Ataques de tubarão em Jaboatão dos Guararapes
Antes de tudo, vale lembrar: em todas as listas de animais que mais matam humanos por ano, os tubarões estão no fim da fila. Literalmente. Apesar da fama criada por filmes como Jaws, de Steven Spielberg, os animais não são comedores de gente. Eles são predadores do topo da cadeia — e se alimentam de peixes, não de pessoas. As estatísticas confirmam. Segundo o World Atlas, ocorrem apenas 10 mortes por ano no mundo causadas por ataques de tubarão.
Em geral, tubarões têm visão ruim. Na maior parte das vezes mordem por engano. Quando percebem que a “presa” não é a sua comida tradicional, interrompem o ataque. Mas a mordida é poderosa e pode causar hemorragias graves. É isso — somado ao risco de infecção — que costuma levar à morte.
Mesmo com estatísticas tão baixas, em 2023 o Brasil se viu em choque: dois ataques aconteceram em dois dias seguidos na orla de Recife. Quase o mesmo processo se repetiu em 2026, com mais dois ataques seguidos.
Porto de Suape
O Brasil já registrou a 27 mortes por ataque de tubarão. Contamos essa história em outro post. Mas, antes de prosseguir, vamos mostrar algumas estatísticas importantes para o público.
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Diversas listas mostram que os tubarões estão longe de figurar entre os animais mais letais. Em rankings da Discover Wildlife e da BBC Science Focus, eles sequer aparecem entre os dez primeiros. Já os mosquitos lideram com 725 mil mortes por ano. E o ser humano ocupa o nono lugar.
Estigmatizar os tubarões é um erro. Eles são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
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Confira o gráfico do Museu da Flórida
Por que os ataques se repetem no Recife?
O Mar Sem Fim relembra: esses ataques ocorrem quase exclusivamente na costa de Pernambuco — especialmente na orla do Recife. Nenhum outro Estado costeiro registra algo parecido.
A principal causa? A construção do porto de Suape. Mas antes disso, vale apontar o erro básico do poder público: confiar só em placas de alertas. Se funcionassem não teríamos 27 mortes até hoje.
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Merenda em Ubatuba: larvas, carne ruim e fraudeEstadão e engorda de praia: apologia da especulação imobiliáriaPlano para o litoral brasileiro chega tarde diante do oceano mais quenteO governo de Pernambuco precisa agir de verdade — e parar com o blábláblá de sempre após cada ataque. Passado o choque, tudo volta ao normal. Nada muda. Só as placas continuam lá, provando sua inutilidade até o próximo caso.
Os ataques começaram em 1992
Antes de 1992 não havia registros na orla do Recife. Então, por que os ataques começaram justamente naquele ano?
A resposta não está nos tubarões, mas em nós. Com a construção do porto de Suape, o ser humano forçou esses animais a mudar de habitat — e o conflito começou.
Destruição do habitat e deslocamento dos tubarões
Para erguer o imenso porto e a refinaria de Suape, vastas áreas de manguezais foram extirpadas. O local era usado por fêmeas de tubarão cabeça-chata — uma das poucas espécies agressivas — como berçário. Na Grande Recife 90% dos ataques são de tubarões cabeça-chata, e 10% do tubarão-tigre.
Sem esse habitat, os tubarões passaram a buscar novas áreas para procriar. Com os ventos predominantes de sudeste, foram levados pela corrente a subir a costa à procura de um substituto.
O primeiro manguezal que encontram é o do rio Jaboatão, na Grande Recife. Só que ali há outros problemas: o antigo matadouro de Jaboatão, o chorume do Aterro da Muribeca… Tudo isso atrai tubarões e aumenta o risco de ataques.
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Durante minhas viagens, entrevistei Fábio Hazin, então considerado o maior especialista em tubarões do Brasil. Ele confirmou essa relação direta entre o impacto ambiental em Suape e os ataques.
Hazin deu um puxão de orelhas nas autoridades sobre o lançamento de dejetos diretamente em corpos d’água como acontece no Grande Recife. Tudo contribui para a presença dos animais.
Os ataques de tubarão em 2023 que se repetiram em 2026
Houve dois ataques quase simultâneos na orla de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes em 2023 que se repetiram com grande semelhança entre 2026.
Em 2023 um adolescente perdeu uma perna e uma jovem teve o braço amputado. Apesar da região contar com 150 placas alertando para o risco de ataques, segundo o G1.
Em junho de 2026 mais dois ataques ocorreram em um intervalo de menos de 24 horas, deixando ambas as vítimas com lesões graves que resultaram em amputações de membros. As vítimas foram um menino de 11 anos e uma moça de 19.
Imprensa ignora causas e não cobra soluções
A maioria da imprensa ainda não entende — ou finge não entender — os reais motivos dos ataques. Em 2023 o G1 não explicou sobre Suape e a destruição dos manguezais. O UOL até entrevistou surfistas, mas focou no trauma, não nas causas.
O surfista Alexandre Gondim resumiu bem: “Desde 1992, a única ação foi colocar placas dizendo para não entrar no mar. Isso não resolve.”
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Há muitas medidas para evitar tragédias, mas Pernambuco tem medo de perder receitas do turismo
Acertou o surfista. É óbvio que não. Há medidas mais eficazes, desde que o Estado queira investir em segurança. Mas, aparentemente, Pernambuco tem medo de perder receitas com o turismo ao tomar medidas mais fortes que placas. Basta estudar o que fizeram países como Austrália e África do Sul nas praias mais perigosas.
Outra matéria do Uol de 2023 informa que ‘o governo estadual tinha uma parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco, mas foi cancelada. Diante da frequência dos ataques, o governo se comprometeu a retornar o monitoramento, mas não informou datas nem detalhou como fará’.
Monitoramento dos animais não voltou até 2026
Acontece que o monitoramento não voltou até 2026. Agora, depois de mais dois ataques, a imprensa registrou que a pesquisa científica sobre tubarões na costa de Pernambuco ficou interrompida por 11 anos por falta de investimentos. Com isso, o litoral urbano permaneceu sem dados atualizados.
Após os incidentes recentes, o governo estadual prometeu retomar o monitoramento em 2026, em parceria com a UFRPE. A pesquisa usará microchips e receptores para acompanhar tubarões-tigre e cabeça-chata em um trecho de 33 quilômetros da costa.
Isso mostra como o Estado trata um de seus maiores atrativos, talvez o maior: o litoral. Se houvesse um mínimo de cuidado e real interesse público, o monitoramento científico jamais teria sido interrompido. A desculpa da falta de verba não convence. O que falta é vontade política. Nada mais.
Apenas um exemplo de solução eficaz
Na África do Sul, o site sharkspotters.org.za mostra que é possível agir com seriedade. Em parceria com a Cidade do Cabo, a organização opera uma rede de exclusão de tubarões na praia de Fish Hoek.
A barreira vai da superfície ao fundo do mar, isolando totalmente a área de banho. Assim, impede a entrada de tubarões e outros animais marinhos — sem causar danos ao ambiente.
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