barragens e outras estruturas — protegem o país contra o Mar do Norte, os grandes rios e lagos. Foi graças a esse enorme sistema que a Holanda evitou alagamentos capazes de provocar consequências devastadoras.
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Em 2023, representantes de Argentina, Bangladesh, Chile, Egito e Vietnã visitaram a Holanda, com apoio do Banco Mundial, para conhecer as estratégias adotadas pelo país contra enchentes, secas e outros impactos das mudanças climáticas. Um dos pontos que mais chamaram a atenção foi justamente o uso de soluções baseadas na natureza, tema depois destacado pelo Fórum Econômico Mundial.
Em vez de depender apenas de concreto, diques e comportas, os holandeses também passaram a trabalhar com os processos naturais. Assim, usam dunas, praias, áreas alagáveis e o próprio movimento de ondas, ventos e rios para reduzir o risco de inundações. É uma mudança importante de conceito: em muitos casos, em vez de simplesmente conter a água, a Holanda procura dar espaço para ela.
Na costa, essa estratégia aparece no Sand Motor, uma enorme concentração artificial de areia que ondas, ventos e correntes redistribuem naturalmente ao longo das praias e dunas. Já nos rios, o programa Room for the River criou áreas para receber o excesso de água durante as cheias, recuando diques, abrindo canais e recuperando planícies de inundação. Assim, a Holanda combina grandes obras de engenharia com soluções baseadas na natureza para reduzir o risco de alagamentos.
Como funciona o Sand Motor, que ajuda a proteger a costa holandesa?
A Holanda tem cerca de 300 quilômetros de costa, grande parte formada por praias e dunas expostas ao Mar do Norte. É nesse litoral que o país precisa conter a erosão e se proteger da elevação do nível do mar. Uma das soluções adotadas foi o Sand Motor, na costa da Holanda do Sul, perto de Kijkduin, na região de Haia. Construído em 2011, ele formou uma grande península artificial com 21,5 milhões de metros cúbicos de areia.
Em vez de repor pequenas quantidades de areia continuamente ao longo da praia, os holandeses concentraram um enorme volume em um único ponto. Depois, deixaram que o vento, as ondas, as correntes e as marés distribuíssem essa areia naturalmente pela costa.
Assim, o Sand Motor trabalha com os processos naturais. A solução reforça praias e dunas, reduz a necessidade de reposições frequentes de areia e diminui a perturbação do fundo do mar. Além disso, criou novos habitats e ampliou as áreas de recreação e pesquisa.
Portanto, o Sand Motor é um exemplo claro de solução baseada na natureza. Ele complementa as obras tradicionais de defesa costeira e ajuda a Holanda a evitar alagamentos.
Como a Holanda evitou alagamentos vindos do Mar do Norte
O Sand Motor é apenas uma das estratégias usadas. Ao longo do litoral, praias e dunas formam a primeira linha de defesa contra o Mar do Norte. Por isso, o governo repõe regularmente areia onde a erosão ameaça enfraquecer essa barreira natural. A Rijkswaterstaat considera praias e dunas essenciais para a segurança costeira.
Delta Works, sistema de defesa contra as tempestades do Mar do Norte
Nas áreas mais vulneráveis, porém, entram as grandes obras de engenharia. Depois da inundação catastrófica de 1953, a Holanda construiu o Delta Works, seu principal sistema de defesa contra as tempestades do Mar do Norte. Ele reúne cinco barreiras contra tempestades, duas eclusas e seis barragens.
Entre essas obras está a Oosterscheldekering, com cerca de 9 quilômetros de extensão e 62 comportas móveis. Normalmente elas permanecem abertas, permitindo a circulação das marés. Quando o nível do mar sobe perigosamente, fecham e bloqueiam a entrada da água.
Maeslantkering
Outra estrutura impressionante é a Maeslantkering, perto de Rotterdam. Suas duas enormes portas móveis, com 210 metros cada, fecham automaticamente quando uma grande maré de tempestade ameaça avançar pelo canal que liga o porto ao Mar do Norte.
Mais ao norte, a Afsluitdijk forma uma barreira de 32 quilômetros entre o Mar de Wadden e o IJsselmeer. Além de impedir a entrada do mar, suas comportas permitem retirar o excesso de água acumulado no lago.
Assim, a Holanda não depende de uma única solução. O país combina dunas, reposição de areia e soluções baseadas na natureza com diques, barragens e gigantescas barreiras móveis. É esse sistema integrado que ajuda a Holanda a evitar alagamentos vindos do Mar do Norte.
O controle dos rios
O Reno entra na Holanda vindo da Alemanha, enquanto o Mosa chega pela Bélgica. Durante períodos de chuvas intensas ou rápido degelo nas cabeceiras, os dois podem transportar enormes volumes de água para o delta holandês.
Em fevereiro de 2021, por exemplo, os diques baixos, chamados de diques de verão, foram ultrapassados em vários trechos do Reno e do Mosa. Isso, porém, fazia parte do sistema previsto. A água ocupou as planícies de inundação entre esses diques e os diques de inverno, muito mais altos, que continuaram protegendo as áreas habitadas.
Depois das grandes cheias de 1993 e 1995, a Holanda reforçou essa estratégia. Em vez de simplesmente construir diques cada vez mais altos, passou a dar mais espaço aos rios. No programa Room for the River, diques foram recuados, planícies de inundação rebaixadas e novos canais abertos. Assim, durante os picos de cheia, a água pode ocupar áreas previamente planejadas, reduzindo sua altura e a pressão sobre os diques.
Como a Holanda monitora rios, chuva e neve
O centro dessa operação é o Watermanagementcentrum Nederland (WMCN), que acompanha continuamente os níveis e as vazões dos rios. Além das medições feitas em diversos pontos, técnicos usam previsões meteorológicas e modelos hidrológicos para estimar como Reno e Mosa vão se comportar nos dias seguintes.
O monitoramento começa muito antes de a água chegar à Holanda. Segundo Harold van Waveren, da Rijkswaterstaat, o país acompanha chuva e neve em toda a bacia do Reno e do Mosa para antecipar os picos de vazão antes que alcancem a fronteira holandesa.
Quando uma cheia se aproxima, o WMCN alerta gestores e autoridades para que tomem medidas com antecedência. Entre elas está a abertura de açudes nos grandes rios para acelerar o escoamento da água em direção ao Mar do Norte.
Holanda, Singapura e Veneza
Por fim, o Mar Sem Fim tem feito o possível para chamar a atenção do ministério do Meio Ambiente sobre o uso dos recursos naturais na proteção da linha da costa mas, enquanto o mundo planta árvores de mangue e protege suas dunas, o Brasil segue desmatando e permitindo ocupação de dunas.
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