A expedição Quest de Shackleton, e o final da fase heroica na Antártica
A chamada “Era Heroica da Exploração Antártica” começou no final do século 19 e terminou no início do século 20, ao final da Primeira Guerra Mundial, com a expedição Quest de Shackleton. No período, 10 países organizaram 17 expedições, com diferentes graus de sucesso. A Antártica guarda uma singularidade: foi o último continente “descoberto” pelos europeus e o único com ao menos três candidatos ao título de “descobridor”. Até hoje há controvérsia sobre quem o viu pela primeira vez.
Os três ‘descobridores’
O líder da expedição russa Fabian Gottlieb Thaddeus von Bellingshausen, o capitão inglês Edward Bransfield, e o caçador de focas americano Nathaniel Palmer reivindicam os primeiros avistamentos da Antártica em 1820, todos representantes da “fase da exploração”. Mas, sobre o final da fase heroica, assim chamada em razão das inacreditáveis expedições do período, ninguém duvida. Foi a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922), de Ernest Shackleton, que morreu a bordo de seu navio, o Quest, ancorado na ilha Geórgia do Sul. Com a saída de Shackleton do cenário descia, pela última vez, a cortina da conquista da fase heroica na Antártica.
As viagens de Shackleton
Sir Ernest Shackleton liderou três expedições à Antártica. E ainda participou como terceiro-oficial, da expedição Discovery, de Robert Scott (1901-1904), da qual foi forçado a abortar, voltando mais cedo pra casa em razão do escorbuto.
Pouco depois, liderava sua primeira expedição; a expedição Nimrod (1907-1909), quando estabeleceu a pé uma nova marca em direção ao Polo Sul. Por esta conquista, no retorno o rei Eduardo VII lhe concedeu o título de cavaleiro, Sir. Até hoje a cabana que Shackleton usou nesta expedição está em pé, em perfeito estado, e é considerada um monumento histórico.
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A segunda viagem, entretanto, a Expedição Transantártica Imperial (1914-19178), foi a mais espetacular. Entrou para a história como a Expedição do Endurance, quando o navio foi aprisionado no gelo, e posteriormente esmagado. Como se sabe, o Endurance foi encontrado no fundo do mar de Weddell em fevereiro de 2022.
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Seguiu-se uma saga de bravura e sofrimento incomuns, que entrou para a história e projetou Shackleton mundialmente. Um paradóxo, já que o objetivo da expedição, a travessia do continente a pé passando pelo Polo Sul, jamais foi alcançado.
Por suas qualidades, Shackleton transformou um fracasso em sucesso ao liderar seus homens de volta pra casa sem perdas depois de dois anos de muito sofrimento e privações.
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A Era Heroica, conheça
Os historiadores concordam que ela começou em 1895 quando o Sexto Congresso Geográfico Internacional reunido em Londres adotou a seguinte resolução:
Que este congresso registre sua opinião de que a exploração das Regiões Antárticas é a maior parte da exploração geográfica ainda a ser empreendida. Que em vista dos acréscimos ao conhecimento em quase todos os ramos da ciência que resultariam de tal exploração científica o Congresso recomenda que as sociedades científicas de todo o mundo incitem, da maneira que lhes pareça mais eficaz, que este trabalho seja realizado antes do final do século
Em seguida foram iniciadas as expedições que até hoje fascinam os amantes da história polar, conquistando a imaginação do público e projetando nomes sempre associados ao mesmo adjetivo: ‘heroico’.
Roald Amundsen, Robert Scott, Adrien de Gerlache (o primeiro a invernar na Antártica) e, especialmente a que fechou o ciclo, a última viagem de Ernest Shackleton à Antártica, a Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922).
O site Cool Antarctica foi feliz na síntese: “Felizmente, a exploração da Antártica contou com uma série de homens capazes de escrever sobre suas experiências com eloquência e sensibilidade.”. Excepcionalmente, em qualquer campo de exploração, houve um encontro em um curto período de tempo de concentração de caráter, bravura e habilidade literária.”
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O legado de Shackleton
A primeira viagem de Shackleton para a Antártica ficou conhecida como a Expedição Nimrod (1907-1909) quando o explorador tornou-se a primeira pessoa a chegar ao Polo Sul Magnético.
Em seguida, em 1911, Roald Amundsen foi o primeiro a chegar a pé ao Polo Sul, seis semanas à frente de Robert Scott, seu concorrente, em mais uma épica viagem.
A descoberta, ou o primeiro a chegar ao polo Sul, não marcaram o fim da exploração antártica: entender a geografia do continente, incluindo atravessá-lo, mapeá-lo e registrá-lo, ainda era visto como importante, e houve várias expedições subsequentes com este objetivo.
Foi numa delas, a Expedição do Endurance (1914–17) também chamada Expedição Transantártica Imperial, a segunda de Shackleton, que o explorador alçou seu nome no mais alto posto da galeria dos heróis antárticos.
A sua reação, depois de ter o navio preso e esmagado no gelo, liderando seus homens nas mais duras condições jamais vistas, foi uma lição de liderança, bravura, e humildade poucas vezes repetida na história.
E como lembrou o site coolantarctica, foi durante este tormento que Shackleton provou sua ‘habilidade literária’ ao escrever o diário de bordo da expedição, posteriormente publicado em forma de livro com o título “A incrível viagem de Shackleton: A mais extraordinária aventura de todos os tempos”, um clássico e um best-seller até hoje.
O centenário da Expedição Shackleton-Rowett (1920-1922)
A missão original desta terceira viagem era mapear regiões costeiras ainda desconhecidas na Antártica. Mas, antes de chegar, Shackleton morreu de ataque cardíaco, em 5 de janeiro de 1922, quando estava na Geórgia do Sul.
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A imprensa mundial destaca o centenário desta derradeira expedição, e há ao menos uma exposição comemorativa que pode ser visitada virtualmente.
A exposição do South Georgia Museum pode ser vista neste link. Segundo informa o site do Natural and History Museum, ‘os vastos exemplares de história natural recolhidos durante a expedição Shackleton-Rowett foram dispersos pelas coleções do Museu, enquanto documentos adicionais desapareceram em outros arquivos’.
E comemora: ‘Agora, há esperanças de que esses espécimes possam ser reunidos e a história das descobertas do (navio) Quest contada’.
O site ouviu Mary Spencer Jones, curadora sênior de briozoários do Museu, que disse: ‘Cem anos depois, agora é o momento certo para começar a montar uma lista completa do que saiu da expedição. Temos uma quantidade razoável de material da expedição nas coleções, mas está tudo espalhado’.
Como foi montada a Expedição Shackleton-Rowett
O site do Natural and History Museum fez a recapitulação. A expedição tem suas origens no início de 1920, quando Shackleton começou a montar uma viagem ao Ártico.
Com o apoio do governo canadense, ele planejava explorar os mares ao norte do Alasca, com parte do financiamento fornecido por empresários como John Quiller Rowett.
Mas quando os canadenses recuaram e a janela sazonal se fechou para uma missão no Ártico, foi decidido ir para a Antártida, com Rowett fornecendo todo o financiamento.
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A saída da Cidade do Cabo
Em 17 de setembro de 1921,o navio Quest de Ernest Shackleton finalmente deixou Londres para a Cidade do Cabo, África do Sul, onde a tripulação pretendia pegar um hidroavião, equipamento polar e o cientista Professor Ernest Goddard.
No Rio de Janeiro
Como já comentamos neste site, durante o século 19 quase todos os que se aventuraram rumo à Antártica fizeram escala no Rio de Janeiro, na ida ou na volta.
No entanto, problemas no motor forçaram o Quest a navegar para o Rio de Janeiro para reparos vitais. A essa altura, os sinais de problemas de saúde de Shackleton também começaram a aparecer, mas o navio continuou para a Geórgia do Sul de qualquer maneira.
E não foi um reparo qualquer. Segundo a biografia escrita por Ranulph Fiennes — Shackleton: O Homem que Liderou o Endurance na Arriscada Expedição à Antártica, Shackleton planejava mal, comprava embarcações inadequadas, acumulava dívidas, bebia em excesso — o autor o descreve como alcoólatra — e passava longos períodos longe da mulher e dos filhos, sempre movido pela obsessão de alcançar fama e glória.
Assim, a escala no Rio aconteceu porque, mais uma vez, o Quest era uma embarcação inadequada e repleta de problemas. Nosso herói teve que esperar um mês para, finalmente, seguir para a Geórgia do Sul onde acabou morrendo.
5 de janeiro de 1922
Nas primeiras horas de 5 de janeiro de 1922, Shackleton sofreu um ataque cardíaco fatal. Tentaram levar seu corpo de volta à Inglaterra. Mas, a pedido de sua esposa, ele acabou enterrado na Geórgia do Sul. Seu túmulo fica no pequeno cemitério de Grytviken.
Embora o restante da tripulação ainda tenha tentado chegar à Antártica, grandes blocos de gelo impediram a viagem.
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Em vez disso, o Quest voltou e navegou para a Cidade do Cabo como parte de um plano para reabastecer o navio para uma segunda tentativa no ano seguinte – que nunca aconteceu.
A última grande viagem da era heroica chegava ao fim. Sir Ernest Shackleton morreu durante a expedição. Por isso, segundo o Natural History Museum, muitos lembram a viagem como a última de Shackleton, e não por suas realizações científicas.
O adeus dos companheiros
O que aconteceu com o acervo da expedição
Depois que a expedição terminou, os pesquisadores enviaram aos cientistas centenas de espécimes para análise. O material incluía aves, rochas e outros itens coletados.
À medida que os cientistas devolviam os espécimes ao Museu, as equipes os distribuíam pelas coleções e os estudavam separadamente.
Uma vez que o centenário começou a se aproximar, os pensamentos voltaram-se para a expedição novamente. Como neto de John Quiller Rowett, Jan Chojecki estava ciente da associação de sua família com Shackleton e começou a pesquisar o papel de seu avô na história da Antártida.
“Sempre tive curiosidade sobre a carreira e a vida do meu avô”, diz Jan, “mas quando me deparei com um grupo de escoteiros indo para a Antártida, fui cooptado pelo projeto e comecei a me aprofundar um pouco mais.”
Os diários do naturalista do Quest
E prosseguiu: “Li os diários do naturalista do Quest, George Hubert Wilkins, e achei absolutamente fascinantes suas descrições de como ele estudou a vida selvagem em condições incrivelmente difíceis. “
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Nascia a exposição que hoje destacamos. Enquanto a morte de Shackleton e o fim da viagem do Quest completaram uma era de exploração da Antártida, hoje a pesquisa continua no continente.
Existe um acordo internacional para garantir que a Antártica seja um lugar ocupado exclusivamente para a pesquisa científica.
Assista ao vídeo da partida do Quest
Imagem de abertura: sgmuseum.gs.
Fontes: https://www.nhm.ac.uk/discover/news/2022/january/shackletons-final-expedition-reuniting-quests-collection-100-years-later.html?fbclid=IwAR3eFyS-BwhtHt7uyijeoIowPYWa21yyJAq31QSzNV4k7j1CDi6D3-NDKos; https://sgmuseum.gs/shackletonslastquest/; https://www.coolantarctica.com/Antarctica%20fact%20file/History/The_heroic_age_of_Antarctic_exploration.php.