De Ilhéus para Porto Seguro

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    Quarta- feira, 8- 03- 2006.

    No último diário de bordo eu comentava que ia saber mais a respeito da Resolução do Conama, de 22 de fevereiro, sobre as APPs, áreas de preservação permanente e, em seguida, falaria a respeito.

    Pois vamos lá. Em minha estada em São Paulo acompanhei o assunto. E perdi as esperanças. Depois de quatro anos discutindo a questão, o Conselho Nacional do Meio Ambiente resolveu, em ano eleitoral- preste atenção, regularizar o que era irregular. Todos aqueles que agiram em desacordo com a legislação ambiental foram premiados sob o questionável argumento dos “ prejuízos sociais ” que causaria a reversão de certas situações.

    Para entender o caso é bom saber que: De acordo com o último Código Florestal foi estipulado que algumas áreas deveriam ser de conservação obrigatória. Elas são extremamente importantes e merecem este status. Entre elas estão as margens de rios e olhos d’água, fundamentais para a qualidade e abastecimento de água, os manguezais, pela importância para a reprodução de vida marinha e proteção da linha da costa, as restingas, onde predomina a influência das marés, os topos de morro e montanhas, que são áreas de risco em função da erosão, a preservação das encostas, onde há deslizamentos nos períodos de chuvas, etc. Como a fiscalização é falha, e grande parte das empresas e pessoas sabe disto, com o tempo muitas destas áreas foram irregularmente ocupadas. Nosso mastodôntico Estado como sempre não agiu. O tempo passou e a situação se consumou. Então o Conama resolveu discutir a questão. Tomam parte no conselho 111 pessoas, a maioria ligadas ao governo, mas há também ambientalistas, comunidade acadêmica, e ONGs . E veio a Resolução de fevereiro que, estimulando a impunidade, regularizou o que era irregular. Simples como isto. O principal argumento diz respeito ao “ prejuízo social ”. Dizem alguns que o Estado não teria dinheiro suficiente para retirar as pessoas de baixa renda que se instalaram em áreas de mananciais. E no bojo deste discurso duvidoso (dinheiro existe, o que acontece é que ele é perdido nos muitos ralos, caixinhas, corrupção, etc), premia-se igualmente atividades mineradoras, quase sempre dentro de APPs.

    E que se dane o meio ambiente, a manutenção da nossa biodiversidade e o compromisso e obrigação da nossa geração de passar “ o bastão ” para as próximas tal qual nos foi entregue, ou, se possível, melhor.

    Acho isto um disparate. E aqueles que respeitaram a legislação, com que cara vão ficar ?

    E os empresários e políticos que destroem o mangue para enriquecer com a criação de camarões? Vão receber ainda mais prêmios, além do financiamento com dinheiros públicos? E os resorts gigantescos, que constroem monumentos ao mau gosto na beira de praia, destruindo um cenário público e paradisíaco.Vão continuar a detonar o que não lhes pertence ?

    Aos membros do Conama dedico o Prêmio Cara de Pau- o Oscar da baixaria, na categoria “ me engana que eu gosto ”. No momento é só o que me vem à cabeça.

    Do aeroporto de Ilhéus que fica quase no centro da cidade, fomos direto para a sede do IESB- Instituto de Estudos Sócio Ambientais do Sul da Bahia, para uma rodada de entrevistas. Conversamos com Marcelo Araújo, secretário executivo da ONG.

    Ele nos falou das dificuldades dos fazendeiros de cacau, principal atividade econômica da região, com a chegada de um fungo no final dos anos 80. Ele provoca uma doença conhecida como “ vassoura- de- bruxa ”. E contou dos quase 250 mil desempregados do campo que ele provocou, da pressão dos madeireiros, do crescimento da monocultura do eucalipto, etc. Pareceu um trabalho muito sério e bem feito, o do IESB. Vale a pena conhecer melhor. E você pode fazer isto entrando no site (vide seção correspondente), ou lendo o que segue.

    O cacaueiro é uma árvore originária da Bacia Amazônica que chegou em Ilhéus no finalzinho do século 18, começo do 19, e logo se transformou na maior força da economia. Para produzir bem o cacau precisa de solo fértil e sombra. Por isto se adaptou perfeitamente entre a Mata Atlântica do sul da Bahia. E enriqueceu os barões de então. Com 90% da produção exportada, a bom preço, esta cultura acabou se tornando muito importante para toda a Bahia. Aqui as árvores foram plantadas em meio à floresta, o que, de certo modo, ajudou a preservá-la. Agora, com a crise, resta o medo de que os fazendeiros endividados a troquem pelo eucalipto, ou outras atividades que podem acabar com o que resta deste bioma. Aqui começa um dos principais trabalhos do IESB : ajudar os produtores a não depender exclusivamente dos lucros do cacau, plantando simultaneamente outras culturas, e ajudando a que se livrem da praga.

    Marcelo falou também das outras pressões, entre elas a atividade ilegal conhecida como “ pranchões ”, quando pequenos madeireiros entram na mata com equipamentos. Eles derrubam as árvores e as processam no próprio local, saindo de lá já com o que eram árvores da Mata Atlântica em forma de pranchas de madeira, daí o nome. Ou da caça e tráfico de animais selvagens ( a Bahia é o Estado onde mais se pratica o tráfico de animais selvagens ), e outras.

    Gostei do bate- papo, das pessoas que trabalham no órgão, do clima que senti.

    Combinamos para amanhã cedo uma visita a uma fazenda de cacau. E nos despedimos.

    Em seguida fomos para nossa casinha flutuante, meu barco, o Mar Sem Fim, fundeado atrás do molhe do porto de Ilhéus, quase em frente ao Iate Clube. Como sempre nos aguardava o imediato Alonso Góes, esta espécie em extinção, um dos últimos marinheiros profissionais dedicados a barcos de laser. Um homem do mar completo, com vasta experiência, mestre em seu ofício. Foi um feliz reencontro. Paulina Chamorro, que fazia tempo que trabalhava apenas em São Paulo, retomou as viagens. Junto conosco, mais uma vez, estava o cinegrafista Paulo Cezar Cardozo.

    Conversamos um pouco, jantamos a bordo e fomos dormir. Amanhã cedo temos a visita na fazenda, o abastecimento do barco e pouco mais de 50 milhas até Canavieiras.

    Quinta- feira, 9- 03- 2006.

    Eram 7hs e 30 da manhã quando encontramos Joaquim Blannes, o Peninha, e Luciano Lima. O primeiro um ambientalista que milita no IESB. O segundo um fazendeiro. Os dois iriam nos levar numa antiga propriedade improdutiva1 de cacau, onde cerca de 20 famílias de sem terra foram assentados e continuam a tentar salvar a lavoura. Fizemos o trajeto do Iate Clube até lá em cerca de 30 minutos, através da estrada litorânea em direção ao norte, até chegarmos num desvio onde pegamos uma estrada de chão. Rodamos mais alguns minutos e já podíamos ver um bonito casarão com uma bandeira vermelha dependurada, e algumas casas menores em volta no que deveria ter sido uma antiga colônia. As instalações são de 1923, pudemos ver numa placa. E além das casas de colonos, hoje ocupadas pelos sem terra, ainda havia um galpão para guardar a produção. A fazenda tem dois sistemas para secagem conhecidos como barcaças. São grandes construções em forma de compridos retângulos de cimento, protegidos por um telhado erguido sob trilhos nas laterais, de modo a poder ser removido com facilidade. Em cima dos retângulos eram colocados os frutos de cacau, como se fazia com o café no terreiro. De dia o telhado era aberto para que tomassem sol. De noite fechavam para evitar sereno.

    Passemos pela mata a procura dos cacaueiros que foram plantados em meio à floresta. Logo de cara minha atenção foi desviada para imensas bromélias. Havia várias em cima dos galhos das árvores, de todos os tipos e tamanhos diferentes. Algumas são imensas. Mas todas são bonitas. Feio foi ver os frutos de cacau secos, e as folhas das árvores quase sem vida, furadas pelo fungo que provoca uma alteração genética violenta. Algumas árvores são produtivas mesmo com mais de 80 anos. E podem ultrapassar os 12 metros de altura, mas são podadas para facilitar a colheita. No assentamento elas dividem espaço entre pés de cajá e seringueiras, seguindo a estratégia de diversificar, promovida pelo IESB. Todas são tratadas de forma orgânica.

    A primeira crise do cacau aconteceu já em 1929, com o estouro da Bolsa americana. O preço caiu vertiginosamente. De 30 a 50 as dificuldades se acumularam. No final da década de 50 o cacau vive sua pior crise. A atividade passa a ser antieconômica com a inexistência de crédito, preços baixos no mercado internacional, custos de produção altos e pragas. Cresce o desemprego. Muitos agricultores desistem, abandonam suas lavouras. O governo cria a CEPLAC – “ Comissão Executiva do Plano de Recuperação Econômica Rural da Lavoura Cacaueira “, órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, e Desenvolvimento Agrário, do Governo Federal.

    Mas a tempestade não estava amainando. Saindo de uma crise ruim para entrar em outra pior, desde o crash de 29, o desastre ainda estava por vir. E chegou quando o Brasil era o primeiro produtor mundial. Foi no fim dos anos 80. E veio na forma do fungo que destrói o fruto ainda no pé. Não há remédio contra ele. Fazendeiros e CEPLAC se unem e investem na pesquisa de cacau. Descobrem que a única solução é a clonagem da árvore, com um tipo resistente ao fungo. Só que o processo é caro e relativamente lento. E os fazendeiros estão endividados, “ chorando ainda em cima de seu passado ”, e desmotivados. Enquanto isto a periferia de Ilhéus incha com as favelas, a maioria recente, causadas pela vassoura- de- bruxa, o nome da praga do cacau.

    Hoje a maior divergência entre os ambientalistas e a CEPLAC é que esta última defende que a sombra não é assim tão vital para o cacau, e propõe que fiquem em pé apenas 12 árvores nativas por hectare plantado. Enquanto isto os ambientalistas insistem em manter ao menos 60 delas, para garantir o que resta da Mata Atlântica na região de Ilhéus.

    Não entendo do assunto. Não posso opinar. Ainda assim torço pela tese dos ambientalistas.

    Do assentamento voltamos para a cidade e seguimos depois em direção ao sul. Íamos conhecer a pequena fazenda de Luciano, de apenas 24 hectares, tida como modelo. Tudo é tratado organicamente, sem agrotóxicos, e certificada. Uma selva aparentemente fechada, com lindas e centenárias árvores, folhagens espetaculares entre elas, verdes de todos os tons, formas geométricas das mais elaboradas, entremeadas por cacaueiros, árvores de cupuaçu, limas, bananas, palmito pupunha, açaí, graviola, coco, e cerca de trinta lindíssimos canteiros de flores da Mata Atlântica ou de florestas úmidas. Uma das mais bonitas e exóticas leva o nome popular de “ sorvetão ” (vide fotos). Foi bacana ver a cumplicidade entre Peninha (Joaquim Blannes) e Luciano. Eles são amigos e admiradores um do outro. E brincam o tempo todo em mútuas gozações. O que mais os liga é a paixão pelo meio ambiente e o entusiasmo pelo que fazem.

    Entramos na mata fechada, sem trilhas aparentes, com mato alto na altura do capô da perua. Luciano apontava com a mão a direção a seguir e Peninha obedecia às cegas, sem pestanejar. Não se via mais que um metro para frente. A gente apenas sentia os solavancos da perua 4 x 4, ou abruptos declives, quando o carro dava a sensação de estar se enfiando num enorme buraco para o resto da vida. De tempos em tempos Luciano mandava parar. A porta do lado onde eu estava mal se abria, tal a densidade da mata. Então, de dentro do carro saia um poeta ou filósofo que, como um guia andava na nossa frente, encantado com o que via, mostrando as flores belíssimas que explora. Com um canivete em punho, Luciano escolhia as mais bonitas e cortava no talo, entregando para Paulina. O buquê aumentava, com cores que iam do azul púrpura ao amarelo, passando pela cor de rosa e vermelho vivo. E suas formas eram totalmente incomuns. Nunca vi nada igual. Belíssimas. A todo o momento Luciano lembrava que a experiência na fazenda era vitoriosa. Com apenas uma das culturas pagava seus custos. Com as outras obtinha o lucro. E tudo orgânico, certificado pelo IBD, remunerando o capital, gerando empregos, e, sobretudo, fazendo com que a floresta em pé valha mais que transformada em taboas, única forma de garantir sua biodiversidade. Parabéns.

    Por fim eles nos levaram até a margem do rio do Engenho, ali perto, para vermos aquela que se diz “ a segunda igreja mais antiga do Brasil ”. Quanto a isto temos dúvida. Ao longo da viagem, de tempos em tempos, surge esta mesma história. Mesmo assim fomos conhecê-la.

    Bela idéia. O lugar não poderia ser mais pitoresco, típico e bonito. A pequena igrejinha está lá ( vide fotos ) , virada em direção a foz do rio, “ para que os jesuítas pudessem avistar os holandeses antes que eles chegassem” . Gravamos e fotografamos. Depois voltamos para Ilhéus. Antes paramos num simpático restaurante onde nos esperava um churrasco acompanhado de arroz, farofa de banana, feijão verde e salada.

    Terminado o banquete nossos amigos nos deixaram no Iate Clube. Eram mais de três horas da tarde. Não seria possível sair hoje para Canavieras. É preciso chegar com dia claro porque a barra é assoreada e perigosa. Melhor dormir esta noite em Ilhéus, e seguir amanhã cedo.

    Sexta- feira, 10- 03- 2006.

    Ontem tivemos muita correria. Quando estávamos abastecendo o Mar Sem Fim de diesel e água doce, já no final da tarde, descobrimos que a máquina de filmar estava pifada.Antes de ontem gravamos bem com ela, mas ontem deu pane total. E eram seis horas da tarde quando percebemos. Pior impossível.

    Ligamos para a produtora, avisamos e, minutos depois, Adriana Cerdeira(auxiliar de produção) já levava outra para Congonhas. Deu tempo. Pelo celular ficamos sabendo que às 22hs30 a TAM EXPRESS daqui estaria com ela. Aproveitamos para fazer o chatésimo supermarcado. Assim que embarcamos todas as compras já estava na hora de pegar a câmara. E lá fomos nós para o aeroporto. Funcionou, felizmente. À meia noite estávamos todos a bordo, com o veleiro abastecido e uma máquina nova, prontos para nossa viagem.

    Escrevo, agora, às nove e meia da noite com o povo de bordo reclamando do calor. Nossa navegação foi tranqüila. Uma bela velejada com todo o pano para cima e com a ajuda da corrente e do vento favorável. Navegamos a 7.5, 8 nós. E sem balançar. O vento nordeste soprou todo o tempo. Ele era fraco no início mas aumentou ao longo do dia. Quando chegamos estava variando entre 14 e 18 nós. Tivemos sorte. A maré estava baixa e, por isto, as ondas estouravam por todos os lados. Entremos atrás de um barco de pesca que parou para nos esperar. Ele teve esta decência e educação. E nos colocou para dentro. No trecho mais raso atingimos profundidades de até 1,5 metros. Foi de arrepiar. Mas logo ultrapassamos o momento crítico e a profundidade aumentou. Chegamos até a cidade, poucas milhas acima da foz, sem dificuldade.

    Amanhã exploramos a região. Os maiores problemas são a carcinicultura, o turismo e a especulação imobiliária.

    Sábado, 11- 03- 2006.

    Às 7hs 30 da manhã encontramos Anders Schimitd, e Maurício Arantes, biólogos do Instituto Ecotuba, uma ONG que atua aqui no sul da Bahia. Eles, e o simpático piloteiro “ Bigode ”, nos levariam de canoa a motor para conhecermos a região. Navegamos uns 20 minutos em direção a foz do rio e encontramos um catador de caranguejo com quem queríamos conversar.

    Na margem gravamos o homem em ação, ou seja, catando os caranguejos enterrados na lama. Depois fizemos uma entrevista e, em seguida, começamos a subir o rio Pardo. Queríamos saber como estava sendo ocupado e verificar as pressões do turismo. Felizmente a coisa aqui ainda está no começo. A sorte da região é que suas praias não correspondem ao imaginário coletivo que as pessoas têm de uma praia paradisíaca. As daqui estão sob a influência de vários rios, por isto suas águas não são transparentes e a areia nem sempre é branca. A geografia afastou o turismo de massa por enquanto. A outra vantagem é que Canavieiras fica em meio a um lagamar, cercada por mangues e rios, e este ecossistema também não é o preferido dos turistas. Mesmo assim empreendedores e especuladores estão chegando. Cedo ou tarde vão se instalar. No momento há apenas pequenas pousadas, especialmente na ilha de Atalaia, daquelas que não agridem a paisagem. Depois de deixarmos a cidade, pegamos um pequeno afluente, e seguimos até seu final. Foi um passeio maravilhoso. Conforme a largura do rio vai diminuindo as copas dos mangues, de ambas as margens, encostam umas nas outras formando túneis de vegetação. Nosso bote ia se esgueirando debaixo da frondosa cobertura, fazendo ziguezague entre galhos e troncos de árvores. Nas margens aquela zoeira produzida pelos troncos e raízes suspensas. No trajeto vimos diversos bagres mortos, boiando com a barriga para cima. Prguntávamos o que poderia ter causado a mortandade até que chegamos no final do rio, onde havia bombas de uma fazenda de camarões instaladas na água.Aproveitei e fiz uma passagem chamando a atenção para o fato de que, até agora, só nós,do Projeto Mar Sem Fim,temos denunciado o estrago causado pela carcinicultura. As grandes ONGs do Rio e São Paulo estão como o Lula : “ No vêm nada. Não sabem de nada ”. É incrível ! Mesmo ONGs que foram criadas para lutar pelo que resta de Mata Atlântica não se manifestam. Fiz uma passagem onde eu dizia: “ Fique atento: estão tirando o verde de nossas matas…. para colocar no lugar camarões. Nós pagamos a conta e os empresários e políticos cada vez enriquecem mais ” .

    Retornamos para o Mar Sem Fim no final do dia. Anders, Mauricio, e outros companheiros que estavam em terra vieram a bordo. Queriam conhecer o veleiro. Fiz uma rodada de caipirinhas de lima com as frutas da fazenda que havíamos visitado em Ilhéus, e ficamos conversando. O papo girou em torno da RESEX que o pessoal do Ibama está prestes a criar aqui. Quando entrevistei o gerente executivo do Ibama em Salvador, Julio de Sá Rocha, ele já dizia que a intenção deles era criar uma reserva extrativista em Canavieiras. O motivo era fazer contraponto à determinação da Bahia Pesca de transformar a área em mais um pólo de carcinicultura e, também, para tentar frear o turismo predatório. Segundo Julio “a legislação de um Reserva Extrativista é mais restritiva que a das APAs”. Talvez se evite que o lagamar vá, literalmente, para o brejo.

    O Ecotuba, o IESB e a Pangea atuam por aqui. No momento procuram sensibilizar as populações tradicionais das vantagens da Resex. Mas terão dificuldades. Os moradores não se dão conta que os locais que ocupam são antigos terrenos de marinha, áreas públicas que já pertencem ao governo. Eles têm apenas o título de posse. Nas audiências que aconteceram antecedendo a formação da Resex foi dito a eles que nada vai mudar. Apenas não poderão vender suas posses ( o que, de fato, eles já não podem fazer…). Mas isto foi o suficiente para despertar desconfiança, rancores com relação a ausência do poder público, “ que agora quer vir aqui dizer pra gente o que fazer ”, e medo. E enquanto isto especuladores aproveitam a situação e põem lenha na fogueira, espalhando boatos alarmantes. Com tudo isto os moradores estão cada vez mais confusos. Nossos amigos ambientalistas terão muito trabalho nos próximos tempos.

    Antes do sol se por eles se foram. Desembarcaram e retornaram para suas bases. Então almoçamos, descansamos e nos preparamos. Amanhã vamos tentar entrar pela foz do rio Jequitinhonha, menos de dez milhas abaixo de onde estamos.

    Vamos dormir bastante já que a maré só vai estar cheia pelas três da tarde. Teremos a manhã livre. Só vamos deixar Canavieiras depois do meio dia. Quem bom. Isto é coisa rara a bordo. Vou aproveitar.

    Domingo, 12- 03- 2006.

    São oito e meia da noite, de um dia cheio de emoção. No momento estou lutando contra carapanãs, uma espécie de minúsculos demônios alados. Eles não param de atacar fazendo com que eu use as mãos tanto para escrever, como para coçar as partes mordidas, ou estapear os mais afoitos. Fica difícil a concentração em meio ao embate. Você já viu bicho mais chato que este? Tão pequeno que quase não se vê. Mas com uma picada que coça sem parar. Só com repelente mesmo.

    Bom, já me lambuzei, passo agora a narrar o que rolou conosco. Depois de uma noite em que choveu forte o tempo todo, acordei depois das nove da manhã. Nem bem tinha tomado o café e um rapaz chegou de canoa. Nós o havíamos encontrado no cais. Assim que ele nos viu elogiou o programa, citando, entusiasmado, vários trechos diferentes. E correu para nos cumprimentar. Foi tão simpático e espontâneo que o convidei para vir a bordo. Hoje ele veio. Ficou horas conosco. Conversando, demonstrou boa cabeça e preocupação com a situação de Canavieiras. Compunha nosso visual o simpático casario colonial de Canavieiras, restaurado recentemente. Tudo muito bem tratado e bonito. Ao meio dia atracamos no píer da cidade para pegar água e deixar o telespectador. No lugar dele subiu o “ prático ” Raimundo, que dizia conhecer a barra do Jequitinhonha. Esta é mais uma barra tão assoreada que até os barcos de pesca têm dificuldades. Enquanto abastecíamos conversamos com pessoas que estavam no cais observando. Eles diziam que conseguiríamos entrar porque estamos em época de lua cheia, quando as marés são bem mais fortes. Mas devíamos levar um prático de lá. Só que não achamos nenhum. Então se apresentou Raimundo dizendo que conhecia a barra. Acertamos para ir com ele.

    A maré estaria totalmente cheia entre três e quatro da tarde. À uma hora começamos a navegar.

    Saímos pela barra de Canavieras sem dificuldade e aproamos para Belmonte. Coloquei no piloto automático e desci para cozinhar. Levantamos a mezena (vela menor, de ré), e ligamos o motor ligado. Não havia quase vento.

    Menos de cinqüenta minutos depois eu estava de volta ao cockpit com um prato de macarrão na mão. Lá fora Alonso e Raimundo tentavam tirar um peixe da linha que é lançada em toda viagem. Mas ele acabou escapando. Pouco depois a barra estava em nossa proa. Continuei comendo enquanto o Alonso, no leme, seguia as instruções de nosso prático. Na primeira investida, um pouco demais à esquerda da margem, com ondas de um metro, às vezes um metro e meio estourando, nossa quilha deu um violento encontrão com o fundo duro de areia. O barco todo tremeu. O mastro balançou pra frente e pra trás seguidas vezes. A onda passou e nós ficamos. Aos poucos perdemos o leme e a proa do veleiro, girando 180 graus, apontou pra fora de novo. Estávamos presos. Situação crítica a bordo! Abro a genoa em segundos (vela da proa), e torço que o (fraco) vento aderne o veleiro livrando a quilha do fundo. Mas o Mar Sem Fim só se solta só quando está na crista de uma onda. E bate no fundo, de novo, quando cai no cavado. Ele não chega a deitar de lado, felizmente. Mas bate seguidas vezes no fundo. Para piorar o cabo do bote que vinha amarrado, arrastado pela popa, enrosca na hélice. Agora a situação ficou negra ! Alonso não conseguia imprimir potência no motor. O veleiro não respondia, apenas subia e baixava ao sabor das ondas. Era a hélice presa. Fui ver e percebi a proa do bote já abaixada, na direção do eixo do veleiro. Uma faca é passada ao Raimundo que, pela bandeja de popa, tentar cortá-la. Eu pulo no bote e peço ao Cardozo para soltar e passar o motor de popa. Minha idéia era levar a âncora para fora e aguardar que a maré subisse, quando poderíamos nos puxar. Mas tão logo o cabo preso foi cortado, o bote, cheio de água, ao ser amarrado quase capota. No meio da luta o veleiro parece ter se soltado, e começa a navegar. No bote sinto o peso da água. Não vou agüentar muito tempo porque ele ameaça virar. Solto a amarra e fico ao Deus dará. Ainda tive tempo de olhar e ver o Mar Sem Fim indo embora. Beleza, ao menos ele está livre! Em seguida vejo Cardozo pulando n‘água atrás de mim. Ainda gritei para ele não fazer aquilo, mas já era tarde. Em seguida, nós dois dentro do botinho, ao léu em plena barra, pudemos ver que o veleiro ainda estava preso. Ele apenas tivera um refresco, e avançara alguns metros para frente. Mas ainda estava encurralado: não conseguia sair, nem entrar. Que desespero aquela situação! É a pior dentre as que atormentam quem navega e demanda rios, como nós. Eu não podia fazer nada. Apenas torcia e observava as manobras do Alonso, no leme, comandando Raimundo e Paulina a bordo. Felizmente em nenhum momento o veleiro deitou. Aos poucos eles acharam o caminho através de um canal quase grudado na praia, do lado norte da pequena baía. Nele a profundidade era suficiente. Quanto a nós, no bote, tivemos que remar um bom tempo com canecas usadas para tirar água. Doeram os braços, mas conseguimos chegar na praia. Depois arrastamos o bote por cima dela, até chegarmos do outro lado, já no rio, quando vimos que, afinal, o Mar Sem Fim já estava lá dentro.

    Que sufoco. Tivemos sorte do cabo não se prender demais na hélice, impedindo o veleiro de se movimentar. Se isto tivesse acontecido não sei, não. Enfim foi um dia para não esquecer. Para aprender as lições que o episódio nos trouxe. Um dia para agradecer pelo final feliz. E para não repetir jamais.

    Segunda- feira, 13- 03- 2006.

    Hoje não arriscamos sair com o veleiro, que permanece fundeado numa curva de rio ao lado do mangue, bem perto da foz. Um lugar com boa profundidade, bem abrigado, perfeito. Vários barcos de pescadores passaram por nós. Alguns dizem que até a cidade são dois metros de profundidade. Outros falam em três. Ainda assim não arriscamos mais. Vamos de bote mesmo, encontrar Alberto Rocha, secretário do meio ambiente do Município, músico, poeta, e historiador do Jequitinhonha. Quem sugeriu a entrevista foi Tosato que, desde que nos encontrou no gabinete do gerente executivo do Ibama, em Salvador, na última viagem, tem passado dicas preciosas.

    Com dez minutos já estávamos parando no cais de Belmonte. Esta é mais uma cidade que viveu o fausto da época do cacau e, desde então, amarga uma decadência extraordinária. O último senso do IBGE identificou diminuição de moradores com a brusca queda da população. É a fuga do desemprego.

    Na sua foz o Jequitinhonha está morto. Não sou biólogo nem estudioso, mas é o que sinto. Não são poucos os problemas do rio. E eles começam na nascente, na serra da Canastra, em Minas Gerais, e se agravam em muitos dos 58 municípios por que passa. Em Minas as matas ciliares foram bastante devastadas. Deram lugar a pastos. Atividades mineradoras jogaram a pá de cal, ainda lá em cima, em Minas, logo depois da nascente. E em muitos dos afluentes não foi diferente.

    De acordo com Alberto, desde que o Jequitinhonha entra no Estado da Bahia suas matas ciliares estão em razoável estado, por ser esta uma região cacaueira. Antigamente havia a crença de que a árvore do cacau só se daria bem com muita sombra, por isto ela era plantada em meio a Mata Atlântica, como já foi dito.

    Alugamos uma canoa de alumínio, com motor de popa, e subimos o rio umas 25 milhas. No geral as margens eram cobertas de mata, com cortes para o pasto de tempos em tempos. Mesmo assim o rio é totalmente assoreado. É que além dos fatores já citados, uma barragem foi construída cerca de 100 a 150 km da foz, para a construção da Hidrelétrica de Itapedi. As obras tiveram início em 1998 e, três anos depois, a Usina começou a funcionar gerando energia para o extremo sul da Bahia. Os sedimentos trazidos, para enfrentar os que o mar enviava, deixaram de vir. A dinâmica da foz foi alterada. Especialmente a barra, mas a calha por onde ele corre também assoreou. O rio começou a agonizar. Hoje nenhuma das duas barras, a do norte e a do sul, pode receber mais que pequenos barcos de pesca. Provavelmente o Mar Sem Fim será o último veleiro a entrar (não deve haver outro maluco igual a mim). Navios de pequeno porte, como antigamente, nem pensar. A região só pode estagnar. Eis a importância dos bons portos. Chega a ser fundamental. A diferença entre progresso e decadência.

    Antigamente navios vinham de Salvador trazendo sal e outros víveres, e levavam cacau em troca. E a produção e comércio geraram enormes fortunas que evaporaram depois das sucessivas crises. Hoje descendentes de antigos barões, “ que andavam com 40 jagunços do lado ” venderam seus casarões para a prefeitura, por exemplo, e vivem modestamente, nostálgicos das recordações do passado.

    Conversamos com Alberto sobre as pressões que sofre Belmonte. E são muitas: o turismo de massa está chegando. Dois resorts cinco estrelas, de portugueses, começam a se instalar. Como sempre em áreas em que não poderiam, dentro da APA Santo Antonio, que tem plano de zoneamento, e em restingas, que até a resolução de 22 de fevereiro, do Conama, eram APPs, onde não se podia ocupar. Segundo Alberto, ambos foram multados pelo Ibama, mas seguem construindo. Há também um empreendedor japonês que comprou uma casa na cidade e, há dois anos, despacha caminhões com barro para aterrar outra área onde não se pode ocupar. Mas o loteamento dele segue firme e forte a despeito das multas.

    Por fim o Jequitinhonha ainda tem a fábrica da Veracel, um consórcio entre Votorantim, Aracruz, e uma empresa sueca, que tem uma fábrica para beneficiar eucalipto. Para o branqueamento da celulose eles usam cloro, que não se desfaz facilmente e ainda se junta a outros materiais provocando reações em cadeia.

    A Veracel se prepara para duplicar o tamanho de sua fábrica, e já tem o de acordo para triplicá-la depois. Para despachar sua produção para Vitória, no Espírito Santo, a empresa construiu um pequeno porto, poucas milhas abaixo da foz do Jequitinhonha. E ele tem sido autuado pelo Ibama por derramamento de óleo. Mais uma pressão. Enquanto isto a pesca diminui todo dia, a mariscagem fica mais difícil, e os empregos mais raros ainda. A Veracel é moderna, utiliza tecnologia de ponta quando uma só máquina é capaz de cortar, serrar, e deixar a árvore na medida certa. Os trabalhadores daqui só têm emprego temporário, na época do plantio, ou nos períodos de corte. E, neste caso, em número bem reduzido.

    Visitamos as áreas dos hotéis dos portugas. Subimos o rio parando em várias fazendas de cacau. Vimos suas matas ainda pujantes nas margens, e cruzamos com imensas canoas a motor que escoavam a produção. Por fim retornamos ao Mar Sem Fim, aos malditos carapanãs (que ficam enlouquecidos na lua cheia), e ao nosso trabalho de sistematizar, organizar e reter as informações coletadas.

    Para amanhã temos mais adrenalina. Vamos ter que sair barra afora e enfrentar de novo quem quase nos venceu: a força da natureza produzida pelo encontro do Jequitinhonha com o mar. Faça figas aí.

    Terça- feira, 14- 03- 2006.

    Esta manhã cada um de nós tratou de arrumar suas coisas. Estamos fundeados a poucos metros da foz do rio. Temos que esperar a maré encher, de tarde, para podermos sair. No entreato, depois do café, Alonso, que tinha ficado todo o tempo no veleiro, pegou o botinho e foi conhecer Belmonte. Cardozo, sempre meticuloso com o equipamento, desmontou e limpou cada parte da máquina. Paulina colocou ordem nas coisas. Descobriu goteiras no lugar onde guardo alguns livros de consulta, arrumou suas roupas e o kit de medir a qualidade da água dos rios. Eu aproveitei para fazer a seleção das fotos que vão para o site, em seguida reli e, mais uma vez, corrigi detalhes do Diário de Bordo. Depois sentei no meu escritório, a mesa de navegação, para acrescentar o primeiro parágrafo do dia de hoje ao diário. Daqui a pouco preparo o almoço. Um breve descanso e iniciamos a última e perigosa pernada, que vai nos tirar daqui e levar até Porto Seguro, 39 milhas ao sul. Volto mais tarde para contar como foi.

    Caso você tenha torcido, obrigado. São dez da noite. Estamos fundeados em frente à entrada de Porto Seguro. Fizemos uma bela navegada, das mais tranqüilas, com mar de almirante, vento nordeste tão fraco que viemos só com a mezena ( vela de ré menor), e o motor. No começo ainda deu para abrir a genoa (vela da proa), mas depois nem isto. O vento fraquejou de vez.

    Na saída do rio combinamos que o mais experiente viria no leme, o Alonso. Eu sairia na frente, de botinho, com o rádio vhf e a sonda portátil. Navegando adiante do veleiro, eu faria sondagens e avisaria pelo rádio. E assim foi. Saímos na hora da maré mais cheia, as três da tarde. Felizmente nossa menor profundidade foi 1.9 metros, superior a nossa quilha ( que tem 1.8 metros ), e não tivemos problema nenhum. Depois, lá fora, colocamos no rumo de Porto Seguro, e relaxamos. Música nas caixas, toldo fazendo sombra, piloto automático ligado. E horas deliciosas de “dolce far niente ”, a não ser tirar fotos da lua cheia nascendo, e observar a massa fluída do oceano que ondulava preguiçosamente de um lado para o outro. Um espetáculo. Pela primeira vez na viagem tivemos lua cheia em plena navegada. Desde o começo eu sonhava com isto. Hoje conseguimos. Ainda não foi como eu queria. Havia nuvens no horizonte. A região sudeste fica nos devendo esta situação. Com lua cheia nascendo é preciso ter o horizonte absolutamente limpo para se ter toda a dimensão da beleza da cena. E hoje não foi assim. Mas no futuro será.

    No momento meu paladar está aguçado pelo cheiro que vem do forno. Alonso colocou umas lingüiças que em breve serão o recheio de nossos sanduíches. Minha boca saliva só de imaginar. Peço ao Alonso que coloque queijo no meu. Escrevo as últimas linhas de hoje. Vou lá pra fora esperar o meu lanche. Na sala Cardozo e Paulina estão grudados na TV. Alonso também, da cozinha ele estica o pescoço em direção a tela, assistindo hipnotizados o BBB. Pode?

    Amanhã, de madrugada, navegamos 30 milhas para o sul, até a altura do Monte Pascoal. Retornaremos para Porto Seguro pela mesma rota que a esquadra de Cabral seguiu há mais de cinco séculos.

    Quarta- feira, 15- 03- 2006.

    Hoje cedo tivemos que esperar a bruma se dissipar para começarmos a descer à costa. Ela estava tão espessa, logo cedo, que não se via nada mesmo estando fundeados a menos de duas milhas de terra. Duas horas depois de o sol nascer o calor fez sua parte, dissipando a atmosfera e iluminando o horizonte. Então suspendemos em direção ao sul. Na altura (latitude) em que a esquadra cabralina chegou, 16 graus e 43 minutos de latitude sul (de acordo com estudos do Almirante Max Justo Guedes), em frente à foz do rio Frade, pouco acima dos recifes Itacolomis, nós paramos para registrar a mesma cena que os marujos portugueses viram: O Monte Pascoal e “pequenas serras ao sul ” , portanto à esquerda, nas palavras de Pero Vaz de Caminha. De lá subimos até fundear onde a frota jogou ferros, na baía de Porto Seguro, assim batizada justamente por ter garantido à esquadra uma ancoragem segura.

    No caminho pudemos ver as falésias, tão bem descritas por Caminha, com seus topos bastante ocupados. Até a resolução do Conama, de 22 de fevereiro, isto era proibido. Sinais evidentes de erosão estavam à mostra. Vale a pena ver as fotos do site, elas não deixam dúvida. Até meu labrador, que é débil metal, sabe que não se pode construir em topos de morros. O Código Florestal proibia para evitar que a vegetação fosse desbastada. Porque quando isto acontece, no período das chuvas a erosão começa. E despeja lama morro abaixo. Mas mesmo assim as falésias foram ocupadas. Dá pra perceber, também, um adensamento intenso para a região. Casas e mais casas são vistas do mar. E as praias estão cheias apesar de não ser um período de férias.

    Enfim, o dia hoje rendeu. Amanhã desembarcamos para visitas mais minuciosas. Antes de terminar o dia, ainda recebemos a bordo Bárbara Segal, bióloga, responsável pelo projeto Coral Vivo. Combinamos uma saída juntos, amanha cedo, aqui por perto.

    Quinta- feira, 16- 03- 2003.

    A manhã de hoje foi gasta com uma visita ao Parque Municipal do Recife de Fora, que fica em frente a Porto Seguro, onde há um interessante projeto coordenado pela bióloga Bárbara Segal, do Projeto Coral Vivo. Sua base principal fica em Arraial da Ajuda já há dois anos, mas há outra no Nordeste, na praia de Tamandaré, em Pernambuco. Estive na região mas não a visitei.

    Eram oito e meia da manhã quando eles vieram até o píer da Marina, onde está o Mar Sem Fim, para nos pegar. Para ir até o local não demoramos mais que quinze minutos numa lancha com motor de popa.

    Os recifes de corais têm várias funçoes no ecossistema. Uma é proteger a linha da costa contra a erosão, mas eles também fornecem substâncias para indústria farmacológica ( já informei nestes diários, que uma das substâncias do AZT, remédio para AIDS, vem de substâncias marinhas como estas), por sua beleza são propícios ao turismo subaquático e, mais importante, têm uma imensa biodiversidade sendo comparados às florestas tropicais.

    Os corais são animais marinhos que têm um esqueleto a base de calcário. Eles vivem em curiosa simbiose com as algas, que neles se fixam produzindo sua cor, oferecendo nutrientes, oxigênio e ainda auxiliando na sua formação. No mundo existem cerca de 650 tipos diferentes. O Brasil tem 15, sendo sete endêmicos, e nosso maior banco de corais fica justamente aqui, no sul da Bahia, o Banco de Abrolhos.

    Desde 1975 eles são protegidos internacionalmente, entre outras pela Convenção Sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas da Flora e da Fauna Silvestre, da qual o Brasil é signatário. E as espécies estão seriamente ameaçadas, danificadas pela pesca excessiva, o desmatamento costeiro, a poluição, a agricultura e os agrotóxicos, as mudanças climáticas, e pelo turismo não controlado.

    Sem ajuda externa de cientistas, os estudiosos estimam que não é possível recuperá-los, especialmente porque, com o aumento da temperatura da água dos oceanos, acaba acontecendo um desequilíbrio na cadeia alimentar que pode fazer desaparecer inúmeras espécies. Aqui se encaixa o Projeto Coral Vivo. Ele visa à reprodução das espécies em cativeiro, para depois serem colocados no ambiente marinh

    Acompanhamos um mergulho de Bárbara e equipe, para retirarem do mar placas onde foram colocadas espécies nascidas em cativeiro, para que eles pudessem verificar como anda seu crescimento e adaptação.

    Segundo a coordenadora, no Brasil, estamos começando a dominar a técnica de reprodução em cativeiro, exigente e complicada, para mais tarde repovoar as áreas mais degradadas.

    No mesmo local onde desembarcamos, pouco tempo depois começaram a chegar escunas trazendo turistas. Uma, duas, três, quatro. Antes de irmos embora já havia umas sete escunas, das grandes, que trouxeram cerca de 600 turistas. A primeira coisa que eles fazem é descer e pisotear os corais, contribuindo para sua degradação. Aqui neste Parque Municipal escolheram apenas uma área onde se pode desembarcar. Melhor assim. Como sempre não há fiscalização de quem quer que seja, muito menos informações aos turistas que nem sabem do prejuízo que causam pisando em cima deles. Algumas operadoras em vez de alugarem máscaras e pés de pato, para observação, alugam sapatos especiais, para os incautos não machucarem seus pés ao pisotearem os animais.É uma pena. A continuar deste jeito o turismo de massa será um grande inimigo da biodiversidade costeira.

    Por falar em turismo, aproveitamos para gravar uma entrevista com o piloto da lancha, Léo, nascido em Porto Seguro. Perguntei a ele como via o turismo na região. Foi uma só pergunta, direta e curta. Mas ouvi uma longa resposta, em um discurso que misturava mágoa e tristeza.

    Léo contradisse a famosa geração de empregos tão apregoada. Segundo seu depoimento, os postos de trabalho existem apenas na hora da construção civil dos grandes hotéis. Depois desta fase os nativos não são mais chamados para trabalhar. Pessoas de fora, com melhor formação, sim. E muitas vezes os moradores são excluídos pelos forasteiros, que tomam conta do lugar onde nasceram e se criaram. Ele contou, por exemplo, das festas que algumas boates criaram, os famosos ” luais”, quando seguranças invadiam as praias onde os pescadores passavam suas redes, com tapumes de madeira e armados, cercando o local e impedindo a prática da pesca . Segundo Léo isto revoltou de tal modo a comunidade, que eles se reuniram, fizeram pressão em cima dos prefeitos, e acabaram por conseguir que nas festas os tais tapumes não mais fossem usados.

    É preciso reestudar a questão. Refiro-me ao turismo, especialmente os caros e exclusivos resorts, versus geração de empregos. Ao menos no Nordeste que estou visitando, não vi as maravilhas que são ditas a respeito. No caso dos resorts confirmei que os moradores das comunidades raramente são chamados a trabalhar. Porque o Estado não obriga os empreendedores, em troca da licença, a treinar ao menos parte da mão-de-obra local ?

    É claro que a chegada do turismo sempre movimenta a economia, nem que seja de forma indireta, com serviços prestados por exemplo. Mas as tradições locais, suas festas, e costumes quase sempre são desprezados, o que me parece absurdo. Em vez de valorizar a tradição centenária de cada região, operadoras organizam ” luais “, uma espécie de festa dos Mares do Sul, do Pacífico, e desprezam até mesmo a diversidade das embarcações típicas brasileiras, propondo aos turistas passeios em canoas havaianas, importadas ! Por que não organizar regatas e passeios em lindos barcos tradicionais, ouvindo ainda os causos tão pitorescos, tirados da riquíssima tradição oral mantida pelas populações tradicionais ? Será que, por ser brasileiros, seriam considerados bregas?

    De tarde aproveitamos para gravar imagens da cidade e da orla de Porto Seguro.

    Amanhã vamos rever Trancoso, a bola da vez do turismo, espaço preferido das elites paulistas e cariocas, especialmente, mas não apenas.

    Sexta- feira, 17- 03- 2006.

    Ontem de tarde alugamos um carro para nos deslocar até Trancoso, 40 quilômetros ao sul do rio Buranhem, que tem de um lado Porto Seguro, e do outro Arraial da Ajuda.

    Saímos logo cedo, pegando a estrada nova, asfaltada, que leva a Trancoso. Estive por aqui em outras viagens de barco, menos de seis anos atrás, e a mudança já é visível.

    No caminho parei no acostamento várias vezes, para gravarmos a mudança da paisagem. Antes era tudo cercado da mais linda Mata Atlântica que já conheci. Uma biodiversidade impressionante, juntando, às vezes, até 400 árvores diferentes em apenas um hectare de terra.

    Hoje há tufos de Mata Atlântica apenas. Parte considerável dela virou pasto para o gado, ou cedeu o espaço para a agricultura, além da monocultura do Eucalipto. Já são cerca de 300 mil hectares de eucaliptos na região, que são transformados em celulose. As plantações chegam até a beira do mar em alguns trechos do sul da Bahia, o que é proibido pelas leis ambientais.

    Em um trecho determinado, fotografei e fiz uma passagem de uma área recém detonada, para virar pasto, onde podia se ver uma imensa quantidade de troncos calcinados, chamando a atenção para a fantástica biodiversidade que havia na região.

    Chegamos a Trancoso por volta das 11 horas da manhã. Na entrada da cidade pode-se ver claros sinais de favelização ( vide fotos ), onde hoje moram alguns dos antigos habitantes. Seduzidos pelos forasteiros mais abastados, eles com toda sua ingenuidade, venderam por ninharia suas posses no famoso ” Quadrado” e outras áreas nobres, e hoje moram nestas favelas.

    Impressionante o crescimento da cidade. Há dezenas de Pousadas, muitas mesmo. Ruas inteiras ocupadas só por elas. Lojas de todos os tipos, grifes da moda, além de bares e restaurantes. Trancoso é mais uma ” Búzios” do litoral da Bahia.

    Felizmente o “Quadrado”, que na verdade é um retângulo, continua com o mesmo charme, suas árvores centenárias, a igreja ao fundo e, mais importante, a arquitetura simples e charmosa de suas casinhas ( onde moravam os antigos) não foi mudada. Ao menos isto.

    No entorno há também alguns resorts, dos grandes, com campo de golfe e que tais, muitas mansões construídas na restinga, e o turismo de massa que também já chega. Vimos dezenas de grandes ônibus, parados próximos às praias, que trazem os turistas que sequer dormem na cidade. Vem só passar o dia. Como não poderia deixar de ser, as praias começam a apresentar montes de lixo espalhado, na forma de garrafas de plástico, tocos de cigarro, etc. E ainda há os cavalos, levados para lá para que turistas possam passear, para irritação dos antigos moradores que já não podem fazer uso da água dos rios, devido à sujeira e ao cocô dos animais. Conversamos com um grupo deles, em volta de uma mesa, debaixo da sombra das imensas árvores do Quadrado. No geral estão preocupados com a situação atual. Reconhecem que o turismo ajudou trazendo mais dinamismo à economia, e citaram um a um os primeiros empreendedores que construíram pousadas e geraram empregos. Mas não deixam de mencionar os problemas novos que vieram depois que o local entrou na moda, e dezenas de outros hotéis, resorts e pousadas se estabeleceram, como o tráfico e consumo de drogas, desrespeito e exclusão dos nativos, perda de suas posses, desinteresse pela cultura e costumes locais.

    Almoçamos por ali, e retornamos para gravar ainda as praias e o centro histórico de Arraial da Ajuda.

    Na praia de Pitiba, por exemplo, as casas a beira mar têm cercas enormes que impedem as pessoas de atingirem o mar. Ela foi quase ” privatizada “. Tive a pachorra de medir no odômetro do carro. Andamos quase um quilômetro e meio sem conseguir achar uma entrada de acesso à praia. Podíamos ver apenas as cercas das casas dos veranistas. No fim da rua chega-se numa espécie de fim de linha, que desemboca num estacionamento pago, única forma de deixar o automóvel e ver como é afinal a praia. Pitiba não é exceção.

    Visitamos também Parracho, mas para ter acesso a ela é preciso entrar por um hotel. Felizmente a entrada é livre, mas não deixa de ser constrangedor para os mais humildes ser obrigado a entrar utilizando a portaria de um hotel. Quase todas as praias de Arraial da Ajuda estão na mesma situação. A exceção é a belíssima Taípe, quase totalmente desocupada.

    Depois desta visita, subimos o morro no topo do qual foi erguida a cidade de Arraial da Ajuda. A vista lá de cima é linda, com uma panorâmica onde se vê o mar na frente, os manguezais que cercam Porto Seguro, e as praias na orla.

    Mais uma etapa está chegando ao final. Amanhã pegamos o avião para São Paulo. Na próxima viagem saímos daqui em direção a Abrolhos, de lá seguimos para Vitória, capital do Espírito Santo. Estamos nos preparando para deixar o Nordeste e entrar no Sudeste.

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